Alien: Covenant (Ridley Scott, 2017)

Acredite: já faz quase 40 anos que Ridley Scott apresentou ao mundo o filme que viria a marcar sua carreira e revolucionar o gênero do horror espacial (além, é claro, de lançar Sigourney Weaver ao estrelato). Agora, muito tempo se passou, três sequências e um prequel já foram lançados e monstros em naves, simplesmente, não assustam mais ninguém.

Scott pode não ser o cineasta mais regular de Hollywood, mas ele sabe de uma coisa que, hoje em dia, ninguém mais parece se lembrar: é preciso seguir em frente. O que quero dizer com isso? Que ele pode estar retornando à mesma franquia de quatro décadas atrás, mas ele não tem interesse em repetir as mesmas fórmulas que já deram certo. O horror espacial já foi feito; agora é hora de trabalhar com uma ficção científica mais existencialista, que ele ainda está aprendendo a dominar.

Arrisco até dizer que ele esteja, sim, é repetindo algumas coisas que deram errado em sua obra recente, como se tentasse completar um raciocínio e corrigir suas falhas. “Alien: Covenant”, mais do que outro prequel para “Alien, O Oitavo Passageiro”, é uma sequência para o polêmico e odiado “Prometheus”, de 2012 – com Michael Fassbender e tudo.

Isso, por si só, já serve de aviso para quem não gostou do longa anterior: “Covenant” dá sequência à saga de David (personagem de Fassbender) e trabalha ainda mais a ideologia do personagem, deixando a violência dos aliens propriamente ditos em segundo plano.

O que, diga-se de passagem, funciona muito bem. Logo de cara, somos apresentados a um novo androide com a mesma aparência de David, chamado Walter, que passeia solitariamente entre os corredores da nave Covenant enquanto seus tripulantes dormem um sono induzido. De repente, um problema: uma nuvem de eletricidade se aproxima e provoca uma pane na embarcação, obrigando Walter a despertar os humanos sete anos antes de chegarem ao destino. Para piorar, alguns “casulos” não abrem como deveriam e parte da tripulação – incluindo o comandante – é queimada viva. O clima de tensão está estabelecido muito antes que qualquer alienígena chegue perto da nave.

Mas onde entra David nessa história? Quem viu “Prometheus” sabe que ele terminou o filme se dirigindo a um planeta onde supostamente viveriam os Engenheiros, criaturas alienígenas que teriam dado origem à raça humana. Pois é nesse planeta que pousa a nave Covenant, substituindo seu destino original por outro mais próximo, dadas as circunstâncias trágicas de seu despertar.

Um dos grandes problemas de “Prometheus”, contudo, acaba se repetindo aqui: a inverossimilhança. Ao chegar ao planeta, a equipe de exploração se lança sobre o território desconhecido sem qualquer equipamento de proteção – seja ele um capacete ou uma roupa especial – expondo-se a riscos impensáveis para qualquer tripulação profissional, mas convenientes ao andamento do filme.

Se o espectador aceitar esse tipo de concessão, o filme fluirá, equilibrando doses pesadas de horror, sangue jorrando e criaturas saindo de dentro de corpos com o suspense provocado pela personalidade peculiar de David e por seus diálogos filosóficos com Walter. Desta vez, ao invés de se concentrar nas variedades de alienígenas assassinos escondidos em ovos e esporos, Scott prefere buscar o medo no confronto entre duas inteligências artificiais, e em suas perspectivas opostas em relação à “arte da criação” e à sua natureza mecânica.

Lembre-se de que, em “Prometheus”, David se mostrara decepcionado com a percepção de que seu criador era mortal, talvez até inferior, e pela constatação de que sua criação não tivera nenhum objetivo divino. Some a isso seu testemunho das expectativas humanas em relação aos seus “deuses” e temos um personagem imensamente cínico e amargurado que, além de tudo, cultiva uma admiração por uma cultura que, por princípio, jamais será capaz de produzir. Walter entra, portanto, como um espelho crítico de David – alguém que enxerga suas falhas e conquistas como quem olha para uma versão mais jovem de si mesmo – ou, no caso, uma versão mais ultrapassada.

Esse Fassbender em dose dupla é, de longe, o melhor de “Alien: Covenant”, mas Katherine Waterston também deixa sua marca no papel de uma tripulante determinada e intuitiva, porém fragilizada por uma tragédia pessoal. Sem ela, o filme provavelmente cairia na tradicional corrida de gato-e-rato entre o “alien” e a “mãe”, mas, da forma como ela se coloca, há muito mais dilemas e sentimentos em jogo.

“Alien: Covenant” deve dividir opiniões da mesma forma que “Prometheus”, mas é visível a evolução de uma obra para outra. Aqui, o balanço entre horror e ficção científica funciona muito melhor e a sensação de tensão volta a ser tão intensa quanto foi no filme de 1979. O fator “entretenimento” está ali para quem quiser se assustar, mas também temos uma boa história e bons personagens, mesmo que os mais complexos não sejam, realmente, de carne e osso. Pensando bem, humanos nunca foram realmente as estrelas nesta franquia, não é mesmo?

Vida (Daniel Espinosa, 2017)

a

Um grupo de astronautas a bordo de uma estação espacial recebe uma amostra do solo de Marte e descobre a existência de um organismo que pode ser a primeira prova de vida fora da Terra. Com o tempo, a criatura cresce, se liberta e se revela inteligente, forte e assassina.

Desde que li a sinopse de “Vida” pela primeira vez, achei bastante óbvio que se tratava de um plágio, ou de uma cópia genérica do clássico “Alien: O Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott. Mesmo assim, as críticas positivas me convenceram de que, talvez, mesmo com o formato idêntico, alguma coisa no filme de Daniel Espinosa seria original. Que ele traria alguma discussão mais atual sobre o conceito de “vida” – afinal, estava no título… Mas não.

Na sala escura do cinema, enfim, fui conferir o blockbuster. Jake Gyllenhaal, Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson… Nomes imponentes desfilavam pela tela no que se desenrolava como um enorme déja-vu: não apenas o tema remetia a “Alien”, mas a ambientação, o ritmo e toda a paleta de cores vinham de outro lugar. Vinham descaradamente de “Gravidade”, de Alfonso Cuarón.

vida f

É claro que estamos falando de dois filmes sobre o espaço e, inevitavelmente, sobre as mesmas estações que orbitam a Terra. Mas, antes de “Gravidade”, esse nível de realismo nunca havia sido feito, tampouco desejado. E não seria justo dizer que “Vida” tem a mesma preocupação em simular a realidade, mas, ao pegar emprestados elementos do colega, o filme tenta trazer a fantasia do “monstro assassino” para uma esfera mais próxima e, portanto, teoricamente, mais assustadora.

Mas há um motivo pelo qual isso não funciona. Há uma tensão ali? Certamente. Há um prazer mórbido em assistir a um alienígena com tentáculos aniquilando uma tripulação inteira? Talvez. Mas “Alien” não foi um fenômeno por causa disso. Nem foram todos os filmes de horror que, de fato, permaneceram na memória do público – eles jamais tiveram a o horror como seu elemento principal.

O que prende o público para além das duas horas são as histórias dos personagens, suas relações humanas e seus conflitos internos. O medo é apenas consequência, e é potencializado se o espectador se importa com o que está vendo. Se não há uma construção cuidadosa desse contexto, não há medo. E, aqui, não há medo. Apenas curiosidade e repulsa.

Vida” estreia nos cinemas no dia 20 de abril.