A magia das coisas

Vocês conhecem o Benedict Cumberbatch? Britânico, voz meio cavernosa, olhos estreitos, comprido… Às vezes usa uma capa vermelha, em outras um sobretudo com gola levantada? Não? Bem, eu gosto muito dele e ontem mesmo sua voz estava na minha televisão, saindo da garganta de um dragão. Mas por que estou falando de um ator? Continuar lendo “A magia das coisas”

Cinco poemas para uma noite quente

1.

É que preciso de arte, você vê?

Preciso dela como preciso de comida (e você bem sabe o quanto preciso de comida…). Preciso de palavras, imagens, cores, de acordes dissonantes e temperos raros. Preciso daquilo que brota sem motivo, e que não serve para nada. Eu me alimento de nadas.

Cultivo em mim uma pequena plantação de inutilidades. Continuar lendo “Cinco poemas para uma noite quente”

Pão e Circo

Toda Copa do Mundo é o mesmo drama: para cada dois ou três torcedores fanáticos, existe um protestando contra o “pão e circo” que é esse espetáculo midiático. Uma maquinação diabólica para que o povo, entretido, não perceba as opressões que se colocam sobre ele nesses e em todos os outros dias do ano.

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Ficção não é só entretenimento

Estes dias estava discutindo com o meu noivo sobre a dificuldade de algumas (muitas) pessoas pensarem além do seu limitado universo umbigário. Dos pequenos assaltantes dos jornais diários até os terroristas organizados, passando por líderes nacionais e pessoas comuns como eu e você. Continuar lendo “Ficção não é só entretenimento”

Crítica: “A Dama Dourada” conta a história da herdeira do quadro mais famoso de Klimt

Uma biografia bem feita não conta apenas a história de uma pessoa, mas revela os segredos de uma época e levanta questões para as gerações seguintes. É por isso que “A Dama Dourada” consegue deixar sua marca, mesmo narrando um episódio tão específico da História da Arte: o processo de restituição do quadro de Adèle Bloch-Bauer por Maria Altmann.

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Helen Mirren interpreta Altmann com a gravidade necessária a uma personagem que sobreviveu ao Holocausto, mas precisou, para isso, romper com suas raízes austríacas e se mudar para os Estados Unidos. É para se reconectar com esse passado que ela decide reaver o retrato de sua tia Adèle, pintado por Gustav Klimt anos antes da chegada do exército nazista a Viena.

A situação é delicada porque o quadro, a essa altura, já se tornara um patrimônio nacional e era a peça de maior orgulho do museu Belvedere, em Viena. Além disso, Adèle, que morrera antes do início da guerra, deixara a obra em testamento para o museu, sem imaginar que o quadro seria apropriado pelo regime nazista enquanto sua família judia era perseguida e assassinada.

Quem assume o caso é o advogado Randy Schoenberg (Ryan Reynolds), neto de um famoso compositor e filho de uma grande amiga de Maria, outra fugitiva da guerra. Hesitante no início, ele começa a se envolver e se reconectar com as próprias origens enquanto pesquisa as de sua cliente. A relevância da História, até então ignorada e inclusive repudiada por ele (constantemente cobrado por seu sobrenome ilustre), vai se construindo diante de seus olhos, na forma de lágrimas reprimidas.

“A Dama Dourada” é uma obra obrigatória para quem gosta de arte, História e direito. Não parece haver uma resposta certa sobre quem deveria ficar com o quadro, mas o drama é real e muito atual. Certos elementos do passado, fica claro, ainda têm um peso enorme no presente e têm sido varridos para debaixo do tapete sob a desculpa de que “não fomos nós que erramos”. Independente de nossas opiniões, porém, discutir é essencial e conhecer uma história como esta ajuda a repensar.

Texto publicado no Guia da Semana em  29/07/2015.

“O Dançarino do Deserto” explora o caráter subversivo da dança no Irã

Um jovem dançarino e seus colegas numa universidade no Teerã decidem formar um grupo de dança clandestino, num lugar onde dançar é pecado e uma “polícia da moral” patrulha as ruas. A história de “O Dançarino do Deserto”, que estreia nesta quinta nos cinemas, poderia ser tema de uma distopia futurista, bem distante deste século, mas é baseada em fatos reais.

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O protagonista, Afshin Ghaffarian, leva o nome do artista que inspirou o filme: um dançarino iraniano que, em 2007, organizou uma apresentação secreta no meio do deserto e, em 2009, foi obrigado a se exilar e levou seu protesto aos palcos.

O longa oferece um registro não apenas desta história, mas também de um período bastante agitado no país, quando os jovens foram às ruas protestar contra o presidente, pouco antes das eleições de 2009. Quando o resultado saiu (e Ahmadinejad foi reeleito), o povo voltou a se exaltar, alegando fraude nas apurações.

O filme apresenta Afshin (Reece Ritchie) como um garoto de cabelos compridos que, quando criança, via “Dirty Dancing” às escondidas e, na faculdade, quebra a censura do Youtube para aprender novos passos. Toda essa paixão pela dança acaba contagiando os amigos, estudantes de teatro e engenharia que se juntam a ele para ensaiar.

Uma moça logo chama a atenção do jovem. Ela é Elaheh (Freida Pinto), filha de uma dançarina de verdade (dos tempos em que ainda havia uma Companhia de Dança iraniana) que ajuda o grupo a evoluir tecnicamente. Paralelamente, ela vai revelando segredos que revoltam Afshin e denunciam outros problemas latentes do país.

O filme, feito para amantes de dança contemporânea, não economiza nas cenas de ensaios e apresentações, oferecendo ao mesmo tempo uma biografia e um espetáculo visual – especialmente na cena do deserto.

Além de deixar o público interessado no destino do personagem (ele conseguirá se tornar um dançarino de sucesso? Ficará com a mocinha?), o filme ganha pontos ao levantar uma discussão séria e urgente sobre censura. Quantos artistas não terão desistido de sua arte – ou do país – por medo da repressão? Quantos não terão morrido ou perdido suas famílias na luta pelo direito de expressão?

“O Dançarino do Deserto”, dirigido pelo inglês Richard Raymond, tenta dar ouvidos a uma juventude que tem se imposto nos últimos anos e leva ao púbico, como resultado, uma história doce de amor e arte – ingredientes essenciais na luta contra a violência.

Texto publicado no Guia da Semana em 14/04/2015.