“Custódia”: drama francês discute violência na separação

Mais um sucesso da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado está chegando aos cinemas para sua rodada no circuito comercial. “Custódia”, drama francês sobre um casal que briga pela guarda do filho mais novo, foi um dos grandes títulos que, ao lado de “Sem Amor” e “O Vale das Sombras”, fez daquela a Mostra das crianças perdidas. Continuar lendo ““Custódia”: drama francês discute violência na separação”

Zumbis à la française

Pessoas comendo pessoas, mortas mas ainda andando pelos cantos, sofrendo espasmos involuntários e caçando como se respondessem a instintos de algum outro animal que não o humano. São zumbis, sem dúvida, que cercam o introvertido músico Sam (Anders Danielsen Lie) no longa de estreia de Dominique Rocher, “A Noite Devorou o Mundo”. Mas não é dos zumbis que ele foge.

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Domingo no sofá: “Eu não sou um homem fácil”

Era domingo à noite e eu vinha pensando em Morgan Freeman, #metoo e Times Up. Pensava em como um homem foi incentivado a vida toda a tratar mulheres como objetos e, de repente, querem descartá-lo como um rolo de papel. Tentei escrever sobre isso, mas não consegui. Então liguei a Netflix e resolvi assistir à comédia francesa “Eu Não Sou um Homem Fácil”, que um amigo indicou.

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Crítica: “O Novíssimo Testamento” é uma comédia ousada e refrescante

Digamos que você não goste desta época pré-Oscar, quando todos os cinemas estão ocupados com filmes cobertos por selos de aprovação hollywoodiana. Ou pior: você simplesmente gosta de filmes mais alternativos e não consegue encontrar luz no fim do túnel em pleno janeiro de férias escolares e pipocões. Não é isso? Então, talvez, você até goste de blockbusters, mas tenha se cansado e resolvido procurar refúgio numa obra um pouco mais… Desafiadora. Não se preocupe, é para isso que estamos aqui.

Se, por qualquer razão, você está procurando alguma coisa diferente para assistir neste final de semana, a dica é a comédia belga “O Novíssimo Testamento”, de Jaco Van Dormael (mesmo diretor de “Sr. Ninguém”, drama com Jared Leto lançado em 2009). O filme conta a história da filha de Deus (isso mesmo) que, cansada da tirania do pai (um homem comum e rabugento, que vive trancafiado no escritório, em sua residência em Bruxelas), decide chacoalhar um pouco as coisas na Terra.

A banalidade com que a divindade é retratada é o que faz o filme ser tão interessante. Primeiramente, Deus mora num apartamento comum, com uma esposa submissa e uma filha pré-adolescente. O filho, como você já deve ter imaginado, saiu de casa há algum tempo, mas a mãe continua colocando seu lugar à mesa.

Tudo começa quando Ea (Pili Groyne), a tal filha, entra escondida no escritório do pai e descobre todas as maldades que ele tem praticado com os humanos, por puro sadismo. Depois de levar uma bronca e uma surra de cinta, ela decide agir: envia a todos os humanos as datas de suas mortes e vai à Terra reunir seis apóstolos e escrever um Novíssimo Testamento (por sugestão do irmãozão, J.C.).

A aventura de Ea tem seus altos e baixos. Acompanhada por um mendigo, ela visita seis pessoas aleatórias (uma delas é interpretada pela atriz Catherine Deneuve) e realiza pequenos milagres, mostrando compaixão por suas histórias, todas marcadas pela solidão. Nesse processo, umas se mostram mais interessantes que as outras e, em alguns momentos, o espectador pode se cansar, mas a surrealidade da situação nunca deixa de martelar, dando novos significados a cada cena. O final, certamente, dividirá opiniões, mas não se pode negar que é ousado.

“O Novíssimo Testamento” coloca algumas questões na mesa além do humor, como, por exemplo, o efeito que a consciência da mortalidade poderia ter nas vidas das pessoas. É curioso pensar que, apesar de sabermos que não somos eternos, nossas ações são pensadas como se vivêssemos para sempre. Numa situação extrema como essa, talvez o trabalho  fosse tirado do jogo, a segurança perderia o sentido e Deus, incapaz de salvar a qualquer um, seria desacreditado ou deixaria de ser fonte de esperança para se tornar, apenas, um consolo.

O filme está em cartaz no Reserva Cultural, em São Paulo, e estreia no dia 28 em cinemas selecionados no Rio de Janeiro.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Gemma Bovery” cria humor inteligente inspirado em romance francês

“Uma mulher banal que se entedia com uma vida banal não é banal”, protesta o protagonista de “Gemma Bovery”, buscando alguma faísca de excepcionalidade em sua monótona vida real. Estaria ele falando da personagem de Gustave Flaubert, Emma Bovary, ou de sua nova vizinha inglesa?

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O novo filme de Anne Fontaine, diretora do memorável “Coco Antes de Chanel”, é uma comédia para quem ama literatura e, como o padeiro Martin (interpretado pelo sempre adorável Fabrice Luchini), também vive procurando semelhanças entre a realidade e seus mundos imaginários – mesmo que isso signifique, às vezes, dar um empurrãozinho na direção certa.

Martin é um parisiense que se mudou com a família para a Normandia (precisamente onde Flaubert escreveu “Bovary”) buscando tranquilidade, mas não encontrou nada parecido com isso. Como ele mesmo descreve, aquele é um lugar onde as pessoas tendem a se suicidar… Ou tomar Calca (uma bebida bem forte). Ou, quem sabe, se envolver nas vidas dos outros.

Quando os novos vizinhos, Gemma (Gemma Arterton) e Charlie (Jason Flemyng) Bovery, chegam para morar na casa ao lado, Martin imagina se a vida da garota não seria parecida com a da personagem da ficção. Logo, a sensualidade da moça e seus instáveis relacionamentos amorosos começam a confirmar sua teoria – despertando o receio de que seu final também seja o mesmo.

O filme instiga a curiosidade e levanta o tempo todo uma desconfiança: será que a vida de Gemma remete à de Emma porque Martin a vê assim, porque ele a influencia para ser assim, ou por alguma semelhança natural e misteriosa? Vale lembrar que Gemma também está lendo o romance enquanto sua história acontece e pode estar sendo impactada por ele.

Reforça essa dúvida o fato de que a história é narrada por um misto de dois pontos de vista igualmente tendenciosos: o de Martin, que faz o papel de narrador, e o de Gemma, cujo diário ele lê. É interessante notar que Luchini revisita aqui uma situação de voyeur semelhante à que vivera no drama “Dentro da Casa”, de François Ozon, mas, desta vez, é ele quem invade a intimidade do outro.

“Gemma Bovery” é mais uma homenagem do que uma adaptação e, ao mesmo tempo em que transporta o espectador para aquele universo literário de Flaubert, também se empenha em quebrar essa ilusão, criando uma ambiguidade que prende a atenção do início ao fim. Uma dica infalível para amantes de livros que procuram um humor inteligente para o fim de semana.

Texto publicado no Guia da Semana em 24/07/2015.

Crítica: “O Que As Mulheres Querem” discute o que significa ser mulher num universo de estereótipos

Estreia nesta quinta (23 de julho) um filme francês chamado “O Que As Mulheres Querem”. Se o nome soa familiar, não se deixe confundir: este não é aquele filme com Mel Gibson que fez sucesso no ano 2000 (“Do Que As Mulheres Gostam”). Aliás, há uma diferença essencial entre os dois: aqui, o protagonista não é um homem tentando compreender o universo feminino, mas são elas mesmas que dominam a tela, vivendo seus conflitos e confusões sem precisarem explicar nada a ninguém.

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O filme é dirigido, escrito e produzido por mulheres e, por mais que centenas de filmes dirigidos, escritos e produzidos por homens sejam vistos pelo público feminino todos os dias, esta não é uma comédia para eles. “O Que As Mulheres Querem” é como uma conversa de bar sobre relacionamentos, trabalho, menopausa e o que significa ser mulher quando o resto do mundo te vê apenas como esposa, mãe, chefe ou amante.

Onze personagens femininas conduzem a história, dividindo escritórios, quartos ou maridos e, eventualmente, se encontrando para rir das próprias situações. Ysis (Géraldine Nakache), por exemplo, é mãe de quatro filhos e está farta de cuidar deles sozinha enquanto seu marido não percebe que também é responsável por eles. Já Inès (Marina Hands) faz uma operação de miopia, só para descobrir que está sendo traída pelo marido com a vizinha de sua colega de trabalho, que esconde o segredo.

Vanessa Paradis se destaca no elenco com o papel de Rose, uma empresária bem sucedida que fica incomodada ao ouvir de seu médico que ela tem “testosterona demais” e que isso explicaria seu cargo, sua postura agressiva e sua dificuldade em criar amizades com mulheres. Enquanto o público se contorce na poltrona diante de tal afirmação, sua história nos mostra que, na verdade, só lhe falta um pouco de prática para reconhecer e cultivar boas amizades em meio a uma rotina tão automatizada.

O filme é dirigido pela atriz Audrey Dana, que estreia no comando de longas-metragens e interpreta uma das protagonistas – uma mulher que prefere ser amante a assumir o papel de esposa oficial. É ela que  aparece na primeira cena e, de cara, expulsa os homens (e algumas mulheres) da sessão com uma sequência (bem curta, felizmente) sobre menstruação.

“O Que As Mulheres Querem” é uma opção divertida e despretensiosa para quem quer fugir das comédias americanas ou nacionais, seja para ver sozinha ou com as amigas. Provavelmente, você irá se identificar com uma personagem, ou com um pouco de cada uma, e secretamente vai acabar rindo de si mesma.

Texto publicado no Guia da Semana em 19/07/2015.

Crítica: emocionante e original, “O Pequeno Príncipe” explora o impacto do livro de Saint-Exupéry em novos leitores

Adaptar uma obra literária para os cinemas é sempre um desafio, mas a tarefa fica ainda mais arriscada quando a obra original é um livro infantil, francês, escrito nos anos 40, que praticamente todo o público adulto já leu ou teve algum contato na infância.

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É por isso que “O Pequeno Príncipe”, animação de Mark Osborne que estreia em agosto e será exibida no festival Anima Mundi, é tão valiosa: Osborne (“Kung Fu Panda”) não tenta apenas transpor a obra para a tela da forma como a conhecemos, mas cria uma história completamente nova a partir de sua própria experiência com o livro.

“Ganhei meu primeiro exemplar há mais de vinte anos da minha esposa”, conta o diretor. “Na época, éramos namorados e eu estava me mudando para estudar animação, então o livro veio como uma lembrança de que estaríamos juntos, mesmo à distância. Foi essa mensagem que eu quis passar para o filme.” Osborne também revela que se inspirou na filha para a personagem da “menina” (sem nome) e usou as risadas do filho para o Pequeno Príncipe (que podem ser ouvidas mesmo na versão dublada).

O filme conta duas histórias paralelas e utiliza duas linguagens para isso: na história “real”, focada na menina e no aviador, a animação é em CGI; já na imaginação, onde vive o Pequeno Príncipe, é usado stop-motion. A inclusão de novos personagens e a ampliação da trama original ajudam a atualizar as questões do livro de Saint-Exupéry e inserir críticas ao modo de vida contemporâneo.

A protagonista é uma menina que acaba de se mudar e está prestes a entrar numa escola muito rígida. Sua mãe, solteira e trabalhadora, divide as horas e minutos da menina em tarefas cuidadosamente cronometradas, na tentativa de ajudá-la a ser aceita na escola. Apesar das boas intenções, porém, ela não percebe que, com tantas obrigações, está fazendo sua filha se esquecer do que significa ser criança.

Pois é para resgatar a infância que surge o personagem do aviador – um velho rejeitado pela vizinhança por fantasiar demais. Um dia, ele dá à menina algumas páginas soltas de desenhos narrando seu encontro com o Pequeno Príncipe, um garoto que vivia num pequeno planeta, amava uma rosa e tinha como melhor amiga uma raposa.

Osborne trabalha com a sensibilidade de quem entende o universo infantil e não menospreza seus espectadores mirins. O livro original é recontado e explorado como uma grande metáfora sobre perda, valores e visões de mundo, numa fantasia fascinante que ajuda a pequena protagonista a encarar seus desafios.

Mesmo para quem não conhece ou não gosta tanto do livro, será difícil passar por “O Pequeno Príncipe” sem derramar pelo menos uma lágrima. O filme dosa pequenos momentos de humor, doçura e drama, sem nunca pesar demais nem ser leve demais. Para as crianças que terão seu primeiro contato com a obra pelo cinema, não há dúvida de que o longa deixará uma marca, como o livro deixou aos seus pais e avós. E elas também mostrarão aos seus filhos quando for a hora.

Texto publicado no Guia da Semana em 16/07/2015.

ADEUS, MINHA RAINHA

Dentre todos os filmes franceses em cartaz no Festival Varilux (um apanhado de 15 longas atuais, exibidos até o dia 9 em São Paulo e 16 em outras cidades), “Adeus, Minha Rainha” talvez fosse um dos menos atraentes à primeira vista. Queria ver “O Menino da Floresta”, “Anos Incríveis”, “Camille Claudel 1915”… Não mais um romance de época inspirado na figura supersaturada de Maria Antonieta, a rainha austríaca que se casou com Luís XVI e assumiu o trono da França no século XVIII, até ser decapitada durante a Revolução Francesa.

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Mas a oportunidade surgiu e lá fui eu conhecer a intimidade da corte de Versalhes pelo olhar da jovem e ingênua Sidonie Laborde (Léa Seydoux). Ingênua talvez não seja a palavra, mas cega por um misto de amor platônico e desejo por ascensão social: ela cobiça o coração da rainha, de quem já ganhou confiança suficiente para ouvir confidências e frequentar seu quarto – Sidonie é a leitora oficial de Antonieta (Diane Kruger, sedutora e gélida ao mesmo tempo).A literatura poderia ter sido melhor aproveitada no filme, mas vamos deixar essa passar.

No início, acompanhamos o trabalho da garota: escolher os romances mais adequados ao humor da rainha, ler revistas de moda e até bordar uma Dália para seu próximo vestido. Sidonie tropeça duas vezes no caminho para encontrá-la e não é ajudada por ninguém. Já sabemos o que isso indica, não é mesmo? Ainda assim, insistimos em torcer por Sidonie.

Enquanto correm as fofocas do castelo (seria a duquesa Gabrielle amante da rainha? Teria ela manipulado Antonieta para conquistar privilégios?), explode em Paris uma revolta popular, com a tomada da Bastilha e a divulgação de uma extensa lista de cabeças a cortar – da qual ninguém está livre. A tensão está, literalmente, nos corredores insones do palácio.

Alguns personagens sobram na trama, como o garoto da barca ou a amiga que pega emprestado o pomposo relógio de ouro de Sidonie – tudo leva a crer que o objeto seria essencial para alguma reviravolta, mas… Não. Também é frustrado nosso desejo macabro de ver algum sinal da guilhotina, destino certo de tantos daqueles rostos assustados. Mas Benoît Jacquot, o diretor (que veio ao Brasil divulgar a obra), prefere explorar o suspense e revelar pouco. Por isso, talvez, tenha escolhido uma personagem tão pouco privilegiada para nos guiar pela história: apesar de ter seus contatos e espiar por certas portas, a criada tem mais dúvidas do que respostas, e nós também.

A futilidade da rainha não impede o público de se sentir tocado pelo seu drama pessoal: ela é casada com o rei e mãe de seus filhos, mas a relação entre os dois não passa de um acordo. Sua verdadeira paixão, uma mulher, parece estar se aproveitando de sua posição e não, realmente, correspondendo aos seus sentimentos… Mas Maria Antonieta não é qualquer mulher inocente… E deveríamos nos lembrar disso antes de torcer por ela.

DENTRO DA CASA

Tem coisas que, mesmo depois de tantos anos de globalização, só o cinema francês consegue compreender e expressar com arte. Coisas como aqueles sentimentos reprimidos com os quais ainda não sabemos totalmente como lidar. Coisas como o vouyeurismo – esse desejo inexplicável de saber o que se passa na intimidade do outro e, mais até do que isso, de penetrar essa intimidade, de se fazer parte dela por um instante que seja. Não estamos falando de BBB ou reality shows que de reais não têm nada: em “Dentro da Casa”, filme que estreia nesta sexta-feira (29/03) nos cinemas, François Ozon vai fundo na invasão de privacidade e toca nossos medos mais primitivos.

Fabrice Luchini (o marido impagável de Catherine Deneuve em “Potiche: Esposa Troféu”, dirigido por Ozon) é Germain, um professor de francês que despreza os textos de seus alunos e não hesita em distribuir notas baixas ou expor os erros dos adolescentes em sala de aula. Tudo em nome da boa literatura, ou ao menos é o que diz. Ele é casado com Jeanne (Kristen Scott Thomas), dona de uma galeria de arte contemporânea, e ridiculariza esse conceito sem piedade – ideias não vendem, afinal. O que conta é a beleza da obra, é o efeito.

Germain encontrará essa beleza na narrativa de um aluno até então desconhecido por ele: Claude Garcia (Ernst Umhauer). 16 anos, bonito, tímido, extremamente habilidoso com as palavras e observador. Bastam dois episódios – cada um com pouco mais de uma página, entregues como lição de casa falsamente despretensiosa – para que Germain seja fisgado e decida ajudar o garoto a completar sua história, mergulhando ele também nas tentações vouyeurísticas do jovem escritor.

O conteúdo dos textos preocupa Jeanne: Claude narra suas visitas à família do colega Raphael, um menino de classe social mais alta cuja casa ele observara durante todo o ano anterior e por cuja mãe ele desenvolve uma paixão platônica. Umhauer lembra os meninos-fetiche do cinema francês (Antoine Doinel, Louis Garrel)  e arranca arrepios ao extrair diferentes camadas do seu personagem: um jovem sedutor à primeira vista, que aos poucos se revela frio e matemático, mas também inseguro e carente, depois cruel e vingativo. Nunca sabemos o que esperar de Claude (exceto na previsível sequência na casa de Jeanne, perto do final), nem se simpatizamos ou não com ele.

Talvez o que sentimos seja medo… Ou uma pontinha de vontade de olhar para os lados e ver se não há ninguém na porta, espiando entre as frestas. Ou, quem sabe lá no fundo, uma vontade ainda maior de abrir a janela e olhar de novo para aquelas cortinas entreabertas do apartamento ao lado, onde alguém se prepara para sair. Aonde estará indo? O que estará pensando? Quem será? Podemos inventar sua vida inteira, imaginá-la ou melhorá-la em palavras… Fazer literatura da vida cotidiana. Fazer cinema com palavras.

Margueritte: um filme doce sobre a velhice

Margueritte – com dois “t”s, porque seu pai gaguejou no cartório – é uma senhorinha magricela devoradora de livros e corajosa o suficiente para puxar conversa com um grandalhão no banco do parque. Fora das telas, ela é Gisèle Casadesus: atriz francesa com mais de 70 anos de carreira no teatro, cinema e televisão e membro honorário da Comédie Française (uma das instituições teatrais mais tradicionais do mundo). Em 2010, aos 96 anos, deu vida à protagonista de “Minhas Tardes com Margueritte” e, de lá para cá, já trabalhou em outros três longas, dois curtas e um especial para televisão.

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Apesar da lucidez, a realidade das duas mulheres tem pouco em comum. Margueritte não pode mais trabalhar: foi afastada pela família para um lar de idosos (caríssimo e muito bom, mas solitário como todos) e está prestes a perder a visão e, com ela, seus livros. Além dela, outra senhora também vive momentos difíceis no filme de Jean Becker: a mãe de Germain (o grandalhão de quem falamos antes), cujo nome não sabemos, que está ficando caduca.

“Minhas Tardes com Margueritte” não é um drama, nem um filme tapa-na-cara sobre a velhice como “Amour”, de Michael Haneke ou “Poesia”, de Chang-dong Lee. É um romance feel-good, que mostra o crescimento de um homem pouco educado por meio da figura materna (materializada em Margueritte) e da literatura. Germain talvez não seja tão bruto quanto deveria, mas talvez a intenção não fosse essa, e sim mostrar alguém simples, feirante, que sempre foi menosprezado, mas nunca reagiu com rancor. Falta-lhe, apenas, a cultura da delicada senhora, para que seja uma pessoa feliz.

Apesar de exageradamente otimista, “Margueritte” é um filme poético. Sua mensagem não é a crítica social, mas o elogio à leitura e à língua francesa (Albert Camus é um dos autores lembrados). Prova disso é o título original “La Tète em Friche”, que significa algo como “a cabeça desperdiçada”, referência à grande capacidade de imaginação de Germain, que jamais leu um livro. A obra é baseada no livro homônimo de Marie-Sabine Roger e traz, na cena final, um trecho de poesia que fecha com graça os curtinhos 82 minutos de filme.