O que sua parede diz sobre você?

Vou fazer uma pergunta indiscreta: quem é você sem maquiagem? Com a parte de baixo do pijama escondida sob a mesa, camisetinha mal passada e cabelos presos para não pentear, sem salto, sem celular, sem aquele toque intelectual-chic do copo descartável do Starbucks, sem crachá, sem uniforme, sem pressa, sem gente em volta de você? O que aquela parede nua diante da câmera do seu computador conta de verdade? Continuar lendo “O que sua parede diz sobre você?”

Apenas mais um dia no Apocalipse

Tenho apelidado estes tempos estranhos de “Apocalipse”. Chame-me de pessimista ou herege, mas penso nele como um apelido carinhoso – menos sanitário que “pandemia”, menos específico que “quarentena”, familiar o suficiente para amenizar a alta dose de nonsense da situação (é preciso buscar na ficção qualquer imagem simbólica que ajude a entender a vida real). Então achei que era uma palavra elegante, capaz de englobar tudo isso e falar com propriedade de um cenário maior: o fim das coisas como as conhecemos, uma crise que é diferente das outras, que atingiu o mundo inteiro a um só tempo, e um cenário de incerteza sobre o que faremos quando a fase de hibernação passar e tivermos que encarar um mundo quebrado. Quebrado de um lado e reconstruído do outro, familiar e ao mesmo tempo exótico, novo e velho.

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O fim de tudo, o recomeço, ou nada disso.

Décadas de distopias não nos prepararam para isto. Zumbis, alienígenas, vírus implacáveis, macacos inteligentes, máquinas inteligentes, terremotos, tsunamis… Todos os cenários partiam da premissa de que a humanidade era, de certa forma, um organismo único, estático e previsível, que reagiria ao horror como qualquer outro animal: com pânico, violência, instinto de sobrevivência, agitação. Talvez até com solidariedade, perto do fim. Mas isolamento com Netflix, paciência, negação, medo de perder o emprego ou de acabar o papel? Isso, você não viu nos cinemas.

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