Oito mulheres e o mesmo segredo

No sábado passado, fui animadíssima ao cinema assistir à nova versão de “Onze Homens e Um Segredo”, o todo-feminino “Oito Mulheres e Um Segredo”. Digo “nova versão” porque, convenhamos, não é exatamente outra história, tampouco uma continuação… Mas é um filme de assalto com um elenco incrível e, no fim das contas, é isso que a gente quer ver. Então fui lá, feliz da vida, descobrir como a mulherada ia roubar o Met Gala (mesmo que, no fundo, eu soubesse que aquele desfile de vestidos comportados estava bem longe de ser o “Met Gala”).

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Crítica: “Carol” traz às telas um romance natalino com “algo a mais”

Um dos primeiros grandes filmes do ano chega aos cinemas no dia 14 de janeiro para engrossar a corrida pelo Oscar 2016. “Carol”, de Todd Haynes, tem tudo para agradar a quem procura um romance água-com-açúcar (com um “twist”), mas também carrega uma discussão densa e extremamente relevante para o momento atual.

“Carol” é um romance natalino e, como tal, mostra uma história de amor leve (ao menos, num primeiro olhar) e apaixonante, na Nova York dos anos 50. Cate Blanchett não decepciona e, mais uma vez, está impecável no papel de uma mulher madura e incontrolável. Já Rooney Mara não chega a surpreender, mas encaixa bem no papel silencioso e observador em que a colocaram. O figurino e a trilha sonora, banhados a cinquentismos, são uma experiência à parte e se responsabilizam pelo sucesso do filme tanto quanto o roteiro ou a direção.

Blanchett é Carol, uma mulher rica que está passando por um processo de divórcio e tem uma filha pequena. Já Mara é Therese, uma jovem vendedora que vive numa espécie de inércia – insegura, ela segue seus amigos e pretendentes, sem saber realmente o que quer. Na primeira vez em que elas se encontram, Carol está procurando um presente de Natal para a filha e, por sugestão de Therese, encomenda um trenzinho, ao invés da boneca da moda. Este é o primeiro ato de subversão que as duas compartilham.

O romance que se desenvolve é construído aos poucos, entre olhares sugestivos, diálogos ambíguos e, finalmente, uma viagem decisiva. Não é por acaso que a cumplicidade é a primeira relação que elas estabelecem, ambas fugitivas de uma sociedade machista e homofóbica da qual não se sentem parte.

A história acompanha principalmente a luta de Carol, que, sendo ainda oficialmente casada (o que, para seu marido, significa que ela “é responsabilidade dele”), não consegue se libertar para viver um novo relacionamento – e o fato de sua nova parceira ser uma mulher só piora as coisas.

Se a situação parece absurda nos dias de hoje, é porque muito já foi conquistado, mas é importante lembrar que, não mais que algumas décadas atrás, metade da população se considerava genuinamente superior à outra metade – inclusive, dona dela. No filme, por exemplo, há uma cena em que uma personagem acusa Harge (Kyle Chandler), marido de Carol, de isolar a esposa, afastando-a de seus interesses e obrigando-a a cultivar apenas as suas amizades, o seu emprego e a sua família. Qualquer semelhança com a realidade, infelizmente, não é coincidência. Mas a opressão aparece também nos pequenos gestos, como num diálogo em que Harge se refere a uma amiga do casal como “a esposa de fulano”, ao invés de dizer seu nome. Soa familiar?

O que faz a diferença neste drama é o fato de suas protagonistas não se deixarem abalar. Em nenhum momento, elas aceitam o rótulo de “indefesas” ou de “loucas”, mesmo que, às vezes, sejam obrigadas a ceder em algum ponto. O amor entre elas, aqui, é tanto uma afirmação de identidade e independência quanto uma relação romântica. Ainda assim, surpreendentemente, o filme consegue ser doce, como uma canção de Natal*.

*Em inglês, “carol” é a palavra usada para designar canções natalinas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Apesar do visual bem feito, “Cinderela” não justifica o remake

Quando um estúdio anuncia um remake, a primeira questão que vem à mente é “por que essa história precisa ser contada novamente?”. Às vezes, a primeira versão não explorou todas as possibilidades do material original e ainda há espaço para novos pontos de vista. Pode ser, ainda, que o filme anterior tenha deixado a desejar na execução, desperdiçando uma boa ideia. Pensando nisso, o que justifica o novo “Cinderela”, que a Walt Disney traz aos cinemas no próximo dia 26?

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A resposta é, provavelmente, nada. Com exceção do fato de ser encenado com atores, o filme que estreia em 2015 não propõe nenhuma novidade em relação ao clássico de 1950. Pelo menos, nenhuma novidade positiva: o longa de Kenneth Branagh abre mão do humor e da ludicidade que sustentavam a animação (pense nos ratinhos cantores) para investir numa quantidade quase insuportável de água e açúcar.

O visual, como era de se esperar, é irretocável. O fotógrafo Haris Zambarloukos, a figurinista Sandy Powell e o designer de produção Dante Ferretti cumprem a missão de transformar a tela branca num reino maravilhoso, gloriosamente iluminado e digno dos sonhos de qualquer Cinderela. Há que se questionar o famoso vestido azul do baile, ornamentado com borboletinhas e tule, mas, em geral, as centenas de metros de tecido se justificam e fazem a diferença.

Lily James interpreta Ella, uma jovem que perde o pai e é feita de empregada pela madrasta (Cate Blanchett, arrepiante), até encontrar um príncipe (Richard Madden) que se encanta com sua bondade. Com a ajuda da fada madrinha (Helena Bonham Carter, carismática como sempre), ela consegue ir ao baile real e dançar com ele, mas sai às pressas, deixando para trás apenas um sapatinho de cristal.

Exatamente como no filme de 1950. O remake não busca influência no conto escrito por Charles Perrault (que inclui alguns detalhes bastante sórdidos), mas apenas refaz a adaptação animada, talvez na tentativa de atrair um novo público. Que público seria esse, porém, é uma questão difícil de responder, já que o longa não dá espaço suficiente para que as crianças se divirtam com os ratinhos e com o gato Lúcifer, nem endossa discursos que ganharam força nas últimas décadas, como a igualdade entre gêneros e etnias (um coadjuvante não conta) ou o combate à magreza excessiva (o que é aquela cintura, gente?).

Além de antiquado, “Cinderela” também soa vazio, elegendo a frase “seja corajoso e gentil” como uma espécie de mantra que se contradiz pela própria protagonista. Cinderela não tem coragem para enfrentar a madrasta e, se em algum momento consegue o que quer, é graças à fada madrinha ou aos animais, não à sua coragem e gentileza. Repetida à exaustão, a lição de moral perde a força e o sentido – coisas que parecem faltar ao filme como um todo.

Para quem for conferir a novidade nos cinemas, a boa notícia é que o longa vem acompanhado de um curta-metragem com a turma de Frozen chamado “Febre Congelante”. Nele, Elsa tem um resfriado que coloca em risco todos os preparativos para a festa de aniversário de Anna. O curta tem um longo número musical e traz de volta os simpáticos Olaf, Sven e Kristoff. Pelo menos, um prêmio de consolação (dos mais fraquinhos).

Texto publicado no Guia da Semana em 12/03/2015.