HITCHCOCK: UM FILME PARA ALMA REVILLE

Depois de “O Artista” e “Hugo Cabret” dominarem as indicações ao Oscar 2012, estreia no dia 1º de março mais um filme metalinguístico, daqueles feitos para massagear um pouco o ego da própria indústria do cinema. Desta vez, voltamos a 1960, aos estúdios Paramount e à filmagem daquele que se tornaria um dos maiores clássicos do terror de todos os tempos. “Hitchcock”, de Sacha Gervasi (que escreveu “O Terminal” e dirigiu o documentário “A História de Anvil”), é uma biografia romantizada, baseada no livro de Stephen Rebello sobre a produção de “Psicose”.

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A versão de Gervasi, porém, não quer dar tanta atenção ao trabalho em estúdio e escolhe focar na vida pessoal de “Hich” e sua esposa, Alma Reville. Uma pena: o que poderia ser um suspense hitchcockiano, se explorasse melhor as alucinações do diretor e os medos das atrizes, por exemplo, torna-se apenas mais uma história de amor, dependência conjugal, infidelidade e prova de valor. O tempo todo, o que vemos é Alma buscando reconhecimento pelo trabalho de colaboração e roteiro, coisa que, talvez, todo roteirista sofra para conseguir até hoje.

Anthony Hopkins (Alfred Hitchcock) está hilário nas cenas de abertura e encerramento e Helen Mirren (Alma Reville, ou sra. Hitchcock) continua radiante, como sempre. As atuações são agradáveis de se ver e há dois momentos imperdíveis, que envolvem a plateia em silêncio absoluto e em gargalhadas altas: a cena do chuveiro – tão esperada e tão comentada, que acaba misturando um pouco do terror de Psicose aos supostos impulsos sexuais reprimidos do diretor, alcançando um impacto bastante impressionante – e a cena da primeira exibição do filme ao público, em que Hopkins se transforma num Hitchcock muito mais interessante e divertido.

Se o filme de Gervasi é conservador na trama, suas referências e revelações valem a sessão: as cenas do estúdio (notei que o portão lembra bastante o do Kinograph, de “O Artista”) nos dão aquela sensação levemente transgressora de estarmos “do outro lado”, invadindo o território dos artistas. Citações dos outros filmes de Hitch (“Um Corpo Que Cai”, hoje eleito o melhor filme da história, é lembrado como um fracasso de bilheteria na época), de atores reais e de outras obras por vir (como Cassino Royale, que teria sido recusado pelo diretor) funcionam como um jogo para divertir cinéfilos.

Além disso, é muito válida a tentativa do filme de iluminar outros aspectos da produção, que vão além do diretor. É função do cinema desmistificar certas crenças mesmo que isso signifique abrir mão do brilho mágico da coisa. É muito mais interessante, é claro, imaginar o gênio sobre a tela em branco, do que perceber que houve, antes dele, um escritor, um roteirista, um estúdio e uma equipe quase infinita de colaboradores até que cada cena pudesse, finalmente, ganhar vida e entrar para a história.