Crítica: “Mistress America” traz de volta aos cinemas todo o charme da colaboração entre Noah Baumbach e Greta Gerwig

Comédias inteligentes são tão deliciosas quanto raras. Para quem aprecia esse estilo de humor mais “cabeça”, o jovem diretor nova-iorquino Noah Baumbach (“Frances Ha”) tem se revelado um oásis no oceano de mediocridades, como um Woody Allen ou um Wes Anderson que, periodicamente, aparecem para provocar o espectador. “Mistress America”, seu novo filme, chega aos cinemas neste mês, trazendo mais um punhado personagens irresistíveis e piscadelas intelectuais.

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O filme repete a parceria entre Baumbach e a atriz/roteirista Greta Gerwig, sua companheira na vida real. Ela interpreta Brooke, uma garota de trinta anos que é a essência de Nova York: inquieta, popular, empreendedora, generosa e completamente perdida na vida. Sua personagem é ao mesmo tempo uma inspiração e um desafio para a jovem vivida por Lola Kirke, Tracy: uma universitária que acaba de se mudar para a cidade para estudar, mas que ainda não encontrou seu lugar.

O diretor acompanha o ponto de vista de Tracy, desde o momento em que ela é rejeitada por um clube literário da universidade e descobre que o garoto de quem gosta está namorando outra. Insegura, ela procura a ajuda da filha do noivo de sua mãe: Brooke. As duas passam apenas algumas horas juntas, mas já é o suficiente para que Tracy se encante com o estilo de vida da futura irmã e encontre inspiração para começar um novo livro.

O longa brinca com expectativas e realidades e vai balanceando o peso das duas protagonistas – ora é Brooke que comanda as ações, ora é Tracy. Podemos ver, ainda, a evolução delas ao longo do filme, o que enriquece ainda mais a história. Conseguirá Tracy ser aceita no clube? Conseguirá Brooke abrir seu restaurante? Algumas surpresas aguardam o espectador.

“Mistress America” foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e estreia no circuito comercial no dia 19 de novembro.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Anomalisa”, de Charlie Kaufman, faz uma crítica afiada ao egocentrismo dos relacionamentos

Você pode nunca ter ouvido falar em Charlie Kaufman, mas provavelmente conhece “O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, “Quero Ser John Malkovich” ou “Sinédoque, NY”. Os dois primeiros, dirigidos por Michel Gondry e Spike Jonze, tiveram seus roteiros escritos por Kaufman. O terceiro, foi escrito e dirigido por ele. Se isso tudo não for motivo suficiente para conferir seu novo longa, “Anomalisa”, considere que o filme é um stop-motion que levou o Grande Prêmio do Júri em Veneza.

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“Anomalisa” é uma obra estranha, ficcional e ao mesmo tempo realista demais. O fato de ser uma animação ajuda a criar uma distância, um afastamento da realidade, mas os “bonecos” que representam os personagens não são criaturas fofinhas: são muito parecidos com humanos, mas de uma textura diferente e com vincos no rosto que sugerem uma máscara. Não muito diferente das que nós, humanos, usamos de vez em quando.

O protagonista é Michael Stone (David Thewlis), um guru do telemarketing que viaja a Cincinnati para divulgar seu novo livro, um manual que promete melhorar as vendas em 90% ao ensinar o profissional a tratar seu cliente como um indivíduo, especial e único. Ironicamente, o próprio Stone não acredita em nada disso.

O primeiro estranhamento acontece quando, dentro de um avião, ele abre a carta raivosa de uma ex-namorada, mas é a voz de um homem que se ouve. Mais tarde, no quarto do hotel, ele faz uma ligação para a esposa e o filho pequeno: novamente, vozes masculinas e adultas. Pior: a mesma voz. Compreendemos então que Stone enxerga todas as pessoas à sua volta como seres idênticos, com o mesmo rosto e a mesma voz (diferentes, apenas, dos seus).

Essa forma literal de mostrar como rotulamos e generalizamos o mundo já havia sido testada em “Quero Ser John Malkovich”, de um jeito mais cômico e ainda mais bizarro. “Anomalisa”, porém, acrescenta uma dose de didatismo e escancara, sem rodeios, o egocentrismo e a ingenuidade contidos nessa ideia.

Influenciado, certamente, por romances hollywoodianos e contos de fadas, Stone procura sua felicidade no “amor verdadeiro” e se decepciona ao descobrir que esse amor não se constrói com milagres. Seguindo a cartilha em que foi ensinado a acreditar, ele se apropria da mulher e sequestra-a de sua realidade para encaixá-la em seu próprio mundo e, fazendo isso, deixa de enxergá-la.

É de enorme sensibilidade que Kaufman tenha escolhido a canção “Girls Just Wanna Have Fun”, de Cyndi Lauper, como a favorita de Lisa – uma garota insegura que Stone conhece no hotel, e que acaba dando o nome ao filme. Apesar de alegre, a música fala de expectativas sobre o papel da mulher, que aprisionam tanto a elas quanto aos homens.

“Anomalisa” poderia ser um curta, pois se demora demais em cenas banais, como a abertura de uma porta ou a preparação de um drink. Mas há um propósito nisso: criar um ambiente mais real, mais cotidiano, com o qual qual

quer um poderá se identificar e, eventualmente, se envergonhar ou se emocionar. O reconhecimento e a estranheza são igualmente amplificados. O filme, infelizmente, só estreia no Brasil no dia 28 de janeiro. Vale a pena esperar.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.