Críticas do Oscar – Meu Pai

Pouco a pouco, vou me atualizando sobre os filmes indicados ao Oscar – se é que faz sentido pensar em Oscar no ano-sem-cinema de 2021. Neste ano, o ritmo está mais lento, e nem o grande favorito nem a possível zebra da vez chegaram ainda, mas alguns outros títulos já estão disponíveis e, já que não se pode excluir ninguém depois que Green Book e Moonlight levaram a estatueta, vamos conferindo tudo o que dá. Já risquei da categoria de Melhor Filme O Som do Silêncio (em cartaz na Amazon Prime), Os 7 de Chicago (na Netflix) e, agora, Meu Pai, que chega às plataformas no dia 9 de abril para compra e no 28 para aluguel, mas foi exibido com um pouco de antecedência para os ansiosos da imprensa. Espero escrever sobre todos esses e alguns outros antes do dia 25, quando acontece a premiação. Torçam por mim!

De volta a Meu Pai, confesso que não estava lá muito ansiosa, apesar de suas indicações também nas categorias de roteiro, montagem, design de produção e atuação – tanto para Anthony Hopkins quanto para Olivia Colman, sempre magnífica. Tinha certeza de que eles estariam bem, mas, depois de assistir ao documentário As Mortes de Dick Johnson (ouça nosso podcast sobre ele aqui), feito por Kirsten Johnson com tanta originalidade, ficou difícil pensar em voltar a encarar a demência (ou o Alzheimer, apesar de nenhum dos dois filmes especificarem) como a velha tragédia destruidora de famílias, vidas e laços. O drama, todo aquele drama que vem no pacote, simplesmente não cairia bem depois de ver que o tema podia ser tratado de outro jeito. Com leveza, com afeto, com humor. Com amor. Desculpe, Oscar, mas estou farta de tanto chororô. 

Qual não foi minha surpresa, então, quando notei um tom diferente na construção de Meu Pai. Bem diferente. Aquilo ali era… Um thriller? Um… Suspense? Não era isso, exatamente, mas o diretor e roteirista francês Florian Zeller bem que colocou um tempero e, vejam só, tornou o velho drama mais interessante. Por meio da forma, encavalando personagens e diálogos em posições inesperadas e observando Hopkins reagir exatamente como a audiência, ele nos foi colocando dentro da mente de seu protagonista senil e jogando com o tempo e com a narrativa de um jeito tenso, aflitivo, assustador. Arrepiante para quem vê como para quem vive.

Saber que o filme aborda a demência ajuda a acompanhar a história, e o primeiro diálogo já prepara o espectador: “Você rejeitou mais uma cuidadora, assim está ficando difícil, precisaremos mudar você para outro lugar”, nada novo no front. Pessoas que perdem a referência do tempo ou da realidade precisam de cuidados especiais, e cabe sempre à família tomar decisões difíceis. Esse homem, como tantos outros, sente-se insultado pela ideia de ser fiscalizado e sua casa é o último refúgio de sua identidade. A história é absolutamente familiar, mas será contada desta vez em pedaços, como num quebra-cabeça especialmente complicado. (Ei, Nolan, vem dar uma olhada aqui!)

Num minuto, Anthony – o senhor interpretado por Hopkins – está tendo uma conversa relativamente sã com sua filha, Anne (Colman), e, no seguinte, ela já não é a Anne que acabamos de conhecer. Como se tudo não passasse de um teatro, os mesmos papéis são encenados ora por uns, ora por outros, e o susto da mudança vai se transformando lentamente em hesitação e em conformação, até chegar numa desistência completa de tentar entender o mundo.

Faz sentido que o filme seja tão curto – mal passa de uma hora e meia –, pois a trama é simples. O que interessa é explorar a surpresa e o horror de Anthony a cada mudança de realidade. Se qualquer personagem sai de cena, já não sabemos se o mesmo voltará, com o mesmo rosto ou o mesmo assunto, no mesmo tempo ou lugar. Às vezes, é como se essa mente se perdesse num looping, revivendo a mesma conversa de novo e de novo em diferentes versões, como se viajasse no tempo. Qual delas será a realidade? Se ele não sabe, nós também não saberemos.


Como assistir

Compra online: a partir de 9 de abril (Now, Apple TV, Google Play)
Aluguel online: a partir de 28 de abril (Now, Apple TV, Google Play, Sky Play, Vivo Play)
Cinemas: estreia ainda dem data, ocorrerá conforme a reabertura de salas

HITCHCOCK: UM FILME PARA ALMA REVILLE

Depois de “O Artista” e “Hugo Cabret” dominarem as indicações ao Oscar 2012, estreia no dia 1º de março mais um filme metalinguístico, daqueles feitos para massagear um pouco o ego da própria indústria do cinema. Desta vez, voltamos a 1960, aos estúdios Paramount e à filmagem daquele que se tornaria um dos maiores clássicos do terror de todos os tempos. “Hitchcock”, de Sacha Gervasi (que escreveu “O Terminal” e dirigiu o documentário “A História de Anvil”), é uma biografia romantizada, baseada no livro de Stephen Rebello sobre a produção de “Psicose”.

hitch

A versão de Gervasi, porém, não quer dar tanta atenção ao trabalho em estúdio e escolhe focar na vida pessoal de “Hich” e sua esposa, Alma Reville. Uma pena: o que poderia ser um suspense hitchcockiano, se explorasse melhor as alucinações do diretor e os medos das atrizes, por exemplo, torna-se apenas mais uma história de amor, dependência conjugal, infidelidade e prova de valor. O tempo todo, o que vemos é Alma buscando reconhecimento pelo trabalho de colaboração e roteiro, coisa que, talvez, todo roteirista sofra para conseguir até hoje.

Anthony Hopkins (Alfred Hitchcock) está hilário nas cenas de abertura e encerramento e Helen Mirren (Alma Reville, ou sra. Hitchcock) continua radiante, como sempre. As atuações são agradáveis de se ver e há dois momentos imperdíveis, que envolvem a plateia em silêncio absoluto e em gargalhadas altas: a cena do chuveiro – tão esperada e tão comentada, que acaba misturando um pouco do terror de Psicose aos supostos impulsos sexuais reprimidos do diretor, alcançando um impacto bastante impressionante – e a cena da primeira exibição do filme ao público, em que Hopkins se transforma num Hitchcock muito mais interessante e divertido.

Se o filme de Gervasi é conservador na trama, suas referências e revelações valem a sessão: as cenas do estúdio (notei que o portão lembra bastante o do Kinograph, de “O Artista”) nos dão aquela sensação levemente transgressora de estarmos “do outro lado”, invadindo o território dos artistas. Citações dos outros filmes de Hitch (“Um Corpo Que Cai”, hoje eleito o melhor filme da história, é lembrado como um fracasso de bilheteria na época), de atores reais e de outras obras por vir (como Cassino Royale, que teria sido recusado pelo diretor) funcionam como um jogo para divertir cinéfilos.

Além disso, é muito válida a tentativa do filme de iluminar outros aspectos da produção, que vão além do diretor. É função do cinema desmistificar certas crenças mesmo que isso signifique abrir mão do brilho mágico da coisa. É muito mais interessante, é claro, imaginar o gênio sobre a tela em branco, do que perceber que houve, antes dele, um escritor, um roteirista, um estúdio e uma equipe quase infinita de colaboradores até que cada cena pudesse, finalmente, ganhar vida e entrar para a história.