Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão

Pedro não gosta de lugares públicos. Apesar disso, todas as quintas-feiras ele liga sua webcam e dança nu, banhando-se em tinta neon e tocando seu corpo colorido para uma plateia fiel e pagante. O vencedor do Festival do Rio e do Teddy Awards (troféu voltado para filmes queer no Festival de Berlim), “Tinta Bruta”, finalmente chega aos cinemas brasileiros no dia 6 de dezembro trazendo essa história melancólica e quase trágica para brilhar na tela. Isso, se o público estiver pronto para ela. Continuar lendo “Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão”

O Doutrinador: graphic novel brasileira chega aos cinemas pingando sangue

“Serial killer ou justiceiro?”. A frase, que aparece brevemente como a manchete de um jornal fictício no longa “O Doutrinador”, resume bem a questão que se coloca na tela (e nas ruas): afinal, vale tudo no combate à corrupção? Continuar lendo “O Doutrinador: graphic novel brasileira chega aos cinemas pingando sangue”

Joaquim (Marcelo Gomes, 2017)

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Poucos personagens são mais suculentos na História do Brasil do que Joaquim José da Silva Xavier. Um “tiradentes”  no século XVIII, um dentista comum com uma carreira militar que, influenciado por ideias iluministas, participa de uma revolta popular contra a dominação portuguesa. Um homem que, traído pelos colegas, é responsabilizado sozinho pela rebelião e esquartejado, com partes do corpo espalhadas para servirem de exemplo aos demais.

Este é um thriller prontinho para ser narrado no cinema. A não ser, é claro, que você decida ignorar essa parte da história e jogar o foco sobre uma caça ao ouro que, muito frustrantemente, não leva a lugar algum. Aliás, por que não trocar toda a ideologia política por uma teimosia pessoal e explorar como única motivação do protagonista o desejo de posse de uma mulher e a ambição por um cargo mais elevado? Esse sim é um herói que o público vai querer ver… Não?

Parece absurdo, mas é exatamente isso que faz Marcelo Gomes na biografia romantizada “Joaquim”, que chega aos cinemas no dia 20 de abril (véspera do feriado de Tiradentes). O longa, que traz Júlio Machado no papel principal, chegou a ser exibido no Festival de Berlim e até concorreu ao Urso de Ouro, mas não conseguiu conquistar júri ou público. Por aqui, será difícil ganhar alguma simpatia também.IFrame

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Joaquim” tenta traçar um retrato da vida nas Capitanias, incluindo menções a escravos, índios, quilombolas, portugueses, fazendeiros, militares e intelectuais. Não há crianças, não há idosos, não há senão uma mulher. Falta foco, porém, para que esse mosaico incompleto se justifique: se há um Quilombo, ele não tem função nenhuma senão mostrar que alguém se lembrou de tocar no assunto. Se há um índio, ele chega e vai igualmente incompreendido. Se há diálogos inteiros em dialetos africanos, eles não ganham significado algum, nem por tradução, nem por associação. E, finalmente, se há um movimento incipiente de revolta, ele mal tem tempo de nascer antes que o letreiro enorme invada a tela.

É difícil determinar o que Gomes – diretor e autor, conhecido por “Cinema, Aspirinas e Urubus” – quis provocar com essa nova obra. Reflexão? Quis ele quebrar o estereótipo do herói, enfraquecendo-o com uma personalidade machista e ingênua? Ou quis ele alfinetar o colonialismo de ontem e hoje, inserindo provocações nada discretas aos EUA entre uma fala e outra? Seja como for, faltou definir um objetivo claro e acreditar nele, explorando o som, a luz e os personagens a seu favor. Faltou, enfim, praticamente tudo.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Internet – O Filme (Fillipo Capuzzi, 2017)

Finalmente aconteceu. Se tudo o que está no auge eventualmente chega aos cinemas, já era hora de o Youtube e seus Youtubers invadirem a telona com os dois pés na porta. Todos juntos. Num mesmo filme.

Apesar da promessa, “Internet – O Filme” não é tão apocalíptico quanto certas tentativas anteriores (alô, Kéfera!) e até consegue divertir, mas a tradição brasileira de ofender para fazer humor está ali, firme e forte. Gordos, gays, anões, idosos e mendigos continuam sendo motivo de piada, pelo simples ato de existirem. (E não será uma vingança no final que mudará isso.)

Idealizado por Rafinha Bastos e dirigido por Fillipo Capuzzi, o filme se passa numa convenção de web e conta sete histórias paralelas, protagonizadas por estrelas das redes sociais. Um acerto da produção foi colocar o elenco youtuber (e snapchatter) interpretando personagens fictícios, às vezes parecidos com suas personas da web, às vezes nem tanto. Desta forma, o filme se livra de ser uma grande publicidade coletiva e se torna algo mais próximo de uma grande piada interna – talvez interna demais para agradar a um público mais amplo.

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As histórias bem que tentam levantar algum tipo de discussão sobre a internet e a ficcionalização da vida real – mostrando um casal que engata apenas porque seu beijo viralizou, ou outro que adota um cachorro para explorá-lo como uma marca – mas a verdade é que o filme não quer assumir essa responsabilidade. A cada verdade jogada na cara, seus personagens respondem com um dar de ombros. “Não me importo se tudo isso é falso”, parece declarar a obra. “Não me leve tão a sério”.

O problema é que, sério ou não, o que vem depois dos créditos não é muito mais do que uma risadinha seguida por uma sensação de vazio… Afinal, o que esse filme me trouxe que uma esquete cômica no Youtube não traria?

Crítica: “Reza a Lenda” leva ação e adrenalina ao sertão nordestino

Muito tem mudado no cinema brasileiro nos últimos anos. À medida em que o Brasil foi se tornando mais relevante no cenário político mundial e o acesso às informações e à cultura foram se democratizando, mais o cinema foi se permitindo absorver referências externas, se arriscando em técnicas até então pouco utilizadas por aqui e criando misturas que não são por isso menos brasileiras, mas sim mais universais.

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Reza a Lenda” é um filme 100% nacional que mistura ação, faroeste, fantasia e drama sertanejo, como se o Grande Sertão Veredas encontrasse Mad Max, com um twist místico particular. O filme acompanha Ara (Cauã Reymond), Severina (Sophie Charlotte) e toda a sua gangue de motoqueiros numa jornada pelo deserto em busca de um milagre: eles precisam levar a estátua de uma santa para o altar correto para que ela faça chover.

A crença religiosa é um dos pilares do filme e faz um contraponto curioso à adrenalina das motos e da violência. Esses personagens não são movidos pela sede de sangue, apesar de serem bastante habituados a ela, mas sim pela fé. O que fazem, por mais pecaminoso que seja, é por um bem maior – o que dá a eles certo caráter heroico.

Quem se une ao grupo logo no início da aventura é Laura (Luisa Arraes), uma garota da cidade que viajava de carro pela região e acaba se tornando prisioneira. Não fica claro por que a gangue não a deixa ir embora no início, nem por que ela desenvolve uma atração por Ara (isso, simplesmente, soa errado), mas ela terá uma função importante na história, levando o protagonista à sua revelação final.

A chegada de Laura também provoca reações transformadoras em Severina: forte e confortável em sua posição de vice-chefe do bando, ela nunca havia experimentado o ciúme nem as inseguranças que vêm com ele. Charlotte abraça a personagem com unhas e dentes e entrega uma Severina intimidante, ágil e impaciente como um bicho do mato, mas feminina em seus poucos momentos de paz. A forma como ela se irrita e se desespera diante da possibilidade de perder “seu homem” fala mais sobre o desconhecimento dos próprios sentimentos e sobre seu instinto de sobrevivência do que sobre amor.

Quem também ganha destaque aos poucos é o personagem de Jesuíta Barbosa, Pica-Pau. Misterioso e reservado no início, ele acaba se rendendo ao ódio depois da morte de uma colega e tem seu ápice numa cena de tiroteio perto do final. Completa o elenco principal o vilão vivido por Humberto Martins, um coronel sanguinário que se considera dono da imagem da santa e jura vingança quando ela é roubada pela gangue.

O cuidado com a produção visual é um dos pontos altos do filme: os figurinos, por exemplo, misturam a crueza de camisetas rasgadas com a rigidez do jeans e do couro – improváveis num cenário desértico, mas coerentes com o universo do motociclismo. Cabelo e maquiagem, da mesma forma, fogem do padrão “impecável” para investir em visuais despenteados, sujos e pesados.

“Reza a Lenda” acerta ao inserir uma pegada pop ao cenário nordestino, mas esbarra em limites técnicos no que diz respeito à ação. Algumas cenas dependem demais de objetos recriados em 3D (como carros e motos) e acabam destoando do resto, fazendo com que pareçam falsas. Cenas de tiroteios também poderiam equilibrar melhor o close-up nos atiradores (usado à exaustão) com tomadas mais panorâmicas e que mostrassem melhor as vítimas. Afinal, a ideia é mostrar um ambiente violento.

Também incomoda um pouco o personagem de Martins, mais engessado que os demais. Sua apresentação se dá por meio de uma história tenebrosa, mas que perde todo o impacto ao ser contada com o timing errado. Também não são muito convincentes suas demonstrações de maldade, apesar de seu método (pendurar cabeças em balões de São João) ser bastante interessante – talvez essa ligação com a festa pudesse ser melhor explorada, revelando uma outra camada do personagem.

“Reza a Lenda” é um filme imperfeito, mas forte. Gestado por 20 anos na imaginação do diretor e roteirista Homero Olivetto, o longa traz referências daquele tempo tanto quanto deste, o que lhe dá um ar atemporal. O que poderia parecer pretensioso ou pouco original – uma ação hardcore num cenário desolado – não é, e inclusive surpreende o quanto o filme tem personalidade. O que lhe falta é tecnologia, um vilão mais forte e, talvez, uma ou outra virada diferente para que o final fosse mais impactante. Mas o caminho é esse.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Que Horas Ela Volta?, Straight Outta Compton e o que Matt Damon não entendeu sobre diversidade

O mundo mudou. Há quem não consiga acompanhar as novidades, mas acreditar que a humanidade é caucasiana, que lugar de mulher é na cozinha ou que o mundo é dividido entre ricos e pobres, cidadãos e estrangeiros, é viver ao lado dos dinossauros. E 2015 está provando isso como nunca. Continuar lendo “Que Horas Ela Volta?, Straight Outta Compton e o que Matt Damon não entendeu sobre diversidade”

“Entre Abelhas” narra o drama de um homem que deixa de enxergar as pessoas

Diante de um cartaz anunciando Fábio Porchat, Luís Lobianco e Marcos Veras, além da direção de Ian SBF, do Porta dos Fundos, o espectador desavisado poderá pensar que “Entre Abelhas” é mais uma comédia nacional de espírito stand-up. Pois não é – pelo menos, na maior parte do tempo.

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A história foi idealizada por Porchat há mais ou menos nove anos, e segue numa direção totalmente diferente da que fez sua fama e a de seus colegas até agora. Inspirado pelo individualismo da vida em grandes cidades, o longa tem um clima sombrio, que remete ao realismo fantástico de um Dostoiévski ou um Saramago, simbólico e reflexivo – mas fica claro que SBF e sua equipe ainda não estão prontos para abandonar de vez os vícios de uma carreira construída sobre o humor. Ocasionais piadinhas, infelizmente, são inevitáveis.

O protagonista é Bruno (Porchat), um homem nos seus 30 anos cuja esposa acabou de pedir divórcio. Depois de uma festa de “despedida de casado”, ele percebe que está deixando de ver as pessoas – um a um, estranhos e conhecidos simplesmente se tornam invisíveis e inaudíveis para ele.

Desesperar-se é inútil, então ele toma a atitude mais lógica: conta o problema para sua mãe (Irene Ravache). Ravache assume o papel de alívio cômico, interpretando a senhora desconectada, sem papas na língua e que se preocupa com a imagem do filho diante da família nas festas de Natal. Prontamente, ela arranja um psiquiatra e uma “cobaia invisível” (Lobianco), para realizar os mais estranhos testes na tentativa de reverter a situação.

Enquanto a mãe acredita na cura, o próprio Bruno parece ter certeza de que está num caminho sem volta, e passa os dias anotando na parede os números decrescentes de rostos que ainda enxerga. Sua melancolia é ainda maior porque, à sua volta, também são poucas as pessoas que o enxergam: sua ex-mulher (Giovanna Lancellotti) só quer que assine os papéis; seu melhor amigo (Veras) só quer contar os próprios problemas. Ele está só – e agora percebe que sempre estivera.

“Entre Abelhas” é uma aposta arriscada para um grupo acostumado a grandes audiências, mas é um passo necessário e que reforça a recente expansão do cinema nacional a novos gêneros e formatos – o final aberto, por exemplo, é de arrancar os cabelos.

O roteiro tem muito a melhorar e certos personagens poderiam ganhar bem menos espaço, enquanto outros mereciam um desenvolvimento melhor. Além disso, muitas pontas permanecem soltas e é mais certo que o espectador sairá com uma sensação de vazio do que de satisfação. Ainda assim, o filme vai dar o que falar e, só por isso, já vale a experiência.

Publicado no Guia da Semana em 14/04/2015.

“Últimas Conversas” fecha a carreira de Coutinho com uma reflexão sobre gerações

Assistir a um Eduardo Coutinho é sempre uma experiência reveladora sobre o que é fazer cinema. No caso de “Últimas Conversas”, último filme dirigido por ele antes de sua morte (montado por Jordana Berg e finalizado por João Moreira Salles), a tradicional transparência deixa de ser apenas ferramenta para se tornar, também, objeto – como um documentário que se debruça sobre si e sobre seu criador.

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“Últimas Conversas” trabalha com duas narrativas paralelas: a dos jovens cariocas que, entrevistados por Coutinho, falam sobre seus anseios, angústias e sonhos; e a do próprio diretor, que, diante desses adolescentes, expõe sem filtros as frustrações e surpresas que brotam do diálogo entre gerações.

Desde a cena inicial, ouvimos o documentarista lamentar a escolha dessa faixa etária como objeto de estudo: para ele, falta-lhe a curiosidade essencial para extrair desses garotos suas melhores histórias. Diante de tantos celulares, descrença e arrogância, ele admite às câmeras, melancólico: “Devia ter gravado com crianças”.

Mesmo assim, um após o outro, os estudantes mostram ao entrevistador que podem ser tão interessantes quanto seus equivalentes mais velhos. Suas histórias são tão diversas e, em certos pontos, tão semelhantes (todos, por exemplo, escrevem poesia ou diários), que bastam alguns personagens para termos o panorama de uma geração marcada pelo bullying, pelo excesso de confiança (ou, no outro extremo, insegurança) e por uma carência afetiva grande em relação aos pais.

“Últimas Conversas” é o filme de abertura do Festival É Tudo Verdade e deve estrear nos cinemas no próximo mês.

Texto publicado no Guia da Semana em 08/04/2015.

UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA: O BRASIL É POP!

Como é boa a sensação de estar diante de algo que vai marcar época. Como dezenas de colegas na sessão de hoje de “Uma História de Amor e Fúria”, saí com a certeza de ter testemunhado uma daquelas obras que serão vistas e revistas por muitos cinéfilos e acadêmicos pelos próximos 20 anos, pelo menos. Não que “Amor e Fúria” seja um filme chato, difícil. Muito pelo contrário, e é isso que fará dele um clássico: este é um longa de animação moderno e sofisticado, feito com capricho de artista e esmero de pesquisador, que reconta a História do Brasil com uma pegada surpreendentemente pop.

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A qualidade das imagens – desenhadas a oito quadros por segundo (técnica usada nos animes japoneses) – e do som (envolvente e muito bem dosado, com sussurros perfeitamente audíveis e gritos ensurdecedores quando necessário) deixa claro logo de início que aquele não é um filme qualquer. “Amor e Fúria”, como conta o diretor Luís Bolognesi (que foi roteirista em Bicho de Sete Cabeças), levou seis anos para ser produzido, entre a gravação das vozes e a finalização do projeto. “Seria muito mais rápido fazer um filme vetorizado, mas eu não queria esse visual. Queria o lápis no papel, com todas as possibilidades que ele permite”, explicou Bolognesi ao final da exibição. O resultado é um mix de graphic novel com pintura à mão, fotografias de época e um grande salto em 3D na cena final.

O longa é dividido em quatro partes, passadas em diferentes períodos da história nacional até chegar a um futuro distópico. O protagonista (também narrador, na voz inconfundível de Selton Mello) muda de nome a cada ato, mas permanece o mesmo, imortal na forma de um pássaro: ele é o escolhido de Munhã para lutar contra Anhangá, sempre que o temido demônio voltar ao comando. Anhangá é o português, é Duque de Caxias (aposta ousada), são os militares e é o grande empresário que explora a água para enriquecer.

“Amor e Fúria” reescreve a história do ponto de vista das revoluções, dando voz aos oprimidos sem cair no sensacionalismo ou no drama social puro e simples. Amarrado pelo amor entre o herói e Janaína (uma mulher diferente a cada episódio), o filme nos prende à cadeira, com olhos atentos e coração palpitante, mergulhando em conflitos que já conhecemos de cor, mas com uma abordagem infinitamente mais atraente.

“Meus heróis nunca viraram estátua”, brada o índio-negro-universitário-jornalista, numa frase que logo virará bordão. Bolognesi se revolta contra a visão eurocêntrica do ensino brasileiro e mostra a cara a tapa nesta animação-documentário, que já se prepara para representar o país em festivais internacionais.

O sucesso de “Amor e Fúria”, acredito, vai depender da distribuição, da divulgação e das críticas positivas, pois o conteúdo tem tudo para estourar, inclusive entre jovens estudantes que detestam as aulas de História. Separe, então, uma horinha do seu dia para assistir a esta produção, que estreia no dia 5 de abril, e livre-se de vez dos seus preconceitos com a animação nacional. Este vale a pena.

COLEGAS: UM FILME, MUITOS TEMPOS

Você com certeza já ouviu falar deste filme, que estreia nos cinemas nacionais no próximo dia 1º de março: Colegas. Seja pela pesada campanha viral pedindo a vinda do ator Sean Penn, seja pelo trailer que começou a rodar pelas redes sociais e salas de espera de grandes redes de cinema, seja porque algum conhecido seu já assistiu a ele. Sim, porque Colegas não é, exatamente, um filme novo.

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Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Paulínia de 2008, o projeto de Marcelo Galvão não chegou a ficar engavetado, mas custou a sair do papel: as gravações começaram em 2010, mas até meados de 2012 a distribuição ainda era incerta. Uma das opções foi o financiamento coletivo, modinha entre projetos independentes (e outros não tão indies assim), mas, após uma curta campanha no site Catarse, o projeto não viu o retorno tão sonhado. Conversa vai, conversa vem, com a chuva de prêmios conquistados em 2012 (incluindo festivais no Brasil, Itália, Rússia e Estados Unidos) a Europa Filmes acabou se encarregando da distribuição e, finalmente, o filme chega às telonas na semana que vem.

Para quem espera um drama pesado baseado na história do trio de aventureiros com síndrome de Down, pode esquecer: Colegas é uma comédia, e das mais levinhas. Pode levar as crianças e toda a família, que não há violência nem sexo explícitos, nem qualquer linguagem excessivamente imprópria. O que há é um forte sotaque paulista (carregado de “meu”s e “cara”s) e muitas, mas muitas referências ao cinema.

E é aí que está o maior charme do filme: os três protagonistas (Ariel Goldenberg como Stalone, Rita Pokk como Aninha e Breno Viola como Márcio) são cinéfilos incuráveis, pois passaram boa parte de suas vidas enclausuradas cuidando do acervo da cinemateca do Instituto (uma moradia exclusiva de portadores da síndrome, chamada apenas de “instituto”). Por decorrência disso, o vocabulário do trio é uma verdadeira enciclopédia de frases de filmes inesquecíveis, que vão desde Os Palhaços de Fellini até o recente Tropa de Elite de José Padilha.

O tempo, aliás, é uma questão não muito bem definida em Colegas. Enquanto carrões antigos ocupam as ruas de Paulínia rumo a Buenos Aires e telefones de disco aparecem em todos os cantos, vemos celulares nas mãos dos policiais (uma clássica dupla de “tiras”) e referências a filmes dos anos 90 e 2000. Seria essa uma forma de tornar a experiência ainda mais lúdica, nos jogando num mundo tão caricato quanto os telejornais sanguessugas, os civis vaidosos e os chefes de instituto afetuosos que nos pintam ali? O mundo de Colegas não é, mesmo, um mundo realista, mas algo aumentado nos detalhes mais egoístas de cada um de nós. Marcelo Galvão força no preconceito aos jovens, chamados de “retardados” mais de uma vez, mas dá espaço para que os três se mostrem completamente humanos, com defeitos e virtudes, inocências e malícias, sonhos e traumas.

O ponto baixo, me parece, é a cena do interrogatório com os outros moradores do Instituto: um desfile de personagens bizarros, com discursos sem pé nem cabeça. Se a intenção foi criar uma cena cômica, com os jovens zombando dos policiais, acho que o diretor passou um pouco do ponto e arriscou queimar a própria mensagem. Mas, considerando o quadro geral, o resultado é divertido e deve agradar a vários públicos. O tema é ousado (apesar de agora dividir espaço com outros tantos filmes abordando deficiências) e o foco é certamente inovador – bandidos, quem diria? Mas não é um filme que busca chocar ou tocar profundamente. É um filme para divertir, mostrando que também há graça onde, muitas vezes, julgamos que só exista tristeza.