A SEPARAÇÃO: ENTRE O CERTO E O ERRADO, HÁ UMA INFINIDADE DE ESCOLHAS

De vez em quando um filme “fora do eixo” consegue furar o monopólio Estados Unidos -França – Inglaterra (e eventualmente Espanha, Argentina ou Brasil) e virar o queridinho do momento, normalmente em época de Mostra ou algum outro festival internacional. “A Separação” foi uma dessas raridades: iraniano, passado no próprio país e falado na própria língua, marcou presença em 2012 a ponto de ser reconhecido como um dos melhores filmes do ano por uma seleção de críticos da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Surpreendentemente, o filme ainda conquistou uma bilheteria razoável por onde passou.

A-Separação

Apesar de ter sido quase unanimemente resenhado como “a história de uma mulher que quer se divorciar para sair do país”, A Separação é, na verdade, um complexo debate sobre ética e justiça, que envolve não apenas essa mulher (Simin), mas todos os personagens em cena.

Simin, de fato, quer sair do país e, talvez, queira se divorciar de Nader. Ele, por sua vez, está preocupado em cuidar do pai, com Alzheimer, e contrata Razieh, uma mulher grávida cujo marido tem problemas para controlar os nervos. Simin e Nader têm uma filha de onze anos, Termeh, que acompanha todas as brigas e reviravoltas sem se posicionar, apenas colocando questões aos personagens e ao espectador e acrescentando certa lenha na fogueira.

Como em bons suspenses, o diretor Asghar Farhadi deixa muita história rolar antes de estabelecer o conflito inicial, um acidente que dará origem a uma complicada rede de mentiras bem-intencionadas, onde não haverá certo ou errado, bom ou mau. A justiça, a religião e o dinheiro entram no jogo para mostrar o quão extremas ainda são as soluções sociais para problemas que, quase sempre, não podem ser categorizados, nem ter apontados seus culpados ou pecadores.

A questão feminina é tratada com naturalidade e até ironia: os véus islâmicos e a referência constante às proibições de contato físico com homens não impedem aquelas mulheres de darem suas opiniões, tomarem atitudes independentes ou brigarem (o tempo todo) com eles. Pelo contrário, elas usam essa situação a seu favor, deslocando seus próprios conflitos para a pele de seus companheiros e agindo nos bastidores.

Nada, porém, parece evoluir para um desfecho. Na cena final, vemos a materialização do problema: Simin e Nader estão sentados em lados opostos de um vidro fosco, interrompido por uma larga passagem, por onde entram e saem pessoas aleatórias. Não há dois lados, afinal, justiça e religião falharam em sua arbitragem. Entre o certo e o errado, “A Separação” nos lembra de que há um mundo inesgotável de possibilidades humanas.