Crítica: Café Society

Mais um ano, mais um filme de Woody Allen. O cineasta mais regular de Hollywood (não necessariamente em qualidade, mas em periodicidade) retorna aos cinemas em agosto com o longa “Café Society”, desta vez viajando de volta aos anos 30 entre Nova York e Los Angeles com Kristen Stewart e Jesse Eisenberg nos papéis principais. Acertou se você pensou que esta dupla não soa como o casal mais ardente (ou mais expressivo) que o diretor poderia ter escolhido, mas este é apenas um entre os muitos problemas de sua nova obra.

O filme acompanha o personagem de Eisenberg, Bobby, um jovem inexperiente que vai a Hollywood procurar trabalho na agência de atores comandada por seu tio, Phil (Steve Carell). Lá, ele se apaixona pela secretária da empresa, Vonnie (Stewart), uma garota de gostos simples que diz detestar a futilidade do universo do cinema – mas que eventualmente acaba se rendendo a ela. Isso tudo é narrado em off por uma voz que não combina muito bem com o tempo nem com o conteúdo do filme, mas basta uma pesquisada rápida para compreendermos: é o próprio Allen que faz as vezes de narrador.

Enquanto Bobby e Vonnie tentam convencer o público de que, de fato, têm sentimentos e merecem sua atenção, quem realmente se destaca são os personagens secundários. Ben, o irmão gângster de Bobby interpretado por Corey Stoll, funciona como alívio cômico e injeta um toque de absurdo na história ao resolver seus problemas à moda Corleone.

Já Phil é apresentado no início como um homem arrogante e esnobe, que faz o sobrinho esperar por semanas até conseguir uma reunião e, durante ela, passa mais tempo atendendo a telefonemas do que ouvindo o garoto. À medida que a trama avança, porém, ele vai se revelando um personagem muito mais complexo e sensível e faz pensar se o filme não deveria ter adotado o seu ponto de vista.

Phil é a terceira ponta do triângulo amoroso formado por ele, Bobby e Vonnie, mantendo o padrão de Allen de parear homens mais velhos com mulheres de vinte e poucos anos. Sua atitude a respeito da relação, porém, é um pouco infantil e parece ignorar o fato de que Vonnie não corresponde seus sentimentos (ou, pelo menos, não parece corresponder, mas isso pode ser apenas uma falha de atuação).

Apesar de esse triângulo render algumas situações inusitadas, é difícil acreditar na facilidade com que ele se dissolve. Pior do que isso, o roteiro não se preocupa em criar algum momento de crise ou reviravolta e acaba apostando num caminho fácil e tedioso – lembrando um pouco outras desventuras amorosas como “Azul é a Cor Mais Quente” e “Julieta”.

Quem também dá as caras é a atriz Blake Lively, espantosamente subaproveitada. Comentar seu papel seria revelar demais, mas basta dizer que ela é tratada como um acessório narrativo, sem motivações ou objetivos, e que qualquer atriz menos talentosa poderia ocupar seu lugar.

Se o roteiro e os protagonistas não ajudam o filme a se sustentar, pelo menos a fotografia, os cenários e o figurino (especialmente o figurino) são dignos de admiração. Além de belíssimos, os trajes desenhados por Suzy Benzinger (parceira habitual de Allen desde “Tudo Pode Dar Certo”) ajudam a contar a história quando outros elementos falham: no caso de Stewart, suas escolhas de estilo falam muito mais do que seus gestos ou palavras.

“Café Society” estreia no Brasil no dia 25 de agosto e é o 46º longa-metragem de Woody Allen.