O Doutrinador: graphic novel brasileira chega aos cinemas pingando sangue

“Serial killer ou justiceiro?”. A frase, que aparece brevemente como a manchete de um jornal fictício no longa “O Doutrinador”, resume bem a questão que se coloca na tela (e nas ruas): afinal, vale tudo no combate à corrupção? Continuar lendo “O Doutrinador: graphic novel brasileira chega aos cinemas pingando sangue”

John Wick: Um Novo Dia Para Matar (Chad Stahelski, 2017)

Existem filmes de ação… E existe John Wick. Quase uma paródia do gênero, a franquia iniciada em 2014 traz um herói nem-tão-musculoso e nem-tão-heroico envolto num universo próprio de mafiosos e assassinos, organizados impecavelmente por contratos, regras e moedas próprias. Mais do que conquistar o público na base de tiro, porrada e bomba (abundantes, diga-se de passagem), a saga prende pelo contexto e, lentamente, começa a formar uma mitologia particular, com potencial para se expandir numa franquia duradoura.

Keanu Reeves, quem diria, é o protagonista que dá nome à série. Fiel à sua linha de atuação pouco expressiva, quase cínica, mas proficiente em coreografias de artes marciais, Reeves encarna com gosto o assassino John Wick – um homem que, anos atrás, abandonou o mundo do crime para se dedicar à vida civil com sua esposa. Depois que ela morre, um ataque repentino ao seu carro e sua cachorrinha o obrigam a voltar à ativa, em busca de vingança.

Isso tudo acontecera no primeiro filme e, agora, chega aos cinemas o segundo episódio, sob o subtítulo jamesbondiano “Um Novo Dia Para Matar”. Desta vez, Wick será chantageado a voltar ao “trabalho” e realizar mais um assassinato, como pagamento de uma dívida. Sem escolha, ele aceita o contrato, mas uma trapaça o coloca na mira de outros assassinos como ele.

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A trama do segundo filme não é tão enxuta quanto a do primeiro e a própria duração do filme (20 minutos mais longo) denuncia a intenção de dar mais fôlego à franquia. De fato, agora podemos ver com mais detalhes o funcionamento interno da máfia e o modus operandi do anti-herói (que vive algumas cenas dignas dos agentes de “Kingsman – Serviço Secreto”, vestindo ternos impecáveis e escolhendo armas como se fossem vinhos). O filme também capricha mais no lado cômico, especialmente ao mostrar um código de civilidade entre os assassinos – que, proibidos de brigarem em certos ambientes, pausam a ação para tomar um drinque.

Pela própria ambição, “John Wick: Um Novo Dia Para Matar” não tem o mesmo ritmo ou o mesmo foco de “De Volta Ao Jogo” (título do primeiro filme, que abriu mão do nome “John Wick” no Brasil). Enquanto aquele ia direto ao ponto – um assassino vai atrás de vingança e a cumpre, passo a passo –; este se distrai em intrigas paralelas e tenta emplacar novos personagens, sem sucesso. Laurence Fishburne até faz uma participação (bastante confusa, infelizmente), relembrando os velhos tempos de “Matrix”; e Ruby Rose (xXx: Reativado) tem um papel esquecível.

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Se a relação com a cadela fora muito importante no longa anterior, aqui o novo parceiro de Wick parece servir apenas como acessório e é deixado de lado a maior parte do tempo. Ainda assim, é um alívio ver que mantiveram esse elemento, que quebra tão bem a tensão e de certa forma passou a definir o personagem. Quem não retorna são os carros magníficos que desfilaram no primeiro filme, movido justamente pelo roubo de um Mustang 1969. No novo filme, Wick troca o volante pelo transporte público, por táxis, trens e suas próprias pernas. Suas armas também são mais elaboradas, apesar de ele parecer se entender melhor, mesmo, com a velha pistola.

John Wick: Um Novo Dia Para Matar” é dirigido por Chad Stahelski, que trabalhou como dublê e coordenador de artes marciais de Reeves em “Matrix” e estreou na direção com “De Volta Ao Jogo”. Derek Kolstad também retorna ao roteiro. O filme estreia nos cinemas no dia 16 de fevereiro.

FC! Review – Nerve – Um Jogo Sem Regras

Olá, meus queridos! Esta semana o Review atrasou um pouquinho, mas, antes tarde do que nunca, aqui estamos, prontos para falar sobre um filme interessantíssimo que entrou em cartaz agora no dia 25 de agosto.

Nerve – Um Jogo Sem Regras” é um filme de ação com uma pegada adolescente que discute a cultura da internet a partir de um jogo de celular. Primeiramente, um pouco de contexto: o filme é dirigido por Henry Joost e Ariel Schulman, que já tinham trabalhado um tema semelhante no documentário “Catfish”, de 2010, que mais tarde virou uma série da MTV. Esse filme mostrava um relacionamento virtual que, depois de meses, descobria ter sido baseado em várias mentiras, e acabava refletindo sobre os perfis falsos que as pessoas criam na internet.

“Nerve” é baseado num livro homônimo de Jeanne Ryan e conta a história de Vee, interpretada no filme por Emma Roberts, que decide participar de um jogo só para provar a si mesma e à melhor amiga que não é uma covarde.

O jogo é um aplicativo de celular que funciona como um “verdade ou desafio”, mas só com o desafio. Você pode escolher entre ser um “Jogador” e cumprir os desafios em troca de dinheiro, ou um “Observador” – que é quem paga para propor os desafios e assistir, já que tudo é filmado pelo celular do próprio jogador e de outros observadores que estiverem por perto. Ou seja… Vigilância é definitivamente um tema. O jogo só dura 24 horas em cada cidade e, se você falhar ou quiser parar, perde tudo.

Mas quem está por trás de tudo isso? Quem é o supervilão que está olhando tudo e tem um interesse oculto explorando a diversão dos pobres adolescentes? Ninguém. Quer dizer, existe um grupo fundador, mas, uma vez lançado o jogo, quem manda são os usuários. E, nesse ponto, o filme me fez lembrar de um livro do Dave Eggers chamado “O Círculo”, que vai inclusive virar filme com a Emma Watson, que também falava da internet como um instrumento para formar uma consciência coletiva opressora.

E eu acredito que esse seja o grande tema que se pode discutir com o filme: a coletividade como o vilão. Ao invés do antagonista autoritário, do presidente Snow que a gente viu nos Jogos Vorazes, aqui quem decide o destino dos jogadores é o público, é a pessoa comum que mergulha numa psicologia de massa e faz coisas que individualmente não faria. Por estar num jogo, a coisa é ainda pior porque ela perde a noção de consequência dos seus atos.

Essa lógica não é muito diferente da que a gente vê na internet hoje, com mobilizações extremas surgindo diariamente, seja sobre um filme de super-herói ou sobre política, movidas por essa pulsão de coletividade.

Voltando um pouco ao filme, a gente também pode pensar no jogo como uma metáfora para as redes sociais em geral. Afinal, já existe essa exposição do indivíduo como celebridade, independente de quem seja e do que faça; já existe a interferência do público sobre a realidade do outro – pense no caso da youtuber que acharam que tinha sido sequestrada; e já existe a obsessão por likes e seguidores, porque hoje em dia isso é sinônimo de dinheiro para uma minoria.

Dito isso…. O filme tem, sim, muitos problemas, apesar de estimular a reflexão e ser uma ação bem divertida com atores carismáticos. O primeiro problema é o desenvolvimento de personagens. A Vee, por exemplo, é apresentada como fotógrafa, mas isso não é explorado em nenhum momento – mesmo sendo uma coisa que poderia contar para ela ter um ângulo melhor de um desafio, por exemplo. Ela também tem uma relação conturbada com a mãe, que é superprotetora, porque já perdeu um filho… Mas isso também não evolui e a mãe, interpretada por Juliette Lewis, fica sobrando.

Outro problema, pra mim o que mais incomodou, é a continuidade e a atenção aos detalhes. Logo de cara, a gente vê a protagonista mexendo no computador com a setinha do mouse. Segundos depois, ela clica na tela, que de repente virou touch. Isso acontece o filme inteiro. Outra falha são os botões do jogo, que ora aparecem em inglês, ora em português. E, para completar, as datas são uma confusão – nem tente entender quantos anos a Vee tem e em que ano eles estão, porque os números não batem. Não dá para saber se a história se passa num futuro próximo ou hoje, o que poderia ser um dado importante.

Num balanço, acho que “Nerve” merece uma atenção especial porque faz uma coisa que não víamos desde “Matrix”…. Que é inserir uma reflexão filosófica sobre o mundo atual usando um blockbuster, com ação, romance e um apelo adolescente capaz de expandir a mensagem e gerar perguntas. Infelizmente, o filme provavelmente não vai ter um alcance tão grande assim, mas, a quem alcançar, espero que coloque pelo menos uma pulga atrás da orelha: será que eu tenho o controle sobre a minha vida virtual ou são os meus seguidores que estão determinando meus passos?

Deixo vocês com esse pensamento.

Por hoje é só, mais vídeos como este, você encontra no canal Fala, Cinéfilo! . Tchau tchau!

FC! Review – Esquadrão Suicida


Chegou a hora de falar algumas verdades sobre um dos filmes mais aguardados do ano. “Esquadrão Suicida”, aposta da DC para subverter o gênero de super-heróis com um grupo de vilões enlouquecidos, estreia nesta quinta-feira, 4 de agosto, e já está dividindo opiniões. Afinal, será que esta estreia faz justiça ao hype? Confira nossa análise no FC! Review de hoje!

Confira mais vídeos sobre cinema no canal Fala, Cinéfilo!

Crítica: “Capitão América: Guerra Civil” acerta em quase todos os pontos, mas não se arrisca

Quando me perguntaram o que esperar de “Capitão América: Guerra Civil”, novo longa da Marvel Studios que chega aos cinemas nesta quinta-feira (28 de abril), a resposta foi fácil: “não há razão para ser ruim”. Este, afinal, já é o 13º filme da marca e, se há uma coisa que a Marvel aprendeu em todos estes anos, foi a manter um padrão de qualidade. E a jogar seguro.

O filme coloca os Vingadores numa encruzilhada que dividirá o time em dois: de um lado, Tony Stark (Robert Downey Jr.) lidera o grupo que defende que os heróis sejam subordinados a uma organização internacional; do outro, Steve Rogers (Chris Evans) comanda os que preferem continuar autônomos, como uma força de defesa independente de vontades políticas. Quem diria: o bad boy começa a gostar de regras e o mais exemplar dos capitães é agora um fora-da-lei.

O longa se baseia na história em quadrinhos de mesmo nome, mas adota um caminho levemente diferente. Enquanto, nos quadrinhos, o tratado exige que todos os indivíduos com poderes se identifiquem, no filme o acordo se limita aos Vingadores e tem muito mais a ver com hierarquia do que com uma “caça às bruxas” (pelo menos por enquanto, já que uma lista mais ampla tem sido trabalhada na série “Agents of S.H.I.E.L.D.”).

A assinatura é a razão inicial para a ruptura, mas são questões pessoais que mantêm os amigos separados – mais uma vez, Bucky (Sebastian Stan) está no centro do conflito, manipulado como Soldado Invernal. Isso poderia ser um ponto negativo (cá entre nós, Stan não foi o maior acerto da franquia até agora), mas o anti-herói aproveita seu longo tempo de tela para afinar o tom – mais humano e ambíguo que no filme anterior.

A introdução dos novos heróis, elemento-chave para manter o interesse do público depois de tantos títulos, é inteligente: sem picadas nem tio Ben, o Homem-Aranha (Tom Holland) entra para o grupo, tagarelando e jogando teias como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Já para apresentar Pantera Negra (Chadwick Boseman), um ou dois diálogos resolvem as questões mais urgentes e já podemos vê-lo em ação. Ainda bem.

O filme não tem um grande vilão (elemento que, com exceção de Loki, não é o forte da Marvel), mas, desta vez, isso é proposital: esta luta não é entre o bem e o mal, mas entre uma noção de certo e outra. Não são dois egos super-poderosos que se enfrentam, mas é toda uma ideia de família e cumplicidade que desmorona, enquanto a sociedade exige que uma escolha seja feita. É o fim da neutralidade e, com ela, do maniqueísmo.

“Guerra Civil” é correto em praticamente todos os pontos: tem um pano de fundo político bem trabalhado, motivações pessoais convincentes e pequenas sub-tramas que tornam a escolha de um lado tão difícil para o espectador quanto para os heróis. E boas cenas de ação, é claro, bem coreografadas e montadas. Mas é difícil ignorar a sensação de déjà-vu que cada reunião dos Vingadores traz consigo.

A fórmula “humor-ação-amizade-heroísmo” sempre funcionou bem, mas tem tornado todos os filmes centrais da Marvel um pouco semelhantes, como novos episódios de uma série de TV. Provavelmente, isso não é tanto um defeito quanto um sintoma da fusão de mídias que a própria marca propôs quando inaugurou seu “Universo Cinematográfico” e começou a integrá-lo com spin-offs televisivos. Talvez a tendência seja mesmo esta: menos surpresa e “uau”; mais continuísmo e satisfação.

Prova disso é o fato de que o espectador precisa de uma boa dose de conhecimento prévio para aproveitar “Guerra Civil”: “Capitão América: O Soldado Invernal” e “Vingadores: Era de Ultron” são essenciais. Também ajuda saber que este é o primeiro título da chamada “Fase 3” da Marvel, que culminará na batalha contra Thanos (o grandalhão de “Guardiões da Galáxia”) em 2019.

Em outras palavras, estamos esperando por uma conclusão que só acontecerá daqui a três anos e, provavelmente, será mais um início do que um fim. É a lógica dos quadrinhos transposta para o cinema: um jogo seguro, lucrativo e sem fim.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “Orgulho e Preconceito e Zumbis” une a graça de Jane Austen com a agilidade de um filme de ação

Nunca pensei que diria isso, mas “Orgulho e Preconceito e Zumbis” é um filme adorável. Adaptação do livro homônimo de Seth Grahame-Smith, que, por sua vez, reimagina o clássico “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, o longa consegue equilibrar a fidelidade ao original (de Austen) com as implicações de um novo contexto – no caso, um que envolve uma epidemia incontrolável de zumbis.

Antes de assistir ao filme, trocadilhos à parte, recomendo deixar seus preconceitos de lado. Este é, sem dúvida, um filme com zumbis. Mas não é um filme de zumbis. A história, aqui, não gira em torno dos mortos-vivos, nem da busca pela cura, nem da luta pela sobrevivência, mas sim em torno da relação de amor e ódio entre Elizabeth Bennet (Lily James) e um dos personagens mais queridos da literatura britânica, Mr. Darcy (Sam Riley).

Representar Darcy foi um desafio para Riley (que também vivera o corvo em “Malévola”), afinal, o personagem já havia sido imortalizado nos cinemas em 1995 com a interpretação de Colin Firth – e até o ator admite ser fã dessa versão. Quem desconfiava do novo intérprete, porém, pode ficar tranquilo: seu Darcy é bem diferente, mas tão cativante quanto aquele, com um quê de bad-boy-com-bom-coração que deve agradar às novas gerações.

O longa traz algumas novidades bastante divertidas: com o avanço dos zumbis, tornou-se comum que as famílias enviassem seus filhos para treinarem artes marciais no Japão (para os ricos) ou na China (para os sábios). No caso de Elizabeth e suas irmãs, todas treinaram na China e são exímias espadachins. A estética oriental é, por isso, incorporada na narrativa, com inserções de mapas e desenhos em papel para melhor explicar a guerra.

“Orgulho e Preconceito e Zumbis” aproveita a popularidade do feminismo e explora ao máximo as possibilidades que a história oferece para construir suas protagonistas. Numa sociedade apoiada em casamentos arranjados, Elizabeth discute porque não quer um marido (ou quer um que não a obrigue a escolher entre ele e sua espada), enquanto suas irmãs se divertem procurando rostinhos bonitos e ricos nas festas, mas também têm consciência de que estão muito mais seguras com suas próprias armas do que com as deles.

Tudo isso é apresentado sem afetação, como se aquelas fossem realmente as personagens de Jane Austen, encarnadas num outro universo. Há uma cena exagerada, envolvendo a personagem de Lena Headey (Lady Catherine, cuja função, no filme, não fica clara) e uma frase de efeito. “Não sei se admiro mais sua habilidade como lutadora ou sua determinação como mulher”, ela diz. Desnecessário, mas breve o suficiente para não marcar.

Outros discursos clássicos de Austen são aproveitados na íntegra no filme, o que torna as relações entre os personagens muito mais envolventes. O uso da linguagem formal também ajuda a reforçar a ambientação, bem como o figurino, que busca mobilidade entre tecidos pesados e elegantes, especialmente para as meninas.

“As saias atrapalharam um pouco nas cenas de luta, mas o figurino ajudou a nos lembrar da postura, muito importante nas artes marciais”, explicou Bella Heathcote (que vive Jane, uma das irmãs de Elizabeth), em coletiva à imprensa brasileira. Lily concordou e completou, orgulhosa: “Não é comum que as mulheres tenham mais cenas de ação que os homens, por isso quisemos treinar forte e fazer justiça a isso”.

As duas tiveram três meses de treinamento, antes de terminarem a preparação junto com as outras atrizes. O resultado faz, sim, justiça. “Orgulho e Preconceito e Zumbis” estreia nos cinemas no dia 25 de fevereiro e merece uma chance.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Deadpool” aposta em humor adolescente e piadas internas sobre filmes de super-heróis

Se você quer saber o que esperar de “Deadpool”, basta assistir aos créditos iniciais. O longa, aposta da Fox para chacoalhar seu universo de super-heróis (que inclui os X-Men e o Quarteto Fantástico, todos originais da Marvel Comics), pode não ser uma obra de arte, mas é sincero: logo de cara, deixa claro que sua história não é original, seu diretor não tem personalidade e seu protagonista não tem talento, mas os roteiristas – esses sim – fazem milagre.

O filme conta a história de origem do anti-herói Wade Wilson/Deadpool, que, diagnosticado com câncer terminal, aceita participar de uma experiência que cura a doença e lhe dá superpoderes, mas acaba deformando seu corpo. Seu diferencial, porém, não é a mutação, mas sim o senso de humor ácido e a mania de “quebrar a quarta parede” – ou, em outras palavras, interromper a ação para conversar diretamente com o público.

Ryan Reynolds reprisa o papel que, lamentavelmente, interpretara em “Wolverine: Origens”, mas, aqui, seu Deadpool é fiel aos quadrinhos: ele faz piadas escatológicas e fálicas (o tempo todo) e dá alfinetadas nos estúdios com comentários sobre os outros filmes de super-heróis, mais como um fã do que como um personagem. O tom geral é de um humor adolescente, ideal para um público nos seus 15 ou 16 anos (a censura é de 16), mas não se envergonhe se você, adulto, também achar graça. A ideia é apelar para o seu lado juvenil e brincar com isso.

Se os diálogos são espertos e cheios de referências pop, não espere muito da trama nem das cenas de ação. “Deadpool” cumpre apenas o protocolo e segue todas as cartilhas manjadas do gênero (ele o faz de propósito, mas nem por isso pode ser considerado inovador): vemos a apresentação do personagem sozinho, a ascensão com a mocinha, a queda solitária, a busca pelo vilão, a ajuda dos coadjuvantes e a grande batalha final, com muita destruição, alguns duelos paralelos e a redenção obrigatória.

A forma como a história é contada tem seu charme: o roteiro intercala uma única sequência de ação, passada numa ponte, com um longo flashback mostrando a formação do herói até ali. O recurso funciona bem, mas não dura para sempre: eventualmente, a narrativa alcança a cena principal e segue numa linearidade tradicional, bastante previsível.

“Deadpool” não é o melhor filme de super-heróis que você verá na sua vida, nem é o pior – mas talvez seja o mais honesto. Bem-humorado, ele traz à Fox o frescor de que o estúdio precisava para competir contra a Marvel e a DC, num ano que terá “Batman vs Superman”, “Capitão América: Guerra Civil”, “Esquadrão Suicida” e “Doutor Estranho”. Mirar um público diferente, mais jovem e disposto a levar os quadrinhos (e os filmes) menos a sério, foi definitivamente um acerto. A sequência, é claro, já está garantida.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Creed – Nascido Para Lutar” faz justiça à franquia “Rocky”

O que define um bom filme? Entre tantas características valiosas para o cinema, talvez a mais importante (e rara) delas seja a capacidade de envolver o espectador, de verdade, a ponto de fazê-lo vibrar e sofrer com o protagonista como se esquecesse de que tudo aquilo que vê não passa de fantasia. Pensando nisso, não resta dúvida: “Creed – Nascido Para Lutar” é excelente.

O sétimo episódio da franquia “Rocky” é o primeiro que não leva o nome do garanhão italiano no título, porque já não conta mais a sua história. “Creed”, que estreia nesta quinta (14), faz a ponte entre a série clássica, iniciada em 1976, e uma nova saga, com um novo protagonista e novos desafios. Sylvester Stallone ainda está lá, reprisando seu papel como Rocky Balboa, mas desta vez não é ele quem vai lutar: é Adonis, filho de seu primeiro grande oponente e melhor amigo, Apollo Creed.

Adonis é interpretado com corpo (trincado) e alma (inquieta) pela estrela em ascensão Michael B. Jordan, ator que já trabalhara com o diretor Ryan Coogler em “Fruitvale Station”, outra pérola do cinema recente. Seu personagem nunca conheceu o pai famoso, mas nasceu com o gosto pela briga e decide procurar ajuda para enfrentar os ringues profissionalmente. É claro que a ajuda virá de um lugar muito familiar: o restaurante Adrian.

Se “Rocky” havia mostrado ao mundo e a Hollywood que homens podiam chorar e que filmes de luta podiam ser mais do que isso, “Creed” não fica nem um passo atrás e trabalha todos os pontos de roteiro, trilha e câmera para que seus espectadores também fiquem com os olhos marejados. Destaque para a lente giratória que acompanha as sequências de luta, para o hip hop que invade o pop setentista na cena da corrida e para a relação paternal que se constrói entre Adonis e Rocky. “Se eu luto, você luta” é uma das declarações de amor mais bonitas que você verá neste ano.

“Creed – Nascido Para Lutar” é um filme para fãs, mas quem não assistiu aos outros seis episódios também conseguirá acompanhar a história sem dificuldades. O único risco é que o espectador novato sairá do cinema louco para conhecer a franquia completa. Por sorte, os cinco primeiros filmes estão em cartaz na Netflix.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Reza a Lenda” leva ação e adrenalina ao sertão nordestino

Muito tem mudado no cinema brasileiro nos últimos anos. À medida em que o Brasil foi se tornando mais relevante no cenário político mundial e o acesso às informações e à cultura foram se democratizando, mais o cinema foi se permitindo absorver referências externas, se arriscando em técnicas até então pouco utilizadas por aqui e criando misturas que não são por isso menos brasileiras, mas sim mais universais.

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Reza a Lenda” é um filme 100% nacional que mistura ação, faroeste, fantasia e drama sertanejo, como se o Grande Sertão Veredas encontrasse Mad Max, com um twist místico particular. O filme acompanha Ara (Cauã Reymond), Severina (Sophie Charlotte) e toda a sua gangue de motoqueiros numa jornada pelo deserto em busca de um milagre: eles precisam levar a estátua de uma santa para o altar correto para que ela faça chover.

A crença religiosa é um dos pilares do filme e faz um contraponto curioso à adrenalina das motos e da violência. Esses personagens não são movidos pela sede de sangue, apesar de serem bastante habituados a ela, mas sim pela fé. O que fazem, por mais pecaminoso que seja, é por um bem maior – o que dá a eles certo caráter heroico.

Quem se une ao grupo logo no início da aventura é Laura (Luisa Arraes), uma garota da cidade que viajava de carro pela região e acaba se tornando prisioneira. Não fica claro por que a gangue não a deixa ir embora no início, nem por que ela desenvolve uma atração por Ara (isso, simplesmente, soa errado), mas ela terá uma função importante na história, levando o protagonista à sua revelação final.

A chegada de Laura também provoca reações transformadoras em Severina: forte e confortável em sua posição de vice-chefe do bando, ela nunca havia experimentado o ciúme nem as inseguranças que vêm com ele. Charlotte abraça a personagem com unhas e dentes e entrega uma Severina intimidante, ágil e impaciente como um bicho do mato, mas feminina em seus poucos momentos de paz. A forma como ela se irrita e se desespera diante da possibilidade de perder “seu homem” fala mais sobre o desconhecimento dos próprios sentimentos e sobre seu instinto de sobrevivência do que sobre amor.

Quem também ganha destaque aos poucos é o personagem de Jesuíta Barbosa, Pica-Pau. Misterioso e reservado no início, ele acaba se rendendo ao ódio depois da morte de uma colega e tem seu ápice numa cena de tiroteio perto do final. Completa o elenco principal o vilão vivido por Humberto Martins, um coronel sanguinário que se considera dono da imagem da santa e jura vingança quando ela é roubada pela gangue.

O cuidado com a produção visual é um dos pontos altos do filme: os figurinos, por exemplo, misturam a crueza de camisetas rasgadas com a rigidez do jeans e do couro – improváveis num cenário desértico, mas coerentes com o universo do motociclismo. Cabelo e maquiagem, da mesma forma, fogem do padrão “impecável” para investir em visuais despenteados, sujos e pesados.

“Reza a Lenda” acerta ao inserir uma pegada pop ao cenário nordestino, mas esbarra em limites técnicos no que diz respeito à ação. Algumas cenas dependem demais de objetos recriados em 3D (como carros e motos) e acabam destoando do resto, fazendo com que pareçam falsas. Cenas de tiroteios também poderiam equilibrar melhor o close-up nos atiradores (usado à exaustão) com tomadas mais panorâmicas e que mostrassem melhor as vítimas. Afinal, a ideia é mostrar um ambiente violento.

Também incomoda um pouco o personagem de Martins, mais engessado que os demais. Sua apresentação se dá por meio de uma história tenebrosa, mas que perde todo o impacto ao ser contada com o timing errado. Também não são muito convincentes suas demonstrações de maldade, apesar de seu método (pendurar cabeças em balões de São João) ser bastante interessante – talvez essa ligação com a festa pudesse ser melhor explorada, revelando uma outra camada do personagem.

“Reza a Lenda” é um filme imperfeito, mas forte. Gestado por 20 anos na imaginação do diretor e roteirista Homero Olivetto, o longa traz referências daquele tempo tanto quanto deste, o que lhe dá um ar atemporal. O que poderia parecer pretensioso ou pouco original – uma ação hardcore num cenário desolado – não é, e inclusive surpreende o quanto o filme tem personalidade. O que lhe falta é tecnologia, um vilão mais forte e, talvez, uma ou outra virada diferente para que o final fosse mais impactante. Mas o caminho é esse.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Os Oito Odiados” se esforça demais para chocar, mas ainda é um bom Tarantino

Quentin Tarantino não é de fugir de polêmicas, mas, quando seu novo filme, “Os Oito Odiados”, estrear, é bom que ele esteja preparado. O diretor americano, que tem uma tendência a usar a palavra “nigger” como se fosse “bom dia”, volta a trabalhar o conflito entre brancos e negros num faroeste cheio de violência, humor e alguns diálogos ultrajantes.

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“Os Oito Odiados” conta a história de dois caçadores de recompensas, John Ruth (Kurt Russell) e Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que tentam levar suas vítimas para a prisão de Red Rock, onde receberão o dinheiro. O problema é que uma delas, a louca e agressiva Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), ainda está viva, e Ruth pretende mantê-la assim até chegarem ao destino. No caminho, os três ainda encontram Chris Mannix (Walton Goggins), um homem que diz ser xerife e que pega carona com eles.

O grupo é surpreendido por uma nevasca e decide se hospedar numa pequena pousada no meio da estrada. Misteriosamente, os donos não estão e o lugar está ocupado por outros quatro homens: Bob (Demian Bichir), Oswaldo Mobray (Tim Roth), Joe Gage (Michael Madsen) e o general Sandy Smithers (Bruce Dern). Como a ventania se agrava, os oito (mais o cocheiro O.B., vivido por James Sparks) concordam em passar as próximas horas juntos, confinados numa sala fechada como uma panela de pressão.

O filme segue a tradição claustrofóbica de obras como “Deus da Carnificina” (2011) e “O Anjo Extreminador” (1962), mas, segundo o diretor, a inspiração veio de “O Enigma do Outro Mundo” (1982), onde buscou o nível de tensão e paranoia necessários a estes personagens. Em “Os Oito Odiados”, como no filme de John Carpenter, ninguém é confiável.

Tarantino conduz seus atores com um roteiro forte e uma safra de falas marcantes que não devem demorar a virar jargões, mas as três horas e dois minutos de duração pesam bastante no resultado final. O filme é o mais longo já feito por Tarantino (com exceção, é claro, de “Kill Bill”, se somarmos os dois filmes) e o ritmo não é o mesmo de seus maiores sucessos.

A preciosidade que levou o cineasta a manter um corte tão longo permitiu que alguns diálogos se tornassem didáticos ou redundantes e que o silêncio de algumas cenas (especialmente no início) ultrapassasse o limite do poético e dispersasse a atenção do público. Essa falha, felizmente, é compensada na segunda parte, quando a adrenalina toma conta da pousada.

O que realmente incomoda em “Os Oito Odiados” não é o tempo, mas sim o quanto Tarantino se esforça para chocar. Já sabemos que seus filmes são violentos, mas aqui ele aproxima mais a câmera para mostrar cabeças explodindo. Já sabemos que ele defende uma espécie de “vingança racial”, mas aqui ele transforma o negro num sádico abusador de brancos. Já sabemos que ele quer mostrar mulheres fortes, mas aqui sua protagonista apanha brutalmente a cada frase que pronuncia. O exagero, que em “Kill Bill” ou “Bastardos Inglórios” foi base para um humor sarcástico e autêntico, aqui passa do limite e beira o mau gosto. Teria o diretor se conformado com o estereótipo de “provocador”?

É evidente que “Os Oito Odiados” não faz tudo isso por acaso. A discussão racial tem sido pauta do trabalho de Tarantino desde “Jackie Brown”, quando iniciou uma rixa com o também diretor Spike Lee, que dura até hoje. O cineasta ainda afirmou, em coletiva no Brasil, que tem insistido no faroeste porque “a forma como lida com a questão da raça tem algo a contribuir para o gênero”.

Há ainda uma segunda questão a se considerar na forma como Tarantino aborda a violência e os conflitos raciais neste filme em particular. Recentemente, o diretor participou de manifestações contra a truculência da polícia norte-americana, especialmente contra a população negra, e recebeu, em troca, ameaças de boicote e “outras surpresas” por parte dos policiais. A tensão que dominou este ano nas ruas, portanto, se reflete na violência descontrolada que vemos na tela.

“Os Oito Odiados” tem uma angústia a expressar e uma crítica a fazer, mas isso não justifica, de todo, a falta de equilíbrio do filme. Falta uma edição mais enxuta e uma história mais coesa, sobram pequenos detalhes mal explicados (como o fato de Warren não saber quem é Domergue, ou dos “oito” não ficarem bem definidos). Como um estudo de personagens sob pressão, é uma obra exemplar. Como o oitavo filme de Quentin Tarantino, poderia ser melhor.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.