Lupin, A Lenda do Cavaleiro Verde e três mostras online

Fala, pessoal! Olha eu aqui de novo trazendo notícias rapidinhas de cinema e TV. Hoje temos novos trailers, datas de estreias, uma polêmica e três mostras de cinema online e GRATUITAS pra vocês! Divirtam-se =)

Links:

Festival de cinema brasileiro fantástico: festivalfantastico.com 

Mostra Embaúba Play: embaubaplay.com

2ª Mostra de cinema árabe feminino: cinemaarabefeminino.com

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Errata: o Festival de cinema brasileiro fantástico terá 9 longas: 8 disponíveis durante todo o período e 1 (“Sol Alegria”) com exibição limitada entre os dias 15 e 16/05.

Você tem onze minutinhos?

Então deixa o Instagram de lado rapidinho e vem comigo neste link conhecer um dos dois curtas-metragens brasileiros que se qualificaram para o Oscar 2021 (ambos dirigidos por mulheres, porque o mundo agora é nosso, né?), e podem figurar na pré-lista de indicados que será divulgada no dia 9 de fevereiro (a premiação será em abril). O outro, de oito minutos, você pode assistir aqui depois e chorar um pouquinho. 

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Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão

Pedro não gosta de lugares públicos. Apesar disso, todas as quintas-feiras ele liga sua webcam e dança nu, banhando-se em tinta neon e tocando seu corpo colorido para uma plateia fiel e pagante. O vencedor do Festival do Rio e do Teddy Awards (troféu voltado para filmes queer no Festival de Berlim), “Tinta Bruta”, finalmente chega aos cinemas brasileiros no dia 6 de dezembro trazendo essa história melancólica e quase trágica para brilhar na tela. Isso, se o público estiver pronto para ela. Continuar lendo “Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão”

O Doutrinador: graphic novel brasileira chega aos cinemas pingando sangue

“Serial killer ou justiceiro?”. A frase, que aparece brevemente como a manchete de um jornal fictício no longa “O Doutrinador”, resume bem a questão que se coloca na tela (e nas ruas): afinal, vale tudo no combate à corrupção? Continuar lendo “O Doutrinador: graphic novel brasileira chega aos cinemas pingando sangue”

Joaquim (Marcelo Gomes, 2017)

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Poucos personagens são mais suculentos na História do Brasil do que Joaquim José da Silva Xavier. Um “tiradentes”  no século XVIII, um dentista comum com uma carreira militar que, influenciado por ideias iluministas, participa de uma revolta popular contra a dominação portuguesa. Um homem que, traído pelos colegas, é responsabilizado sozinho pela rebelião e esquartejado, com partes do corpo espalhadas para servirem de exemplo aos demais.

Este é um thriller prontinho para ser narrado no cinema. A não ser, é claro, que você decida ignorar essa parte da história e jogar o foco sobre uma caça ao ouro que, muito frustrantemente, não leva a lugar algum. Aliás, por que não trocar toda a ideologia política por uma teimosia pessoal e explorar como única motivação do protagonista o desejo de posse de uma mulher e a ambição por um cargo mais elevado? Esse sim é um herói que o público vai querer ver… Não?

Parece absurdo, mas é exatamente isso que faz Marcelo Gomes na biografia romantizada “Joaquim”, que chega aos cinemas no dia 20 de abril (véspera do feriado de Tiradentes). O longa, que traz Júlio Machado no papel principal, chegou a ser exibido no Festival de Berlim e até concorreu ao Urso de Ouro, mas não conseguiu conquistar júri ou público. Por aqui, será difícil ganhar alguma simpatia também.IFrame

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Joaquim” tenta traçar um retrato da vida nas Capitanias, incluindo menções a escravos, índios, quilombolas, portugueses, fazendeiros, militares e intelectuais. Não há crianças, não há idosos, não há senão uma mulher. Falta foco, porém, para que esse mosaico incompleto se justifique: se há um Quilombo, ele não tem função nenhuma senão mostrar que alguém se lembrou de tocar no assunto. Se há um índio, ele chega e vai igualmente incompreendido. Se há diálogos inteiros em dialetos africanos, eles não ganham significado algum, nem por tradução, nem por associação. E, finalmente, se há um movimento incipiente de revolta, ele mal tem tempo de nascer antes que o letreiro enorme invada a tela.

É difícil determinar o que Gomes – diretor e autor, conhecido por “Cinema, Aspirinas e Urubus” – quis provocar com essa nova obra. Reflexão? Quis ele quebrar o estereótipo do herói, enfraquecendo-o com uma personalidade machista e ingênua? Ou quis ele alfinetar o colonialismo de ontem e hoje, inserindo provocações nada discretas aos EUA entre uma fala e outra? Seja como for, faltou definir um objetivo claro e acreditar nele, explorando o som, a luz e os personagens a seu favor. Faltou, enfim, praticamente tudo.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Internet – O Filme (Fillipo Capuzzi, 2017)

Finalmente aconteceu. Se tudo o que está no auge eventualmente chega aos cinemas, já era hora de o Youtube e seus Youtubers invadirem a telona com os dois pés na porta. Todos juntos. Num mesmo filme.

Apesar da promessa, “Internet – O Filme” não é tão apocalíptico quanto certas tentativas anteriores (alô, Kéfera!) e até consegue divertir, mas a tradição brasileira de ofender para fazer humor está ali, firme e forte. Gordos, gays, anões, idosos e mendigos continuam sendo motivo de piada, pelo simples ato de existirem. (E não será uma vingança no final que mudará isso.)

Idealizado por Rafinha Bastos e dirigido por Fillipo Capuzzi, o filme se passa numa convenção de web e conta sete histórias paralelas, protagonizadas por estrelas das redes sociais. Um acerto da produção foi colocar o elenco youtuber (e snapchatter) interpretando personagens fictícios, às vezes parecidos com suas personas da web, às vezes nem tanto. Desta forma, o filme se livra de ser uma grande publicidade coletiva e se torna algo mais próximo de uma grande piada interna – talvez interna demais para agradar a um público mais amplo.

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As histórias bem que tentam levantar algum tipo de discussão sobre a internet e a ficcionalização da vida real – mostrando um casal que engata apenas porque seu beijo viralizou, ou outro que adota um cachorro para explorá-lo como uma marca – mas a verdade é que o filme não quer assumir essa responsabilidade. A cada verdade jogada na cara, seus personagens respondem com um dar de ombros. “Não me importo se tudo isso é falso”, parece declarar a obra. “Não me leve tão a sério”.

O problema é que, sério ou não, o que vem depois dos créditos não é muito mais do que uma risadinha seguida por uma sensação de vazio… Afinal, o que esse filme me trouxe que uma esquete cômica no Youtube não traria?

Crítica: “Reza a Lenda” leva ação e adrenalina ao sertão nordestino

Muito tem mudado no cinema brasileiro nos últimos anos. À medida em que o Brasil foi se tornando mais relevante no cenário político mundial e o acesso às informações e à cultura foram se democratizando, mais o cinema foi se permitindo absorver referências externas, se arriscando em técnicas até então pouco utilizadas por aqui e criando misturas que não são por isso menos brasileiras, mas sim mais universais.

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Reza a Lenda” é um filme 100% nacional que mistura ação, faroeste, fantasia e drama sertanejo, como se o Grande Sertão Veredas encontrasse Mad Max, com um twist místico particular. O filme acompanha Ara (Cauã Reymond), Severina (Sophie Charlotte) e toda a sua gangue de motoqueiros numa jornada pelo deserto em busca de um milagre: eles precisam levar a estátua de uma santa para o altar correto para que ela faça chover.

A crença religiosa é um dos pilares do filme e faz um contraponto curioso à adrenalina das motos e da violência. Esses personagens não são movidos pela sede de sangue, apesar de serem bastante habituados a ela, mas sim pela fé. O que fazem, por mais pecaminoso que seja, é por um bem maior – o que dá a eles certo caráter heroico.

Quem se une ao grupo logo no início da aventura é Laura (Luisa Arraes), uma garota da cidade que viajava de carro pela região e acaba se tornando prisioneira. Não fica claro por que a gangue não a deixa ir embora no início, nem por que ela desenvolve uma atração por Ara (isso, simplesmente, soa errado), mas ela terá uma função importante na história, levando o protagonista à sua revelação final.

A chegada de Laura também provoca reações transformadoras em Severina: forte e confortável em sua posição de vice-chefe do bando, ela nunca havia experimentado o ciúme nem as inseguranças que vêm com ele. Charlotte abraça a personagem com unhas e dentes e entrega uma Severina intimidante, ágil e impaciente como um bicho do mato, mas feminina em seus poucos momentos de paz. A forma como ela se irrita e se desespera diante da possibilidade de perder “seu homem” fala mais sobre o desconhecimento dos próprios sentimentos e sobre seu instinto de sobrevivência do que sobre amor.

Quem também ganha destaque aos poucos é o personagem de Jesuíta Barbosa, Pica-Pau. Misterioso e reservado no início, ele acaba se rendendo ao ódio depois da morte de uma colega e tem seu ápice numa cena de tiroteio perto do final. Completa o elenco principal o vilão vivido por Humberto Martins, um coronel sanguinário que se considera dono da imagem da santa e jura vingança quando ela é roubada pela gangue.

O cuidado com a produção visual é um dos pontos altos do filme: os figurinos, por exemplo, misturam a crueza de camisetas rasgadas com a rigidez do jeans e do couro – improváveis num cenário desértico, mas coerentes com o universo do motociclismo. Cabelo e maquiagem, da mesma forma, fogem do padrão “impecável” para investir em visuais despenteados, sujos e pesados.

“Reza a Lenda” acerta ao inserir uma pegada pop ao cenário nordestino, mas esbarra em limites técnicos no que diz respeito à ação. Algumas cenas dependem demais de objetos recriados em 3D (como carros e motos) e acabam destoando do resto, fazendo com que pareçam falsas. Cenas de tiroteios também poderiam equilibrar melhor o close-up nos atiradores (usado à exaustão) com tomadas mais panorâmicas e que mostrassem melhor as vítimas. Afinal, a ideia é mostrar um ambiente violento.

Também incomoda um pouco o personagem de Martins, mais engessado que os demais. Sua apresentação se dá por meio de uma história tenebrosa, mas que perde todo o impacto ao ser contada com o timing errado. Também não são muito convincentes suas demonstrações de maldade, apesar de seu método (pendurar cabeças em balões de São João) ser bastante interessante – talvez essa ligação com a festa pudesse ser melhor explorada, revelando uma outra camada do personagem.

“Reza a Lenda” é um filme imperfeito, mas forte. Gestado por 20 anos na imaginação do diretor e roteirista Homero Olivetto, o longa traz referências daquele tempo tanto quanto deste, o que lhe dá um ar atemporal. O que poderia parecer pretensioso ou pouco original – uma ação hardcore num cenário desolado – não é, e inclusive surpreende o quanto o filme tem personalidade. O que lhe falta é tecnologia, um vilão mais forte e, talvez, uma ou outra virada diferente para que o final fosse mais impactante. Mas o caminho é esse.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Que Horas Ela Volta?, Straight Outta Compton e o que Matt Damon não entendeu sobre diversidade

O mundo mudou. Há quem não consiga acompanhar as novidades, mas acreditar que a humanidade é caucasiana, que lugar de mulher é na cozinha ou que o mundo é dividido entre ricos e pobres, cidadãos e estrangeiros, é viver ao lado dos dinossauros. E 2015 está provando isso como nunca. Continuar lendo “Que Horas Ela Volta?, Straight Outta Compton e o que Matt Damon não entendeu sobre diversidade”

“Entre Abelhas” narra o drama de um homem que deixa de enxergar as pessoas

Diante de um cartaz anunciando Fábio Porchat, Luís Lobianco e Marcos Veras, além da direção de Ian SBF, do Porta dos Fundos, o espectador desavisado poderá pensar que “Entre Abelhas” é mais uma comédia nacional de espírito stand-up. Pois não é – pelo menos, na maior parte do tempo.

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A história foi idealizada por Porchat há mais ou menos nove anos, e segue numa direção totalmente diferente da que fez sua fama e a de seus colegas até agora. Inspirado pelo individualismo da vida em grandes cidades, o longa tem um clima sombrio, que remete ao realismo fantástico de um Dostoiévski ou um Saramago, simbólico e reflexivo – mas fica claro que SBF e sua equipe ainda não estão prontos para abandonar de vez os vícios de uma carreira construída sobre o humor. Ocasionais piadinhas, infelizmente, são inevitáveis.

O protagonista é Bruno (Porchat), um homem nos seus 30 anos cuja esposa acabou de pedir divórcio. Depois de uma festa de “despedida de casado”, ele percebe que está deixando de ver as pessoas – um a um, estranhos e conhecidos simplesmente se tornam invisíveis e inaudíveis para ele.

Desesperar-se é inútil, então ele toma a atitude mais lógica: conta o problema para sua mãe (Irene Ravache). Ravache assume o papel de alívio cômico, interpretando a senhora desconectada, sem papas na língua e que se preocupa com a imagem do filho diante da família nas festas de Natal. Prontamente, ela arranja um psiquiatra e uma “cobaia invisível” (Lobianco), para realizar os mais estranhos testes na tentativa de reverter a situação.

Enquanto a mãe acredita na cura, o próprio Bruno parece ter certeza de que está num caminho sem volta, e passa os dias anotando na parede os números decrescentes de rostos que ainda enxerga. Sua melancolia é ainda maior porque, à sua volta, também são poucas as pessoas que o enxergam: sua ex-mulher (Giovanna Lancellotti) só quer que assine os papéis; seu melhor amigo (Veras) só quer contar os próprios problemas. Ele está só – e agora percebe que sempre estivera.

“Entre Abelhas” é uma aposta arriscada para um grupo acostumado a grandes audiências, mas é um passo necessário e que reforça a recente expansão do cinema nacional a novos gêneros e formatos – o final aberto, por exemplo, é de arrancar os cabelos.

O roteiro tem muito a melhorar e certos personagens poderiam ganhar bem menos espaço, enquanto outros mereciam um desenvolvimento melhor. Além disso, muitas pontas permanecem soltas e é mais certo que o espectador sairá com uma sensação de vazio do que de satisfação. Ainda assim, o filme vai dar o que falar e, só por isso, já vale a experiência.

Publicado no Guia da Semana em 14/04/2015.

“Últimas Conversas” fecha a carreira de Coutinho com uma reflexão sobre gerações

Assistir a um Eduardo Coutinho é sempre uma experiência reveladora sobre o que é fazer cinema. No caso de “Últimas Conversas”, último filme dirigido por ele antes de sua morte (montado por Jordana Berg e finalizado por João Moreira Salles), a tradicional transparência deixa de ser apenas ferramenta para se tornar, também, objeto – como um documentário que se debruça sobre si e sobre seu criador.

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“Últimas Conversas” trabalha com duas narrativas paralelas: a dos jovens cariocas que, entrevistados por Coutinho, falam sobre seus anseios, angústias e sonhos; e a do próprio diretor, que, diante desses adolescentes, expõe sem filtros as frustrações e surpresas que brotam do diálogo entre gerações.

Desde a cena inicial, ouvimos o documentarista lamentar a escolha dessa faixa etária como objeto de estudo: para ele, falta-lhe a curiosidade essencial para extrair desses garotos suas melhores histórias. Diante de tantos celulares, descrença e arrogância, ele admite às câmeras, melancólico: “Devia ter gravado com crianças”.

Mesmo assim, um após o outro, os estudantes mostram ao entrevistador que podem ser tão interessantes quanto seus equivalentes mais velhos. Suas histórias são tão diversas e, em certos pontos, tão semelhantes (todos, por exemplo, escrevem poesia ou diários), que bastam alguns personagens para termos o panorama de uma geração marcada pelo bullying, pelo excesso de confiança (ou, no outro extremo, insegurança) e por uma carência afetiva grande em relação aos pais.

“Últimas Conversas” é o filme de abertura do Festival É Tudo Verdade e deve estrear nos cinemas no próximo mês.

Texto publicado no Guia da Semana em 08/04/2015.