Quando é preciso desconectar

Longe de mim ser a pessoa que vai dizer que os tempos eram melhores antes da internet. Vivo e respiro nela desde muito cedo e, introvertida que sou, sempre encontrei na rede uma forma mais fácil de conviver do que nas esquinas exaustivas da vida real. Tampouco sou dependente dela, diga-se de passagem: quando ocupada, quase sempre deixo o celular de lado e não me importo em checar notificações até que esteja no caminho de casa – e, se a bateria acaba, dou de ombros sem nenhum trauma. Sério, vocês deviam experimentar.

Continuar lendo “Quando é preciso desconectar”

Azul, com traços vermelhos

A questão me apresentava quatro alternativas e, em cada uma delas, duas palavras ambíguas. Você é distante e reservada? Ou cuidadosa e atenciosa? Influente e criativa ou firme e assertiva? Azul, verde, amarela ou vermelha? Vamos, escolha. Conte-nos quem você é. Continuar lendo “Azul, com traços vermelhos”

Histórias descartáveis

Quando foi a última vez que você assistiu a um filme que ficou com você? Digo, realmente ficou, até que você assistisse de novo, lesse uma crítica, convencesse todos os seus amigos a verem também e finalmente incorporasse frases inteiras, ideias e referências da tela para a sua vida? Faz tempo, né? Continuar lendo “Histórias descartáveis”

Rosé gold

Tons pastéis se espalham pela minha timeline. Rosa, azul, dourado, creme, rosé gold, preto e branco. Cadernos decorados como se cada página fosse um quadro. Mesas amplas e convidativas com seus vasinhos, canecas, luminárias, canetas, lápis, cadernos, notebooks. Peças decorativas com um toque irônico sorriem para a câmera. Fofas e autênticas. Idênticas às da página ao lado. Escritórios ou cenários de um filme do Wes Anderson? Perfeitos, limpos, aconchegantes, simétricos. Suas habitantes, também: sapatilhas delicadas, vestidos rodados, cabelos cuidadosamente bagunçados. Nas fotos quadradas, os pés não doem, o vento não bagunça a franja, o café não suja a mesa. As unhas estão bem feitas, o livro harmoniza com o computador, a almofada, o cobertor grosso de tricô. Será que alguém o lê? Continuar lendo “Rosé gold”

Eles sabem.

Eu não sei exatamente quem são “eles”, mas sei que eles sabem.

Sabem que, no último sábado, eu e o meu marido paramos para perguntar o preço de algumas lentes numa galeria da Avenida Paulista. Na mesma hora, espalharam anúncios da Canon pela sua timeline – não espalharam pela minha, é claro, porque sabiam que era ele quem gostava de fotografia, como sabiam que era Canon, não Nikon. Continuar lendo “Eles sabem.”

Assunto: este e-mail é seu?

Olá. Meu nome é Juliana e, provavelmente, o seu também.

Pergunto se este e-mail é seu porque, veja bem, ele é meu também. Alguns meses atrás comecei a receber mensagens de pessoas que eu não conhecia, sobre assuntos que eu não entendia, e fiquei desconfiada. Sabe, eu não moro no Rio Grande do Norte, não me inscrevi em nenhuma SmartFit (e depois desisti) e ninguém tão próximo de mim faleceu neste ano – sobre isso, aliás, sinto muito. Continuar lendo “Assunto: este e-mail é seu?”

Lendo Anne Rice

Algumas memórias ficam guardadas por tanto tempo que a gente até esquece que aconteceram de verdade… Até que, um dia, elas vêm à tona por um motivo qualquer. E você pensa: como foi que eu fiquei tanto tempo sem lembrar? Continuar lendo “Lendo Anne Rice”

(Des)aprendendo a escrever

Escrevo desde criancinha e nunca dei muita bola pra isso. Simplesmente inventava histórias para as minhas bonecas, para os personagens que eu gostava da televisão, ou criava minhas próprias heroínas estranhas e as colocava no papel – fosse em forma de quadrinhos, anotações nos cantos dos desenhos ou, certa vez, num calhamaço de papel escrito à mão, com capa e tudo como num livro de verdade.

Continuar lendo “(Des)aprendendo a escrever”

Superpoderes

Estava pensando em superpoderes. Não nos dos super-heróis, fantásticos e inúteis (a não ser que você esteja metido numa batalha contra as forças do mal), mas nos de gente nada heroica, desses poderes discretos que fazem a diferença na vida pacata de quem não gosta nem de brigar. Por exemplo: tem gente que é boa com pessoas e consegue tudo, só na lábia. Tem gente que cozinha bem, e isso já é meio caminho andado para uma vida feliz. E memória fotográfica então? Baita poder!

Continuar lendo “Superpoderes”

Crônica de quatro patas

Ela se enrola toda como um caracol e relaxa, empurrando de leve minha coxa e suspirando fundo antes de fechar os olhos. Passo os dedos por pelos longos e castanhos e, feito mágica, já me sinto melhor. É infalível. Brinco então com as orelhas, sempre despenteadas, e arrumo uma delas que tinha se virado ao contrário. É só eu me distrair um segundo que elas dão um jeito de virar ao contrário. Continuo o carinho enquanto encaro a tela em branco, ameaço escrever alguma coisa e sinto-a se remexer. Agora, exibe a barriga branca para que eu prossiga com o coça-coça, mas mantém a cabeça mais ou menos na mesma posição, retorcendo todo o corpinho peludo como se estivesse muito confortável. As patinhas estão dobradas, mais ou menos soltas no ar. A cena é ridícula e, ao mesmo tempo, deliciosa. Quero tirar uma foto.

Continuar lendo “Crônica de quatro patas”