Bohemian Rhapsody: biografia do Queen joga seguro, mas emociona

Quando as primeiras notas de Another One Bites the Dust vibram no baixo de John Deacon e ressoam pelas caixas de som na sala de cinema, os fãs se arrepiam e uma acalorada discussão chega ao fim. Na tela, Freddie, Roger e May vinham discordando sobre incluir ou não um pouco de Disco no álbum seguinte, mas aquele riff perfeito trouxe suas atenções de volta ao que importava: a música. Sem gêneros, sem promessas, sem padrões, simplesmente a música do Queen. Continuar lendo “Bohemian Rhapsody: biografia do Queen joga seguro, mas emociona”

Poderia me perdoar? – Melissa McCarthy se vinga do mercado literário em papel bruto e genial >MostraSP

Há muito pouco glamour na vida de um escritor. Até os mais otimistas dos clichês costumam envolver solidão, insegurança e alguma dose de álcool, mas “Poderia me perdoar?” leva a decadência da profissão a outro nível. Ainda assim, é difícil não se apaixonar pela escritora, alcoólatra e criminosa que conduz essa história. Continuar lendo “Poderia me perdoar? – Melissa McCarthy se vinga do mercado literário em papel bruto e genial >MostraSP”

Crítica: “Joy” sofre com ritmo lento e falta de foco

Desde que David O. Russell anunciou que seu próximo projeto seria uma cinebiografia da criadora do “Miracle Mop” – um esfregão que se torce sozinho e que foi sucesso de vendas pela televisão nos anos 90 – os fãs do diretor e de sua protagonista favorita, Jennifer Lawrence, têm estado apreensivos. Não sem razão. “Joy”, que chega aos cinemas no dia 21 de janeiro, é uma obra confusa que não consegue encontrar o coração da história que escolheu contar.

O longa narra a trajetória de Joy (Lawrence) desde a infância até o sucesso como inventora e empresária, passando pelas dificuldades de percurso, pela descrença da família e por algumas brigas judiciais envolvendo o famoso esfregão. Falta foco, entretanto: Russell dá tanta atenção aos parentes excêntricos e aos problemas burocráticos que, quando ela finalmente sobe ao palco, seu momento é curto demais e logo ofuscado por novos obstáculos tediosos.

Bradley Cooper também repete a parceria com o diretor e a atriz – os três trabalharam juntos em “O Lado Bom da Vida” e “Trapaça” -, mas sua presença é mal aproveitada. Diretor de um canal de televisão, é ele que abre as portas para Joy, mas seu papel não chega a se desenvolver muito além disso. O próprio programa, que rende alguns dos melhores momentos do filme, poderia ser melhor explorado.

Lawrence, por sua vez, sofre na pele de uma personagem que não é nem carismática, nem coerente. Acelerada quando o momento pede calma e paralisada quando a cena pede ação, Joy é um eterno anti-clímax, superado apenas pela antipatia da personagem de Isabella Rossellini, que planta num de seus primeiros diálogos (sobre os quatro pré-requisitos para um empreendedor), uma semente que jamais será utilizada.

“Joy” pode ter sofrido com uma escolha ruim de tema, mas até mesmo uma história como a de Joy Mangano poderia ter se tornado atraente, se fossem selecionados apenas os momentos interessantes e estes, fossem bem trabalhados. Infelizmente, não é o caso.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: provocativo e atual, “Malala” apresenta uma heroína contemporânea de carne-e-osso

Algumas histórias nem parecem pertencer ao século XXI, mas conhecê-las é tão chocante quanto essencial. Do mesmo diretor de “Uma Verdade Inconveniente” (Davis Guggenheim), o documentário “Malala” chega aos cinemas no dia 19 de novembro, revelando a trajetória de Malala Yousafzai: uma garota paquistanesa que usou sua voz para lutar pelo direito de meninas irem à escola, numa comunidade oprimida pelo Talibã.

O filme não segue uma narrativa linear, nem tem o formato clássico (e por vezes enfadonho) de um documentário. Guggenheim explora animações para ilustrar e dar novos sentidos a diversas partes da história, traça paralelos inesperados e contextualiza a situação de forma que Malala se torna apenas uma peça de um quebra-cabeças muito maior.

Logo no início, ficamos sabendo que Malala levou um tiro na cabeça e que, hoje, vive na Inglaterra porque não pode voltar ao seu país. Ela sabe que, se voltar, será assassinada pelo Talibã. Mas o motivo exato para esse ataque só é revelado no final, após uma retrospectiva completa que começa pela escolha do seu nome.

Dar tanta atenção ao nome da personagem (o título original é “He Named Me Malala”, ou “Ele Me Chamou de Malala”) foi um toque muito delicado e inteligente. “Malala”, afinal, foi inspirado no nome de uma jovem afegã que, segundo se conta, liderou o exército local numa batalha contra os ingleses e morreu no processo. A Malala dos dias de hoje não morreu, mas passou muito perto disso.

O processo de dominação do Talibã no vale do Swat é contado sob o ponto de vista dos moradores: primeiro, surgiu um líder que falava sobre a religião e se dirigia diretamente às mulheres. Sua influência cresceu com base na confiança, antes de evoluir para a violência e os assassinatos. Quando o povo percebeu, já era tarde demais e as ruas já não eram mais um lugar seguro.

A postura contestadora da protagonista não é isolada em sua família e, por isso, a história do seu pai (Ziauddin Yousafzai) é tão importante quanto a dela. Professor e dono de uma pequena escola, foi ele que permitiu e incentivou a filha a estudar desde pequena – coisa que, no Paquistão, não é tão comum entre as mulheres. Também foi ele que a empoderou desde o nascimento, inserindo seu nome na árvore genealógica da família onde, normalmente, apenas os nomes dos homens são escritos.

Como se não bastasse, também foi ele o primeiro a erguer a voz contra o Talibã e sugerir à filha que escrevesse um diário para a BBC, denunciando a situação. Daí para atitudes mais arriscadas e, futuramente, para a criação de uma fundação internacional, foi um pulo.

Além de contar a história de Malala, o filme permite que se reflita sobre outros lugares e pessoas, como os refugiados sírios ou as mulheres africanas – e, se olharmos para mais perto de nós, dá para pensar no recente fechamento de escolas estaduais pelo governo de São Paulo. Direta ou indiretamente, vemos aqui mais um caso de afastamento entre as crianças e os estudos, causa pela qual a vencedora do Nobel vem lutando diariamente desde que foi proibida de frequentar a escola em sua cidade-natal.

Em tempos em que as vozes femininas estão mais altas do que nunca (mesmo que ainda se tentem abafá-las aqui e ali), “Malala” é um filme obrigatório. Atual e, ao mesmo tempo, atemporal, o documentário alerta para a toxicidade dos discursos que nos cercam e lembra que eles precisam ser rebatidos – mesmo que isso leve tempo e possa ter um preço muito caro.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “A Travessia” narra proeza real com humor, poesia e vertigem

Um aviso para quem tem medo de altura: “A Travessia” será o filme mais agonizante que você verá nos cinemas este ano – mas o esforço valerá a pena. Baseado na história real do equilibrista francês Philippe Petit, que atravessou as Torres Gêmeas sobre uma corda de aço, sem proteção, nos anos 70, o novo longa de Robert Zemeckis (“De Volta Para o Futuro”, “Forrest Gump”, “O Voo”) procura recriar, com a ajuda do 3D, a sensação de vertigem e liberdade que o artista sentiu ao realizar sua obra máxima.

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Quem assume a missão de andar sobre a corda bamba diante das câmeras é o ator americano Joseph Gordon-Levitt, que capricha no sotaque francês (além de mostrar fluência na língua, que estuda há mais de dez anos), tira do baú suas estranhas lentes de contato azuis (como as que usara em “Looper”) e exibe um penteado de época que, definitivamente, não lhe cai bem.

Gordon-Levitt, como sempre, se entrega 100% ao personagem e isso transparece em cada gesto circense, em cada piada levemente arrogante e em cada expressão de tensão ou êxtase quando seus pés estão sobre a corda. A escolha do ator para o papel principal é um dos grandes acertos de Zemeckis, que inclusive o coloca para narrar a história do alto da Estátua da Liberdade.

Apesar de ser um filme baseado numa história real, “A Travessia” tem uma boa dose de poesia, com pequenos detalhes românticos que tornam tudo mais leve. O espectador sabe que nem tudo o que está na tela é exatamente como aconteceu, mas ver Philippe e Annie (Charlotte Le Bon) tendo sua primeira conversa como mímicos de rua, ou acompanhar toda a equipe de “cúmplices” planejando a instalação clandestina das cordas no maior estilo “Missão: Impossível” faz com que a aventura seja muito mais interessante e divertida.

Outro ponto forte do longa é a capacidade de Zemeckis de criar tensão, mesmo quando o espectador já conhece o desfecho. Por mais que você saiba que está numa sala de cinema, vendo uma história encerrada há mais de 40 anos, é impossível não prender a respiração quando Philippe e Jean-François (César Domboy), um professor de matemática com fobia de altura, sobem juntos ao 110º andar e começam a preparar os equipamentos.

O interessante é que a maior parte do filme se desenrola antes que a travessia tenha início. A inspiração e o treino ocupam a primeira parte, a investigação e o planejamento (já que a performance é completamente ilegal), a segunda, e apenas no terceiro ato vemos Philippe realizar seu sonho. E, quando isso finalmente acontece, é totalmente diferente do que você espera – e melhor.

“A Travessia” chega aos cinemas no dia 8 de outubro e terá pré-estreias a partir do dia 1º em salas selecionadas. Se puder (e se tiver coragem), assista em 3D.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

SOMOS TÃO JOVENS (E TÃO CARETAS)

Fui assistir toda esperançosa à cinebiografia de Renato Russo, o tão falado Somos Tão Jovens, de Antônio Carlos da Fontoura. O menino é bom, diziam. A história dele é incrível, eu pensava. Mas…  Sabe como é. O diretor conseguiu o impossível: se esquivar de temas polêmicos fazer uma caricatura infantil dos anos 60.

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Somos Tão Jovens conta a história de Renato Manfredini Júnior (o “Russo”, pasmem, foi uma homenagem aos filósofos Bertrand Russell e Jean-Jacques Rousseau) em suas primeiras aventuras musicais: primeiro no Aborto Elétrico, com André Pretorius e Fê Lemos, depois com a nova formação sem Pretorius, com Flávio Lemos, e por fim numa curta carreira solo antes do nascimento do Legião, com Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Paulo Paulista. Dinho Ouro Preto e Herbert Vianna também dão as caras no filme, lembrando que Brasília foi mesmo o berço do que se viu de melhor no rock nacional até hoje.

Como já era de se esperar, é bem difícil segurar os pés na sequência de abertura: a vontade é cantarolar e marcar as batidas da música que dá nome ao filme. Mas os primeiros minutos jogam um balde de água fria nessa empolgação toda: descobrimos uma doença degenerativa que impede nosso herói de andar durante os anos de colégio, e ficamos esperando a desgraça voltar às telas a qualquer instante – o que não acontece.

A descoberta do sexo, das drogas (só a maconha, no caso) e do punk rock marcam os meninos do Aborto Elétrico durante os repressores anos 70. E eles não estão sozinhos: bandas inglesas e norte-americanas chegam aos seus ouvidos com atraso, mas com um impacto devastador. Chega a ser cômico o momento em que a morte de John Lennon é noticiada e Russo se desespera como se fosse um velho conhecido.

Na tela, porém, o que vemos é apenas esse retrato caricato, com piadas e frases de efeito (ou citações óbvias de canções), e não o sentimento agonizante de querer mudar o mundo sem dar conta do próprio umbigo que de fato marcou aquela geração. Vemos um bando de adolescentes brincando de pular, gritar e rasgar as roupas, sonhando com a fama, mas a carga política – tão forte nas letras de Russo – fica em segundo (se não terceiro) plano no filme de Fontoura.

A homossexualidade do músico (que morreu de AIDS em 96) infelizmente permanece um tabu.  Mesmo não esperando um beijo gay, surpreende que a segunda figura mais forte do filme seja Ana Cláudia, uma personagem fictícia que ocupa o papel de melhor amiga e amante do artista. Interpretada por Laila Zaid, Ana é protagonista das únicas cenas de beijo e sexo – já que, com homens, Russo se limita a flertar e abraçar.

A interpretação de Thiago Mendonça (que canta e toca ao vivo, sem intervenções de estúdio) é digna, mas não se destaca: os diálogos são “certinhos” demais para o ambiente e deixam tudo um pouco falso.

HITCHCOCK: UM FILME PARA ALMA REVILLE

Depois de “O Artista” e “Hugo Cabret” dominarem as indicações ao Oscar 2012, estreia no dia 1º de março mais um filme metalinguístico, daqueles feitos para massagear um pouco o ego da própria indústria do cinema. Desta vez, voltamos a 1960, aos estúdios Paramount e à filmagem daquele que se tornaria um dos maiores clássicos do terror de todos os tempos. “Hitchcock”, de Sacha Gervasi (que escreveu “O Terminal” e dirigiu o documentário “A História de Anvil”), é uma biografia romantizada, baseada no livro de Stephen Rebello sobre a produção de “Psicose”.

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A versão de Gervasi, porém, não quer dar tanta atenção ao trabalho em estúdio e escolhe focar na vida pessoal de “Hich” e sua esposa, Alma Reville. Uma pena: o que poderia ser um suspense hitchcockiano, se explorasse melhor as alucinações do diretor e os medos das atrizes, por exemplo, torna-se apenas mais uma história de amor, dependência conjugal, infidelidade e prova de valor. O tempo todo, o que vemos é Alma buscando reconhecimento pelo trabalho de colaboração e roteiro, coisa que, talvez, todo roteirista sofra para conseguir até hoje.

Anthony Hopkins (Alfred Hitchcock) está hilário nas cenas de abertura e encerramento e Helen Mirren (Alma Reville, ou sra. Hitchcock) continua radiante, como sempre. As atuações são agradáveis de se ver e há dois momentos imperdíveis, que envolvem a plateia em silêncio absoluto e em gargalhadas altas: a cena do chuveiro – tão esperada e tão comentada, que acaba misturando um pouco do terror de Psicose aos supostos impulsos sexuais reprimidos do diretor, alcançando um impacto bastante impressionante – e a cena da primeira exibição do filme ao público, em que Hopkins se transforma num Hitchcock muito mais interessante e divertido.

Se o filme de Gervasi é conservador na trama, suas referências e revelações valem a sessão: as cenas do estúdio (notei que o portão lembra bastante o do Kinograph, de “O Artista”) nos dão aquela sensação levemente transgressora de estarmos “do outro lado”, invadindo o território dos artistas. Citações dos outros filmes de Hitch (“Um Corpo Que Cai”, hoje eleito o melhor filme da história, é lembrado como um fracasso de bilheteria na época), de atores reais e de outras obras por vir (como Cassino Royale, que teria sido recusado pelo diretor) funcionam como um jogo para divertir cinéfilos.

Além disso, é muito válida a tentativa do filme de iluminar outros aspectos da produção, que vão além do diretor. É função do cinema desmistificar certas crenças mesmo que isso signifique abrir mão do brilho mágico da coisa. É muito mais interessante, é claro, imaginar o gênio sobre a tela em branco, do que perceber que houve, antes dele, um escritor, um roteirista, um estúdio e uma equipe quase infinita de colaboradores até que cada cena pudesse, finalmente, ganhar vida e entrar para a história.