Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão

Pedro não gosta de lugares públicos. Apesar disso, todas as quintas-feiras ele liga sua webcam e dança nu, banhando-se em tinta neon e tocando seu corpo colorido para uma plateia fiel e pagante. O vencedor do Festival do Rio e do Teddy Awards (troféu voltado para filmes queer no Festival de Berlim), “Tinta Bruta”, finalmente chega aos cinemas brasileiros no dia 6 de dezembro trazendo essa história melancólica e quase trágica para brilhar na tela. Isso, se o público estiver pronto para ela. Continuar lendo “Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão”

O Doutrinador: graphic novel brasileira chega aos cinemas pingando sangue

“Serial killer ou justiceiro?”. A frase, que aparece brevemente como a manchete de um jornal fictício no longa “O Doutrinador”, resume bem a questão que se coloca na tela (e nas ruas): afinal, vale tudo no combate à corrupção? Continuar lendo “O Doutrinador: graphic novel brasileira chega aos cinemas pingando sangue”

Crítica: apesar das expectativas, “O Escaravelho do Diabo” não consegue deixar sua marca

Se você está lendo este texto, provavelmente já ouvir falar em “O Escaravelho do Diabo”. O longa, que chega aos cinemas no dia 14 de abril, é a adaptação de um dos maiores clássicos juvenis brasileiros, publicado inicialmente em 1953 por Lúcia Machado de Almeida, depois incluído na Coleção Vaga-Lume em 1972 e reeditado infinitamente (27 vezes, na verdade) de forma que, praticamente, todas as gerações já tiveram algum contato com ele.

O filme toma algumas liberdades, mas tenta manter a atmosfera de suspense da obra original. A história, em geral, é a mesma: um assassino em série está atacando ruivos numa cidade do interior e, antes de matar cada alvo, envia a ele um escaravelho. Quem investiga o caso é o irmão da primeira vítima, Alberto (Thiago Rosseti), que, no filme, é um garoto de 12 anos.

Esta é uma das principais diferenças em relação ao livro, já que o protagonista costumava ser um estudante de medicina, bem mais velho. Talvez a intenção seja que, na tela, as crianças se identifiquem com alguém da idade delas, mas é questionável se isso funcionará ou não com um personagem tão apático.

Após ver o irmão morto, por exemplo, o garoto tem uma conversa com o delegado Pimentel (Marcos Caruso) que só pode ser descrita como surreal: ele não apenas mostra que não entendeu o que aconteceu (um sinal de choque, mas pouco convincente na cena), como não se enraivece quando o policial o aborda de forma totalmente insensível. Mais tarde, Alberto será mostrado como um jovem de instinto investigador, mas suas pesquisas sobre o assassino terão pouca ou nenhuma relevância para o desenvolvimento da história.

O filme sofre um pouco com atuações caricatas (herança, sem dúvida, do passado novelesco do diretor), mas sua maior fraqueza é outra: para um suspense de assassinatos, o assassino, simplesmente, não dá medo. Ele é, sim, apresentado como um louco de sangue frio, que mata sem hesitar (o que, provavelmente, é culpado pela classificação de 12 anos), mas, quando finalmente podemos vê-lo em seu “habitat” ou conhecemos seu passado, as visões são, apenas, bizarras – com direito a grunhidos, contorções e fantasias que caberiam melhor a um filme de público-alvo bem abaixo desses 12 anos.

“O Escaravelho do Diabo” não é uma adaptação ruim, mas deve funcionar para uma parcela pequena do público. Algumas cenas são fortes demais para crianças menores, ao mesmo tempo em que o filme não é desafiador o suficiente para as mais velhas. Para os pais, não será nenhuma tortura (nós sabemos o que vocês passam…), mas também não será especialmente estimulante. Infelizmente, um dos filmes mais esperados do ano deverá, simplesmente, passar batido.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “Sinfonia da Necrópole” ganha pontos pela ousadia, mas desaponta no roteiro

Dois anos depois de circular pelos principais festivais de cinema no Brasil e acumular certa fama cult, finalmente chega aos cinemas o ousado “Sinfonia da Necrópole”, comédia musical de humor negro escrita e dirigida por Juliana Rojas (“Trabalhar Cansa”).

Se você não costuma gostar de musicais (este é um gênero de amor e ódio, afinal), é melhor passar longe. Números cantantes e dançantes pipocam a cada poucos minutos e a qualidade musical – principal motivo de rejeição a esse tipo de filme – não impressiona. Se o que lhe interessa é a comédia, então talvez valha dar uma chance.

“Sinfonia da Necrópole”, justiça seja feita, tem sua graça. Quase todo filmado no cemitério do Araçá, em São Paulo, o filme conta a história de um aprendiz de coveiro medroso e sensível chamado Deodato (Eduardo Gomes), que entra em conflito quando a administração decide remanejar as ossadas para dar lugar a uma grande reforma.

Quem entra em cena para realizar a mudança é Jaqueline (Luciana Paes), paulistana durona que tenta manter o colega afastado, mas acaba se envolvendo (porque, afinal, um homem e uma mulher na tela necessariamente têm que se interessar um pelo outro). Profissional, ela evita pensar nos mortos e faz seu trabalho de forma prática e eficiente – abrindo caixões e colocando os ossos em sacos plásticos.

Todo esse ambiente mórbido cria no espectador a ansiedade por ver o que acontecerá com Deodato quando, a pedido do chefe, ele fica no cemitério à noite como vigia. Como esperado, os mortos se levantam (e cantam, e dançam), mas é aí que os problemas começam.

O roteiro de Rojas é desesperadoramente inacabado. Se os cadáveres fazem um pedido ao protagonista, seria natural que suas ações a partir daí fossem guiadas pela aceitação ou recusa desse pedido, e que isso tivesse consequência no destino do cemitério – mas nada disso acontece.

Outros elementos também são inseridos sem o devido desenvolvimento: Deodato ganha uma gaita e nunca a utiliza; um personagem insiste que quer morrer e, quando isso finalmente acontece, sua partida não diz nada; outro personagem é apresentado como um inimigo do cemitério, mas suas desavenças jamais são explicadas. Etc, etc, etc.

Outro problema do longa é que ele se aproxima demais do teatro, fazendo de seus números musicais exibições óbvias de maquiagens verdes, roupas rasgadas e gelo seco. Há, ainda, uma tendência forte para o trash – o que, de certa forma, justifica a teatralidade e a aparência de filmagem caseira, mas não melhora o roteiro esburacado.

“Sinfonia da Necrópole” estreia no dia 14 de abril e deve dividir opiniões. A boa notícia é que o filme é curto: em apenas 85 minutos, você já poderá tirar suas próprias conclusões – só não diga que não avisamos.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: romântico e bem humorado, “De Onde Eu Te Vejo” explora as relações entre espaços e memórias

Ana e Fábio estão casados há vinte anos e decidem se separar. Os dois ainda são amigos e ela, inclusive, ajuda a organizar o apartamento para onde ele se muda. O problema é que ele fica, literalmente, em frente ao seu.

De Onde Eu Te Vejo” é um filme diferente, como se percebe quando seus protagonistas começam a gritar pelas janelas. Dirigido por Luiz Villaça, o longa flerta com a comédia, o romance e o drama, mas não se encontra em nenhuma das categorias. Se for para rotular, sugere o diretor, então que seja “comédia sentimental”. Que seja.

Comédia ou não, o fato é que o filme toca em muitas notas emocionais, especialmente para o público paulistano. Ao contrário de outros títulos que tentaram exaltar a cidade, este não se esforça demais para captar estereótipos e cartões-postais, mas mostra a São Paulo de quem vive sua arquitetura: no lugar do MASP, a Praça do Ciclista; no lugar do Teatro Municipal, o Marabá.

Denise Fraga e Domingos Montagner interpretam o casal em crise, com um misto bem dosado de humor e seriedade. Entre suas enormes janelas de Higienópolis, eles trocam farpas, guardam segredos, provocam ciúmes e compartilham a dor pela partida da filha, que vai estudar em Botucatu.

É Ana (Fraga) quem narra a história, conversando às vezes diretamente com o público e invocando memórias conforme lhe convém. A memória, aliás, é algo tão importante no filme que percorre todos os elementos – o casamento, a cidade, os cinemas de rua, uma cantina italiana. A destruição e a construção do novo são mostrados como forças inevitáveis, mas, ao mesmo tempo, os personagens lutam para resgatar sua história, sempre conectada com lugares específicos.

É interessante notar que os protagonistas são, na verdade, estrangeiros: Ana veio do Rio para ser arquiteta, enquanto Fábio (Montagner) veio de Ribeirão Preto para ser jornalista. Ele ainda trabalha num jornal tradicional no centro da cidade, mas ela abandonou o sonho e agora negocia com casas tradicionais para que sejam demolidas e deem lugar a prédios. Que ironia, não?

Um dos pontos fortes do longa de Villaça é que tudo tem uma função narrativa. Se Ana vive uma frustração profissional, é porque isso muda sua relação com a cidade e, consequentemente, com o próprio casamento. No caso de Fábio, a escolha pelo jornalismo impresso também não é arbitrária: a profissão vive uma crise que dialoga de perto com os temas do filme: tempo, transformação, adaptação.

Três outros personagens ajudam a dar leveza à história e prometem competir pelo posto de queridinhos do público. Marisa Orth está impagável como a jornalista Olga, paulista clássica que ama e odeia seu trabalho; Manoela Aliperti (que já provara sua química com Fraga na série “Três Teresas”, da GNT) rouba a cena no papel de Manu, a filha-conselheira de Ana e Fábio; e Marcello Airoldi interpreta o inesquecível pretendente de Ana, mistura de romântico e perseguidor levemente desequilibrado.

Outro ponto alto é o roteiro, assinado por Leonardo Moreira e Rafael Gomes. Graças à dupla, a narração nunca soa excessiva e algumas passagens tendem a ficar na memória por muito tempo – desafio o leitor, por exemplo, a não pensar na “trilha sonora do mundo” quando pisar fora do cinema.

Tudo isso, embalado por uma trilha executada no violão (outro elemento que remete à memória), faz com que “De Onde Eu Te Vejo” seja uma das melhores surpresas do cinema nacional recente. Romântico e engraçado, o filme se distancia das comédias românticas “água-com-açúcar” por não fazer escolhas óbvias e trabalhar seus personagens com densidade. É impossível não se identificar e é ainda mais difícil não sair apaixonado.

Texto publicado inicialmente no site Guia da Semana.

Crítica: “Reza a Lenda” leva ação e adrenalina ao sertão nordestino

Muito tem mudado no cinema brasileiro nos últimos anos. À medida em que o Brasil foi se tornando mais relevante no cenário político mundial e o acesso às informações e à cultura foram se democratizando, mais o cinema foi se permitindo absorver referências externas, se arriscando em técnicas até então pouco utilizadas por aqui e criando misturas que não são por isso menos brasileiras, mas sim mais universais.

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Reza a Lenda” é um filme 100% nacional que mistura ação, faroeste, fantasia e drama sertanejo, como se o Grande Sertão Veredas encontrasse Mad Max, com um twist místico particular. O filme acompanha Ara (Cauã Reymond), Severina (Sophie Charlotte) e toda a sua gangue de motoqueiros numa jornada pelo deserto em busca de um milagre: eles precisam levar a estátua de uma santa para o altar correto para que ela faça chover.

A crença religiosa é um dos pilares do filme e faz um contraponto curioso à adrenalina das motos e da violência. Esses personagens não são movidos pela sede de sangue, apesar de serem bastante habituados a ela, mas sim pela fé. O que fazem, por mais pecaminoso que seja, é por um bem maior – o que dá a eles certo caráter heroico.

Quem se une ao grupo logo no início da aventura é Laura (Luisa Arraes), uma garota da cidade que viajava de carro pela região e acaba se tornando prisioneira. Não fica claro por que a gangue não a deixa ir embora no início, nem por que ela desenvolve uma atração por Ara (isso, simplesmente, soa errado), mas ela terá uma função importante na história, levando o protagonista à sua revelação final.

A chegada de Laura também provoca reações transformadoras em Severina: forte e confortável em sua posição de vice-chefe do bando, ela nunca havia experimentado o ciúme nem as inseguranças que vêm com ele. Charlotte abraça a personagem com unhas e dentes e entrega uma Severina intimidante, ágil e impaciente como um bicho do mato, mas feminina em seus poucos momentos de paz. A forma como ela se irrita e se desespera diante da possibilidade de perder “seu homem” fala mais sobre o desconhecimento dos próprios sentimentos e sobre seu instinto de sobrevivência do que sobre amor.

Quem também ganha destaque aos poucos é o personagem de Jesuíta Barbosa, Pica-Pau. Misterioso e reservado no início, ele acaba se rendendo ao ódio depois da morte de uma colega e tem seu ápice numa cena de tiroteio perto do final. Completa o elenco principal o vilão vivido por Humberto Martins, um coronel sanguinário que se considera dono da imagem da santa e jura vingança quando ela é roubada pela gangue.

O cuidado com a produção visual é um dos pontos altos do filme: os figurinos, por exemplo, misturam a crueza de camisetas rasgadas com a rigidez do jeans e do couro – improváveis num cenário desértico, mas coerentes com o universo do motociclismo. Cabelo e maquiagem, da mesma forma, fogem do padrão “impecável” para investir em visuais despenteados, sujos e pesados.

“Reza a Lenda” acerta ao inserir uma pegada pop ao cenário nordestino, mas esbarra em limites técnicos no que diz respeito à ação. Algumas cenas dependem demais de objetos recriados em 3D (como carros e motos) e acabam destoando do resto, fazendo com que pareçam falsas. Cenas de tiroteios também poderiam equilibrar melhor o close-up nos atiradores (usado à exaustão) com tomadas mais panorâmicas e que mostrassem melhor as vítimas. Afinal, a ideia é mostrar um ambiente violento.

Também incomoda um pouco o personagem de Martins, mais engessado que os demais. Sua apresentação se dá por meio de uma história tenebrosa, mas que perde todo o impacto ao ser contada com o timing errado. Também não são muito convincentes suas demonstrações de maldade, apesar de seu método (pendurar cabeças em balões de São João) ser bastante interessante – talvez essa ligação com a festa pudesse ser melhor explorada, revelando uma outra camada do personagem.

“Reza a Lenda” é um filme imperfeito, mas forte. Gestado por 20 anos na imaginação do diretor e roteirista Homero Olivetto, o longa traz referências daquele tempo tanto quanto deste, o que lhe dá um ar atemporal. O que poderia parecer pretensioso ou pouco original – uma ação hardcore num cenário desolado – não é, e inclusive surpreende o quanto o filme tem personalidade. O que lhe falta é tecnologia, um vilão mais forte e, talvez, uma ou outra virada diferente para que o final fosse mais impactante. Mas o caminho é esse.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Que Horas Ela Volta?, Straight Outta Compton e o que Matt Damon não entendeu sobre diversidade

O mundo mudou. Há quem não consiga acompanhar as novidades, mas acreditar que a humanidade é caucasiana, que lugar de mulher é na cozinha ou que o mundo é dividido entre ricos e pobres, cidadãos e estrangeiros, é viver ao lado dos dinossauros. E 2015 está provando isso como nunca. Continuar lendo “Que Horas Ela Volta?, Straight Outta Compton e o que Matt Damon não entendeu sobre diversidade”

Crítica: “Que Horas Ela Volta?” discute conflito de classes com um misto de drama e humor

A relação entre empregadas e seus patrões, e entre elas e as crianças que acabam criando enquanto os pais trabalham fora, estão no centro das discussões no cinema mundial. O singapuriano “Quando meus pais não estão em casa” e o brasileiro “Casa Grande” já abordaram o tema no início do ano e, agora, “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, coloca novamente o dedo na ferida.

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Regina Casé vive a empregada Val no filme que estreia no dia 27 de agosto nos cinemas brasileiros, depois de ser premiado nos festivais de Berlim e Sundance. Ela trabalha para uma família paulistana há mais de dez anos e, apesar de morar com os patrões, eles nunca se interessaram em saber muito sobre ela. Sua relação mais próxima é com o menino, Fabinho (Michel Joelsas), que confia nela para guardar segredos e dividir o colchão em noites de insônia – mas nem mesmo ele parece querer conhecer melhor aquela figura pernambucana.

A comodidade das relações superficiais se rompe quando Val anuncia que sua filha, Jéssica (Camila Márdila), com quem não se encontra há muitos anos, está indo a São Paulo para prestar o vestibular. Sem casa própria, a empregada é obrigada a trazê-la para a casa dos patrões, pelo menos até as provas acabarem.

O que começa como uma hospedagem fria, mas revestida de falsidade, evolui aos poucos para uma hostilidade aberta entre a dona da casa, Bárbara (Karine Teles), e a visitante Jéssica, que se revolta com a situação de servidão da mãe e não pensa duas vezes antes de ocupar o quarto de hóspedes, mergulhar na piscina ou comer aquela última colherada do sorvete do Fabinho.

Muylaert é tendenciosa: sua família rica não é apenas rica, mas também esnobe, cega e infeliz, o que torna o contraste com Val e Jéssica muito mais gritante. Não basta haver um incômodo, é preciso que a mãe seja uma crápula, o pai um tarado e o filho um mimado, para usar palavras tão estereotipadas quanto seus personagens.

Mãe e filha, em contraposição, são personagens complexas, que questionam uma a outra o tempo todo e aprendem com suas ações. É significativo, também, que a diretora/roteirista tenha escolhido Arquitetura como a profissão desejada por Jéssica: ao mirar uma das maiores notas de corte da Fuvest, a menina ganha algum prestígio na casa, como se isso a colocasse numa espécie de “elite intelectual” que compensasse sua posição social, ao contrário da mãe.

“Que Horas Ela Volta?” expande a discussão para temas como maternidade e família, tomando o cuidado de manter um tom bem humorado durante a maior parte do filme. No fim, as duas horas passam sem esforço, com algumas risadas, alguma indignação e uma reflexão para levar para casa.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

“Ponte Aérea” explora romance descomplicado entre carioca e paulistana

Num momento em que o cinema nacional vem se expandindo e abraçando novos gêneros, Julia Rezende apresenta seu singelo romance do cotidiano, “Ponte Aérea”. Focado numa classe média Rio-São Paulo, o filme aposta numa linguagem natural, sem excessos ou afetações, emoldurada por uma fotografia limpa e delicada.

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Bruno e Amanda, interpretados por Caio Blat e Letícia Colin, são como uma versão moderna de Eduardo e Mônica: ele é carioca; ela, paulistana. Ele dá dois beijinhos; ela vai de calabresa sem queijo. Ele vive de chinelo; ela de salto alto. Os dois são criativos, pois é preciso que tenham algo em comum – mas ele faz sua arte no quintal; ela, no escritório.

A dupla se conhece durante um desvio de rota de um avião que vem do Rio para São Paulo. Obrigados a passar a noite num hotel, eles tomam uma cerveja juntos e vão para a cama – sem compromisso. Depois, acabam se encontrando novamente em São Paulo e, depois, no Rio, até engatarem num namoro à distância cheio de idas e vindas.

O filme capta a relação dessa geração de vinte e tantos anos com o sexo com um olhar fresco e sem drama: há o do primeiro encontro, há o casual entre amigos, há o sem sentimento e o com sentimento. A diretora só mostra algo mais agressivo numa única cena, que não chega a pesar mais do que o necessário e tem uma função importante na construção emocional de um dos personagens.

O longa segue uma fórmula de comédias românticas, mesmo sem investir na comédia: o casal se conhece, tem um primeiro envolvimento, depois se afasta, se aproxima novamente, vive uma fase feliz, eventualmente se separa e passa por diversos desentendimentos até resolver ficar junto de vez – ou não.

As histórias paralelas ajudam a conduzir o romance entre Bruno e Amanda. Enquanto ele lida com o pai internado e um meio-irmão recém conhecido, que de repente o vê como figura paterna, ela se esforça para provar ao chefe que mereceu sua promoção, criando uma campanha publicitária que fuja do lugar comum.

O filme falha um pouco no ritmo, especialmente nos diálogos, mas acerta na dosagem de “piadas internas” e deve agradar a uma variedade grande de espectadores. Paulistanos e cariocas com certeza vão se divertir com as pequenas rixas entre os dois estilos de vida, publicitários vão se enxergar em algumas referências e jovens em início de carreira, em geral, encontrarão algo para se identificar com esses dois protagonistas.

“Ponte Aérea” estreia nos cinemas no dia 26 de março.

Texto publicado no Guia da Semana em 15/03/2015.

UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA: O BRASIL É POP!

Como é boa a sensação de estar diante de algo que vai marcar época. Como dezenas de colegas na sessão de hoje de “Uma História de Amor e Fúria”, saí com a certeza de ter testemunhado uma daquelas obras que serão vistas e revistas por muitos cinéfilos e acadêmicos pelos próximos 20 anos, pelo menos. Não que “Amor e Fúria” seja um filme chato, difícil. Muito pelo contrário, e é isso que fará dele um clássico: este é um longa de animação moderno e sofisticado, feito com capricho de artista e esmero de pesquisador, que reconta a História do Brasil com uma pegada surpreendentemente pop.

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A qualidade das imagens – desenhadas a oito quadros por segundo (técnica usada nos animes japoneses) – e do som (envolvente e muito bem dosado, com sussurros perfeitamente audíveis e gritos ensurdecedores quando necessário) deixa claro logo de início que aquele não é um filme qualquer. “Amor e Fúria”, como conta o diretor Luís Bolognesi (que foi roteirista em Bicho de Sete Cabeças), levou seis anos para ser produzido, entre a gravação das vozes e a finalização do projeto. “Seria muito mais rápido fazer um filme vetorizado, mas eu não queria esse visual. Queria o lápis no papel, com todas as possibilidades que ele permite”, explicou Bolognesi ao final da exibição. O resultado é um mix de graphic novel com pintura à mão, fotografias de época e um grande salto em 3D na cena final.

O longa é dividido em quatro partes, passadas em diferentes períodos da história nacional até chegar a um futuro distópico. O protagonista (também narrador, na voz inconfundível de Selton Mello) muda de nome a cada ato, mas permanece o mesmo, imortal na forma de um pássaro: ele é o escolhido de Munhã para lutar contra Anhangá, sempre que o temido demônio voltar ao comando. Anhangá é o português, é Duque de Caxias (aposta ousada), são os militares e é o grande empresário que explora a água para enriquecer.

“Amor e Fúria” reescreve a história do ponto de vista das revoluções, dando voz aos oprimidos sem cair no sensacionalismo ou no drama social puro e simples. Amarrado pelo amor entre o herói e Janaína (uma mulher diferente a cada episódio), o filme nos prende à cadeira, com olhos atentos e coração palpitante, mergulhando em conflitos que já conhecemos de cor, mas com uma abordagem infinitamente mais atraente.

“Meus heróis nunca viraram estátua”, brada o índio-negro-universitário-jornalista, numa frase que logo virará bordão. Bolognesi se revolta contra a visão eurocêntrica do ensino brasileiro e mostra a cara a tapa nesta animação-documentário, que já se prepara para representar o país em festivais internacionais.

O sucesso de “Amor e Fúria”, acredito, vai depender da distribuição, da divulgação e das críticas positivas, pois o conteúdo tem tudo para estourar, inclusive entre jovens estudantes que detestam as aulas de História. Separe, então, uma horinha do seu dia para assistir a esta produção, que estreia no dia 5 de abril, e livre-se de vez dos seus preconceitos com a animação nacional. Este vale a pena.