Estreias do fim de semana – 06/08 a 08/08

Alguém pediu dicas ecléticas para o fim de semana? Pois hoje eu trago sete estreias para absolutamente todos os gostos e bolsos. Tem filme premiado e gratuito pra ver na internet, tem filme-família pra ver no cinema, tem pipocão pra ver no streaming… Tem de tudo.  Vem comigo que eu te mostro!


FILMES E SERVIÇOS

Mortal Kombat | HBO Max

Druk – Mais uma rodada | Telecine

Os sapatinhos vermelhos | Belas Artes à la Carte

Em pedaços | Sesc Digital

Abe | Cinemas

O Esquadrão Suicida | Cinemas

Culpa | Filme Filme


OUTROS LINKS

Crítica de Abe

Crítica de Culpa

Episódio do Cinefilia & Companhia com Culpa

Abe – diretor brasileiro harmoniza gastronomia, adolescência e conflitos milenares em filme que abraça

Desde que montei minha pequena lista de filmes sobre cozinheiros, novos títulos gastronômicos têm aparecido por todos os lados, como se zombassem do fato de que não esperei uma semaninha ou duas para incluí-los. Sabor da vida, por exemplo, estreou recentemente na Filme Filme, lembrando-me de finalmente vê-lo; Tomates verdes fritos entrou no catálogo do Sesc Digital (até 30/09 aqui); e, agora, Abe chega aos cinemas depois de pelo menos dois anos de espera. Mas a verdade é que fico feliz com tanta abundância – ando percebendo o quanto esse tipo de filme é, intrinsecamente, feel good, e quem não precisa de um pouco de otimismo hoje em dia?

Pois Abe foi uma surpresa deliciosa e já é um dos meus favoritos do ano. Dirigido pelo brasileiro Fernando Grostein Andrade, o filme abraça intensamente a ideia do diálogo entre culturas, e expressa esse encontro por meio da gastronomia. Para contar essa história (doce, mas complexa), ele une as forças do ator americano Noah Schnapp, mais conhecido como o Will de Stranger Things, às do músico e ator brasileiro Seu Jorge.

Schnapp, protagonista e narrador, vive o adolescente Abe, do título. Ou Abraham, ou Ibrahim. É que, apesar de nascido nos Estados Unidos e ser um autêntico nova-iorquino, ele é descendente, de um lado, de judeus-israelenses, e, do outro, de muçulmanos-palestinos: uma verdadeira bomba genética. Seus pais, é fato, são ateus, mas isso não ameniza em nada a tensão que se forma a cada jantar com os parentes – até amplifica. 

Abe, influenciado pela avó recém-falecida, é apaixonado por comida e já se tornou o melhor cozinheiro na casa. Ele narra suas experiências gastronômicas na internet, por meio de uma conta no Instagram, enquanto tenta lidar com as pressões familiares fora da cozinha. Prestes a completar treze anos, o jovem começa a querer experimentar as tradições de seus avós – desde a celebração de um Bar Mitzvah até o desafiador jejum do Ramadã (uma dificuldade para quem gosta tanto de comer). Mas, a cada passo que dá de um lado, o outro se sente insultado. Como pertencer simultaneamente a dois mundos tão hostis um ao outro, sem deixar de se reconhecer, também, como americano?

Com poucos amigos e pais que não compreendem nem seu amor pela cozinha, nem sua curiosidade pelas raízes, Abe encontra no chef Chico (Seu Jorge) um mentor acidental. Alguém capaz de compreender a sensação de deslocamento que ele vive naquele momento. 

Os dois se conhecem durante uma busca de Abe pela receita perfeita de falafel – quando o garoto descobre o acarajé. Pequeno parênteses aqui para quem não está ligando os pontos: o acarajé é uma adaptação do falafel para terras brasileiras, possivelmente criado por escravos muçulmanos que substituíram o grão-de-bico por feijão. No filme, é explicado que palestinos e israelenses também preparam o bolinho de formas distintas – os primeiros adicionando favas, e os segundos, usando apenas grão-de-bico.

O longa pincela pequenas curiosidades como essa a cada cena, convidando o público a pensar a “fusão” como fazem os grandes chefs: como uma soma e não uma divisão. Algo capaz de gerar sabores inéditos, se bem harmonizado. A metáfora pode parecer ingênua, mas há uma sensatez na percepção de que, no final do dia, é na mesa de jantar que se confrontam as ideias, e é dentro de cada casa e cada pequeno núcleo familiar que se constroem os muros e as pontes mais fortes.

O tema, no que diz respeito às feridas mútuas entre Israel e Palestina, é espinhoso, mas ganha um tratamento respeitoso, mesmo que superficial o suficiente para manter o tom leve de um filme-família. Ao invés de negar as diferenças, Abe, como Abe, propõe o diálogo, a reflexão sobre origens e o reconhecimento de experiências comuns – coisa que exige certo conhecimento de História e Antropologia, ou ao menos disposição para aprender um pouco dos dois. E, assim, disfarçado de comfort food, o filme contrabandeia ideias subversivas como essa, e pode até convencer alguém de que religião, olha que heresia, se discute sim, e que estudar História (ou a história da gastronomia, pelo menos) pode mudar o mundo.

Ambicioso para um filminho tão fofo, não?

10 Filmes sobre cozinheiros

Se a cozinha é o seu lugar favorito da casa, seus amigos estão sempre se convidando para jantar, e você até andou aproveitando o isolamento para aprender novas receitas, prepare-se para se deliciar com esta lista:


First Cow

O sucesso indie “First Cow”, dirigido por Kelly Reichardt, já está no catálogo do Mubi com um cardápio do tipo “improvisadão”. Ambientado no início do século XIX, o filme conta a história de um cozinheiro que viaja até o extremo Oeste americano procurando começar uma vida por lá. Chegando a um pequeno povoado, ele se une a um imigrante chinês e começa a produzir bolinhos fritos – que parecem bolinhos de chuva –, trazendo a esse ambiente bruto um gostinho de infância e uma lembrança da vida urbana. Os quitutes são um sucesso, mas há um problema: a receita usa leite, só existe uma vaca na região, e ela não pertence a eles.


Meu eterno talvez

Procurando algo mais açucarado? A dica é a comédia romântica “Meu eterno talvez”, em cartaz na Netflix. Com Ali Wong e Randall Park, o filme acompanha um casal de amigos que se conhece desde a infância, mas acaba se afastando e se reencontra depois de 15 anos em posições radicalmente opostas. Ela se tornou uma chef renomada, enquanto ele não conseguiu evoluir muito desde que os dois se viram pela última vez. Será que duas pessoas tão diferentes vão conseguir se entender?


A 100 passos de um sonho

Agora pense num filme com pratos de encher os olhos, dignos de revista. É assim em “A 100 passos de um sonho”: essa é a história de uma família indiana que emigra para a França e decide abrir um restaurante, começando uma rivalidade com seu vizinho de frente: um tradicional restaurante francês que ostenta uma estrela Michelin. 


Julie e Julia

Todo grande cozinheiro precisa começar por algum lugar, não é mesmo? Em “Julie e Julia”, de Nora Ephron, Amy Adams é uma mulher que decide aprender a cozinhar com a ajuda de um livro de receitas da famosa Julia Child, e documenta todo o processo num blog. A história de Child, interpretada por Meryl Streep, vai sendo contada em paralelo, mostrando como ela, também, enfrentou suas dificuldades para entrar nesse mundo até então exclusivamente masculino.


Chef

O multitalentoso Jon Favreau escreve, dirige e protagoniza a comédia inspiradora “Chef”, que tem sabor de comida de rua. No filme, ele vive um chef de cozinha que abandona o trabalho num grande restaurante após receber uma crítica negativa e perceber que não estava feliz. Então, ele decide abrir um food truck junto com seu melhor amigo e o filho, e pegar a estrada.


Ratatouille

Uma das animações mais fofas da Pixar consegue juntar a paixão francesa pela gastronomia e uma das figuras mais temidas por qualquer dono de restaurante: um rato. Pois Ratatouille é justamente sobre um ratinho com talento para a cozinha, cujas intenções são obviamente frustradas por sua natureza. As coisas começam a dar certo quando ele se une a um cozinheiro aprendiz, humano, e começa a levar suas receitas para um respeitado restaurante, sem que ninguém desconfie.


Sem reservas

Passando para uma proposta meio-doce, meio-azeda, recomendamos o romance “Sem reservas”, com Catherine Zeta Jones, Aaron Eckhart e uma pequenininha Abigail Breslin. O filme adota o clichê da mulher bem-sucedida que é temida por todos os seus colegas e não consegue conciliar a vida familiar com a profissional, mas complica a questão ao colocar, na vida da chef Kate, uma responsabilidade repentina: cuidar da sobrinha de dez anos após a morte da irmã. Para piorar, um novo chef é contratado por seu restaurante, e ela teme que ele tenha vindo roubar o seu lugar.


Pegando fogo

Seguindo na linha de chefs problemáticos, que tal conhecer Adam Jones? O chefe de cozinha vivido por Bradley Cooper em “Pegando Fogo” conseguiu arruinar a própria carreira com seu comportamento irresponsável e vício em drogas. Agora, sóbrio e queimado, ele tenta retornar à ativa assumindo o comando de um importante restaurante londrino.


Os sabores do palácio

Falando em trabalhos importantes, você já parou para pensar em quem prepara a comida para as autoridades? Em “Os sabores do palácio”, a chef Hortense Laborie é convidada para ser a cozinheira particular do presidente francês, amante da gastronomia e sedento por novos sabores. Competente e firme em suas escolhas arriscadas, Hortense consegue conquistar seu novo patrão, mas logo perceberá que, num lugar tão cheio de egos e poderes, não é só ele que precisa aprovar seu trabalho… 


The Lunchbox

Para encerrar o menu com aquela “comfort food” de aquecer o coração, sugerimos o indiano “The lunchbox”. Nele, uma dona-de-casa prepara marmitas para o marido numa tentativa de melhorar a relação; mas, certo dia, o almoço é entregue no endereço errado e vai parar nas mãos de um homem solitário, prestes a se aposentar. Depois de explicado o engano, os dois começam a trocar cartas por meio das marmitas e desenvolvem uma profunda amizade, mesmo sem nunca terem se conhecido. 


Já ficou com fome? Então aprecie este vídeo com personagens cozinhando no dia-a-dia em filmes do Studio Ghibli:


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Seis filmes para ver no fim de semana (16/07-18/07)

Finalmente, alguns dos maiores lançamentos do ano chegam às telonas e às telinhas para embalar o seu fim de semana, junto com alguns clássicos e uma pérola do outro lado do mundo. Vem ver:

EM CHAMAS | Cinema #EmCasaComSesc 

Esse filmaço sul-coreano está chegando ao site do Sesc, para todo mundo assistir de graça ao longo do próximo mês (e não precisa nem se cadastrar!). “Em chamas” é um suspense psicológico bastante tenso sobre um jovem tímido e uma garota extrovertida, que lhe apresenta um novo amigo – rico, charmoso e com um hobby perigoso.

CRUELLA | Disney Plus 

O filme de origem de uma das vilãs mais malvada da Disney finalmente chega ao catálogo do Disney Plus para todos os assinantes, sem custo extra. O longa traz Emma Stone no papel principal, como uma estudante de moda que tenta se afirmar no competitivo meio artístico na Londres dos anos 1970.

CACHÉ | Reserva Imovision

Nesta semana, o Reserva Imovision traz um especial com cinco filmes do diretor Michael Haneke, entre eles o suspense “Caché”, de 2005. Com Juliette Binoche, o longa acompanha um casal que é ameaçado por uma série de vídeos de vigilância deixados na porta de sua casa. O filme rendeu a Haneke o prêmio de Melhor Diretor em Cannes.

GODZILLA VS. KONG | HBO Max

Uma das grandes novidades no catálogo da HBO Max é a chegada do blockbuster “Godzilla vs. Kong”, que arrecadou quase meio bilhão de dólares nos cinemas mundialmente, durante a pandemia. O filme coloca os dois monstros gigantes frente a frente, numa batalha que pode dizimar a humanidade.

JFK: A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR | Belas Artes à la Carte

Enquanto o diretor Oliver Stone apresenta seu novo documentário  “JFK Revisited” no Festival de Cannes, o filme que deu origem à sua obsessão pelo tema chega ao Belas Artes à la Carte. Em “JFK: A pergunta que não quer calar”, Kevin Costner interpreta um promotor que decide investigar novamente o assassinato do presidente americano John F. Kennedy, e descobre um outro lado da história.

SPACE JAM – UM NOVO LEGADO | Cinemas

A colorida sequência do clássico dos anos 90 “Space Jam” chega aos cinemas, trazendo o atleta LeBron James no papel de um jogador de basquete que é aprisionado num espaço digital junto com seu filho, e precisa da ajuda de personagens animados como Pernalonga e Lola Bunny para vencer um jogo decisivo e sair de lá. 

Gostou? Confira a lista completa de lançamentos de julho aqui.

Estreias do fim de semana – 02/07 a 04/07

Enfim chegou sexta-feira e, com ela, uma variedade de estreias para assistir em casa! No cardápio, tem opções para todos os gostos: a primeira parte da “Trilogia do Medo” na Netflix; o pipocão “A Guerra do Amanhã”, com Chris Pratt; o drama argentino “Maternal”; o documentário “Eu não sou seu negro”; o longa inspirado numa tragédia real “Utoya – 22 de julho”; e a comédia “Freaky – no corpo de um assassino”. 

Gostou? Confira outras estreias do mês no site cadernojota.com.br.

Tela grande, tela pequena – a chegada da HBO Max e algumas reflexões sobre cinema e plataformas digitais

Estreou hoje no Brasil a nova plataforma de streaming da HBO, HBO Max – consertando alguns dos problemas bizarros da antiga HBO Go e trazendo uma pequena seleção de novas dores de cabeça para quem tentou logar (foi preciso fazer um novo cadastro, mesmo já sendo assinante), assinar (houve problemas com o pagamento nas primeiras horas) ou assistir (as legendas estavam abominavelmente desconfiguradas).

Para impulsionar o tão aguardado e atrasado lançamento, o serviço trouxe alguns títulos inéditos por aqui, mas já extensamente discutidos lá fora, como Friends – The Reunion e The Flight Attendant, além da comédia pandêmica Confinamento (Locked down), com Anne Hathaway e Chiwetel Ejiofor, e da série Raised by wolves, parcialmente produzida e dirigida por Ridley Scott. Mulher Maravilha 1984 também já chega no catálogo, junto com toda a família DC (incluindo, sim, a Liga da Justiça de Zack Snyder) e as franquias de sucesso da Warner, como Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Invocação do Mal. Animações clássicas do Cartoon Network também aparecem, como As meninas superpoderosas, O laboratório de Dexter e Coragem, o cão covarde, assim como Looney Tunes, Os Jetsons, Os Simpsons e Scooby Doo

O cardápio é variado e promissor – a HBO sempre teve boas produções originais, e a tendência é que elas se multipliquem agora. Porém, sempre que uma nova (ou meramente renovada) plataforma é anunciada, algumas questões sobre cinema, filmes e acessibilidade voltam à tona, reacendidas como lâmpadas sensíveis ao aperto de um botão: até quando conseguiremos bancar uma cultura de assinaturas digitais? Até que ponto o streaming torna o produto audiovisual mais democrático, ou ainda mais fechado em nichos do que era quando só se tinham cinemas e locadoras? E como fica o papel dos cinemas nisso tudo, hein? Será que eles sobrevivem à explosão do digital?

Até quando conseguiremos bancar uma cultura de assinaturas digitais?

Essa última pergunta tem me incomodado um pouco mais desde que comecei a usar meu computador para ver parte dos filmes sobre os quais queria escrever. Faço isso pela praticidade – consigo assistir e escrever ao mesmo tempo, na minha mesa, e posso usar o headphone para não interferir nas reuniões do Gabriel (pois home office ainda é uma realidade por aqui). E essa situação – necessária no momento – me fez perceber a falta que eu sinto de uma sala escura, de uma poltrona estofada, de uma tela enorme, e de um grupo de pessoas compartilhando aquele espaço e aquele tempo silenciosamente. 

Acredito no equilíbrio, é claro. Cinema é caro e demanda um tempo muito maior do que a sessão caseira. Tem ainda o custo do deslocamento, da pipoca, do refrigerante, ou da refeição que acompanha a saída… E preciso dizer que a pipoca do Gabriel é melhor que a de qualquer lugar. Qualquer dia vou filmar pra vocês.

O cinema escolhe o filme por você (ou te dá opções para contar nos dedos), mas carrega o risco de você não gostar e, pior, não poder trocar na metade. Porém, ultimamente até isso tem soado como uma grande vantagem: em casa, às vezes a paciência é tão curta que me vejo pulando de um título ao outro, mergulhando por não mais que dez minutos em cada. E isso não é bom: filme nenhum se constrói em dez minutos. Mas tente dizer isso para a minha mão no controle remoto. 

As distrações são reais, e entregar-se tão completamente à hipnose do cinema (como escreveu Barthes) é missão vinte vezes mais complicada na conveniência do lar. Na TV, a coisa é um pouco mais fácil: minha família sempre valorizou o momento do filme como algo quase sagrado, e só se levantava do sofá para um xixi e olha lá. Hoje, eu e o Gabriel ainda somos assim: estouramos o milho, apagamos as luzes, puxamos o edredom e não levantamos mais. Às vezes, só para guardar o balde ou encher os copos. Mas eu falo. Adquiri a mania de comentar as cenas enquanto assistimos, e isso me transporta a um lugar radicalmente diferente do cinema de verdade – esse é o cinema discutido em tempo real, consciente de si. Sem hipnose. Sem aquela coisa de sair meio zonzo tentando lembrar quem você é ou onde está.

Será que ver um filme sem imergir nele é mesmo ver um filme?

No computador, a história é outra: tenho desenvolvido a capacidade de ver filmes picotados, como minisséries aleatoriamente fatiadas. “Vamos descer com a Cacau?” – pausa. “Opa, chegou um email aqui!” – pausa. “Deixa eu responder essa mensagem…” – pausa. “Nossa, tá meio cansativo né…” – pausa. Ora, não é à toa que está cansativo, você nunca embarcou nessa viagem: é como se estivesse apenas olhando os vídeos de quem foi e te contou. Será que ver um filme sem imergir nele é mesmo ver um filme?

Bem, talvez esses filmes em pedaços sejam como livros: você lê algumas páginas por noite e, ao final de uma semana ou duas (ou alguns meses, vai saber), a história finalmente se fecha e você se vê com uma sensação de completude – mesmo que já tenha esquecido os detalhes.

A verdade é que, idealmente, tem espaço para tudo. Cada plataforma funciona melhor em sua hora e lugar, e cada momento pede uma escolha diferente – às vezes é preciso se virar sem sair de casa. Às vezes, nem há cinema na cidade, ou você quer ver alguma coisa que não está em cartaz; ou você está gripado, e está chovendo, e nada seria capaz de te tirar da cama. Ou você só precisa assistir a um trecho daquele clássico para relaxar enquanto passa a roupa. Ou a grana está curta, e o jeito é esperar até o filme entrar num dos streamings que você divide com o resto da família, em vez de pagar um ingresso cheio no cinema na estreia.

O digital tem motivo de sobra para ser o sucesso que é. Mas tenho cada vez mais certeza quando falo que o filme que você vai ver aí, no escritório, no quarto ou na sala de estar, não é o mesmo que você veria na sala escura e isolada de um cinema fora do seu casulo. Que aquela aventurinha boba que não te empolgou dessa vez talvez tivesse sido capaz de te levar a outro mundo, enquanto você estivesse lá, enfeitiçado. E aquela cena final que te emocionou, mas que você logo esqueceu, talvez tivesse te acompanhado no caminho para casa, e crescido com a ajuda das luzes coloridas dos carros e daquela chuva fina e bonita na calçada.

Hoje eu entendo por que alguns cineastas têm tanto medo de que seus filmes sejam vistos apenas em telas individuais. O filme é o mesmo, mas você não é. E a gente precisa se lembrar disso enquanto ainda dá para comparar.

Estreias do fim de semana (25/06 a 27/06)

MANHÃS DE SETEMBRO | Amazon Prime Video

Com cinco episódios curtinhos, a nova série brasileira traz a cantora e atriz Liniker no papel de Cassandra, uma mulher que finalmente está se aproximando do sucesso que sempre sonhou na música, até descobrir que tem um filho, de um antigo relacionamento com outra mulher (Karine Telles).


SOLOS | Amazon Prime Video

Inspirada no isolamento deste último ano de pandemia, a antologia traz sete partes, cada uma explorando a vida isolada de um ou dois personagens – todos em histórias fantásticas ou com algum elemento estranho. No elenco, estão Morgan Freeman, Anne Hathaway, Helen Mirren,  Uzo Aduba, Nicole Beharie, Anthony Mackie, Dan Stevens e Constance Wu. 


Os melhores anos de uma vida | Nos cinemas

O diretor francês Claude Lelouch retorna à história de Jean-louis Duroc (Jean-Louis Trintignant) e Anne Gauthier (Anouk Aimée), que explorou nos filmes “Um homem, uma mulher”, de 1966, e “1986, um homem, uma mulher”, de vinte anos depois. Agora, o casal se reencontra depois de 50 anos do início de um romance que nunca decolou e relembra aqueles tempos de juventude e amor.


Noites de Alface | Nos cinemas

Com Marieta Severo e Everaldo Pontes, o filme acompanha a rotina pacata de um casal que vive numa cidadezinha sem novidades – isso, até que o carteiro desaparece. Intrigado, o marido, que sofre de insônia, passa a ocupar as madrugadas com o mistério, ora observando a janela, ora lendo um livro de suspense, tudo regado a muito chá de alface.


As pequenas margaridas | Cinema #EmCasaComSesc

No quase proibido longa tcheco de 1966, (não tão longo, de apenas 73 minutos), Vera Chytilová comanda a história de duas adolescentes de mesmo nome que, percebendo que o mundo é injusto e corrompido, embarcam numa rotina autodestrutiva de excessos e brincadeiras maliciosas. Disponível gratuitamente por 30 dias na plataforma digital do Sesc.


Caramelo | Cinema #EmCasaComSesc

Da talentosíssima diretora libanesa de “Cafarnaum”, Nadine Labaki, “Caramelo” (2007) faz um retrato feminino e bem-humorado de Beirute, pelo olhar de cinco mulheres que se encontram regularmente num salão de beleza. Amores não-correspondidos, proibidos, problemas familiares, reflexões sobre beleza, idade, sexo, maternidade – tudo se desenrola em meio a tesouras, esmaltes e cremes depilatórios. Disponível gratuitamente por 30 dias na plataforma digital do Sesc.


O que eu mais desejo | Reserva Imovision

Nesta semana, entram para o catálogo do Reserva SETE filmes do diretor japonês Hirokazu Koreeda (um dos meus favoritos na vida). Entre eles, está o drama de 2011 “O que eu mais desejo” – um filme com um olhar infantil e lúdico sobre a separação. Nele, dois irmãos ouvem um boato de que o cruzamento entre dois trens-bala, que irá acontecer em breve, poderá realizar um desejo, e decidem embarcar nessa aventura na tentativa de reunir os pais.


Fogo e paixão | Belas Artes à la Carte

“Experimental” é a palavra para descrever o longa brasileiro de 1989, dirigido pelos arquitetos  Isay Weinfeld e Marcio Kogan. Guiados pela estética das construções e pelo surrealismo das cenas, eles narram a história de duas jovens (Mira Haar e Cristina Muratelli) que participam de uma excursão por uma cidade turística não nomeada (que os espectadores reconhecerão como sendo São Paulo), e se envolvem com um nobre e outros personagens inesperados. Com Fernanda Montenegro, Rita Lee, Nair Belo, Fernanda Torres, Regina Casé, Paulo Autran e outros.


Amor por direito | Looke

Elliot Page e Julianne Moore interpretam um casal neste drama de 2015 sobre uma policial que é diagnosticada com uma doença terminal. Antes que seu tempo acabe, ela decide lutar para que sua parceira receba os benefícios da pensão, garantida pela polícia aos cônjuges. Porém, as autoridades relutam em reconhecer o relacionamento das duas.


Love Sonia | Aluguel digital

O drama indiano, que entra nas plataformas Now, Looke, Vivo Play, Google Play, Microsoft e ITunes, acompanha uma jovem que decide procurar sua irmã, vendida pelo pai para pagar dívidas, e acaba envolvida, ela mesma, numa rede de comércio sexual. Com Demi Moore e Freida Pinto.


UCRÂNIA NÃO É UM BORDEL | Filme Filme

O documentário australiano dirigido por Kitty Green faz um retrato aproximado do grupo feminista ucraniano Femen, que luta pelos direitos das mulheres desde 2008 usando os próprios corpos, nus e pintados com mensagens de libertação – um método de protesto que já lhes rendeu reações violentas e opressivas, mas também ganhou a atenção da imprensa internacional.

Estreias do fim de semana (18-20/06)

Bom dia, queridíssimos!

Hoje, trago aqui 10 dicas de filmes que estão estreando neste fim de semana, tanto nos cinemas quanto nos diversos serviços de streaming. Aproveitem:


LUCA | Disney Plus

A nova animação da Pixar estreia diretamente na plataforma de streaming, sem passar pelos cinemas e sem cobrança extra. Ambientada no litoral italiano, ela acompanha dois amigos que, dentro do mar, são monstros marinhos, mas, sobre a superfície, precisam esconder essa identidade e se passar por garotos normais.


A BOA ESPOSA | cinemas

Na comédia francesa, Paulette Van Der Beck (Juliette Binoche) é a diretora de uma escola para donas de casa e ensina, todos os dias, as boas maneiras de uma esposa submissa e dedicada ao lar. Porém, quando seu marido morre, ela descobre o quão importante é, para ela e todas as suas alunas, assumir o controle sobre suas próprias vidas.


EM UM BAIRRO DE NOVA YORK | cinemas

Neste musical criado por Lin Manuel Miranda (“Hamilton”) e dirigido por Jon M. Chu (“Podres de Ricos”), uma comunidade latina compartilha sonhos e dificuldades em meio à realidade da imigração nos Estados Unidos.


ALGUM LUGAR ESPECIAL | cinemas

Inspirado numa história real, o longa de Uberto Pasolini (“Uma Vida Comum”) acompanha um pai solteiro que descobre ter pouco tempo de vida, e decide procurar uma nova família para seu filho.


FÁBULAS SOMBRIAS | Festa do cinema italiano

De 17 a 27 de junho, a Festa do Cinema Italiano apresenta uma seleção de filmes gratuitos e online. Nesta sexta, a dica é o vencedor do Urso de Prata de melhor roteiro “Fábulas Sombrias”, de 2020, sobre um conjunto de famílias vivendo nos subúrbios de Roma, onde uma sensação perturbadora se traduz em histórias sombrias. O filme fica disponível até amanhã (19/06) às 18h e será reexibido entre os dias 27 e 28/06 das 18h às 18h.


DON’T LOOK BACK | Festival In-Edit (Sesc)

Outro festival online que acontece em junho é o tradicional In-Edit, de documentários musicais. Entre os destaques, está o longa “Dont look back” (sem apóstrofe), de D.A. Pennebaker, que acompanha Bob Dylan durante uma turnê em 1965. O filme está disponível gratuitamente na plataforma do Sesc.


SE FAZENDO DE MORTO | Filme Filme

Nesta comédia estrelada por François Damiens, um ator que foi muito promissor na juventude, mas agora não consegue trabalho no cinema, aceita uma oportunidade para interpretar um morto na reconstituição de um crime para a polícia, e acaba se envolvendo na investigação.


O LEÃO DORME ESTA NOITE | Supo Mungam Plus

Estrelado por Jean-Pierre Léaud (famoso pelo personagem Antoine Doinel nos filmes de Truffaut), o drama de 2017 conta a história de um ator que, no intervalo de uma gravação complicada em que precisa encenar a morte, decide passar alguns dias na casa onde viveu sua antiga amada. Lá, ele conhece um grupo de crianças que quer fazer um filme de terror caseiro, com ele como protagonista. Entre diferentes tempos e gerações, ele reflete sobre a própria vida e o seu fim.


MEMÓRIAS DE XANGAI | Reserva Imovision

Nesta semana, o streaming da Imovision recheou seu catálogo com 30 novos filmes, incluindo o documentário “Memórias de Xangai”, de Jia Zhangke. O longa de 2010 traça um panorama da cidade chinesa desde os anos 30, a partir dos relatos de moradores.

JOGO DE CENA | Cinema #EmCasaComSesc

Para celebrar o Dia do Cinema Brasileiro (19/06), o Sesc exibe três documentários do diretor Eduardo Coutinho, entre eles o aclamado “Jogo de Cena”. Nesse experimento social e fílmico, Coutinho entrevista diversas mulheres para que contem suas histórias de vida, depois convida atrizes a reinterpretarem algumas dessas histórias, misturando realidade e ficção sem que o espectador saiba onde acaba uma e começa a outra.


Rapidinhas: Pixar, Shyamalan, Cannes, livros e mais

Fala, pessoal, estou de volta com um pouco de atraso pra trazer as notícias mais valiosas da semana no mundo da cultura. Hoje temos uma dica de curta para ver rapidinho e dar aquela desidratada logo de manhã; alguns trailers para ficar ansioso pelos próximos meses; uma passada vapt-vupt pelo line-up carregadíssimo do Festival de Cannes deste ano e duas dicas literárias pra fechar em grande estilo. Vamos lá?

Links prometidos:

Cannes 2021 (Line-up completo): https://bit.ly/2Se10FO

Podcast sobre ‘Pieces of a Woman’: https://spoti.fi/3v0LtXt

Livraria Gato Sem Rabo: https://www.instagram.com/gato.sem.rabo/

Livraria Combo: https://combocc.com

Verão de 85: tem Ozon estreando nos cinemas

Acho que, depois de seis ou sete filmes, já posso dizer que sou fã do François Ozon. Não que eu AME todos os trabalhos do diretor francês, mas suas contradições me fascinam desde Dentro da Casa, de 2012 – meu favorito até hoje. Para mim, Ozon representa a intersecção entre a ousadia e a delicadeza, os temas polêmicos e a forma suave. Seus filmes sempre carregam uma tensão sexual que se equilibra entre a curiosidade e a obsessão, suas histórias sempre explorando relações de poder, identidades ambíguas e os mistérios da ficção – o quanto nos transformamos em personagens quando contamos nossas histórias. Seu novo trabalho, Verão de 85, não é diferente.

O filme, que se inspira no livro Dance on my grave, de Aidan Chambers, e teria sido lançado no Festival de Cannes de 2020 se esse não tivesse sido cancelado, conta a história de um adolescente certinho, Alexis (Félix Lefebvre), que conhece um garoto um pouco mais velho (David, interpretado por Benjamin Voisin) que é praticamente seu oposto – alto, corajoso, confiante – e, é claro, se apaixona intensamente. Porém, o filme começa com uma narração de Alex, detido e irreconhecivelmente soturno, falando sobre morte, cadáveres e… Bem, sobre como David se transformou em um.

E é assim, com a sugestão de uma tragédia e um crime ainda não explicado, que começa essa história ensolarada sobre o amor e a inocência juvenil. Verão de 85 não é um suspense nem um horror, como a abertura faz parecer, mas Ozon gosta de deixar seu espectador com a sensação de que ele tem uma carta extra na manga – algo que você não sabe, e que torna tudo um tanto mais misterioso. Como a mãe de David (Valeria Bruni Tedeschi), que flerta com Alex de um jeito que beira o impróprio, e às vezes repousa alguns segundos numa expressão de loucura, provável reflexo da perda recente do marido.

A relação entre Alex e David também não é simples. Talvez o amor homossexual, tema frequente no cinema de Ozon, seja ideal para exprimir a tensão latente que ele tanto gosta de explorar. Não que eles hesitem em assumir qualquer coisa um ao outro ou a si mesmos, mas seu romance ainda se esconde do mundo – e das mães – sob paredes finas e portas fechadas. 

Para complicar, David propõe a Alex um pacto eterno: o último a morrer dançará no túmulo do outro. É uma proposta poética que combina com a personalidade imprudente de um e com o gosto pelos rituais fúnebres do outro. Alex se encanta por múmias, pirâmides e culturas que valorizam o além-vida, mas tenta explicar que isso não faz dele um psicopata ou um suicida. Não é que ele queira morrer, mas, aos 16, a morte está distante o suficiente para não ser ameaçadora. Ou isso é o que ele pensava.

É uma pena que Verão de 85 crie tantas expectativas sobre o seu final, que não corresponde. Ainda assim, o conjunto funciona e tem beleza, como um Me chame pelo seu nome em que os dois lados são adolescentes extremos e perdidos. O longa estreia nos cinemas neste fim de semana (a partir de 3 de junho), e deve chegar nos próximos meses às plataformas digitais. Já o próximo filme de Ozon, Tout s’est bien passé, já está no forno e, vejam só, competirá em Cannes no mês que vem. Não sei nada sobre ele e já quero ver.