Apenas mais um dia no Apocalipse

Tenho apelidado estes tempos estranhos de “Apocalipse”. Chame-me de pessimista ou herege, mas penso nele como um apelido carinhoso – menos sanitário que “pandemia”, menos específico que “quarentena”, familiar o suficiente para amenizar a alta dose de nonsense da situação (é preciso buscar na ficção qualquer imagem simbólica que ajude a entender a vida real). Então achei que era uma palavra elegante, capaz de englobar tudo isso e falar com propriedade de um cenário maior: o fim das coisas como as conhecemos, uma crise que é diferente das outras, que atingiu o mundo inteiro a um só tempo, e um cenário de incerteza sobre o que faremos quando a fase de hibernação passar e tivermos que encarar um mundo quebrado. Quebrado de um lado e reconstruído do outro, familiar e ao mesmo tempo exótico, novo e velho.

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Eles sabem.

Eu não sei exatamente quem são “eles”, mas sei que eles sabem.

Sabem que, no último sábado, eu e o meu marido paramos para perguntar o preço de algumas lentes numa galeria da Avenida Paulista. Na mesma hora, espalharam anúncios da Canon pela sua timeline – não espalharam pela minha, é claro, porque sabiam que era ele quem gostava de fotografia, como sabiam que era Canon, não Nikon. Continuar lendo “Eles sabem.”

A Dilma é o menor dos seus problemas

Na noite do último domingo, minha sessão caseira de Whiplash foi interrompida pelo que me pareceram dez minutos de uma torcida fanática de futebol. A diferença é que não havia jogo àquela hora e que, no lugar de “chupa”, “juiz viado” e gracejos afins, o que se ouviu foram urros de “vagabunda”, “hipócrita” e “fora Dilma”. Continuar lendo “A Dilma é o menor dos seus problemas”

Nostalgia Crônica

Se você ainda não reparou, aviso que o mundo vive uma nostalgia crônica. Uma doença daquelas insistentes, que fazem com que tudo o que se faz hoje pareça decepcionantemente pior do que o que se fazia antigamente – ou pior, que as pessoas desejem as coisas exatamente iguais ao que eram antigamente. Continuar lendo “Nostalgia Crônica”