Auto-estima poderosa

Filmes de comédia adoram bater a cabeça de seus protagonistas para colocá-los em situações fantásticas. Em “Sexy por Acidente”, longa que estreia no dia 28 de junho, é a vez de Renee (Amy Schumer) levar um tombo e acordar transformada: ao invés da garota comum, de rosto redondo e vermelho que ela vê todos os dias, o espelho passa a refletir uma mulher perfeita, “inegavelmente bonita”, como ela sempre sonhou em ser.

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“Do Jeito Que Elas Querem” – ou aquele em que quatro senhoras leem Cinquenta Tons de Cinza

Hollywood vem tentando nos dizer há muitos anos que existe vida na terceira idade. Sexual, inclusive. E, na nova comédia que estreia no dia 14 de junho, “Do Jeito Que Elas Querem”, quatro mulheres nos seus sessenta-e-tantos anos vão descobrir isso da maneira mais curiosa possível: lendo a trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”.

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Internet – O Filme (Fillipo Capuzzi, 2017)

Finalmente aconteceu. Se tudo o que está no auge eventualmente chega aos cinemas, já era hora de o Youtube e seus Youtubers invadirem a telona com os dois pés na porta. Todos juntos. Num mesmo filme.

Apesar da promessa, “Internet – O Filme” não é tão apocalíptico quanto certas tentativas anteriores (alô, Kéfera!) e até consegue divertir, mas a tradição brasileira de ofender para fazer humor está ali, firme e forte. Gordos, gays, anões, idosos e mendigos continuam sendo motivo de piada, pelo simples ato de existirem. (E não será uma vingança no final que mudará isso.)

Idealizado por Rafinha Bastos e dirigido por Fillipo Capuzzi, o filme se passa numa convenção de web e conta sete histórias paralelas, protagonizadas por estrelas das redes sociais. Um acerto da produção foi colocar o elenco youtuber (e snapchatter) interpretando personagens fictícios, às vezes parecidos com suas personas da web, às vezes nem tanto. Desta forma, o filme se livra de ser uma grande publicidade coletiva e se torna algo mais próximo de uma grande piada interna – talvez interna demais para agradar a um público mais amplo.

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As histórias bem que tentam levantar algum tipo de discussão sobre a internet e a ficcionalização da vida real – mostrando um casal que engata apenas porque seu beijo viralizou, ou outro que adota um cachorro para explorá-lo como uma marca – mas a verdade é que o filme não quer assumir essa responsabilidade. A cada verdade jogada na cara, seus personagens respondem com um dar de ombros. “Não me importo se tudo isso é falso”, parece declarar a obra. “Não me leve tão a sério”.

O problema é que, sério ou não, o que vem depois dos créditos não é muito mais do que uma risadinha seguida por uma sensação de vazio… Afinal, o que esse filme me trouxe que uma esquete cômica no Youtube não traria?

TOC: Transtornada, Obsessiva, Compulsiva (Teo Poppovic e Paulinho Caruso, 2017)


Comédia nacional é sempre um assunto delicado. Há quem ame, há quem odeie e há quem não assista nem amarrado. Normalmente, me encaixo na última categoria (inclusive para as estrangeiras), exceto pelo fato de que é minha obrigação assistir e, vez ou outra, acabo me surpreendendo.

Esse foi o caso com “TOC: Transtornada, Obsessiva, Compulsiva”, longa de Paulinho Caruso e Teodoro Poppovic que estrela Tatá Werneck, Vera Holtz e Daniel Furlan, com participações de Luís Lobianco, Bruno Gagliasso e Ingrid Guimarães. O filme estreia no dia 2 de fevereiro e chama a atenção por trazer um humor inteligente, autoconsciente e inesperadamente cinéfilo.

“TOC” conta a história de Kika K. (Werneck), uma atriz que alcança o ponto alto de sua carreira, mas descobre que não está feliz. Enquanto ela tem pesadelos envolvendo a próxima novela das 20h – a distopia futurista Amorgeddon, o Apocalipse do Amor (melhor título ever) –, sua agente (Holtz, brilhante) contrata um ghost writer para escrever uma “autobiografia” sua e lança o livro quase sem avisá-la.

SET: QUARTO FELIPÃO; FNAC

O livro é o estopim para a crise de identidade de Kika. Afastada da autoria da própria biografia (porque, segundo sua agente, ela “não teria tempo para escrever”), a atriz começa a questionar sua carreira, seu relacionamento vazio com o namorado-galã (Gagliasso) e até sua relação com a mãe (Patricya Travassos), que não vê na vida perfeita da filha a possibilidade de tristeza.

Essas ideias a levam a procurar o verdadeiro autor do livro, que deixara uma mensagem enigmática durante uma tarde de autógrafos. Nessa busca, ela acaba conhecendo o simplório vendedor da livraria (Furlan), com quem vive uma amizade sincera e protagoniza uma das cenas mais fofas dos últimos anos, dentro de um karaokê na Liberdade.

Para quem está se perguntando onde se encaixa o transtorno do título, de fato ele está longe de ser o tema principal. O que parece é que a ideia de retratar a doença foi o que deu origem ao filme (idealizado por Werneck), mas, ao longo do projeto, a questão da infelicidade acabou ganhando mais força. O TOC, então, aparece mais como uma expressão desse desequilíbrio interno do que como a causa para os problemas da personagem.

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Eu disse que o filme tem um lado cinéfilo e não foi só porque a protagonista é uma atriz. O roteiro explora bem a realidade audiovisual brasileira (citando, por exemplo, o prestígio do cinema autoral pernambucano em contraste com a descrença com a comédia e a TV aberta) e se permite arriscar formatos diferentes. Nos sonhos de Kika, por exemplo, um cenário apocalíptico acinzentado toma conta, lembrando o deserto sujo e primitivo de “Mad Max”, enquanto seus sentimentos mais intensos, como a ansiedade, são representados por colagens rápidas de imagens simbólicas, remetendo discretamente ao cinema surrealista.

Outra qualidade que separa “TOC” de outras tantas comédias brasileiras é o fato de que este é um longa-metragem de verdade (com um enredo coerente, desenvolvimento de personagens e foco) e não um apanhado de esquetes emprestadas da televisão. O humor também não está em todas as cenas, mas distribuído ao longo do filme, mais sutil em alguns momentos, mais escrachado em outros. São esses últimos que podem decepcionar quem vinha acreditando na promessa de um cinema nacional sem piadas-de-quinta-série ou palavrões gratuitos – mas a balança, no final, acaba pendendo para o lado positivo. Finalmente.

FC! Review – Caça-Fantasmas


No FC! Review desta semana, comentamos a estreia mais polêmica do momento: “Caça-Fantasmas”, reboot do clássico de 1984 com protagonistas femininas.
O filme conta a história de duas pesquisadoras do sobrenatural que se unem a outras duas especialistas e um secretário para impedir que um lunático abra um portal entre os mundos, libertando fantasmas em Nova York.
Estreia no dia 14 de julho nos cinemas.

Imagens: Caça-Fantasmas (2016) / Sony Pictures

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Crítica: Em longa raso e cheio de preconceitos, Porta dos Fundos deixa para trás o sarcasmo inteligente que fez sua fama na internet

Fico feliz que vocês não tenham votado naquele filme russo dos cegos viados. Aliás, aquele cego viado gordo e obeso era ótimo”. Minutos depois, outra tentativa de piada: “Não posso sair daqui sem comer, pelo menos, uma indicada a atriz coadjuvante”. Quase se podem ouvir as risadas gravadas ao fundo, como num programa de humor ruim em que é preciso avisar o público qual é o momento certo de achar graça. Mas não há graça.

Esse é o tipo de humor que o público verá em doses cavalares no primeiro longa-metragem do Porta dos Fundos, “Contrato Vitalício”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 30 de junho. Um humor bem diferente do tipo de sátira inteligente que fez a fama do grupo – algo mais próximo de uma briga de crianças que, depois de esgotarem os argumentos, decidem ganhar a discussão xingando a mãe. Porque é mais fácil elevar a voz e disparar insultos do que colocar o cérebro para funcionar.

A história, que poderia compensar o tom errado das piadas, não ajuda em nada: um ator chamado Rodrigo (Fábio Porchat) e um diretor de cinema chamado Miguel (Gregório Duvivier) são premiados em Cannes. Durante a bebedeira de comemoração, assinam um contrato para trabalharem juntos em todos os seus filmes dali em diante.

Naquela noite, Miguel desaparece – sugado por alienígenas para o centro da Terra privada adentro. Dez anos depois, ele retorna e recruta Rodrigo para estrelar um filme sobre sua experiência fantástica, escalando prostitutas (todas travestis, porque preconceito não é problema para o grupo) e mendigos como seus assistentes e figurantes.

Esta é a história.

Juro.

Quem assistiu ao trailer de “Contrato Vitalício” deve ter notado as referências de “Se Beber Não Case” e, de fato, o longa de 2009 parece ter sido uma fonte abundante de inspiração. O problema é que a versão do Porta exagera na dose: é como se todos os coadjuvantes fossem loucos como Alan (o personagem de Zach Galifianakis) e sua única função fosse irritar o protagonista – e, consequentemente, o pobre e, a essa altura, arrependido espectador.

O filme poderia abraçar sua vocação trash e não se levar tão a sério, como um Trapalhões nos velhos tempos, mas não o faz. Pretensioso, o roteiro tenta justificar 100 minutos de tortura psicológica com uma lição de moral muito pouco convincente (e com uma virada que, infelizmente, chega tarde demais).

Pode-se argumentar que o Porta dos Fundos explora uma comédia do absurdo, como um Monty Python em seu tempo, mas a comparação seria enormemente ambiciosa. O grupo britânico, apesar de também arranhar os limites do bom senso em filmes como “O Sentido da Vida”, trabalhava seus diálogos com muito mais sutileza e preferia mostrar a hipocrisia da sociedade nas ações dos personagens e nas situações impossíveis, não em frases gratuitamente ofensivas.

Ninguém esperava que “Contrato Vitalício” fosse politicamente correto, mas, pelo menos, esperava-se que fosse engraçado. O que se vê em tela, porém, é muito mais apelativo e muito menos interessante do que do que o grupo tem feito na internet desde sua criação e, em momento nenhum, consegue provocar um riso que não seja nervoso ou constrangido. As críticas, que vão desde a obsessão pelas redes sociais à inconveniência do repórter de fofocas, são rasas e repetitivas, as piadas não vão além do senso comum e o sofrimento expresso no rosto de Porchat, durante todo o filme, reflete o sentimento de todos nós: só queremos que tudo aquilo acabe logo.

Minha sugestão? Guarde seu dinheiro e vá assistir outra coisa.

Texto publicado inicialmente no Guia da Semana.

Crítica: novo filme dos irmãos Coen, “Ave, César!” é um manifesto sobre o cinema

Um filme dos irmãos Ethan e Joel Coen nunca é, apenas, um filme: é um manifesto. A dupla que trouxe aos cinemas alguns dos mais impactantes (e, por vezes, estranhos) filmes desta geração, como “O Grande Lebowski”, “Queime Depois de Ler”, “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, e “Inside Llewyn Davis”, faz agora uma sarcástica e apaixonada ode ao cinema no longa que estreia no dia 14 de abril: “Ave, César!”.

A primeira impressão que se tem sobre “Ave, César!” é que se trata de uma comédia, uma sátira do universo cheio de egos e intrigas que é um estúdio de cinema. De fato, estão lá os atores famosos com segredos sujos, os caipiras deslumbrados, a atriz que engravida e não sabe quem é o pai, a repórter do tabloide (e a outra, que se diz “uma jornalista séria”, mas busca os mesmos furos) e todo aquele circo que conhecemos por Hollywood.

E estão lá grande parte das estrelas do cinema atual: George Clooney, Josh Brolin, Scarlett Johansson, Channing Tatum, Tilda Swinton, Ralph Fiennes, Frances McDormand (responsável pela melhor sequência do filme), Jonah Hill, Christopher Lambert e o ainda não tão conhecido Alden Ehrenreich, que carrega um dos papéis principais. Para onde se olha, enfim, há um rosto conhecido – e algo me diz que não é por acaso.

O filme não se resume, contudo, a uma grande piada interna. Para falar de cinema, “Ave, César” passeia por diversos gêneros e os abraça com unhas e dentes: entram em cena grandes momentos de comédia, drama, musical, noir e até um pouco de romance – tanto dentro das produções do estúdio onde se passa a história, quanto na narrativa principal.

Os Coen também aproveitam a oportunidade para fazer algumas críticas sérias: em particular, ao comunismo. O filme, como o excelente “Trumbo” (2015), se passa nos anos 50 e aborda um certo “mal estar” que se deu naquela época entre os roteiristas, acusados de inserirem mensagens comunistas nos filmes, e os estúdios de Hollywood.

Aqui, um grupo deles se identifica abertamente com o partido russo e reclama da falta de reconhecimento dos estúdios pelo seu trabalho. O discurso político, porém, é rapidamente ofuscado pela ingenuidade desses personagens, que, como os escravos do filme que o ator Baird Whitlock (Clooney) está gravando – o tal “Ave, César!” do título-, obedecem cegamente a um líder que não lhes dá nada em troca.

O filme usa essa visão comunista para provocar uma crise de fé num dos personagens, fazendo-o questionar se o estúdio estaria ou não explorando seus funcionários e se os filmes que eles fazem seriam mesmo instrumentos de manipulação e manutenção do status quo. O interessante é que, mesmo que essa questão seja colocada de forma tão cômica, há um fundo de verdade que provoca o espectador.

Outro protagonista – o executivo do estúdio interpretado por Josh Brolin – também tem seus sentimentos pela profissão colocados à prova, depois de receber uma proposta de emprego de uma empresa de aviação (interessada em transportar bombas de hidrogênio). Do outro lado da mesa, um homem alega que “o cinema não é uma indústria séria”, que “filmes são frívolos” e que “com a chegada da televisão, ninguém mais vai querer assistir a filmes”. 60 anos depois, ainda estamos falando sobre eles.

Se há um defeito em “Ave, César!” que pode custar o coração do público, é que o filme termina num tom decrescente. Depois de tantos momentos de tensão e expectativa, de tantas sacadas hilárias e de tantos questionamentos, o fechamento da história é, apenas, uma espécie de retorno à estaca zero – como, aliás, é bem comum nos trabalhos dos irmãos. Há, sim, a sugestão suave de mudança numa palavra gaguejada ou num suspiro mais profundo, mas os segundos finais, simplesmente, não dão ao espectador um sentimento de satisfação. Apesar de tudo, faltou alguma coisa… Talvez um simples e tradicional “O Fim”.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “Como Ser Solteira” não consegue fugir do rótulo de comédia romântica

Há poucas coisas mais frustrantes para quem vai ao cinema do que descobrir que aquele filme que se dizia “diferente”, na verdade, é igual a todos os outros. Então, caso você esteja esperando que “Como Ser Solteira” seja uma comédia sobre a solteirice feminina, e não apenas mais uma comédia romântica cheia de casais felizes… Bem, não diga que não avisamos.

O filme traz Dakota Johnson (“Cinquenta Tons de Cinza”) no papel de Alice, uma garota que decide “dar um tempo” no seu relacionamento sólido para morar sozinha pela primeira vez e, quem sabe, se conhecer melhor. A ideia é promissora: temos uma protagonista com a qual podemos nos identificar, que tem as mesmas dúvidas que qualquer uma (ou qualquer um) de nós. Esse início seria ótimo, se não fosse pelo diálogo artificial entre os dois, que termina com um ressoante “vou sentir falta dos seus peitos”.

O nível de maturidade do roteiro segue a linha dessa conversa inicial. Alice vai a Nova York, conhece Robin (Rebel Wilson) e mergulha na vida noturna em busca de, enfim, mais homens. O velho plano de viver sozinha e descobrir seus próprios gostos é rapidamente substituído por “ficar dividida entre três homens” e “fazer tudo o que sua amiga faz”. Nem o público, nem a própria protagonista conseguem descobrir quem ela é (nem mesmo sua profissão é relevante), exceto pela personalidade que ela imprime ao seu novo apartamento e que não aparece em mais nada, nem em suas roupas.

Em defesa do filme, essa contradição entre o que ela procurava e o que ela realmente vive chega a ser discutida, mas não antes de toda a história ser construída sobre esses novos relacionamentos. Para um filme que propunha explorar a “vida de solteira”, há uma quantidade impressionante de homens, não apenas os de Alice mas também em outros casais enrolados, seguindo a tradição de filmes como “Simplesmente Amor”, “Idas e Vindas do Amor” e “Ele Não Está Tão a Fim de Você”. Este último (escrito pela mesma autora do livro que inspirou “Como Ser Solteira”) é uma referência tão óbvia que chega a incomodar.

Rebel Wilson, que fora destaque nos trailers, acaba tendo um papel secundário. Explosiva nos minutos iniciais, ela escorrega lentamente para o segundo plano, enquanto os conflitos de Alice (bem menos cômicos) e de sua irmã Meg (Leslie Mann) assumem a dianteira. Uma pena, pois o papel de Wilson era o único que realmente trazia algo além da superfície.

“Como Ser Solteira” chega aos cinemas no dia 25 de fevereiro e é uma opção para quem procura uma comédia romântica leve, para dar algumas risadas. Só não espere originalidade.

 

 

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Deadpool” aposta em humor adolescente e piadas internas sobre filmes de super-heróis

Se você quer saber o que esperar de “Deadpool”, basta assistir aos créditos iniciais. O longa, aposta da Fox para chacoalhar seu universo de super-heróis (que inclui os X-Men e o Quarteto Fantástico, todos originais da Marvel Comics), pode não ser uma obra de arte, mas é sincero: logo de cara, deixa claro que sua história não é original, seu diretor não tem personalidade e seu protagonista não tem talento, mas os roteiristas – esses sim – fazem milagre.

O filme conta a história de origem do anti-herói Wade Wilson/Deadpool, que, diagnosticado com câncer terminal, aceita participar de uma experiência que cura a doença e lhe dá superpoderes, mas acaba deformando seu corpo. Seu diferencial, porém, não é a mutação, mas sim o senso de humor ácido e a mania de “quebrar a quarta parede” – ou, em outras palavras, interromper a ação para conversar diretamente com o público.

Ryan Reynolds reprisa o papel que, lamentavelmente, interpretara em “Wolverine: Origens”, mas, aqui, seu Deadpool é fiel aos quadrinhos: ele faz piadas escatológicas e fálicas (o tempo todo) e dá alfinetadas nos estúdios com comentários sobre os outros filmes de super-heróis, mais como um fã do que como um personagem. O tom geral é de um humor adolescente, ideal para um público nos seus 15 ou 16 anos (a censura é de 16), mas não se envergonhe se você, adulto, também achar graça. A ideia é apelar para o seu lado juvenil e brincar com isso.

Se os diálogos são espertos e cheios de referências pop, não espere muito da trama nem das cenas de ação. “Deadpool” cumpre apenas o protocolo e segue todas as cartilhas manjadas do gênero (ele o faz de propósito, mas nem por isso pode ser considerado inovador): vemos a apresentação do personagem sozinho, a ascensão com a mocinha, a queda solitária, a busca pelo vilão, a ajuda dos coadjuvantes e a grande batalha final, com muita destruição, alguns duelos paralelos e a redenção obrigatória.

A forma como a história é contada tem seu charme: o roteiro intercala uma única sequência de ação, passada numa ponte, com um longo flashback mostrando a formação do herói até ali. O recurso funciona bem, mas não dura para sempre: eventualmente, a narrativa alcança a cena principal e segue numa linearidade tradicional, bastante previsível.

“Deadpool” não é o melhor filme de super-heróis que você verá na sua vida, nem é o pior – mas talvez seja o mais honesto. Bem-humorado, ele traz à Fox o frescor de que o estúdio precisava para competir contra a Marvel e a DC, num ano que terá “Batman vs Superman”, “Capitão América: Guerra Civil”, “Esquadrão Suicida” e “Doutor Estranho”. Mirar um público diferente, mais jovem e disposto a levar os quadrinhos (e os filmes) menos a sério, foi definitivamente um acerto. A sequência, é claro, já está garantida.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “O Novíssimo Testamento” é uma comédia ousada e refrescante

Digamos que você não goste desta época pré-Oscar, quando todos os cinemas estão ocupados com filmes cobertos por selos de aprovação hollywoodiana. Ou pior: você simplesmente gosta de filmes mais alternativos e não consegue encontrar luz no fim do túnel em pleno janeiro de férias escolares e pipocões. Não é isso? Então, talvez, você até goste de blockbusters, mas tenha se cansado e resolvido procurar refúgio numa obra um pouco mais… Desafiadora. Não se preocupe, é para isso que estamos aqui.

Se, por qualquer razão, você está procurando alguma coisa diferente para assistir neste final de semana, a dica é a comédia belga “O Novíssimo Testamento”, de Jaco Van Dormael (mesmo diretor de “Sr. Ninguém”, drama com Jared Leto lançado em 2009). O filme conta a história da filha de Deus (isso mesmo) que, cansada da tirania do pai (um homem comum e rabugento, que vive trancafiado no escritório, em sua residência em Bruxelas), decide chacoalhar um pouco as coisas na Terra.

A banalidade com que a divindade é retratada é o que faz o filme ser tão interessante. Primeiramente, Deus mora num apartamento comum, com uma esposa submissa e uma filha pré-adolescente. O filho, como você já deve ter imaginado, saiu de casa há algum tempo, mas a mãe continua colocando seu lugar à mesa.

Tudo começa quando Ea (Pili Groyne), a tal filha, entra escondida no escritório do pai e descobre todas as maldades que ele tem praticado com os humanos, por puro sadismo. Depois de levar uma bronca e uma surra de cinta, ela decide agir: envia a todos os humanos as datas de suas mortes e vai à Terra reunir seis apóstolos e escrever um Novíssimo Testamento (por sugestão do irmãozão, J.C.).

A aventura de Ea tem seus altos e baixos. Acompanhada por um mendigo, ela visita seis pessoas aleatórias (uma delas é interpretada pela atriz Catherine Deneuve) e realiza pequenos milagres, mostrando compaixão por suas histórias, todas marcadas pela solidão. Nesse processo, umas se mostram mais interessantes que as outras e, em alguns momentos, o espectador pode se cansar, mas a surrealidade da situação nunca deixa de martelar, dando novos significados a cada cena. O final, certamente, dividirá opiniões, mas não se pode negar que é ousado.

“O Novíssimo Testamento” coloca algumas questões na mesa além do humor, como, por exemplo, o efeito que a consciência da mortalidade poderia ter nas vidas das pessoas. É curioso pensar que, apesar de sabermos que não somos eternos, nossas ações são pensadas como se vivêssemos para sempre. Numa situação extrema como essa, talvez o trabalho  fosse tirado do jogo, a segurança perderia o sentido e Deus, incapaz de salvar a qualquer um, seria desacreditado ou deixaria de ser fonte de esperança para se tornar, apenas, um consolo.

O filme está em cartaz no Reserva Cultural, em São Paulo, e estreia no dia 28 em cinemas selecionados no Rio de Janeiro.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.