Abe – diretor brasileiro harmoniza gastronomia, adolescência e conflitos milenares em filme que abraça

Desde que montei minha pequena lista de filmes sobre cozinheiros, novos títulos gastronômicos têm aparecido por todos os lados, como se zombassem do fato de que não esperei uma semaninha ou duas para incluí-los. Sabor da vida, por exemplo, estreou recentemente na Filme Filme, lembrando-me de finalmente vê-lo; Tomates verdes fritos entrou no catálogo do Sesc Digital (até 30/09 aqui); e, agora, Abe chega aos cinemas depois de pelo menos dois anos de espera. Mas a verdade é que fico feliz com tanta abundância – ando percebendo o quanto esse tipo de filme é, intrinsecamente, feel good, e quem não precisa de um pouco de otimismo hoje em dia?

Pois Abe foi uma surpresa deliciosa e já é um dos meus favoritos do ano. Dirigido pelo brasileiro Fernando Grostein Andrade, o filme abraça intensamente a ideia do diálogo entre culturas, e expressa esse encontro por meio da gastronomia. Para contar essa história (doce, mas complexa), ele une as forças do ator americano Noah Schnapp, mais conhecido como o Will de Stranger Things, às do músico e ator brasileiro Seu Jorge.

Schnapp, protagonista e narrador, vive o adolescente Abe, do título. Ou Abraham, ou Ibrahim. É que, apesar de nascido nos Estados Unidos e ser um autêntico nova-iorquino, ele é descendente, de um lado, de judeus-israelenses, e, do outro, de muçulmanos-palestinos: uma verdadeira bomba genética. Seus pais, é fato, são ateus, mas isso não ameniza em nada a tensão que se forma a cada jantar com os parentes – até amplifica. 

Abe, influenciado pela avó recém-falecida, é apaixonado por comida e já se tornou o melhor cozinheiro na casa. Ele narra suas experiências gastronômicas na internet, por meio de uma conta no Instagram, enquanto tenta lidar com as pressões familiares fora da cozinha. Prestes a completar treze anos, o jovem começa a querer experimentar as tradições de seus avós – desde a celebração de um Bar Mitzvah até o desafiador jejum do Ramadã (uma dificuldade para quem gosta tanto de comer). Mas, a cada passo que dá de um lado, o outro se sente insultado. Como pertencer simultaneamente a dois mundos tão hostis um ao outro, sem deixar de se reconhecer, também, como americano?

Com poucos amigos e pais que não compreendem nem seu amor pela cozinha, nem sua curiosidade pelas raízes, Abe encontra no chef Chico (Seu Jorge) um mentor acidental. Alguém capaz de compreender a sensação de deslocamento que ele vive naquele momento. 

Os dois se conhecem durante uma busca de Abe pela receita perfeita de falafel – quando o garoto descobre o acarajé. Pequeno parênteses aqui para quem não está ligando os pontos: o acarajé é uma adaptação do falafel para terras brasileiras, possivelmente criado por escravos muçulmanos que substituíram o grão-de-bico por feijão. No filme, é explicado que palestinos e israelenses também preparam o bolinho de formas distintas – os primeiros adicionando favas, e os segundos, usando apenas grão-de-bico.

O longa pincela pequenas curiosidades como essa a cada cena, convidando o público a pensar a “fusão” como fazem os grandes chefs: como uma soma e não uma divisão. Algo capaz de gerar sabores inéditos, se bem harmonizado. A metáfora pode parecer ingênua, mas há uma sensatez na percepção de que, no final do dia, é na mesa de jantar que se confrontam as ideias, e é dentro de cada casa e cada pequeno núcleo familiar que se constroem os muros e as pontes mais fortes.

O tema, no que diz respeito às feridas mútuas entre Israel e Palestina, é espinhoso, mas ganha um tratamento respeitoso, mesmo que superficial o suficiente para manter o tom leve de um filme-família. Ao invés de negar as diferenças, Abe, como Abe, propõe o diálogo, a reflexão sobre origens e o reconhecimento de experiências comuns – coisa que exige certo conhecimento de História e Antropologia, ou ao menos disposição para aprender um pouco dos dois. E, assim, disfarçado de comfort food, o filme contrabandeia ideias subversivas como essa, e pode até convencer alguém de que religião, olha que heresia, se discute sim, e que estudar História (ou a história da gastronomia, pelo menos) pode mudar o mundo.

Ambicioso para um filminho tão fofo, não?