A Bela e A Fera (Bill Condon, 2017)

Tudo o que eu queria hoje era estar contando a vocês o quanto “A Bela e A Fera” me emocionou. Queria estar, neste momento, revivendo o arrepio que não senti, enxugando as lágrimas que não vieram, exaltando delicadezas e ousadias que jamais aconteceram. Ao invés disso, estou aqui para lhes dizer que o filme mais esperado do ano, o conto-de-fadas mais amado do momento, a realização dos sonhos dos fãs de Emma Watson, é apenas mais um belo, grandioso e satisfatório remake da Disney.

Não me interpretem mal – é um lindo filme. Algumas cenas, como o número musical de abertura, são um espetáculo para rever em câmera lenta. Mas, para uma produção 26 anos mais moderna e sete vezes mais cara do que a animação que a inspirou (o clássico de 1991, não tanto o conto do século XVIII), “A Bela e A Fera” está longe de conseguir competir com aquela.

É claro, são naturezas diferentes: uma animação romântica; uma aventura fantástica em CGI. Mas a sensação é a de que a Disney está, mais uma vez, segurando o freio em obras que deveriam estar decolando. Sim, os números musicais são ótimos – mas se parecem demais com produções da Broadway. Sim, os objetos falantes estão bem feitos e devem ter custado horrores – mas seus movimentos, cujo exagero funciona bem numa animação, aqui parecem ligeiramente falsos (ou assustadores) ao lado de Bela. (Um problema compensado, é preciso dizer, pelas atuações brilhantes do elenco de dublagem, que inclui Ian McKellen, Ewan McGregor e Emma Thompson.) A questão é que, ao invés de arriscar novas linguagens para resolver esses problemas, a Disney prefere jogar seguro e, consequentemente, não impressiona.

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Ok, mas e as inovações no conteúdo? Sim, Bela agora é uma inventora – mas o único momento em que isso é sugerido é quando ela adapta um barril e um cavalo para usá-los como lava-roupas, ainda no vilarejo. No castelo, essa criatividade desaparece e nunca mais ouvimos falar dela. Além disso, agora temos um personagem quase abertamente gay (na verdade, são dois), mas o fato de isso ser revolucionário é simplesmente deprimente.

Talvez o que falte aqui seja a sutileza. Se o roteiro tinha a intenção de se mostrar feminista, por exemplo, não era preciso incluir diálogos inteiros explicando como Bela seria rejeitada caso não tivesse pai ou marido; ou como seus conterrâneos têm “mente pequena” por viverem numa “cidade pequena”… Tudo isso já estava claro, sem que precisássemos soletrar. O mesmo vale para as novas canções, que introduzem trechos da história que ainda não haviam sido contados – como o passado da Fera e a infância de Bela. Estes poderiam ser interessantíssimos, mas, óbvios demais, acabam não acrescentando muito aos personagens ou à história.

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Quem merece destaque (e arrisco dizer, é a melhor surpresa do filme) é Dan Stevens no papel de Fera. Pessoalmente, sempre achei que as versões em live action deste conto pecavam na representação do monstro, mas, aqui, finalmente vi o personagem ganhar vida, mesmo sob todos aqueles pelos virtuais. A Fera de Stevens (“Downton Abbey” e “Legion”) é sarcástica, tem o mesmo lado infantil que a da animação, expressa seus sentimentos com mais frequência e até protagoniza um número musical sozinho (certo, talvez este não seja seu melhor momento).

O mais importante, porém, é que ele lê tanto quanto (ou até mais que) Bela. Os dois, desta vez, não apenas se apaixonam por viverem no mesmo espaço, mas trocam experiências, leem juntos e viajam juntos para outros mundos e lugares. Bela finalmente encontrou seu par.

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Quem também se encaixa perfeitamente em seus papéis são Luke Evans e Josh Gad, que, respectivamente, interpretam Gaston e seu capacho LeFou. As cenas dos dois são provavelmente as mais naturais e divertidas de todo o filme – mas é uma pena que Gaston tenha um desfecho tão insosso.

A Bela e A Fera” integra todo um projeto da Walt Disney de transformar seus clássicos animados em filmes com atores, alguns dos quais vão ganhar sequências e spin-offs. A proposta tem dado certo, desde que “Malévola” arrecadou 750 milhões de dólares em 2014, “Cinderela” chegou a meio bilhão em 2015 e “Mogli – O Menino Lobo” arranhou a marca de 1 bilhão em 2016. Dos quatro, este talvez seja o mais bem acabado e não há dúvida de que superará todos os outros nas bilheterias. Resta saber se os próximos terão um pouco mais de coragem para realmente emocionarem, como nos velhos tempos.

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

Persona (Ingmar Bergman, 1966)

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Não sei vocês, mas eu ainda não tinha assistido ao clássico “Persona”, de Ingmar Bergman, até a última quarta-feira. Na verdade, minha experiência com o diretor sueco se limitava a “O Sétimo Selo”, o que, considerando agora, faz “Persona” parecer moleza. O fato é que aproveitei a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e sua homenagem aos 50 anos do filme para mergulhar nos olhos enigmáticos de Liv Ullmann e na transparência de Bibi Andersson e posso dizer que poucas vezes saí tão tocada de uma sala de cinema.

Talvez seja pessoal. Ou talvez tenha sido o perfeccionismo da fotografia de Sven Nykvist que me hipnotizou: acho que nunca vi uma iluminação tão perfeita aplicada a enquadramentos tão significativos… É como se todos os frames tivessem uma razão muito bem definida para existir, e cada um deles tivesse pelo menos duas ou três mensagens para expressar, antes mesmo de considerarmos os diálogos.

Aliás, que diálogos! Este é um daqueles raros filmes que conseguem dar o mesmo peso à imagem e ao texto, valorizando a interpretação das atrizes acima de tudo. Ullmann interpreta uma atriz, inclusive. Uma atriz chamada Elizabet Vogler que emudece durante um ensaio da peça “Electra” e, a partir de então, não profere mais uma única palavra.

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Andersson entra, então, como sua enfermeira num hospital psiquiátrico, Alma. Tagarela e um pouco ingênua, ela cria uma intimidade com a paciente e passa a usá-la como confidente, tirando proveito do fato de que sua interlocutora não poderá expressar seus julgamentos.

Esse jogo de poder entre as duas tem uma força que vai crescendo junto com o filme. É fácil interpretar sua relação como se uma se transformasse na outra, ou como se as duas fossem partes de uma mesma identidade – a atriz e sua persona, a enfermeira e sua boneca. Mas há algo a mais ali… À medida que a história evolui, o “dueto” vai ganhando diferentes significados, simbolizando conflitos diversos e não necessariamente aplicáveis a uma única personagem, mas a toda a humanidade: vemos duelarem verdade e ficção, silêncio e voz, fé e desesperança, fama e anonimato, guerra e paz.

Pessoalmente, o contraste mais claro para mim é entre consciência e comportamento. É entre o que as personagens realmente sentem e o que seria socialmente aceitável, o que elas inclusive esperam de si mesmas. O resultado dessa conta só pode ser a corrosão pela culpa, para uma, e a “desistência” da vida em sociedade para a outra. O silêncio de Elizabet é como um suicídio perante o mundo, mas é a única sobrevivência possível dentro de si mesma: para não mentir, ela se cala. Para não mais representar o papel de mulher ideal (ou seja, de “mãe” – já que, mesmo sendo famosa e bem-sucedida ela não é vista como “completa” por seus colegas), ela escolhe não representar mais nenhum.

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Talvez Elizabet projete em Alma uma versão mais aceitável de si mesma, para lidar com a própria consciência. Ou talvez seja Alma que enxergue em Elizabet seus medos mais profundos, o lado mais feio de sua natureza. Seja como for, não faz sentido dar uma resposta simples a um Bergman.

É preciso ver e sentir à sua própria maneira.

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Nota: no Brasil, o filme teve o título traduzido para “Quando Duas Mulheres Pecam”. Felizmente, com o tempo essa versão foi caindo em desuso e, hoje, “Persona” é o nome mais usado.

Crítica: “A Colina Escarlate” explora fantasmas e mistérios com pegada mexicana

Se Guillermo Del Toro tem uma característica que o diferencia da maioria dos diretores da sua geração (com exceção, talvez, de Neil Blomkamp e Joon-ho Bong), é a de incorporar em qualquer que seja seu projeto um pouco de sua terra-natal. Suas referências europeias, estadunidenses e até japonesas são evidentes em cada trabalho, mas o México, com suas cores quentes, sua relação peculiar com os mortos e suas paixões exageradas, está sempre ali.

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A Colina Escarlate”, que estreia nesta quinta (15 de outubro) nos cinemas, talvez seja um dos filmes mais “mexicanos” de Del Toro, sem deixar de ser, também, um dos mais influenciados pela literatura estrangeira. Mary Shelley, a autora inglesa de “Frankenstein”, é uma de suas referências mais óbvias (citada inclusive pela protagonista logo no início), mas também podemos pensar no americano Edgar Allan Poe, no irlandês Bram Stoker e na também britânica Emily Brontë.

O filme conta a história de Edith (Mia Wasikowska), uma jovem escritora americana no final do século XIX que se apaixona por um inglês (Tom Hiddleston) chamado Thomas Sharpe, cujo título e as intenções são vistos com desconfiança pelo pai dela.

Depois de uma série de acontecimentos, Edith vai morar com Thomas e sua irmã, Lady Lucille (Jessica Chastain) num casarão que está, literalmente, afundando na argila vermelha que domina aquelas terras. É da argila, que Thomas tenta extrair e vender, que vem o nome “Colina Escarlate” – e é por causa dela que a casa, aos olhos de Edith, parece “sangrar”.

Quem também sangra são os personagens, praticamente todos. Ao explorar a brutalidade do ódio humano, Del Toro mais uma vez mostra como as criaturas de carne e osso podem ser mais assustadoras que as sobrenaturais (como fizera brilhantemente em “O Labirinto do Fauno”).

O filme é povoado por fantasmas – e que fantasmas! – mas nem por isso, curiosamente, se define como uma obra de horror. Talvez pelo fato de a cultura mexicana encarar a morte com muito mais naturalidade, o sobrenatural, aqui, não é apenas um instrumento de medo, mas tem sua função narrativa bem definida. Seja como for, o longa se mostra muito mais um romance, mas também é uma grande tragédia. Rotulá-lo seria reduzi-lo, e tudo o que Del Toro não é é pequeno.

Há problemas, sim, alguns bem graves. O enredo é previsível demais e o público, muito antes da protagonista, já compreende o mistério que ronda a família Sharpe. Isso não o impede de manter os olhos pregados na tela, seja para admirar a beleza da fotografia de Dan Laustsen, seja porque a atmosfera da casa e dos personagens aguça a curiosidade.

Outro ponto fraco no longa é o papel de Edith como escritora: no início, ela se coloca como uma feminista de personalidade forte, determinada a enviar seu manuscrito a um importante editor. Depois de chegada à casa, porém, ela parece se esquecer do próprio trabalho, o que é uma pena, já que sua experiência ali lhe daria ainda mais material para escrever.

“A Colina Escarlate” esconde, ainda, uma última camada de sentido que dá um significado muito mais amplo para a obra. O romance e suas consequências trágicas funcionam como a história de origem de uma casa mal assombrada, aquela que se tornará conhecida por todos como “a colina escarlate” e que será evitada por qualquer visitante pelos próximos séculos. Pensando por esse ângulo, o título ganha um peso bem diferente.

O filme não irá agradar a todo o público – fãs de Del Toro ou não – mas recomendo senti-lo mais do que racionalizá-lo. Afinal, é assim que o cineasta mexicano faz seus filmes, e é por isso que eles não são sempre perfeitos. Em compensação, são sempre sinceros. Coisa rara hoje em dia.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

CINE RETRÔ: CINEMA PARADISO

No ano em que Quvenzhané Wallis desponta como a mais jovem atriz a ser indicada ao Oscar, aos nove anos de idade (tendo rodado “Indomável Sonhadora” aos seis), outro ator mirim me vem à mente como um dos mais cativantes do cinema. Salvatore Cascio tinha, também, nove anos quando emprestou seus sorrisinhos arteiros ao pequeno Salvatore di Vita, o “Totó”, e assumiu a sala de projeção do Nuovo Cinema Paradiso.

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O clássico de Giuseppe Tornatore ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1990, mas se passa nos anos 40 e tem grande parte de suas cenas pinceladas dos anos 30, com referências que vão de Charles Chaplin a Jean Renoir. O branco-e-preto se mistura harmoniosamente ao tom pastel empoeirado da pequena vila de Giancaldo, na Sicília, onde vivem Totó, o rabugento projetista Alfredo (Phillipe Noiret em performance memorável), a mãe distante (Antonella Attili) e toda uma vizinhança caricata que se reunia no cinema para viver todas as emoções que se havia para viver ali, em tempos ralos de pós-guerra.

A história se passa em três períodos, indo da infância de Totó (quando ele espiava as sessões particulares exibidas para o padre, que então estabelecia a censura sobre beijos e nudez), à adolescência já como projetista (quando se apaixona por Elena, relação mais explorada na versão estendida do DVD), até a meia-idade, 30 anos depois, quando o cinéfilo se tornou um diretor de sucesso e volta a Giancaldo para o funeral de Alfredo.

Acusado de ser melodramático demais por alguns críticos da época, “Cinema Paradiso” fez, realmente, muita gente chorar. A técnica de retomar um elemento do início e, após revisitar toda a vida do protagonista, fazê-lo chorar como criança diante daquele detalhe esquecido, é infalível. E a beleza da cena final, se não arranca lágrimas, abre um sorriso fácil no rosto de qualquer amante do cinema.

A relação de amor-com-espinhos, que sempre volta a aparecer nas telas, é o centro desse drama saudoso: Alfredo ama Totó, mas quer vê-lo independente, longe dali e longe dele. Totó ama Alfredo, mas o respeita tanto que segue seu conselho, sem entender, talvez, que o velho amigo estivesse falando apenas da boca para fora. No final, é sempre tarde demais, tudo mudou. Como diz o amargurado projetista, é preciso ficar muitos anos longe da sua origem para conseguir reconhecê-la e sentir a verdadeira nostalgia, sem a tentação de voltar atrás. É preciso desapegar, saltar, cortar o cordão umbilical sem piedade. Assim, o passado será sempre belo como a lembrança daqueles beijos censurados no antigo Cinema Paradiso.

FAHRENHEIT 451: DO LIVRO PARA O FILME

É sempre um desafio analisar adaptações literárias para o cinema. E esta não é qualquer adaptação: estamos falando de François Truffaut interpretando, em 1966, a obra de de Ray Bradbury, o homem apaixonado por ficção científica que escreveu mais de 50 livros e roteiros para a televisão e trabalhou até seus últimos dias (2012). Continuar lendo “FAHRENHEIT 451: DO LIVRO PARA O FILME”

O SÉTIMO SELO – DESCOBRINDO BERGMAN

Assistir a uma partida de xadrez entre a Morte e um cavaleiro das Cruzadas foi um ítem há muito esquecido na minha lista de prioridades. Mas bastou uma visita à locadora, naquela sessão bem ao fundo onde se guardam os Grandes Diretores, para que “O Sétimo Selo” piscasse para mim e me implorasse para ser visto. Lembro-me de ter ouvido falar dele já nos últimos anos de colégio, durante uma Mostra Internacional de Cinema ou algo assim. Desde então, ele esteve lá, adormecido no final da lista, até hoje.

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Falar de Ingmar Bergman (o diretor sueco de mais de 60 filmes, que colocou um pouco de suas próprias angústias na tela e se tornou cultuado até hoje) é um desafio, mas há algo que se pode pegar com clareza, seja nos closes fechados nos olhos dos atores ou na luz fortemente contrastada de “O Sétimo Selo”. Bergman busca respostas.

Surpreende que a filmagem pareça tão mais tosca que em outros filmes da mesma época (ele foi feito em 1957, em plenos anos dourados de Hollywood). Mas este não é um produto de Hollywood, e fica clara aqui a diferença de estrutura e de intenções – compreender o homem e sua mente soa mais importante para o sueco do que entreter o público.

Max Von Sydow é Antonius Block, o cavaleiro que desafia a Morte (Bengt Ekerot, num figurino negro que deixa exposto apenas seu rosto redondo e branco, mais bizarro que assustador) numa partida de xadrez. Com isso, Block pretende ganhar tempo para, diz ele, fazer algo de bom. Na verdade, o que ele procura é entender o silêncio de Deus e a própria mortalidade.

Seu medo se reflete em todos a sua volta, que se desesperam diante da Peste que se espalha rapidamente e reagem de formas diversas à iminência da morte. Uns aceitam-na como o destino natural (como o pintor na capela). Outros apelam para o autoflagelo em busca de perdão. Já o ateu Jöns, escudeiro de Block, insiste não haver nada além do vazio após o fim. “Meu mundo é só meu e só acredito em mim mesmo”, brada ele, indiferente às ameaças que surgem de todos os lados.

Uma família de atores se une à “cruzada”, não atrás de respostas, mas sim de continuar vivendo em harmonia – eles são os mais ingênuos e, ao mesmo tempo, os mais sábios, nos provoca o diretor.

Pincelado com esquetes cômicas e uma ou outra cena de violência, “O Sétimo Selo” nos traz um apanhado de situações duvidosas, que põem em questão princípios básicos como o amor e a generosidade, discutindo assim não a morte ou Deus ou o Diabo, mas apenas a consciência do ser humano.

Se é bom? Bem… Só garanto que não é fácil.