Normal

Um dia desses, estava pensando sobre normalidade. Sobre como passamos tanto tempo tentando ser normais, ou desejando ser pelo menos tão normais quanto os outros à nossa volta, que nos esquecemos de que o “normal” é só algo que muitas pessoas escolheram fazer do mesmo jeito, há tanto tempo que ninguém nem se lembra direito por quê. 

Mas uma coisa é entender que a normalidade é esse padrão, que é um caminho possível e frequente, mas não único. E outra, um pouco mais complicada, é perceber logo cedo que a maioria dessas escolhas não são as que você quer fazer, e não se desesperar. Não se sentir errada, quebrada, como se você não tivesse entendido alguma coisa essencial que te faria completamente humana, ou como se você tivesse perdido a piada interna e agora tentasse disfarçar, sorrindo de nervoso.

Não que seja assim tão difícil se encaixar – todo mundo sabe o que é preciso: odiar as aulas de gramática, cabular inglês, prestar Direito, ou Administração ou Medicina, odiar seu trabalho e ainda assim sonhar com ele, odiar segundas-feiras, sextar, ir à praia, se interessar pelas fofocas do escritório (ou pelos crimes dos telejornais), ver novela, ver Big Brother, curtir feijoada com samba e churrasco com futebol, casar, ter filhos, a coisa toda… Mas o problema não era fazer, era querer mesmo: nunca entendi o apelo e agora confesso com um pouco menos de vergonha. Eu era uma criança estranha, fui uma adolescente estranha, sou uma adulta estranha. Dane-se.

Nunca vi graça nas intrigas dos outros, não entendo a lógica de separar vida de trabalho, não sou tão chegada em mar, não morro de vontade de ser mãe e, preciso admitir: eu adoro gramática. Juro. Sem brincadeira. Para piorar, segunda-feira para mim é como um recomeço a cada semana, cheio de possibilidades que não me incomodam nem um pouco – são as sextas que me deixam cansada. Eu disse que eu era estranha.

Tenho pensado muito nisso porque ando vivendo uma fase ainda mais esquisita: dedicando meus dias ao estudo e à pesquisa, não a um trabalho “de verdade” como seria de se esperar. Existe uma bolsa envolvida, não o suficiente mas suficiente por enquanto, e muitos contatos a serem feitos para um futuro mais promissor. É como se eu tivesse voltado ao início para começar direito, e essa é a estranheza da minha situação: não vou manter um trabalho paralelo só para dizer às pessoas que tenho valor. Esse é o meu trabalho, essa sou eu agora.

Quero focar na minha pesquisa, recuperar o tempo perdido numa área que não é bem a minha, ler o que eu puder e ler com cuidado, e então escrever, publicar e me arriscar em palcos completamente leigos a mim. E quero ter certeza de que, quando terminar (o mestrado? O doutorado? Não sei), terei feito o meu melhor e estarei tão preparada quanto poderia estar. Porque esta sou eu, e eu sou alguém que acredita que trabalhar é aquilo que você faz para se desenvolver, não para poder bancar algumas horas de lazer. É o que você cria, produz, aprende, é o que nasce de você e cresce fora de você. Sou romântica assim. Dane-se também.

Olhem só o que a normalidade fez com o mundo.

 

Livros pela metade

Preciso confessar uma coisa: já deixei muitos livros pela metade. Fui uma leitora exemplar quando criança, do tipo que, mesmo se a história não animava, dava um jeito de chegar até o fim – e chegava rápido. Mas a coisa começou a desandar com “Crime e Castigo”. Uma vergonha, eu sei. Fui lendo, fui lendo, até que chegou uma página divisória escrito “Parte 2” e foi a minha deixa. Nunca mais voltei.

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Explicações

Olá, com licença, meu nome é Juliana e acho que devo algumas explicações.

Para começar, este é o meu blog. Ele não é novo, não faço ideia de há quantos anos já me acompanha, mas até ontem não passava muito de um portfolio de textos sortidos. Coisa escritas para três ou quatro veículos diferentes, de críticas de cinema a crônicas pessoais, de coberturas de eventos a contos inacabados. Até então, ele nem tinha nome.

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Por amor às palavras

Faz tempo que não escrevo. Escrevo todos os dias, teço notícias, listas, análises, escrevo títulos, linhas finas, legendas, roteiros e sinopses, posts e anotações, críticas e comparações, mas há muito tempo que não escrevo nada. Um dia destes, entendi por quê. Continuar lendo “Por amor às palavras”