O vento não liga para nada

Nem todos os dias fluem em coerência. Há sábados, por exemplo, que começam com pão e café, mas terminam com punhos apertados e vontade de gritar. O que foi que deu errado entre o nascer e o pôr do sol?

Ah, sim, a quarentena… Continuar lendo “O vento não liga para nada”

Perdoe minha paranoia

Perdoe minha paranoia, mas eu não vou sair agora. 

Tenho guardado uma coleção de abraços para quando tudo isto acabar. É uma gaveta grande que guarda carinhos e cafés compartilhados e longas caminhadas, e passeios sem rumo e churrascos no sol; mas tenho outra, ainda um pouco vazia, que carrega o sonho de conversas mais leves sobre como aquele tempo foi louco e passou. Lembra quando a gente não aguentava mais ficar em casa? No fim aguentamos e ficamos seguros, e passou. Que bom. Continuar lendo “Perdoe minha paranoia”

Escrever ficção

Acho que o sonho da minha vida era escrever ficção. Assim, daquelas que você devora numa noite, vendo um capítulo puxar o outro e esperando que tudo se amarre no final, revelando uma rede bem desenhada, brilhante, pincelada em detalhes espertos ao longo de uma narrativa que não te deixa dormir… Mas… A verdade é que nunca consegui terminar nem mesmo um microconto. E dizem que admitir é a parte mais difícil, né? Continuar lendo “Escrever ficção”

Mato até os joelhos

Na minha rua, as pessoas gostam muito de plantas. O que é saudável, eu acho… Exceto quando não é. Que é quando as plantas desistem de esperar por uma poda e resolvem crescer além do limite combinado, invadindo o asfalto, a calçada, os buracos, a passarela, os pneus dos carros abandonados e qualquer outro cantinho que tenha sido esquecido temporariamente ou permanentemente, criando um grande e preciso mapa do cansaço (ou da preguiça) de seus colegas humanos. O que, se você me perguntar, é um pouco rude da parte delas. 

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Em cima do muro

Em cima do muro tinha uma mochila. E uma bolsa de praia, e quatro pares de chinelos. A praia era uma tripa de areia que se encolhia a cada respiro da maré, que subia e subia. Subia tanto que o acesso para não-condôminos estava bloqueado, cheio de pedras traiçoeiras debaixo de um metro e meio de água. Era uma praia dentro de um condomínio, dentro de um condomínio, mas era uma praia. E era pública.

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O tiozão mais feliz da balada

E de repente me vi: pés descalços, óculos de plástico verde-limão segurando os cabelos como tiara, tirinhas luminosas nos pulsos em múltiplas cores, boá de plumas cor-de-rosa enrolado no pescoço, saia arrastando no chão sem piedade, braços indo e vindo em movimentos tolos e ritmados. Um sorriso que virava risada, um passinho para cá e outro para lá, uma careta para a foto. Tinha me transformado no tiozão da balada. E o tiozão era o cara mais feliz da balada. Continuar lendo “O tiozão mais feliz da balada”

Menininha

Todo mundo tem uma história vergonhosa da infância. A minha (uma delas) é essa: quando tinha meus 4 ou 5 anos, eu costumava me agarrar ao corrimão na casa da minha avó e chorar descompensadamente, bradando aos sete ventos que eu queria ir à escola de saia, não de calça. Fazia uns 10 graus. Continuar lendo “Menininha”

Pão quentinho

Aqui em casa, não temos campainha. Essa é uma daquelas coisas que eu e o Gabriel dissemos que iríamos consertar assim que nos mudássemos para o apartamento, mas, com o tempo, simplesmente nos acostumamos a viver sem. Afinal, quem é que recebe visitas imprevistas em pleno 2019? Continuar lendo “Pão quentinho”