A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell (Rupert Sanders, 2017)

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Ação, tecnologia, reverência ao passado e uma enorme controvérsia marcam a chegada de “A Vigilante do Amanhã – Ghost in The Shell” aos cinemas nesta quinta-feira. O filme, que traz Scarlett Johansson na linha de frente, é um remake do anime “Ghost in The Shell”, de 1995, traduzido no Brasil na época como “O Fantasma do Futuro”. Para quem não se lembra, ele foi um marco para o cinema japonês e de ficção científica e ajudou a popularizar a animação oriental adulta em países como o nosso.

Como no original, “A Vigilante do Amanhã” conta a história de uma agente especializada em crimes cibernéticos que tem a maior parte do corpo artificial, com exceção do cérebro – que contém a consciência que eles chamam de “alma” ou “fantasma” e é a única ligação que ela tem com um passado humano. Enquanto investiga um hacker que está invadindo as mentes de cientistas ligados a um misterioso projeto “2501”, a Major (como é chamada) começa a questionar sua natureza e a buscar sua identidade em memórias perdidas.

Whitewashing

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O remake não economiza nas referências e deve levar à loucura um bom número de fãs e leigos, mas seu lançamento vem sendo manchado pela acusação de “whitewashing” – a substituição de personagens japoneses por americanos numa trama que, ao que tudo indica, se passa no Japão.

De fato, a escalação de atores brancos ocidentais como Juliette Binoche e Michael Pitt não ajuda muito no fator “diversidade”, mas a escolha de Johansson para o papel principal é, simplesmente, estratégica. Para um filme que custou mais de US$ 100 milhões, ter um rosto já conhecido e amado pelo público do gênero (no mundo todo) é praticamente um pré-requisito.

Remake vs Original

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Elenco à parte, o filme deve enfrentar também uma resistência ideológica por parte dos fãs. Será que “A Vigilante do Amanhã” é tão complexo quanto “Ghost in The Shell”? Será que o remake faz “justiça” ao seu precursor?

A verdade é que remakes sempre são um jogo perigoso, especialmente quando cruzam o oceano. De um lado, pessoas que nunca conheceram a obra original e olham com certa desconfiança para o lançamento; do outro, uma horda de fãs prontos para apontarem todas as incongruências da nova versão com a de suas memórias, convencidos de que a função do remake é recriar exatamente a experiência e o espanto que tiveram na primeira vez. Mas eis a dura verdade: não se recria um espanto como o de “Ghost in The Shell”.

Aqui vai um exemplo simples: vocês se lembram de quando “Matrix” chegou aos cinemas pela primeira vez? As pessoas saíam da sessão com um semblante misto de choque e excitação, ansiosas para desenvolverem suas próprias teorias sobre realidade e virtualidade na mesa de bar. Nas semanas seguintes, virou moda questionar tudo o que se sabia sobre o mundo até então, abrindo novas possibilidades de rebeldia para os adolescentes e de dores de cabeça para os adultos. É claro que a paranoia não durou muito (em parte graças ao lançamento do segundo filme), mas, por um tempo, “Matrix” foi revolucionário.

Pois “Ghost in the Shell” (refiro-me principalmente ao longa de 1995, não ao mangá ou à série de TV) teve um efeito semelhante em seu seletivo público na época do lançamento: ele fez as pessoas questionarem seu mundo. Aquela podia não ser a primeira vez que se falava em inteligências artificiais, aprimoramento cibernético ou “mergulho” na consciência alheia, mas era a primeira vez que isso era feito com o peso certo de existencialismo, filosofia, entretenimento e arte.

Não tente enxergar tudo isso como um espectador de hoje: o filme tem os dois pés fincados nos anos 90, se considerarmos os recursos visuais ou o roteiro excessivamente explicativo, e é por isso que uma atualização lhe cai muito bem. Mas uma coisa é revisitar todo um universo ficcional de personagens e cenários; outra é recriar o impacto de uma obra que refletiu sobre a fluidez da rede quando a internet ainda nem era um fato. Isso simplesmente não vai acontecer de novo. (A não ser que você seja Spike Jonze e seu filme se chame “Ela” – mas isso também já foi feito.)

Ver ou não ver?

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E é por isso que minha primeira recomendação para quem está louco para conferir o novo filme de Scarlett Johansson é: apenas vá. A segunda, é: assista numa tela bem grande.

O polêmico remake americano é, afinal, uma obra espetacular. Este, provavelmente, será o filme mais deslumbrante que você terá visto desde “Avatar” ou “Blade Runner” (em quem, aliás, se inspira) e, para os fãs, ele será também uma das adaptações mais fiéis que vocês poderiam esperar – mesmo que faça um mash-up um pouco questionável entre elementos do longa e da série “Ghost in the Shell: Stand Alone Complex”.

O que “A Vigilante do Amanhã” não será é filosoficamente arrebatador. Suas questões são muito simples para o público de hoje e o roteiro hollywoodiano, como previsto, prioriza a ação e algumas pitadas de romance no lugar dos longos monólogos reflexivos da obra original.

Ainda assim, talvez esta versão sirva de porta de entrada para um mundo vasto de ficções mais cerebrais ou, simplesmente, apresente ao público algo mais interessante do que um herói e um vilão lutando pelo futuro da humanidade. E quanto ao whitewashing? Esse, ainda não tem jeito. Apenas respire fundo e acredite que isso, muito em breve, também irá passar.

A Vigilante do Amanhã – Ghost in The Shell” é dirigido por Rupert Sanders (“Branca de Neve e o Caçador”), com roteiro de Jamie Moss (“Os Reis da Rua”) e William Wheeler (“Rainha de Katwe”). O filme estreia no dia 30 de março nos cinemas.

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Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “As Memórias de Marnie” explora aspectos sombrios da infância com melancolia e delicadeza

Se você gosta de animação cinema e ainda não conhece o estúdio Ghibli, está mais do que na hora de preparar uma maratona e mergulhar nesse universo mágico e sensível que é a animação artesanal japonesa. Fundado por Hayao Miyazaki ( “A Viagem de Chihiro”), Isao Takahata ( “Túmulo dos Vagalumes”) e pelos produtores Toshio Suzuki e Yasuyoshi Tokuma, o estúdio traz aos cinemas neste mês mais uma pequena pérola: “As Memórias de Marnie”, de Hiromasa Yonebayashi (“O Mundo dos Pequeninos”).

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Não espere nada parecido com uma comédia infantil vindo daquele canto do mundo: “Marnie” é introspectivo como sua personagem principal, Anna. Com cerca de onze anos, Anna é uma garota solitária que se sente muito diferente das outras – fora do “círculo”, como ela mesma coloca. Observadora, ela cultiva um talento muito grande para desenhos e tem em seu caderno seu melhor amigo.

Segundo descobrimos por sua “tia”, Anna já foi mais alegre, mas, de uma hora para a outra, parou de demonstrar emoções. Sabemos que ela é adotada e guarda um sentimento de rejeição associado a isso, mas, a princípio, não fica claro qual foi o acontecimento que provocou essa ideia.

A história começa, realmente, quando a protagonista é mandada para a casa de outros parentes, para passar as férias numa região mais verde e se curar da asma. É lá que ela se encanta com um casarão, isolado por um rio que só se enche durante algumas horas por dia, e é lá que ela conhece sua misteriosa moradora, Marnie.

A relação que Anna desenvolve com Marnie é algo que vai além de amizade, e isso faz pensar. É como se Marnie, loira, rica e extrovertida, fosse o oposto da protagonista, tímida e “tomboy” (levamos algum tempo, inclusive, para perceber que Anna é menina). Mas também não é uma relação romântica, simplesmente: é uma admiração, como se uma representasse tudo o que a outra gostaria de ser e, juntas, elas pudessem fugir de suas realidades, ambas solitárias. Juntas, mesmo nas circunstâncias mais impossíveis, elas se ajudam a superar seus medos.

Mas, e se Marnie não estiver realmente ali? E se ela nem for real? Não importa, o efeito é o mesmo. Anna está mais do que acostumada a preferir fantasias à vida real e ela não questiona, nem por um momento, a natureza daqueles encontros. Isso também faz pensar.

“As Memórias de Marnie” estreia no dia 19 de novembro e é uma belíssima porta de entrada para quem ainda não conhece o trabalho do estúdio: tocando em temas pesados como depressão e isolamento, mas de forma delicada, o filme mostra toda a complexidade do cinema de animação japonês. Para os fãs da marca, “Marnie” também não deve decepcionar. É tão emocionante e tão estonteantemente belo quanto se poderia esperar de um Ghibli. Imperdível.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

AKIRA (1988)

Quanto melhor o filme, mais difícil é falar sobre ele. Não acham?

“Akira” é um desses casos: produzido em 1988 com base no mangá de mesmo nome e dirigido pelo mesmo criador, Katsuhiro Otomo, o filme se tornou referência no mundo dos longas de animação e lançou o anime japonês ao público ocidental nove anos antes de o estúdio Ghibli entrar nos Estados Unidos com a parceria da Disney.

Não que a América já não flertasse com o gênero desde Astro Boy, de Osamu Tesuka, que chegou à televisão nos anos 60. Mas “Akira” foi diferente: além de trazer uma temática muito mais política e violenta do que o que havia sido exportado até então, o anime tinha uma qualidade gráfica assustadora até para os rígidos padrões americanos, e superava qualquer outra tentativa de retratar cidades futuristas no cinema.

Mas do que se trata?

A história se passa em 2019, cerca de 30 anos após uma Terceira Guerra Mundial, quando uma enorme explosão destruiu a cidade de Tóquio e obrigou a capital a se reconstruir, gerando uma NeoTóquio decadente e tomada por guerrilhas civis. Gangues de motos disputam as ruas, polícia e exército se recusam a trabalhar juntos, jovens apanham nas escolas e vagueiam como punks abandonados. Enquanto isso, estudantes protestam queimando carros contra uma reforma tributária e políticos enchem suas maletas de dinheiro, alheios aos problemas da cidade.

Tetsuo

Kaneda é o líder de uma dessas gangues e dono de uma moto vermelha que se tornou objeto de desejo de uma legião de fãs do filme, e também de seu melhor amigo, Tetsuo. Mais novo do grupo, Tetsuo nutre um rancor por nunca ter sido levado a sério e sempre ser obrigado a seguir ordens. Típico adolescente com um passado traumático, esse personagem concentra em si toda a energia dessa idade: é egocêntrico, inconstante, ora leal, ora vingativo e deseja acima de tudo ser respeitado como “adulto”.

Durante uma perseguição à gangue rival (os Palhaços), Tetsuo se envolve num acidente com um pequeno e misterioso garoto de aparência muito velha. Levado pelo exército junto com o menino, o adolescente é submetido a exames e, descobrimos depois, a experiências secretas envolvendo uma “energia pura” que, até então, só havia sido sintetizada por um ser humano trinta anos antes. Akira.

Colocando em contexto

A iminência de uma quarta guerra – causada pela tensão social e representada pela potência destruidora de Tetsuo – faz de “Akira” um filme altamente político. O conflito de interesses entre as diversas esferas de poder e entre o governo e o povo não é muito diferente do que vimos durante o século XX (e até hoje, por que não?). Além disso, Otomo parece fazer um paralelo entre a explosão dessa energia pura (com a qual o filme começa e termina) e a bomba de Hiroshima, que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial e, ironicamente, o início do crescimento econômico do Japão que, na época do lançamento do filme, vivia seu apogeu.

Explosão no mangá

Fantasia

Como é comum em ficções japonesas, a fantasia e a realidade tendem a se mesclar. Aqui, o lado fantástico aparece em duas formas principais: nos poderes psíquicos de três crianças (capazes de criar ilusões e interferir na realidade fazendo, por exemplo, uma pessoa andar sobre águas e desaparecer) e no corpo mutante de Tetsuo que, tomado pela energia crescente, passa a “fagocitar” tudo ao seu redor, como uma ameba. Mas o “inexplicável”, no cinema japonês, não tem a função de provocar medo ou criar suspense, como seria num filme ocidental. Aqui, ele soa natural.

Remake?

Hollywood bem que tentou, mas o remake em live-action de “Akira” ainda não saiu do papel, com quatro tentativas frustradas desde 2002 (a última pela Warner, engavetada em 2012). O motivo são os custos astronômicos que uma adaptação justa exigiria, com todos os efeitos especiais necessários para recriar a NeoTóquio, as fantasias das crianças psíquicas e a transformação orgânica e monstruosa do personagem principal nos momentos finais.

Aviso

“Akira” tem pouco mais de duas horas de duração, com um nível surreal de violência e cenas panorâmicas avassaladoras. Tudo feito à mão, em aproximadamente 160 mil células de acetato. Para quem está acostumado aos animes, a quantidade de sangue não será tão marcante, mas para os filhos da bem-comportada Hollywood, não custa prevenir.