Synonymes – choque cultural move drama franco-israelense sobre beleza e identidade

Ultimamente, tenho procurado ver mais filmes em francês, tanto para treinar o idioma quanto para me “desintoxicar” das produções hollywoodianas – que, vira e mexe, começam a parecer todas iguais. Nessa busca, resolvi dar uma chance para “Synonymes”, vencedor do Urso de Ouro em 2019 que encontrei em cartaz na plataforma Filme Filme (que tem um acervo pequeno, mas bem interessante). 

O filme é uma co-produção entre França, Israel e Alemanha e tem um diretor/roteirista israelense: Nadav Lapid (que o escreveu junto com seu pai, Haim Lapid). A história segue um jovem que foge de Israel (por motivos que não ficam claros), abandona sua família e vai morar em Paris, onde é acolhido por um casal de artistas, ele escritor e ela, musicista. 

O elemento curioso nesse filme de gênero incerto (é um drama, mas tem um sarcasmo e um mistério sempre presentes) é que Yoav, o protagonista, quer deixar para trás suas origens e abandonar até mesmo sua língua-natal. Daí o título, que faz referência às palavras que ele aprende em francês, auxiliado por um dicionário ou por seus novos amigos. Os “sinônimos” também são um jeito de falar sobre as traduções cotidianas entre uma cultura e outra – semelhantes em muitos aspectos, mas não iguais. 

Esse “despir” das raízes é apresentado de forma bem literal: durante seu primeiro banho na cidade-luz, Yoav tem todos os seus pertences furtados e se vê nu, sozinho no frio congelante de um apartamento vazio. Muitas das ideias de “Synonymes” serão trabalhadas assim, com metáforas não tão sutis (como quando ele aponta um fuzil imaginário para a catedral, ou quando “empresta” suas histórias de vida para o amigo escrever), mas que rendem belas imagens; ou com cenas que ficam no limite entre o real e o absurdo, mas que nunca atravessam a linha com convicção. Faz-se um paralelo entre arte e violência, beleza e feiura, num estudo que chega muito perto de dizer algo importante.

Como vocês podem ver, a promessa de “Synonymes” acabou me agradando mais do que o filme em si. Talvez por falta de “fluência” nas duas culturas abordadas, talvez por impaciência com certos impulsos da masculinidade (um personagem passa todo o tempo tentando provocar uma briga) ou talvez porque falte, realmente, alguma peça crucial naquele mosaico. Achei difícil comprar a intensidade com que Yaov explode após um semestre vivendo “como francês” – como ele mesmo quisera desde o início – e não costurei suas memórias na forma de um passado particularmente traumático. Imaginei sua evolução indo para outro lado, talvez: do garoto que se recusava a enxergar a beleza à sua volta, pregando os olhos no chão mesmo diante da Notre Dame, ao jovem que a abraça, de alguma forma (como ele ameaça fazer). Mas não: esse é um jovem que finalmente olha para o belo, mas não gosta do que vê. Então encontra no dicionário as palavras mais feias para descrever o único mundo que consegue ter.

Verão de 85: tem Ozon estreando nos cinemas

Acho que, depois de seis ou sete filmes, já posso dizer que sou fã do François Ozon. Não que eu AME todos os trabalhos do diretor francês, mas suas contradições me fascinam desde Dentro da Casa, de 2012 – meu favorito até hoje. Para mim, Ozon representa a intersecção entre a ousadia e a delicadeza, os temas polêmicos e a forma suave. Seus filmes sempre carregam uma tensão sexual que se equilibra entre a curiosidade e a obsessão, suas histórias sempre explorando relações de poder, identidades ambíguas e os mistérios da ficção – o quanto nos transformamos em personagens quando contamos nossas histórias. Seu novo trabalho, Verão de 85, não é diferente.

O filme, que se inspira no livro Dance on my grave, de Aidan Chambers, e teria sido lançado no Festival de Cannes de 2020 se esse não tivesse sido cancelado, conta a história de um adolescente certinho, Alexis (Félix Lefebvre), que conhece um garoto um pouco mais velho (David, interpretado por Benjamin Voisin) que é praticamente seu oposto – alto, corajoso, confiante – e, é claro, se apaixona intensamente. Porém, o filme começa com uma narração de Alex, detido e irreconhecivelmente soturno, falando sobre morte, cadáveres e… Bem, sobre como David se transformou em um.

E é assim, com a sugestão de uma tragédia e um crime ainda não explicado, que começa essa história ensolarada sobre o amor e a inocência juvenil. Verão de 85 não é um suspense nem um horror, como a abertura faz parecer, mas Ozon gosta de deixar seu espectador com a sensação de que ele tem uma carta extra na manga – algo que você não sabe, e que torna tudo um tanto mais misterioso. Como a mãe de David (Valeria Bruni Tedeschi), que flerta com Alex de um jeito que beira o impróprio, e às vezes repousa alguns segundos numa expressão de loucura, provável reflexo da perda recente do marido.

A relação entre Alex e David também não é simples. Talvez o amor homossexual, tema frequente no cinema de Ozon, seja ideal para exprimir a tensão latente que ele tanto gosta de explorar. Não que eles hesitem em assumir qualquer coisa um ao outro ou a si mesmos, mas seu romance ainda se esconde do mundo – e das mães – sob paredes finas e portas fechadas. 

Para complicar, David propõe a Alex um pacto eterno: o último a morrer dançará no túmulo do outro. É uma proposta poética que combina com a personalidade imprudente de um e com o gosto pelos rituais fúnebres do outro. Alex se encanta por múmias, pirâmides e culturas que valorizam o além-vida, mas tenta explicar que isso não faz dele um psicopata ou um suicida. Não é que ele queira morrer, mas, aos 16, a morte está distante o suficiente para não ser ameaçadora. Ou isso é o que ele pensava.

É uma pena que Verão de 85 crie tantas expectativas sobre o seu final, que não corresponde. Ainda assim, o conjunto funciona e tem beleza, como um Me chame pelo seu nome em que os dois lados são adolescentes extremos e perdidos. O longa estreia nos cinemas neste fim de semana (a partir de 3 de junho), e deve chegar nos próximos meses às plataformas digitais. Já o próximo filme de Ozon, Tout s’est bien passé, já está no forno e, vejam só, competirá em Cannes no mês que vem. Não sei nada sobre ele e já quero ver.

Retrato de uma jovem em chamas

Soube que havia algo diferente com Retrato de uma jovem em chamas quando, numa das primeiras cenas, a diretora Céline Sciamma escolheu balançar a câmera sem piedade simulando a ondulação do mar, e a tontura foi tanta que tive que tirar os olhos da tela. Então, uma caixa apareceu boiando e a protagonista – a pintora Marianne, interpretada por Noémie Merlant – se jogou à água, de vestido e tudo. Um vestido volumoso e pesado, já que estamos no final do século XVIII, e nenhum dos homens a bordo se ofereceu para ajudar.

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“Custódia”: drama francês discute violência na separação

Mais um sucesso da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado está chegando aos cinemas para sua rodada no circuito comercial. “Custódia”, drama francês sobre um casal que briga pela guarda do filho mais novo, foi um dos grandes títulos que, ao lado de “Sem Amor” e “O Vale das Sombras”, fez daquela a Mostra das crianças perdidas. Continuar lendo ““Custódia”: drama francês discute violência na separação”

Zumbis à la française

Pessoas comendo pessoas, mortas mas ainda andando pelos cantos, sofrendo espasmos involuntários e caçando como se respondessem a instintos de algum outro animal que não o humano. São zumbis, sem dúvida, que cercam o introvertido músico Sam (Anders Danielsen Lie) no longa de estreia de Dominique Rocher, “A Noite Devorou o Mundo”. Mas não é dos zumbis que ele foge.

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Domingo no sofá: “Eu não sou um homem fácil”

Era domingo à noite e eu vinha pensando em Morgan Freeman, #metoo e Times Up. Pensava em como um homem foi incentivado a vida toda a tratar mulheres como objetos e, de repente, querem descartá-lo como um rolo de papel. Tentei escrever sobre isso, mas não consegui. Então liguei a Netflix e resolvi assistir à comédia francesa “Eu Não Sou um Homem Fácil”, que um amigo indicou.

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Crítica: “O Novíssimo Testamento” é uma comédia ousada e refrescante

Digamos que você não goste desta época pré-Oscar, quando todos os cinemas estão ocupados com filmes cobertos por selos de aprovação hollywoodiana. Ou pior: você simplesmente gosta de filmes mais alternativos e não consegue encontrar luz no fim do túnel em pleno janeiro de férias escolares e pipocões. Não é isso? Então, talvez, você até goste de blockbusters, mas tenha se cansado e resolvido procurar refúgio numa obra um pouco mais… Desafiadora. Não se preocupe, é para isso que estamos aqui.

Se, por qualquer razão, você está procurando alguma coisa diferente para assistir neste final de semana, a dica é a comédia belga “O Novíssimo Testamento”, de Jaco Van Dormael (mesmo diretor de “Sr. Ninguém”, drama com Jared Leto lançado em 2009). O filme conta a história da filha de Deus (isso mesmo) que, cansada da tirania do pai (um homem comum e rabugento, que vive trancafiado no escritório, em sua residência em Bruxelas), decide chacoalhar um pouco as coisas na Terra.

A banalidade com que a divindade é retratada é o que faz o filme ser tão interessante. Primeiramente, Deus mora num apartamento comum, com uma esposa submissa e uma filha pré-adolescente. O filho, como você já deve ter imaginado, saiu de casa há algum tempo, mas a mãe continua colocando seu lugar à mesa.

Tudo começa quando Ea (Pili Groyne), a tal filha, entra escondida no escritório do pai e descobre todas as maldades que ele tem praticado com os humanos, por puro sadismo. Depois de levar uma bronca e uma surra de cinta, ela decide agir: envia a todos os humanos as datas de suas mortes e vai à Terra reunir seis apóstolos e escrever um Novíssimo Testamento (por sugestão do irmãozão, J.C.).

A aventura de Ea tem seus altos e baixos. Acompanhada por um mendigo, ela visita seis pessoas aleatórias (uma delas é interpretada pela atriz Catherine Deneuve) e realiza pequenos milagres, mostrando compaixão por suas histórias, todas marcadas pela solidão. Nesse processo, umas se mostram mais interessantes que as outras e, em alguns momentos, o espectador pode se cansar, mas a surrealidade da situação nunca deixa de martelar, dando novos significados a cada cena. O final, certamente, dividirá opiniões, mas não se pode negar que é ousado.

“O Novíssimo Testamento” coloca algumas questões na mesa além do humor, como, por exemplo, o efeito que a consciência da mortalidade poderia ter nas vidas das pessoas. É curioso pensar que, apesar de sabermos que não somos eternos, nossas ações são pensadas como se vivêssemos para sempre. Numa situação extrema como essa, talvez o trabalho  fosse tirado do jogo, a segurança perderia o sentido e Deus, incapaz de salvar a qualquer um, seria desacreditado ou deixaria de ser fonte de esperança para se tornar, apenas, um consolo.

O filme está em cartaz no Reserva Cultural, em São Paulo, e estreia no dia 28 em cinemas selecionados no Rio de Janeiro.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Gemma Bovery” cria humor inteligente inspirado em romance francês

“Uma mulher banal que se entedia com uma vida banal não é banal”, protesta o protagonista de “Gemma Bovery”, buscando alguma faísca de excepcionalidade em sua monótona vida real. Estaria ele falando da personagem de Gustave Flaubert, Emma Bovary, ou de sua nova vizinha inglesa?

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O novo filme de Anne Fontaine, diretora do memorável “Coco Antes de Chanel”, é uma comédia para quem ama literatura e, como o padeiro Martin (interpretado pelo sempre adorável Fabrice Luchini), também vive procurando semelhanças entre a realidade e seus mundos imaginários – mesmo que isso signifique, às vezes, dar um empurrãozinho na direção certa.

Martin é um parisiense que se mudou com a família para a Normandia (precisamente onde Flaubert escreveu “Bovary”) buscando tranquilidade, mas não encontrou nada parecido com isso. Como ele mesmo descreve, aquele é um lugar onde as pessoas tendem a se suicidar… Ou tomar Calca (uma bebida bem forte). Ou, quem sabe, se envolver nas vidas dos outros.

Quando os novos vizinhos, Gemma (Gemma Arterton) e Charlie (Jason Flemyng) Bovery, chegam para morar na casa ao lado, Martin imagina se a vida da garota não seria parecida com a da personagem da ficção. Logo, a sensualidade da moça e seus instáveis relacionamentos amorosos começam a confirmar sua teoria – despertando o receio de que seu final também seja o mesmo.

O filme instiga a curiosidade e levanta o tempo todo uma desconfiança: será que a vida de Gemma remete à de Emma porque Martin a vê assim, porque ele a influencia para ser assim, ou por alguma semelhança natural e misteriosa? Vale lembrar que Gemma também está lendo o romance enquanto sua história acontece e pode estar sendo impactada por ele.

Reforça essa dúvida o fato de que a história é narrada por um misto de dois pontos de vista igualmente tendenciosos: o de Martin, que faz o papel de narrador, e o de Gemma, cujo diário ele lê. É interessante notar que Luchini revisita aqui uma situação de voyeur semelhante à que vivera no drama “Dentro da Casa”, de François Ozon, mas, desta vez, é ele quem invade a intimidade do outro.

“Gemma Bovery” é mais uma homenagem do que uma adaptação e, ao mesmo tempo em que transporta o espectador para aquele universo literário de Flaubert, também se empenha em quebrar essa ilusão, criando uma ambiguidade que prende a atenção do início ao fim. Uma dica infalível para amantes de livros que procuram um humor inteligente para o fim de semana.

Texto publicado no Guia da Semana em 24/07/2015.

Crítica: “O Que As Mulheres Querem” discute o que significa ser mulher num universo de estereótipos

Estreia nesta quinta (23 de julho) um filme francês chamado “O Que As Mulheres Querem”. Se o nome soa familiar, não se deixe confundir: este não é aquele filme com Mel Gibson que fez sucesso no ano 2000 (“Do Que As Mulheres Gostam”). Aliás, há uma diferença essencial entre os dois: aqui, o protagonista não é um homem tentando compreender o universo feminino, mas são elas mesmas que dominam a tela, vivendo seus conflitos e confusões sem precisarem explicar nada a ninguém.

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O filme é dirigido, escrito e produzido por mulheres e, por mais que centenas de filmes dirigidos, escritos e produzidos por homens sejam vistos pelo público feminino todos os dias, esta não é uma comédia para eles. “O Que As Mulheres Querem” é como uma conversa de bar sobre relacionamentos, trabalho, menopausa e o que significa ser mulher quando o resto do mundo te vê apenas como esposa, mãe, chefe ou amante.

Onze personagens femininas conduzem a história, dividindo escritórios, quartos ou maridos e, eventualmente, se encontrando para rir das próprias situações. Ysis (Géraldine Nakache), por exemplo, é mãe de quatro filhos e está farta de cuidar deles sozinha enquanto seu marido não percebe que também é responsável por eles. Já Inès (Marina Hands) faz uma operação de miopia, só para descobrir que está sendo traída pelo marido com a vizinha de sua colega de trabalho, que esconde o segredo.

Vanessa Paradis se destaca no elenco com o papel de Rose, uma empresária bem sucedida que fica incomodada ao ouvir de seu médico que ela tem “testosterona demais” e que isso explicaria seu cargo, sua postura agressiva e sua dificuldade em criar amizades com mulheres. Enquanto o público se contorce na poltrona diante de tal afirmação, sua história nos mostra que, na verdade, só lhe falta um pouco de prática para reconhecer e cultivar boas amizades em meio a uma rotina tão automatizada.

O filme é dirigido pela atriz Audrey Dana, que estreia no comando de longas-metragens e interpreta uma das protagonistas – uma mulher que prefere ser amante a assumir o papel de esposa oficial. É ela que  aparece na primeira cena e, de cara, expulsa os homens (e algumas mulheres) da sessão com uma sequência (bem curta, felizmente) sobre menstruação.

“O Que As Mulheres Querem” é uma opção divertida e despretensiosa para quem quer fugir das comédias americanas ou nacionais, seja para ver sozinha ou com as amigas. Provavelmente, você irá se identificar com uma personagem, ou com um pouco de cada uma, e secretamente vai acabar rindo de si mesma.

Texto publicado no Guia da Semana em 19/07/2015.

Crítica: emocionante e original, “O Pequeno Príncipe” explora o impacto do livro de Saint-Exupéry em novos leitores

Adaptar uma obra literária para os cinemas é sempre um desafio, mas a tarefa fica ainda mais arriscada quando a obra original é um livro infantil, francês, escrito nos anos 40, que praticamente todo o público adulto já leu ou teve algum contato na infância.

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É por isso que “O Pequeno Príncipe”, animação de Mark Osborne que estreia em agosto e será exibida no festival Anima Mundi, é tão valiosa: Osborne (“Kung Fu Panda”) não tenta apenas transpor a obra para a tela da forma como a conhecemos, mas cria uma história completamente nova a partir de sua própria experiência com o livro.

“Ganhei meu primeiro exemplar há mais de vinte anos da minha esposa”, conta o diretor. “Na época, éramos namorados e eu estava me mudando para estudar animação, então o livro veio como uma lembrança de que estaríamos juntos, mesmo à distância. Foi essa mensagem que eu quis passar para o filme.” Osborne também revela que se inspirou na filha para a personagem da “menina” (sem nome) e usou as risadas do filho para o Pequeno Príncipe (que podem ser ouvidas mesmo na versão dublada).

O filme conta duas histórias paralelas e utiliza duas linguagens para isso: na história “real”, focada na menina e no aviador, a animação é em CGI; já na imaginação, onde vive o Pequeno Príncipe, é usado stop-motion. A inclusão de novos personagens e a ampliação da trama original ajudam a atualizar as questões do livro de Saint-Exupéry e inserir críticas ao modo de vida contemporâneo.

A protagonista é uma menina que acaba de se mudar e está prestes a entrar numa escola muito rígida. Sua mãe, solteira e trabalhadora, divide as horas e minutos da menina em tarefas cuidadosamente cronometradas, na tentativa de ajudá-la a ser aceita na escola. Apesar das boas intenções, porém, ela não percebe que, com tantas obrigações, está fazendo sua filha se esquecer do que significa ser criança.

Pois é para resgatar a infância que surge o personagem do aviador – um velho rejeitado pela vizinhança por fantasiar demais. Um dia, ele dá à menina algumas páginas soltas de desenhos narrando seu encontro com o Pequeno Príncipe, um garoto que vivia num pequeno planeta, amava uma rosa e tinha como melhor amiga uma raposa.

Osborne trabalha com a sensibilidade de quem entende o universo infantil e não menospreza seus espectadores mirins. O livro original é recontado e explorado como uma grande metáfora sobre perda, valores e visões de mundo, numa fantasia fascinante que ajuda a pequena protagonista a encarar seus desafios.

Mesmo para quem não conhece ou não gosta tanto do livro, será difícil passar por “O Pequeno Príncipe” sem derramar pelo menos uma lágrima. O filme dosa pequenos momentos de humor, doçura e drama, sem nunca pesar demais nem ser leve demais. Para as crianças que terão seu primeiro contato com a obra pelo cinema, não há dúvida de que o longa deixará uma marca, como o livro deixou aos seus pais e avós. E elas também mostrarão aos seus filhos quando for a hora.

Texto publicado no Guia da Semana em 16/07/2015.