De volta para casa: drama italiano para ver de graça em junho

Desde maio, o Belas Artes à la Carte vem oferecendo uma programação bem bacana de filmes italianos de graça na sua plataforma, em parceria com o Instituto Italiano de Cultura de São Paulo. Com o nome de Cine Clube Italiano, o evento exibe um filme por mês, que fica disponível por uma semana para assinantes e não-assinantes. É isso aí: de graça, online e pra todo mundo! Melhor não fica, né?

Em junho, o filme escolhido é o drama com um toquezinho de suspense De volta para casa, da diretora Cristina Comencini, de 2019. Ele ficará em cartaz entre os dias 4 e 10, com direito a um bate-papo especial no dia 9, às 18h30, com o crítico Miguel Barbieri Jr. e o gerente de inteligência do grupo Belas Artes, Léo Mendes.

Não sei bem o que me atraiu para esse filme, mas, desde que bati o olho nas primeiras imagens, fiquei interessada. Talvez tenha sido a descrição da protagonista, Alice (Giovanna Mezzogiorno), como uma jornalista de 40 anos que se reconecta com seu passado numa cidadezinha litorânea. Ou talvez tenha sido a beleza do lugar, da luz, do figurino e dos olhares meio receosos dessa mulher que hesita em lembrar de quem um dia já foi. 

Na verdade, a profissão se mostra irrelevante para a história, mas todo o resto fez jus às impressões iniciais: sob o sol italiano, vibrante e límpido como se quisesse revelar mais claramente cada movimento, essa mulher revisita momentos-chave de sua infância e juventude. Percorrendo cômodos e refazendo percursos, ela tenta entender quando foi que aquela garota alegre e despreocupadamente sedutora se perdeu, dando lugar à profissional distante, mãe, divorciada e cheia de preocupações e medos que vemos agora.

Il trailer di Tornare, il nuovo film di Cristina Comencini arriva on demand

Alice retorna a Nápoles para enterrar o pai, com quem não tinha a melhor das relações. Apesar disso, um homem desconhecido aparece no velório e diz a ela que seu pai tinha muito orgulho, sim, e que falava frequentemente da filha. Ele se apresenta como Mark, e conta que tinha sido contratado para ler para o idoso nos últimos seis meses de sua vida. 

É curioso como, desde o início, o filme nos deixa com um pé atrás, mas não sabemos ao certo por quê. Alice e sua irmã, por exemplo, parecem estranhar a informação de que seu pai fosse um grande apreciador de livros, mas ninguém volta a tocar no assunto. Logo, a irmã volta para sua cidade, Alice fica sozinha no casarão da família e é aí que a jornada realmente começa.

Atribuo um “toquezinho” de suspense à obra porque, apesar de apresentar um senso mais forte de perigo nas sequências finais, o filme trabalha muito mais o drama psicológico, explorando o lado terapêutico do retorno a um local do passado. A forma como Comencini escolhe mostrar esse retorno é delicada e fascinante: ela coloca Alice literalmente em diálogo com suas versões mais jovens – uma Alice adolescente, de 18 anos, e uma criança. Assim, a protagonista não apenas assiste às suas memórias, mas participa ativamente delas, trocando conselhos com suas outras Alices e descobrindo detalhes que já estavam há muito esquecidos.

A história se revela aos poucos, em pequenos comentários como os de moradores da cidade que lembram da rebeldia da jovem Alice, ou o de uma freira que lamenta a saída precoce da estudante. O que aconteceu ali é o que nós e Alice queremos descobrir, mas os fatos são apenas representações de uma discussão muito maior. Uma discussão sobre homens e mulheres – homens maus, homens bons, mulheres livres e aprisionadas, pais e filhas, maridos e esposas. A diretora, que assina o roteiro ao lado de Giulia Calenda, questiona o discurso de proteção que se impõe sobre meninas e mulheres (especialmente nos anos 60 daquelas memórias) e convida o espectador a encarar o lado podre dessa crença. Afinal, protegida de quê? De quem? Emerald Fennell, diretora e roteirista de Bela Vingança, teria muito a conversar com Comencini.

CINE RETRÔ: CINEMA PARADISO

No ano em que Quvenzhané Wallis desponta como a mais jovem atriz a ser indicada ao Oscar, aos nove anos de idade (tendo rodado “Indomável Sonhadora” aos seis), outro ator mirim me vem à mente como um dos mais cativantes do cinema. Salvatore Cascio tinha, também, nove anos quando emprestou seus sorrisinhos arteiros ao pequeno Salvatore di Vita, o “Totó”, e assumiu a sala de projeção do Nuovo Cinema Paradiso.

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O clássico de Giuseppe Tornatore ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1990, mas se passa nos anos 40 e tem grande parte de suas cenas pinceladas dos anos 30, com referências que vão de Charles Chaplin a Jean Renoir. O branco-e-preto se mistura harmoniosamente ao tom pastel empoeirado da pequena vila de Giancaldo, na Sicília, onde vivem Totó, o rabugento projetista Alfredo (Phillipe Noiret em performance memorável), a mãe distante (Antonella Attili) e toda uma vizinhança caricata que se reunia no cinema para viver todas as emoções que se havia para viver ali, em tempos ralos de pós-guerra.

A história se passa em três períodos, indo da infância de Totó (quando ele espiava as sessões particulares exibidas para o padre, que então estabelecia a censura sobre beijos e nudez), à adolescência já como projetista (quando se apaixona por Elena, relação mais explorada na versão estendida do DVD), até a meia-idade, 30 anos depois, quando o cinéfilo se tornou um diretor de sucesso e volta a Giancaldo para o funeral de Alfredo.

Acusado de ser melodramático demais por alguns críticos da época, “Cinema Paradiso” fez, realmente, muita gente chorar. A técnica de retomar um elemento do início e, após revisitar toda a vida do protagonista, fazê-lo chorar como criança diante daquele detalhe esquecido, é infalível. E a beleza da cena final, se não arranca lágrimas, abre um sorriso fácil no rosto de qualquer amante do cinema.

A relação de amor-com-espinhos, que sempre volta a aparecer nas telas, é o centro desse drama saudoso: Alfredo ama Totó, mas quer vê-lo independente, longe dali e longe dele. Totó ama Alfredo, mas o respeita tanto que segue seu conselho, sem entender, talvez, que o velho amigo estivesse falando apenas da boca para fora. No final, é sempre tarde demais, tudo mudou. Como diz o amargurado projetista, é preciso ficar muitos anos longe da sua origem para conseguir reconhecê-la e sentir a verdadeira nostalgia, sem a tentação de voltar atrás. É preciso desapegar, saltar, cortar o cordão umbilical sem piedade. Assim, o passado será sempre belo como a lembrança daqueles beijos censurados no antigo Cinema Paradiso.