Crítica: “Creed – Nascido Para Lutar” faz justiça à franquia “Rocky”

O que define um bom filme? Entre tantas características valiosas para o cinema, talvez a mais importante (e rara) delas seja a capacidade de envolver o espectador, de verdade, a ponto de fazê-lo vibrar e sofrer com o protagonista como se esquecesse de que tudo aquilo que vê não passa de fantasia. Pensando nisso, não resta dúvida: “Creed – Nascido Para Lutar” é excelente.

O sétimo episódio da franquia “Rocky” é o primeiro que não leva o nome do garanhão italiano no título, porque já não conta mais a sua história. “Creed”, que estreia nesta quinta (14), faz a ponte entre a série clássica, iniciada em 1976, e uma nova saga, com um novo protagonista e novos desafios. Sylvester Stallone ainda está lá, reprisando seu papel como Rocky Balboa, mas desta vez não é ele quem vai lutar: é Adonis, filho de seu primeiro grande oponente e melhor amigo, Apollo Creed.

Adonis é interpretado com corpo (trincado) e alma (inquieta) pela estrela em ascensão Michael B. Jordan, ator que já trabalhara com o diretor Ryan Coogler em “Fruitvale Station”, outra pérola do cinema recente. Seu personagem nunca conheceu o pai famoso, mas nasceu com o gosto pela briga e decide procurar ajuda para enfrentar os ringues profissionalmente. É claro que a ajuda virá de um lugar muito familiar: o restaurante Adrian.

Se “Rocky” havia mostrado ao mundo e a Hollywood que homens podiam chorar e que filmes de luta podiam ser mais do que isso, “Creed” não fica nem um passo atrás e trabalha todos os pontos de roteiro, trilha e câmera para que seus espectadores também fiquem com os olhos marejados. Destaque para a lente giratória que acompanha as sequências de luta, para o hip hop que invade o pop setentista na cena da corrida e para a relação paternal que se constrói entre Adonis e Rocky. “Se eu luto, você luta” é uma das declarações de amor mais bonitas que você verá neste ano.

“Creed – Nascido Para Lutar” é um filme para fãs, mas quem não assistiu aos outros seis episódios também conseguirá acompanhar a história sem dificuldades. O único risco é que o espectador novato sairá do cinema louco para conhecer a franquia completa. Por sorte, os cinco primeiros filmes estão em cartaz na Netflix.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Nocaute” traz de volta aos cinemas o glamour e a disciplina do boxe profissional

Fazia algum tempo que um filme sobre boxe não aparecia entre as grandes estreias de cinema. O esporte, afinal, caiu para segundo plano desde que o MMA conquistou prestígio na televisão e, sem que percebêssemos, Rocky Balboa passou de herói contemporâneo a personagem nostálgico, remanescente de um século distante.

nocaute

É para relembrar esse tempo que chega aos cinemas o novo longa de Antoine Fuqua (“Dia de Treinamento”), “Nocaute”. O filme pode não trazer grande novidade ao gênero, mas devolve às telas um pouco do boxe das antigas, evidenciando o contraste entre a luta como espetáculo (movida a força e adrenalina) e como esporte (regada a técnica e disciplina). Em destaque, está o papel do mestre como guia para uma transformação física e mental, como nos filmes clássicos de artes marciais.

Jake Gyllenhaal é quem carrega, nos ombros musculosos e nos olhos expressivos, toda a intensidade desse drama. Ele transformou seu corpo radicalmente para interpretar Billy Hope, um campeão explosivo e imprudente, que considera a defesa um acessório dispensável.

Seu estilo é mostrado com exaustão durante um longo combate nos minutos iniciais. Aos mais avessos à violência, este não é um momento agradável – mas é necessário para compreendermos o universo agressivo e glamoroso de Hope. Quanto mais ele apanha, mais é incentivado pelo público e por seu agente e mais energia acumula para o round final.

Sua lealdade, contudo, está com a esposa, Maureen (Rachel McAdams), que teme por sua saúde e pede que ele pare, o que ele começa a considerar depois de uma recuperação especialmente difícil. Este, porém, é um filme sobre luta e é claro que o protagonista não ficará longe dos ringues por muito tempo.

Logo, uma tragédia acontece e Hope se vê perdido, sem o apoio de Maureen e numa batalha judicial pela guarda da filha, Leila (Oona Laurence). Perturbado e descontrolado, ele precisará da ajuda de um novo treinador (Tick Wills, interpretado por Forest Whitaker) para colocar sua vida de volta aos trilhos.

O título original, “Southpaw”, faz referência a um golpe de esquerda que quebra as expectativas do adversário e pode inverter o jogo. A escolha faz todo o sentido, já que a trajetória de Hope sofre uma inversão semelhante, do caos ao controle, da vitória quase milagrosa ao sucesso pelo treinamento duro.

Apesar da relação entre Hope e Wills ser bem trabalhada (os dois, inclusive, compartilham sequelas semelhantes), o passado do treinador não é explorado o suficiente e o público não tem a chance de se envolver tanto quanto poderia. O mesmo vale para o principal rival de Hope, Miguel Escobar (Miguel Gomez), cuja presença serve mais para provocar e canalizar as ações do protagonista do que como um personagem por si só.

“Nocaute” deve seu impacto às atuações, especialmente de Gyllenhaal, Whitaker e da pequena Laurence, que conseguem emocionar em diferentes momentos. A história não foge muito do padrão queda-e-superação que se espera de um filme desse tema, mas a abordagem é bastante realista e as cenas de luta, magnetizantes. No final, o público ganha o que sempre sonhou e nunca encontrou nos ringues da vida real: um grande duelo com uma grande história por trás, para torcer até o último round.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.