Rádio Jota: Scarlett vs. Disney, incêndio na Cinemateca e Julia Ducournau

Olá, queridos ouvintes! Sejam bem-vindos de volta ao Rádio Jota, o programa de notícias e dicas culturais do Caderno Jota. Se você ainda não conhece o programa, dá uma olhadinha lá no Spotify! Toda semana, tenho dedicado alguns minutinhos a discutir duas ou três notícias culturais, tentando juntar informação e reflexão. Hoje, convido vocês a pensarem comigo dois assuntos quentes: o caso Scarlett vs. Disney; e o incêndio na Cinemateca Brasileira. Pra não perder o costume, também prometo trazer uma dica cultural diferentona, que eu aposto que vocês ainda não conhecem. Vamos lá?

Começando com a bomba hollywoodiana da vez: a atriz Scarlett Johansson, intérprete de Natasha Romanoff, AKA Viúva Negra há 11 anos, abriu um processo contra a Walt Disney alegando quebra de contrato pelo lançamento simultâneo do filme-solo da heroína nos cinemas e no Disney Plus. Desde então, a Disney respondeu menosprezando a acusação, a agência da Scarlett retrucou e a coisa virou uma guerra midiática. Mas vamos por partes.

Você, aí em casa, com seu salário xoxo que mal paga o aluguel, ficou sabendo que a atriz já tinha recebido 20 milhões de dólares pela participação no filme, e ficou revoltado: cara, do quê que ela tá reclamando? E, de fato, se a gente for pensar no salário base de cada um dos Vingadores para os seus primeiros filmes-solo, esse foi, de longe, o mais alto. Robert Downey Jr. ganhou meio milhão para o primeiro Homem de Ferro, Chris Evans cerca de 1 milhão por Capitão América e a Brie Larson, 5 milhões por Capitã Marvel – pelo que foi divulgado na época de cada lançamento. Porém, onde esses atores realmente ganham é com uma espécie de “participação nos lucros”  – eles incluem no acordo uma porcentagem do que o filme arrecadar em ingressos nos cinemas. E é aí que entra o processo da Scarlett.

Se 20 milhões é muita coisa, o que esses atores podem ganhar com a tal participação é coisa de 50, 70 milhões. E, apesar de o filme da Viúva Negra ter feito cerca de 60 milhões no streaming, como divulgado pela própria Disney, esse número não conta no acordo – só a bilheteria dos cinemas. Entendeu o problema? A questão que o processo levanta não é sobre quanto ela ganhou, mas sobre quanto a Disney ganhou e não compartilhou com ela, ao assumir o risco de reduzir o lucro nos cinemas investindo no aplicativo. 

Isso aconteceu num período de pandemia? Sim. Era necessário lançar no streaming? Era. Mas também era necessário negociar a mudança, se o contrato previa algo diferente, especialmente porque essa estratégia pode se tornar permanente depois da pandemia. E o caso não é exclusivo da Scarlett – ela representa muita gente com esse gesto, que, diga-se de passagem, é bastante corajoso. A equipe da Pixar responsável pela animação Luca, por exemplo, também reclamou do lançamento simultâneo, mas não tinha o peso de alguém como ela pra bancar um processo. E a Warner chegou a negociar condições especiais com nomes como Gal Gadot e Patty Jenkins antes de lançar seus filmes na HBO Max, porque sabia que ia dar problema. 

Ou seja? Tem muito mais em jogo aí do que o salário de uma atriz: é a mudança de formatos de distribuição e de relações entre profissionais e estúdios que está sendo negociada.

Agora, vem comigo respirar fundo e passar pro segundo assunto do dia, porque parece que todo programa tem que pegar fogo em alguma coisa por aqui. 

Na última quinta-feira, 29 de julho, um incêndio tomou conta de um dos galpões da Cinemateca Brasileira, como já estava previsto e avisado há pelo menos um ano. Como assim? Bom, em agosto de 2020 a equipe inteira da Cinemateca foi demitida por falta de dinheiro pra pagar os salários – isso, porque a verba de 14 milhões prometida para o ano inteiro simplesmente não tinha sido entregue pelo Governo Federal, e, no ano anterior, só metade disso tinha sido repassado. Ou seja, o espaço que deveria preservar e difundir o cinema brasileiro ficou sobrevivendo por meses com uma equipe sem salário e sem um centavo para fazer o seu trabalho. 

É a velha história: você não precisa ter jogado gasolina e acendido o fósforo pra ser o culpado pelo incêndio. É só mexer os pauzinhos pra tornar impossível qualquer prevenção do estrago que um acervo cheio de material inflamável vai fazer mais cedo ou mais tarde. Era questão de tempo e todo mundo do meio artístico sabia. Mas, no Brasil, não adianta falar: as pessoas só acreditam quando veem o fogo. E olha lá.

A tragédia da Cinemateca, é claro, não vem sozinha. Ela é parte de um processo muito maior de sucateamento da cultura brasileira que só vem piorando nos últimos anos. Coincidência ou não, nesta mesma semana diversos sistemas do CNPq, incluindo a Plataforma Lattes, onde ficam registrados os currículos acadêmicos de basicamente todos os pesquisadores do Brasil, caíram por conta de uma falha técnica. O medo se espalhou rapidinho, porque, se não houvesse backup, as bolsas de pesquisa seriam afetadas; o ingresso em cursos de pós-graduação seria afetado; contratações seriam afetadas, enfim. E a gente sabe que as únicas pessoas que se importariam com isso eram os próprios acadêmicos, o que torna tudo mais doloroso. Felizmente, o CNPq garantiu que tinha backup e que nada foi perdido. E a gente espera que seja verdade.

E eu falo que isso tudo é sucateamento e não problemas pontuais porque é um conjunto de coisas que vão enfraquecendo acadêmicos, artistas, intelectuais, todos aqueles que tendem a ser mais questionadores, pouco a pouco. O próprio CNPq sofreu um corte de orçamento em 2021 que prejudicou o pagamento das bolsas de doutorado, por exemplo. Isso significa que várias pessoas que tiveram suas bolsas aprovadas há meses não receberam nada até agora, e precisam continuar pagando pra trabalhar. As Universidades Federais também tiveram suas verbas cortadas entre 2020 e 2021 ao ponto que algumas, como a UFRJ e a Unifesp, afirmaram que não têm como bancar o retorno às aulas presenciais.

E, falando em incêndios, vocês devem lembrar de outros ícones da cultura brasileira que queimaram recentemente – o Museu Nacional em 2018, o Memorial da América Latina em 2013, o Museu de História Natural em BH em 2020, e o Museu da Língua Portuguesa no finalzinho de 2015. Esse, finalmente, está reabrindo ao público nesta semana e você já pode até reservar seus ingressos pelo site. Pelo menos uma boa notícia, né? Ô museu maravilhoso!

Pra fechar nosso encontro, trago uma dica mucho loka: um curta-metragem chamado “Junior”, da diretora francesa Julia Ducournau. Ducournau foi a vencedora da Palma de Ouro neste ano com seu segundo longa, Titane, e já tinha levado o prêmio da crítica em Cannes com seu filme de estreia, “Raw” – ou Grave. “Junior”, de 2011, é uma produção de 21 minutos sobre uma menina super moleca e bruta, que começa a entrar na puberdade e vê seu corpo se transformando – no caso, bem literalmente. É um filme com elementos fantásticos e grotescos, que tenta quebrar a ideia do feminino como algo delicado, belo ou, principalmente, controlável, algo que ela vai levar para seus filmes seguintes. 

E o interessante de ver esse curta é descobrir que a diretora tem adotado uma persona comum em todos os seus grandes projetos até agora: a adolescente de “Junior” se chama Justine, como a protagonista de Raw e uma das personagens de Titane, e todas são interpretadas pela mesma atriz, Garance Marillier. Ao que parece, Justine é a mulher monstruosa, errada, ameaçadora, do novo cinema monstruoso, errado, ameaçador e brilhante de Ducournau.  O curta “Junior” fica disponível até 21 de agosto no site shortoftheweek.com.

É isso por hoje! Se tiver comentários ou sugestões, não deixe de me procurar no instagram, no @julianavarella, ou mandar um email para cadernojota@gmail.com. Obrigada a você que me acompanhou até aqui e até a próxima!

Rapidinhas: Pixar, Shyamalan, Cannes, livros e mais

Fala, pessoal, estou de volta com um pouco de atraso pra trazer as notícias mais valiosas da semana no mundo da cultura. Hoje temos uma dica de curta para ver rapidinho e dar aquela desidratada logo de manhã; alguns trailers para ficar ansioso pelos próximos meses; uma passada vapt-vupt pelo line-up carregadíssimo do Festival de Cannes deste ano e duas dicas literárias pra fechar em grande estilo. Vamos lá?

Links prometidos:

Cannes 2021 (Line-up completo): https://bit.ly/2Se10FO

Podcast sobre ‘Pieces of a Woman’: https://spoti.fi/3v0LtXt

Livraria Gato Sem Rabo: https://www.instagram.com/gato.sem.rabo/

Livraria Combo: https://combocc.com

Khaleesi escritora, remake de Druk, novidades da Marvel e mais

Fala, pessoal! Estou de volta para atualizar vocês sobre as principais notícias do cinema e da TV. No vídeo de hoje, falamos sobre a HQ feminista escrita por Emilia Clarke, o remake americano do Melhor Filme Internacional no Oscar, as primeiras imagens de Os Eternos e muito mais. Vamos lá?

Toni Erdmann (Maren Ade, 2016)

Você pode até não ter ouvido falar de “Toni Erdmann” ainda, mas, no mundinho paralelo do cinema e da crítica, este filme simplesmente não saiu de pauta desde que estreou em Cannes, em maio de 2016 – tamanha a impressão que deixou em cada um que se aventurou a assisti-lo. Agora, finalmente chegou a vez de o Brasil conferir este que pode ser o favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, se “O Apartamento” não levar a estatueta como protesto anti-Trump.

“Toni Erdmann” é um longa alemão dirigido por Maren Ade (uma mulher, caso o nome não ajude) que corre por duas horas e quarenta minutos, mas tem a leveza de uma comédia de uma hora e meia. O filme conta a história de uma mulher (Sandra Hüller), que trabalha como consultora na área de petróleo e luta para ser reconhecida; e seu pai (Peter Simonischek), um professor de música cara-de-pau que passa os dias fazendo piadas ruins e vestindo uma ridícula dentadura falsa. Os dois, obviamente, não se entendem muito bem.

Pelo título, é fácil presumir que “Toni Erdmann” seja o nome do pai, mas não é. E É. Quando Winfried (este, sim, é seu nome) faz uma visita-surpresa à filha Ines em Bucareste, abordando-a no prédio onde ela trabalha e depois se hospedando sem convite em seu apartamento, ela o suporta por algum tempo, mas logo o obriga a ir embora. Quando ele volta, novamente sem aviso e sem limites, ele já não é mais Winfried, mas sim Toni: um homem de peruca e dentadura que se diz “coach” do CEO da empresa dela.

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O cenário realista desenhado por Ade, que também assina o roteiro, só torna mais surreais as situações em que Ines e Toni se envolvem, especialmente depois que ela abraça a fantasia do pai e começa a envolvê-lo, de fato, em seu ambiente de trabalho. Aos poucos, mesmo incomodada pela quebra de privacidade, ela vai percebendo a espiral corrosiva em que mergulhara: humilhada diariamente por clientes e colegas, ela se vinga transferindo a humilhação para a assistente e o pai, ciente de que a promoção que lhe fora prometida jamais chegará. A presença daquele louco ao seu lado, portanto, não é nada comparada à loucura de toda aquela vida falsa.

Falo de Ines mais do que de Toni porque esta parece ser a trajetória dela, desde a tomada de consciência até a tomada de atitude, tanto em relação ao pai quanto ao trabalho. Não que o filme coloque Winfried/Toni como uma figura boa e injustiçada, mas justamente o contrário: o espectador sente na pele a vergonha e a raiva de Ines, enquanto testemunha o prazer sarcástico do pai em enfrentá-la. No fim, é impossível – e inútil – escolher um lado.

“Toni Erdmann” estreia no dia 9 de fevereiro nos cinemas.

Fala, Cinéfilo! #10 – X-Men: Apocalipse, Amores Urbanos, Alice Através do Espelho e Jogo do Dinheiro


No Fala, Cinéfilo! #10, conhecemos os trailers de “Assassin’s Creed” e “Personal Shopper”, comentamos o protesto da equipe de “Aquarius” em Cannes e a saída definitiva de Daniel Craig da franquia 007. Saiba qual empresa de games está pretendendo investir em cinema e conheça as principais estreias da quinzena: “X-Men: Apocalipse”, “Amores Urbanos”, “Alice Através do Espelho” e “Jogo do Dinheiro”.

Dica do Público: “Amantes Eternos” (2013)

Tema para o próximo programa: Fim do Mundo.

Trailers:

Assassin’s Creed: https://youtu.be/jTgzJ79KDsg

Personal Shopper: https://youtu.be/7hghXP4F3Qs

Críticas:

X-Men: Apocalipse: http://goo.gl/Xtcj8h

Amores Urbanos: http://goo.gl/0OM6LZ

Alice Através do Espelho: http://goo.gl/E1hfUl

Jogo do Dinheiro: http://goo.gl/dX8IyP

Amantes Eternos: http://goo.gl/QUNn2I