O Anima Mundi 2018 vem aí (e já conhecemos alguns destaques)

Tem gente que acha que animação é coisa de criança e, com isso, estão tentando dizer que é ruim. Não sei se reviro os olhos e ignoro ou respiro fundo, convido para um jantar e coloco discretamente para rodar uma sessão de “Mary & Max”, “Túmulo dos Vagalumes” ou “O Castelo Animado”. Ainda não me decidi. Continuar lendo “O Anima Mundi 2018 vem aí (e já conhecemos alguns destaques)”

TOKYO! (COM MUITAS EXCLAMAÇÕES)

Para quem já se perguntou qual é o critério que uso para trazer um ou outro título para cá, bem… Digo que às vezes o acaso me ajuda. Não esperava, por exemplo, passar os olhos por esta capa branca, onde letras vibrantes em rosa, verde e azul claro escreviam de baixo para cima a palavra “Tokyo” com uma exclamação. Um pequenino selo do Festival de Cannes enfeitava o canto superior esquerdo e, encostadas nas letras, viam-se três imagens enfileiradas de cima para baixo: um casal embaçado pela chuva, um homem ruivo vestido de verde saindo de um bueiro e uma garota de vermelho com um capacete.

Sim, soou familiar para mim também: o homem de verde era Merde, a criatura dos esgotos que vem aterrorizando críticos e curiosos no recente “Holy Motors” – um filme sobre um homem que percorre Paris numa limusine (quase como “Cosmopolis”, mas não exatamente). Ali, Merde faz apenas algumas aparições-chave, o que já foi suficiente para ilustrar 99% das críticas nos jornais. Mas foi neste longa coletivo que ele nasceu.

Leos Carax, o diretor de “Holy Motors”, é apenas um dos três magos que compõem esse retrato da capital japonesa: como em “Paris, te amo” e outros do gênero, “Tokyo!” (2008) reúne três histórias não conectadas entre si, com diretores, atores e tempos diferentes, para pensar uma única cidade. A fantasia, sempre em doses generosas, é o fator comum.

Design de interiores

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O primeiro trecho é obra de Michel Gondry (“O Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”), baseado nos quadrinhos de Gabrielle Bell (“Cecil and Jordan in New York”). Nele, um jovem casal se muda para Tóquio e se hospeda na casa de uma amiga, enquanto procura emprego e um apartamento. Seria uma história normal, não fossem os detalhes que desenham tão bem o espírito da megalópole: quartos que se parecem com cubos embalados maquinalmente pelo garoto, ruas lotadas, muitos e muitos carros perdidos. Fotografia, livros, arte… “Isso são hobbies, não sonhos ou ambição”, aponta ele, insensível às tentativas dela de ser feliz. Será ele feliz, vivendo seus próprios sonhos? Após diálogos sutilmente dolorosos e sorrisos nem sempre sinceros, somos surpreendidos com uma transformação surreal e kafkaniana. (Mais surpreendente ainda será perceber que abrir mão da humanidade pode ser o único jeito de ser feliz.)

Merde

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Bem mais macabra é a contribuição de Carax, que coloca o estranho homem subterrâneo a incomodar, tocar e, finalmente, jogar granadas sobre moradores de Tóquio. Pergunto se um diretor japonês teria coragem de criar uma cena tão terrível e tão xenófoba quanto essa – porque Merde não é inocente. Ele não gosta de japoneses, é isso. Entramos, então, numa longa discussão sobre justiça e moral, sobre o politicamente correto e a alienação de certos movimentos populares, ou sobre absurdos, simplesmente. Como filmar no celular uma execução. Carax não tem piedade e nos oferece repulsa, medo e reflexão nesse curta inesquecível.

Agitando Tóquio

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Joon-ho Bong é o único diretor oriental no projeto, mas nem mesmo ele é japonês. Talvez por isso, o sul-coreano traz uma visão universal dos problemas da cidade. A solidão apoiada na tecnologia é uma questão mundial, que vem sendo retratada em filmes ocidentais como o já citado “Cosmópolis” ou o argentino “Medianeras”. Joon-ho escolhe uma abordagem delicada e fantástica, com elementos do mangá (como a ninfeta tatuada com botões mágicos). Aqui, o ambiente é tão eloquente quanto os (poucos) personagens: o quarto geometricamente organizado, sem luz natural, as ruas desertas e luminosas, a casa coberta por plantas, o cinza por todos os lados, os terremotos que determinam tudo. Talvez o mais belo dos três, “Agitando Tóquio” também fala de medo e humanidade, como os outros, mas passa por cima de tudo para falar de amor.