Crítica: “Mistress America” traz de volta aos cinemas todo o charme da colaboração entre Noah Baumbach e Greta Gerwig

Comédias inteligentes são tão deliciosas quanto raras. Para quem aprecia esse estilo de humor mais “cabeça”, o jovem diretor nova-iorquino Noah Baumbach (“Frances Ha”) tem se revelado um oásis no oceano de mediocridades, como um Woody Allen ou um Wes Anderson que, periodicamente, aparecem para provocar o espectador. “Mistress America”, seu novo filme, chega aos cinemas neste mês, trazendo mais um punhado personagens irresistíveis e piscadelas intelectuais.

mistress

O filme repete a parceria entre Baumbach e a atriz/roteirista Greta Gerwig, sua companheira na vida real. Ela interpreta Brooke, uma garota de trinta anos que é a essência de Nova York: inquieta, popular, empreendedora, generosa e completamente perdida na vida. Sua personagem é ao mesmo tempo uma inspiração e um desafio para a jovem vivida por Lola Kirke, Tracy: uma universitária que acaba de se mudar para a cidade para estudar, mas que ainda não encontrou seu lugar.

O diretor acompanha o ponto de vista de Tracy, desde o momento em que ela é rejeitada por um clube literário da universidade e descobre que o garoto de quem gosta está namorando outra. Insegura, ela procura a ajuda da filha do noivo de sua mãe: Brooke. As duas passam apenas algumas horas juntas, mas já é o suficiente para que Tracy se encante com o estilo de vida da futura irmã e encontre inspiração para começar um novo livro.

O longa brinca com expectativas e realidades e vai balanceando o peso das duas protagonistas – ora é Brooke que comanda as ações, ora é Tracy. Podemos ver, ainda, a evolução delas ao longo do filme, o que enriquece ainda mais a história. Conseguirá Tracy ser aceita no clube? Conseguirá Brooke abrir seu restaurante? Algumas surpresas aguardam o espectador.

“Mistress America” foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e estreia no circuito comercial no dia 19 de novembro.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: despretensioso, “Um Amor a Cada Esquina” lembra comédias de Woody Allen

Quando o título do filme “Um Amor a Cada Esquina” começa a se formar na tela, letra por letra, ao som de jazz, uma sensação de déja-vu percorre o espectador. Outro Woody Allen, tão pouco depois de “Homem Irracional”? Parece, mas não é. O filme, uma comédia farsesca de timing afiado, é na verdade o primeiro longa de Peter Bogdanovich depois de praticamente vinte anos afastado dos cinemas.

um amor

Imogen Poots, jovem atriz de “Need For Speed”, “Namoro ou Liberdade” e “Uma Longa Queda”, é quem lidera o elenco, formado por nomes muito mais experientes como Owen Wilson, Jennifer Aniston e Kathryn Hahn. Mas ela não desaponta – pelo contrário, é Poots quem segura o humor e garante a maior parte das risadas ouvidas na sala de cinema.

Poots interpreta Isabella Paterson, uma atriz que, durante uma entrevista a uma jornalista visivelmente entediada, revela que foi prostituta antes de seguir a carreira artística. Mas a imaginação de Izzy, como ela gosta de ser chamada, é surpreendentemente romântica – inspirada por ninguém menos que Audrey Hepburn – e, ao invés de prostituta, sua ex-profissão ganha o título de “musa”.

Durante um encontro com um cliente, Izzy recebe a oferta de investir 30 mil dólares em seu sonho (o de se tornar atriz), com a condição de largar a noite. Seu benfeitor é o diretor de teatro Arnold Albertson (Wilson) e, como descobriremos mais à frente, essa não é a primeira vez que ele ajuda uma donzela.

Os problemas começam quando Izzy vai ao seu primeiro teste de elenco: justamente na peça em que Arnold e sua esposa, Delta (Hahn), estão trabalhando. Para piorar, ela se sai muito bem e Delta insiste para que a garota seja contratada.

As confusões amorosas vão se complicando à medida que cada novo personagem é apresentado: o roteirista (Will Forte), a psicóloga (Aniston), outro ator (Rhys Ifans), um ex-cliente desesperado de Izzy (Austin Pendleton)… Todos têm alguma relação que se complica com a chegada da atriz.

“Um Amor a Cada Esquina” faz jus ao nome e ao elenco: além de Poots, Aniston está excepcional como a psicóloga sem paciência nem ética profissional. Wilson apenas repete seu papel de sempre (o cara de bom coração que, às vezes, se deixa levar pelo momento), mas convence. O longa é uma opção agradável para  quem gosta de comédias um pouco mais adultas, mas despretensiosas. Estreia no dia 15 de outubro nos cinemas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: DeNiro esbanja carisma em “Um Senhor Estagiário”

Comédias despretensiosas e inteligentes nunca são demais. Melhor ainda se elas forem protagonizadas por Robert De Niro e Anne Hathaway, numa química entre gerações que não se via desde “O Diabo Veste Prada”, quando Hathaway contracenou com Meryl Streep.

estagiario

Em “Um Senhor Estagiário”, De Niro é Ben Whitaker, um viúvo aposentado que, cansado de ter tanto tempo livre, resolve se candidatar a um estágio numa empresa de e-commerce. Lá, ele é encaminhado para trabalhar diretamente com a fundadora e diretora Jules Ostin (Hathaway), uma mulher jovem e bem sucedida que prefere fazer tudo sozinha, mesmo que isso signifique não comer, não dormir e passar muito tempo longe do marido e da filha.

É, inclusive, uma grande surpresa quando descobrimos que Jules é mãe: parece impossível que alguém consiga conciliar tantas funções e ainda se dar tão bem em todas elas. Ela tem a ajuda do marido, que abandonou o trabalho para ser pai e dona-de-casa em tempo integral, pelo menos até a start-up da esposa se estabilizar. A relação entre os dois é um mar de fofura, mas logo, naturalmente, descobrimos que ela também tem seus tropeços.

No início, Jules acha que Ben pode atrapalhá-la, ou mesmo invadir seu espaço com seu jeito solícito “demais”, então não permite que ele tenha nenhuma função realmente importante. Mas ele não é ingênuo (como muitos idosos são retratados nos cinemas) e, ao invés de se ressentir, mantém olhos e ouvidos bem abertos até encontrar uma oportunidade e mostrar seu valor. A chance vem quando Jules ouve de seu próprio conselho que está na hora de contratar um CEO para controlar o crescimento da empresa.

A diretora Nancy Meyers não esconde seus temas favoritos e, como em trabalhos anteriores (entre eles “Do Que As Mulheres Gostam” e “Alguém Tem Que Ceder”), aqui também ela trata de envelhecimento e feminismo com propriedade. O fato de Jules estar tendo sua autoridade questionada, portanto, pode ser entendido tanto como um receio por ela ser jovem demais quanto por ser mulher (afinal, todos os CEOs que ela visita são homens) – e o mais bacana é que os dois preconceitos serão apontados e combatidos não por ela, mas por seu estagiário senior.

Hathaway está em casa com sua personagem workaholic, mas quem domina a cena é mesmo DeNiro, mais adorável do que nunca como o senhor que ensina cavalheirismo, organização e uma dose de amor próprio aos jovens colegas de trabalho. Ele é mais “cool” que todos os seus colegas hipsters.

Sem pesar nem forçar lições, “Um Senhor Estagiário” faz pensar sobre como subestimamos a experiência de pessoas mais velhas no ambiente de trabalho ou mesmo na vida pessoal. O filme é uma comédia deliciosa para se assistir em casa ou nos cinemas, sozinho ou acompanhado. Vale seu ingresso e vai fazer seu dia ficar melhor.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Férias Frustradas” acerta no tom e não recorre à nostalgia para ser engraçado

Quem diria: em pleno 2015, “Férias Frustradas” ainda é uma ótima comédia para ver com a família. A diferença é que, agora, não estamos mais falando daquele filme com Chevy Chase que você assistiu há mais de trinta anos (sim, sinto muito, já faz todo esse tempo), mas da sequência de mesmo nome que chega aos cinemas no dia 10 de setembro.

ferias

John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein, de “Quero Matar Meu Chefe”, assumem a direção e o roteiro do novo filme, com Ed Helms no papel principal. Ele é Rusty, o filho dos Griswold que cresceu e formou sua própria família, ao lado de Debbie (Christina Applegate) e dos filhos James (Skyler Gisondo) e Kevin (Steele Stebbins).

Tentando oferecer aos três um programa diferente para as férias, Rusty decide refazer a viagem que marcou sua infância: cruzar o país de carro rumo ao parque Walley World. É claro que ninguém além do próprio Rusty gosta da ideia, mas eles partem para a estrada mesmo assim.

Para começar, paremos um minuto para falar sobre o carro: ele é, provavelmente, a melhor piada de todo o filme, competindo apenas com a montagem de fotos na abertura. Com duas frentes, quatro retrovisores e muitos botões, além de um GPS memorável, essa é a primeira das muitas escolhas péssimas-mas-bem-intencionadas de Rusty ao longo da viagem.

É essa boa intenção por trás de cada erro que torna tudo tão engraçado, afinal, o público consegue se identificar com os personagens e torcer por eles enquanto ri de sua desgraça. Outro ponto positivo é que “Férias Frustradas” não se apoia num humor ofensivo, machista ou racista: seu instrumento é a ingenuidade dos personagens e o exagero das situações em que eles se envolvem. É um riso leve e sem culpa.

Há, sim, algumas piadas mais pesadas no meio do caminho, como um beijo grego ou uma participação mais do que especial de Chris Hemsworth, mas a abordagem é tão inocente que essas brincadeiras não chegam a ser impróprias (e as crianças, provavelmente, nem entenderão).

“Férias Frustradas”, como o próprio protagonista avisa, não tenta repetir o sucesso do filme original, mas se sustenta por si só, com um novo elenco (apesar da participação especial do antigo), novas situações e novos motivos para rir. O que se mantém é o espírito familiar: como nos anos 80, pais e filhos vão poder se sentar diante da tevê ou da tela do cinema e curtir algumas boas gargalhadas juntos.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Ted 2” mostra que a mesma piada nem sempre funciona duas vezes

Quando o ursinho Ted apareceu pela primeira vez nos cinemas, fumando maconha e falando palavrão, o público até achou engraçadinho. O enredo, sobre o dono do urso que precisava se desapegar do amigo de infância para amadurecer, também não era ruim e muita gente conseguiu se divertir. O problema é que a mesma piada, contada duas vezes, não tem mais o mesmo efeito.

ted

Ted 2” traz de volta Ted (Seth MacFarlane), agora já casado com Tami-Lynn (Jessica Barth), pensando em adotar uma criança para salvar o relacionamento em crise. Quando o casal dá início ao processo, porém, uma questão legal vem à tona: perante a lei, Ted não pode ser considerado uma pessoa. A partir daí, Ted, Tami, John (Mark Wahlberg) e a jovem advogada Sam (Amanda Seyfried) iniciam uma batalha judicial contra o Estado para recuperar os direitos do urso.

O problema não é apenas a história cheia de buracos (a crise conjugal, por exemplo, se resolve de uma hora para a outra), mas o humor do diretor e roteirista MacFarlane. Como em seus outros trabalhos, “Ted 2” repete os mesmos temas de sempre: maconha, objetos fálicos, negros e mulheres que parecem doces mas são tão lesadas quanto seus colegas masculinos. Fica difícil rir quando já se sabe exatamente o que está por vir – e não são poucos os momentos em que a piada é recebida com um silêncio constrangedor da plateia.

A comédia ainda tem outros problemas pontuais: a sequência de abertura, por exemplo, não dialoga em nada com o restante do filme. Como uma referência genérica a Hollywood, Ted protagoniza um foxtrot com dançarinos em roupas de gala, lembrando os maçantes números musicais das cerimônias do Oscar e ainda trazendo à memória a lamentável ocasião em que MacFarlane foi o anfitrião da festa.

Outro ponto questionável são as cenas com o advogado vivido por Morgan Freeman – cuja presença força uma lição de moral, com direito ao velho discurso vocês-me-fizeram-lembrar-da razão-pela-qual-eu-escolhi-minha-profissão. Também é um pouco incômodo o relacionamento entre John e Sam, que nem mesmo se mostram interessados um no outro, mas ainda assim se unem porque pede a cartilha.

“Ted 2”, não por acaso, vem amargando uma trajetória bem menos entusiástica que seu antecessor: nos EUA, arrecadou apenas US$ 81 desde a estreia em junho, contra US$ 219 mi do primeiro filme – e o orçamento ainda foi um pouco mais alto. Por aqui, o longa estreia no dia 27 de agosto e o desempenho não deve ser muito diferente. Fuja dessa roubada.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Gemma Bovery” cria humor inteligente inspirado em romance francês

“Uma mulher banal que se entedia com uma vida banal não é banal”, protesta o protagonista de “Gemma Bovery”, buscando alguma faísca de excepcionalidade em sua monótona vida real. Estaria ele falando da personagem de Gustave Flaubert, Emma Bovary, ou de sua nova vizinha inglesa?

gemma

O novo filme de Anne Fontaine, diretora do memorável “Coco Antes de Chanel”, é uma comédia para quem ama literatura e, como o padeiro Martin (interpretado pelo sempre adorável Fabrice Luchini), também vive procurando semelhanças entre a realidade e seus mundos imaginários – mesmo que isso signifique, às vezes, dar um empurrãozinho na direção certa.

Martin é um parisiense que se mudou com a família para a Normandia (precisamente onde Flaubert escreveu “Bovary”) buscando tranquilidade, mas não encontrou nada parecido com isso. Como ele mesmo descreve, aquele é um lugar onde as pessoas tendem a se suicidar… Ou tomar Calca (uma bebida bem forte). Ou, quem sabe, se envolver nas vidas dos outros.

Quando os novos vizinhos, Gemma (Gemma Arterton) e Charlie (Jason Flemyng) Bovery, chegam para morar na casa ao lado, Martin imagina se a vida da garota não seria parecida com a da personagem da ficção. Logo, a sensualidade da moça e seus instáveis relacionamentos amorosos começam a confirmar sua teoria – despertando o receio de que seu final também seja o mesmo.

O filme instiga a curiosidade e levanta o tempo todo uma desconfiança: será que a vida de Gemma remete à de Emma porque Martin a vê assim, porque ele a influencia para ser assim, ou por alguma semelhança natural e misteriosa? Vale lembrar que Gemma também está lendo o romance enquanto sua história acontece e pode estar sendo impactada por ele.

Reforça essa dúvida o fato de que a história é narrada por um misto de dois pontos de vista igualmente tendenciosos: o de Martin, que faz o papel de narrador, e o de Gemma, cujo diário ele lê. É interessante notar que Luchini revisita aqui uma situação de voyeur semelhante à que vivera no drama “Dentro da Casa”, de François Ozon, mas, desta vez, é ele quem invade a intimidade do outro.

“Gemma Bovery” é mais uma homenagem do que uma adaptação e, ao mesmo tempo em que transporta o espectador para aquele universo literário de Flaubert, também se empenha em quebrar essa ilusão, criando uma ambiguidade que prende a atenção do início ao fim. Uma dica infalível para amantes de livros que procuram um humor inteligente para o fim de semana.

Texto publicado no Guia da Semana em 24/07/2015.

Crítica: mesmo com Pac Man alienígena, “Pixels” não assume vocação nerd e é aventura esquecível

Os anos 70 e 80 realmente estão de volta. Depois de uma onda de remakes e sequências tardias, o público de trinta-e-poucos anos está prestes a ver mais um elemento de sua infância reaparecer nos cinemas. “Pixels”, comédia que estreia no dia 23 de julho, transforma a Terra num fliperama a céu aberto e faz de Pac Man, Centopeia e Donkey Kong os principais vilões de um ataque alienígena.

pixels

O longa foi inspirado por um curta de mesmo nome de Patrick Jean e é dirigido por Chris Columbus (“Esqueceram de Mim”, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”), mas o nome que realmente salta da tela é o do ator Adam Sandler. O filme tem todas as características das comédias habituais do artista (um herói humilde e desacreditado, mas de bom coração, etc.) e, entre todos os protagonistas (o que inclui Kevin James, Josh Gad, Peter Dinklage e Michelle Monaghan), ele é o que ganha mais espaço e prestígio no roteiro.

A provável razão disso é que o principal roteirista, Tim Herlihy, é um colaborador frequente de Sandler. Contando com “Pixels”, já são dez longas juntos desde 1995, incluindo “O Paizão” e “Gente Grande 2”. Para quem não gosta desse tom cômico-sentimental, portanto, fica o aviso.

A história, pelo menos, é bem divertida. Em 1982, uma cápsula da Nasa é enviada ao espaço contendo informações sobre a cultura humana, incluindo imagens de um campeonato de fliperama. A mensagem é mal interpretada e, trinta anos depois, um exército alienígena chega para travar uma guerra contra a Terra, munido de versões gigantes dos personagens daqueles jogos.

O interessante é que a batalha segue as mesmas regras dos video-games: são três rounds e um chefão, e cada duelo tem sua hora marcada. Afinal, os aliens querem destruir a Terra, mas querem fazer isso direito.

Se a premissa é quase irresistível para quem gosta de games e aventuras fantásticas regadas com um humor nonsense, há no mínimo um problema sério com a execução: o filme não dialoga com o seu público. Ou melhor: não admite que seu público (aquele que vai assistir aos trailers e realmente se interessar pela ideia) é tão nerd quanto seus protagonistas, e perde oportunidades preciosas de dialogar com ele.

Atores de Game of Thrones, Senhor dos Anéis e X-Men estão juntos no elenco e isso é simplesmente ignorado. Para piorar, os jogos atuais são generalizados como “violentos e sem regras”, mostrando uma total falta de interesse em compreender o novo público gamer. Já para os jogadores old-school, apenas a sequência inicial será capaz de inspirar alguma nostalgia, já que as batalhas contra os alienígenas têm muito mais ação e efeitos especiais do que estratégia propriamente dita.

Mirando as massas, “Pixels” se afasta da originalidade do curta de Patrick Jean e se torna apenas mais um “filme-família” com as velhas piadas de sempre envolvendo mulheres, gays, militares e presidentes. Ideal para quem não quer pensar muito, mas quer dar algumas risadas com o herói Adam Sandler e seu time de coadjuvantes.

Texto publicado no Guia da Semana em 21/07/2015.

Crítica: “O Que As Mulheres Querem” discute o que significa ser mulher num universo de estereótipos

Estreia nesta quinta (23 de julho) um filme francês chamado “O Que As Mulheres Querem”. Se o nome soa familiar, não se deixe confundir: este não é aquele filme com Mel Gibson que fez sucesso no ano 2000 (“Do Que As Mulheres Gostam”). Aliás, há uma diferença essencial entre os dois: aqui, o protagonista não é um homem tentando compreender o universo feminino, mas são elas mesmas que dominam a tela, vivendo seus conflitos e confusões sem precisarem explicar nada a ninguém.

mulheres

O filme é dirigido, escrito e produzido por mulheres e, por mais que centenas de filmes dirigidos, escritos e produzidos por homens sejam vistos pelo público feminino todos os dias, esta não é uma comédia para eles. “O Que As Mulheres Querem” é como uma conversa de bar sobre relacionamentos, trabalho, menopausa e o que significa ser mulher quando o resto do mundo te vê apenas como esposa, mãe, chefe ou amante.

Onze personagens femininas conduzem a história, dividindo escritórios, quartos ou maridos e, eventualmente, se encontrando para rir das próprias situações. Ysis (Géraldine Nakache), por exemplo, é mãe de quatro filhos e está farta de cuidar deles sozinha enquanto seu marido não percebe que também é responsável por eles. Já Inès (Marina Hands) faz uma operação de miopia, só para descobrir que está sendo traída pelo marido com a vizinha de sua colega de trabalho, que esconde o segredo.

Vanessa Paradis se destaca no elenco com o papel de Rose, uma empresária bem sucedida que fica incomodada ao ouvir de seu médico que ela tem “testosterona demais” e que isso explicaria seu cargo, sua postura agressiva e sua dificuldade em criar amizades com mulheres. Enquanto o público se contorce na poltrona diante de tal afirmação, sua história nos mostra que, na verdade, só lhe falta um pouco de prática para reconhecer e cultivar boas amizades em meio a uma rotina tão automatizada.

O filme é dirigido pela atriz Audrey Dana, que estreia no comando de longas-metragens e interpreta uma das protagonistas – uma mulher que prefere ser amante a assumir o papel de esposa oficial. É ela que  aparece na primeira cena e, de cara, expulsa os homens (e algumas mulheres) da sessão com uma sequência (bem curta, felizmente) sobre menstruação.

“O Que As Mulheres Querem” é uma opção divertida e despretensiosa para quem quer fugir das comédias americanas ou nacionais, seja para ver sozinha ou com as amigas. Provavelmente, você irá se identificar com uma personagem, ou com um pouco de cada uma, e secretamente vai acabar rindo de si mesma.

Texto publicado no Guia da Semana em 19/07/2015.

Crítica: fofura dos “Minions” não sustenta aventura solo

Os mascotes amarelos de “Meu Malvado Favorito” estão de volta aos cinemas e, desta vez, ganharam seu próprio filme. “Minions”, que estreia no dia 25 de junho, assume de vez o que já vinha se ensaiando desde a segunda aventura de Gru, quando os coadjuvantes assumiram a dianteira e ofuscaram seu mestre pela primeira vez: mais valem mil imagens fofinhas do que uma boa história.

minions

A animação vem ainda mais direcionada ao público infantil do que os filmes anteriores e pode não agradar tanto aos pais quanto eles esperavam. Afinal, depois de quinze ou vinte minutos de piadas com bananas e vilões azarados, o adulto precisará de algo um pouco mais consistente para continuar rindo, e isso não acontece.

O filme começa mostrando a origem dos Minions e sua fascinação pelos vilões mais cruéis da História, como o Tiranossauro Rex e o Conde Drácula. Depois de uma série de desventuras, porém, o grupo é obrigado a se estabelecer numa caverna e desenvolver uma comunidade autossuficiente sem um chefe, e não demora até o tédio tomar conta.

Decidido a mudar essa situação, Kevin (o Minion mais alto dos três principais) anuncia que vai subir à superfície para procurar um novo mestre e convoca dois companheiros: Stuart (de um olho só) e Bob (o mais baixinho, que no começo do filme age como um bebê, mas depois perde um pouco essa característica).

Os três viajam até descobrirem uma convenção em Orlando chamada “Expo Vilões” (Villain Con), onde a supervilã Scarlett Overkill (dublada por Adriana Esteves) se apresentará e recrutará um ajudante. Daí em diante, os Minions terão que se esforçar para, simplesmente, não estragarem tudo mais uma vez.

As cenas de viagens são as mais cansativas do filme e parecem feitas apenas para preencher os enormes espaços vazios do roteiro. Também não soa natural a forma como os Minions, neste filme, são mostrados como heróis desastrados, ao invés dos servos multifuncionais que tanto cativaram o público no filme original.

Para as crianças, “Minions” entrega toda a fofura que prometera, com a linguagem quase decifrável e o comportamento ingênuo dos protagonistas rendendo alguns momentos bem engraçados. Scarlett, contudo, não convence como uma “supervilã” e suas cenas, em geral, têm o poder de irritar mais do que divertir.

Como um spin-off inspirado, principalmente, nos pequenos vídeos promocionais que acompanharam os outros dois filmes, a animação funciona mais como uma esquete excessivamente prolongada do que como um longa-metragem em si. É uma pena, considerando a expectativa que se havia criado sobre esse projeto.

Texto publicado no Guia da Semana em 25/06/2015.

“Família do Bagulho”: sexo, drogas e férias em família

bagulho

À primeira vista, Família do Bagulho parece mais um dos tantos filmes injustiçados que sofreram com a tradução do nome. Concebido como “We’re The Millers”, a comédia com Jennifer Aniston e Jason Sudeikis não poderia ser tão inofensiva quanto sugere o título em português – afinal, nos prometeram drogas, strip-tease e uma classificação “R” (para maiores de 17 anos nos EUA).

À segunda vista, porém, o nome se revela perfeito. A nova comédia de Rawson Marshall Thurber, com roteiro escrito a oito mãos (Bob Fisher, Steve Faber, Sean Anders e John Morris), parece ter medo de definir seu público – e acaba soando mais como uma lembrança distante do clássico familiar Férias Frustradas do que como um filme adulto dos anos 2000.

Sudeikis interpreta David, um traficante local de maconha que mantém o mesmo estilo de vida de quando estava na faculdade – sem mulher, nem filhos, nem um emprego formal. Sua vizinha (Aniston) trabalha como stripper e está à beira do despejo. Também mora ali um adolescente ingênuo, que parece ter sido recém-abandonado e nem se dado conta disso. Para completar o time, há uma pseudo-punk (com um celular de última geração) que fugiu de casa e agora mora na rua ou em casas de amigos.

Todos precisam tomar um rumo na vida, mas falta um empurrãozinho, que vem quando David é assaltado e contrai uma dívida com seu fornecedor (Ed Helms).  Para pagá-la, ele precisará cruzar a fronteira do México e trazer uma encomenda de maconha para os Estados Unidos. O melhor jeito de fazer isso, ele descobre, é alugar um trailer e fingir que está de férias com a família perfeita.

Se a premissa é interessante, o resultado não poderia ser mais convencional. Você já sabe que verá o casal que se odeia e depois se apaixona, a família que “é só fachada”, mas acaba agindo como uma família de verdade,o vilão internacional que se revela um frouxo, a sorte sempre a favor dos desajustados, a justiça triunfante no final.

Jennifer Aniston consegue arrancar sua parcela de risadas, como quando migra rapidamente do papel da stripper para o de mãe de família, mas fica difícil encontrar sensualidade na sua performance solo, quando dança de lingerie (bege) para distrair o traficante.

Sudeikis está muito bem no papel do egocêntrico e excessivamente animado adolescente eterno, mas pouco se vê de evolução no seu personagem. Quanto aos filhos, quem merece destaque é Will Poulter, o típico (e engraçado) virgem inocente – Emma Roberts, que vive a jovem punk, não tem nem a chance de contar o passado de sua personagem e acaba não convencendo.

Apesar dos clichês, Família do Bagulho é uma diversão leve, menos apelativa que outros lançamentos do gênero e que poderia muito bem ter sua classificação reduzida se não fosse a questão das drogas. Como o nome, certeiro, já indica, este é um filme sobre famílias, para a família que não quer pensar muito num domingo à noite.

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.