Auto-estima poderosa

Filmes de comédia adoram bater a cabeça de seus protagonistas para colocá-los em situações fantásticas. Em “Sexy por Acidente”, longa que estreia no dia 28 de junho, é a vez de Renee (Amy Schumer) levar um tombo e acordar transformada: ao invés da garota comum, de rosto redondo e vermelho que ela vê todos os dias, o espelho passa a refletir uma mulher perfeita, “inegavelmente bonita”, como ela sempre sonhou em ser.

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Crítica: “Como Ser Solteira” não consegue fugir do rótulo de comédia romântica

Há poucas coisas mais frustrantes para quem vai ao cinema do que descobrir que aquele filme que se dizia “diferente”, na verdade, é igual a todos os outros. Então, caso você esteja esperando que “Como Ser Solteira” seja uma comédia sobre a solteirice feminina, e não apenas mais uma comédia romântica cheia de casais felizes… Bem, não diga que não avisamos.

O filme traz Dakota Johnson (“Cinquenta Tons de Cinza”) no papel de Alice, uma garota que decide “dar um tempo” no seu relacionamento sólido para morar sozinha pela primeira vez e, quem sabe, se conhecer melhor. A ideia é promissora: temos uma protagonista com a qual podemos nos identificar, que tem as mesmas dúvidas que qualquer uma (ou qualquer um) de nós. Esse início seria ótimo, se não fosse pelo diálogo artificial entre os dois, que termina com um ressoante “vou sentir falta dos seus peitos”.

O nível de maturidade do roteiro segue a linha dessa conversa inicial. Alice vai a Nova York, conhece Robin (Rebel Wilson) e mergulha na vida noturna em busca de, enfim, mais homens. O velho plano de viver sozinha e descobrir seus próprios gostos é rapidamente substituído por “ficar dividida entre três homens” e “fazer tudo o que sua amiga faz”. Nem o público, nem a própria protagonista conseguem descobrir quem ela é (nem mesmo sua profissão é relevante), exceto pela personalidade que ela imprime ao seu novo apartamento e que não aparece em mais nada, nem em suas roupas.

Em defesa do filme, essa contradição entre o que ela procurava e o que ela realmente vive chega a ser discutida, mas não antes de toda a história ser construída sobre esses novos relacionamentos. Para um filme que propunha explorar a “vida de solteira”, há uma quantidade impressionante de homens, não apenas os de Alice mas também em outros casais enrolados, seguindo a tradição de filmes como “Simplesmente Amor”, “Idas e Vindas do Amor” e “Ele Não Está Tão a Fim de Você”. Este último (escrito pela mesma autora do livro que inspirou “Como Ser Solteira”) é uma referência tão óbvia que chega a incomodar.

Rebel Wilson, que fora destaque nos trailers, acaba tendo um papel secundário. Explosiva nos minutos iniciais, ela escorrega lentamente para o segundo plano, enquanto os conflitos de Alice (bem menos cômicos) e de sua irmã Meg (Leslie Mann) assumem a dianteira. Uma pena, pois o papel de Wilson era o único que realmente trazia algo além da superfície.

“Como Ser Solteira” chega aos cinemas no dia 25 de fevereiro e é uma opção para quem procura uma comédia romântica leve, para dar algumas risadas. Só não espere originalidade.

 

 

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: despretensioso, “Um Amor a Cada Esquina” lembra comédias de Woody Allen

Quando o título do filme “Um Amor a Cada Esquina” começa a se formar na tela, letra por letra, ao som de jazz, uma sensação de déja-vu percorre o espectador. Outro Woody Allen, tão pouco depois de “Homem Irracional”? Parece, mas não é. O filme, uma comédia farsesca de timing afiado, é na verdade o primeiro longa de Peter Bogdanovich depois de praticamente vinte anos afastado dos cinemas.

um amor

Imogen Poots, jovem atriz de “Need For Speed”, “Namoro ou Liberdade” e “Uma Longa Queda”, é quem lidera o elenco, formado por nomes muito mais experientes como Owen Wilson, Jennifer Aniston e Kathryn Hahn. Mas ela não desaponta – pelo contrário, é Poots quem segura o humor e garante a maior parte das risadas ouvidas na sala de cinema.

Poots interpreta Isabella Paterson, uma atriz que, durante uma entrevista a uma jornalista visivelmente entediada, revela que foi prostituta antes de seguir a carreira artística. Mas a imaginação de Izzy, como ela gosta de ser chamada, é surpreendentemente romântica – inspirada por ninguém menos que Audrey Hepburn – e, ao invés de prostituta, sua ex-profissão ganha o título de “musa”.

Durante um encontro com um cliente, Izzy recebe a oferta de investir 30 mil dólares em seu sonho (o de se tornar atriz), com a condição de largar a noite. Seu benfeitor é o diretor de teatro Arnold Albertson (Wilson) e, como descobriremos mais à frente, essa não é a primeira vez que ele ajuda uma donzela.

Os problemas começam quando Izzy vai ao seu primeiro teste de elenco: justamente na peça em que Arnold e sua esposa, Delta (Hahn), estão trabalhando. Para piorar, ela se sai muito bem e Delta insiste para que a garota seja contratada.

As confusões amorosas vão se complicando à medida que cada novo personagem é apresentado: o roteirista (Will Forte), a psicóloga (Aniston), outro ator (Rhys Ifans), um ex-cliente desesperado de Izzy (Austin Pendleton)… Todos têm alguma relação que se complica com a chegada da atriz.

“Um Amor a Cada Esquina” faz jus ao nome e ao elenco: além de Poots, Aniston está excepcional como a psicóloga sem paciência nem ética profissional. Wilson apenas repete seu papel de sempre (o cara de bom coração que, às vezes, se deixa levar pelo momento), mas convence. O longa é uma opção agradável para  quem gosta de comédias um pouco mais adultas, mas despretensiosas. Estreia no dia 15 de outubro nos cinemas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Virando a Página” vai fazer você sair do cinema com um sorriso no rosto

Nunca subestime o poder de uma comédia romântica. Em tempos de super-heróis, naves espaciais e outras ousadias cinematográficas, podemos nos esquecer de como é revigorante assistir a um filme com o pé no chão, simples e bem escrito como “Virando a Página”.

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O novo longa do diretor e roteirista Marc Lawrence, do também ótimo “Letra e Música”, parte de um tema bastante próximo (o protagonista é um roteirista de Hollywood) para contar uma história universal de crise e reinvenção profissional na meia-idade. Na verdade, o tema parece se restringir cada vez menos à faixa etária e não seria surpresa se que muitos jovens de vinte-e-tantos anos também se identificassem com a situação.

Num aceno às comédias românticas dos anos 90 e numa gigantesca piada interna um pouco menos explícita que a de Michael Keaton em “Birdman”, Hugh Grant é o  ator escolhido para viver o papel principal. Ele é Keith Michaels, um roteirista de um único sucesso que, rejeitado pelos estúdios, aceita trabalhar como professor residente numa universidade em Binghamton, uma cidadezinha americana bem distante e bem diferente de Los Angeles.

Grant revive aqui alguns de seus maiores sucessos: seu Keith, prepotente e mulherengo, lembra o Daniel Cleaver de “O Diário de Bridget Jones” ou mesmo o Alex Fletcher de “Letra e Música”. A referência é claramente proposital, já que o ator vive um momento semelhante ao do seu personagem, sendo lembrado apenas pelos antigos sucessos, enquanto aprende que Hollywood pode ser uma mãe infiel.

O longa não se acanha em questionar a indústria do cinema e lança provocações muito oportunas: numa cena, por exemplo, dois representantes de um grande estúdio sugerem a Keith que escreva uma aventura com uma heroína forte e guerreira, pois é isso que é “fresco e novo”. Aham, nós entendemos: fresco, novo e muito lucrativo.

Confiante de que ainda voltará ao estrelato, Keith não leva a sério o trabalho de professor, o que rende alguns momentos bem divertidos – como a seleção dos alunos e a primeira aula. Aos poucos, porém, ele vai percebendo que esta é a sua nova realidade e que, se ele se esforçar um pouco, talvez consiga ensinar alguma coisa àqueles alunos.

Quem o ajuda nessa jornada de renovação é a estudante tardia Holly (Marisa Tomei), talvez a personagem mais surpreendente do filme, além do vizinho Jim (Chris Elliott) e do supervisor Dr. Lerner (J.K. Simmons). Allison Janney também ganha momentos hilários na pele da professora Mary, responsável pelo Comitê de Ética da faculdade e inimiga de Keith desde o primeiro dia.

Ao contrário do que poderia acontecer numa comédia mais rasa, grande parte dos personagens são bem desenvolvidos e não preenchem apenas funções pontuais na evolução do protagonista. Tomei, por exemplo, não é só o par romântico mais óbvio para Keith, mas também é uma mãe solteira que está estudando para realizar um sonho, enquanto trabalha em pelo menos dois empregos diferentes. Sua personalidade é positiva e extrovertida, mas seus conselhos são sensíveis e experientes, o que ajuda o protagonista a compreender a própria maturidade.

“Virando a Página” é uma comédia inteligente que chega no momento certo, provocando reflexões necessárias a uma geração que precisa repensar seus conceitos de talento, fama e carreira. A crítica não vem como um tapa na cara, mas sim com uma linguagem lúdica e otimista, garantindo que você saia do cinema uma tonelada mais leve e com um sorriso no rosto. Coisas assim, só uma boa comédia romântica consegue fazer.

Texto publicado no Guia da Semana em 18/06/2015.

Mato Sem Cachorro: uma comédia romântica à brasileira

mato

A nova comédia brasileira Mato Sem Cachorro parece coisa de veterano. Com Bruno Gagliasso, Leandra Leal e o cãozinho Duffy nos papéis principais, o filme de estreia de Pedro Amorim – de apenas 35 anos – tem roteiro esperto, fotografia limpa e ótimas sacadas, mas sofre de um mal: excesso de improviso.

O problema não é surpresa quando dois comediantes de stand-up estão escalados no elenco, sendo um deles o coadjuvante principal. Rafinha Bastos vive o veterinário desbocado e Danilo Gentili é o pervertido Leléo, primo de Deco (Gagliasso) que vive com ele. Ou seja, os dois interpretam suas próprias personas da TV, com nomes alternativos.

A liberdade que o diretor deu à equipe transparece nos diálogos, povoados por palavrões e piadas sujas em doses cavalares. A estratégia, que já pegou nos Estados Unidos com comédias como Ligeiramente Grávidos, de Judd Apatow, teria funcionado bem se o tema do longa não fosse, afinal, uma leve e simpática história de amor. O casal protagonista, aliás, se sai muito bem na tarefa.

Leal vive Zoé, uma mulher agitada que trabalha numa rádio e sonha em emplacar um programa sobre novas bandas. Já Gagliasso é Deco, um jovem desocupado que passa suas tardes criando vídeos com mash-ups (mistura de gêneros musicais) para a internet. Os dois se conhecem graças a Guto, cachorro da raça English Sheppard que sofre de uma doença rara que o faz desmaiar nas situações mais inesperadas.

Mais interessante do que o relacionamento conturbado da dupla é a coleção de referências com que Amorim tempera o longa: de Sidney Magal a Elke Maravilha, de  John Lennon a Joan Jett & The Blackhearts. O resultado disso tudo é uma mistura curiosa do americano com o nacional, do pop com o brega, que acerta em cheio no lado musical.

O mash-up também se vê na forma do filme, que tem “cara” de romance americano anos-noventa, mas tem sotaque carioca. Tem atores brazucas e cachorro estrangeiro, tudo junto e misturado, como uma autêntica comédia romântica à brasileira.

A mistura, porém, é também o maior inimigo de Mato Sem Cachorro: o filme seria a pedida certa para um domingo de sol se tivesse definido melhor seu estilo – esta é uma comédia adolescente descolada ou uma história romântica “fofinha”? O público, afinal, sabe bem o que quer e pode acabar torcendo o nariz.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.