14 anos depois, eles ainda são Incríveis

Vamos falar de perspectiva? Em 2004, a Pixar lançou nos cinemas um filme chamado “Os Incríveis”. Era uma animação diferente, que agradou tanto aos pais quanto aos filhos num tempo em que desenhos animados eram coisa de criança – e os adultos odiavam ter que acompanhá-las. É, o mundo já foi assim e você nem se lembrava.

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Feminismos animados

Nos últimos dias, uma enxurrada de trailers inundou a internet, mas dois em particular me chamaram a atenção: “Wifi Ralph” e “Uma Aventura Lego 2”. Ambos sequência, ambos animados, ambos inspirados em brinquedos nostálgicos. E ambos tentando fazer um mea culpa gigantesco em tempos de #TimesUp.

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Nada se cria

Quanto mais eu olho para a cultura, mais certeza tenho de que vivemos num looping, correndo atrás de nossas próprias caudas com o desespero de um cão faminto… “Nada se cria”, já dizia Lavoisier, e tenho cada vez mais certeza de que tudo se copia. Inclusive a si mesmo.

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A Bela e A Fera (Bill Condon, 2017)

Tudo o que eu queria hoje era estar contando a vocês o quanto “A Bela e A Fera” me emocionou. Queria estar, neste momento, revivendo o arrepio que não senti, enxugando as lágrimas que não vieram, exaltando delicadezas e ousadias que jamais aconteceram. Ao invés disso, estou aqui para lhes dizer que o filme mais esperado do ano, o conto-de-fadas mais amado do momento, a realização dos sonhos dos fãs de Emma Watson, é apenas mais um belo, grandioso e satisfatório remake da Disney.

Não me interpretem mal – é um lindo filme. Algumas cenas, como o número musical de abertura, são um espetáculo para rever em câmera lenta. Mas, para uma produção 26 anos mais moderna e sete vezes mais cara do que a animação que a inspirou (o clássico de 1991, não tanto o conto do século XVIII), “A Bela e A Fera” está longe de conseguir competir com aquela.

É claro, são naturezas diferentes: uma animação romântica; uma aventura fantástica em CGI. Mas a sensação é a de que a Disney está, mais uma vez, segurando o freio em obras que deveriam estar decolando. Sim, os números musicais são ótimos – mas se parecem demais com produções da Broadway. Sim, os objetos falantes estão bem feitos e devem ter custado horrores – mas seus movimentos, cujo exagero funciona bem numa animação, aqui parecem ligeiramente falsos (ou assustadores) ao lado de Bela. (Um problema compensado, é preciso dizer, pelas atuações brilhantes do elenco de dublagem, que inclui Ian McKellen, Ewan McGregor e Emma Thompson.) A questão é que, ao invés de arriscar novas linguagens para resolver esses problemas, a Disney prefere jogar seguro e, consequentemente, não impressiona.

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Ok, mas e as inovações no conteúdo? Sim, Bela agora é uma inventora – mas o único momento em que isso é sugerido é quando ela adapta um barril e um cavalo para usá-los como lava-roupas, ainda no vilarejo. No castelo, essa criatividade desaparece e nunca mais ouvimos falar dela. Além disso, agora temos um personagem quase abertamente gay (na verdade, são dois), mas o fato de isso ser revolucionário é simplesmente deprimente.

Talvez o que falte aqui seja a sutileza. Se o roteiro tinha a intenção de se mostrar feminista, por exemplo, não era preciso incluir diálogos inteiros explicando como Bela seria rejeitada caso não tivesse pai ou marido; ou como seus conterrâneos têm “mente pequena” por viverem numa “cidade pequena”… Tudo isso já estava claro, sem que precisássemos soletrar. O mesmo vale para as novas canções, que introduzem trechos da história que ainda não haviam sido contados – como o passado da Fera e a infância de Bela. Estes poderiam ser interessantíssimos, mas, óbvios demais, acabam não acrescentando muito aos personagens ou à história.

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Quem merece destaque (e arrisco dizer, é a melhor surpresa do filme) é Dan Stevens no papel de Fera. Pessoalmente, sempre achei que as versões em live action deste conto pecavam na representação do monstro, mas, aqui, finalmente vi o personagem ganhar vida, mesmo sob todos aqueles pelos virtuais. A Fera de Stevens (“Downton Abbey” e “Legion”) é sarcástica, tem o mesmo lado infantil que a da animação, expressa seus sentimentos com mais frequência e até protagoniza um número musical sozinho (certo, talvez este não seja seu melhor momento).

O mais importante, porém, é que ele lê tanto quanto (ou até mais que) Bela. Os dois, desta vez, não apenas se apaixonam por viverem no mesmo espaço, mas trocam experiências, leem juntos e viajam juntos para outros mundos e lugares. Bela finalmente encontrou seu par.

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Quem também se encaixa perfeitamente em seus papéis são Luke Evans e Josh Gad, que, respectivamente, interpretam Gaston e seu capacho LeFou. As cenas dos dois são provavelmente as mais naturais e divertidas de todo o filme – mas é uma pena que Gaston tenha um desfecho tão insosso.

A Bela e A Fera” integra todo um projeto da Walt Disney de transformar seus clássicos animados em filmes com atores, alguns dos quais vão ganhar sequências e spin-offs. A proposta tem dado certo, desde que “Malévola” arrecadou 750 milhões de dólares em 2014, “Cinderela” chegou a meio bilhão em 2015 e “Mogli – O Menino Lobo” arranhou a marca de 1 bilhão em 2016. Dos quatro, este talvez seja o mais bem acabado e não há dúvida de que superará todos os outros nas bilheterias. Resta saber se os próximos terão um pouco mais de coragem para realmente emocionarem, como nos velhos tempos.

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

FC! Review – O Bom Gigante Amigo


Steven Spielberg, Roald Dahl, Melissa Mathison e Walt Disney juntos no mesmo projeto? Como isso poderia dar errado?
No FC! Review de hoje, comentamos a estreia de “O Bom Gigante Amigo”, um filme infantil que tinha tudo para ser um dos grandes lançamentos do ano, mas que acabou decepcionando. Estreia no dia 28 de julho.

Imagens: O Bom Gigante Amigo / Walt Disney Pictures

Confira mais vídeos sobre cinema no canal Fala, Cinéfilo!

Fala, Cinéfilo! #11 – A Bela e A Fera, Warcraft e Truque de Mestre 2

No Fala, Cinéfilo! #11, comentamos o primeiro teaser do longa “A Bela e A Fera”, falamos sobre o acordo de exclusividade entre a Netflix e a Disney, sobre os problemas que “Rogue One” está enfrentando e sobre a sequência de “Mary Poppins”, que vem por aí. Entre as estreias, destaques para “Warcraft – O Primeiro Encontro de Dois Mundos” e “Truque de Mestre – O 2º Ato”. Indicamos, ainda, dois eventos sobre cinema que acontecem em junho: o Festival Varilux de Cinema Francês e o Iniciativa Crossover.

Dica do público de hoje: “Filhos da Esperança” (Alfonso Cuarón, 2006)
Tema para o próximo programa: Animação

Links:
Trailer “A Bela e A Fera” (novo e antigo comparados): https://goo.gl/DSa8KH
Crítica “Warcraft”: http://goo.gl/W612BI
Crítica “Truque de Mestre – O 2º Ato”: https://goo.gl/vyrYav
Festival Varilux: http://variluxcinefrances.com.br
Iniciativa Crossover: https://iniciativacrossover.com.br

Crítica: pesado e sem ritmo, “O Bom Dinossauro” caminha para se tornar o primeiro grande fracasso da Pixar

Até mesmo os grandes estúdios falham. No início deste ano, a Pixar trouxe aos cinemas uma das animações mais emocionantes e originais de todos os tempos, um filme que não surpreenderia ninguém se aparecesse entre os indicados às categorias mais altas do Oscar, lado a lado com live actions. Agora, menos de 12 meses depois, a mesma casa apresenta um longa que é o oposto disso.

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O Bom Dinossauro” não é nem emocionante (pelo menos, não genuinamente), nem original. O filme se esforça demais para provocar tristeza e acaba assumindo um tom pesado, apoiado numa trilha melodramática e em cenas duras e apelativas. Para os adultos, tudo soa muito novelesco, mas, para as crianças, pode ser uma experiência traumática, já que falta a compensação de um final otimista ou dos personagens engraçados que normalmente equilibrariam as emoções.

O filme conta a história de um dinossauro chamado Arlo, que é o mais medroso de sua família. Depois de fracassar nas tarefas básicas da fazenda dos pais (sim, esses dinossauros são fazendeiros), ele tem a chance de se redimir se conseguir matar a criatura que está roubando toda a comida armazenada no silo. Na hora H, ele descobre que o ladrão é um menino humano (primitivo, que age como um cãozinho), sente pena e deixa-o fugir.

Quem tem um mínimo de experiência com filmes infantis já consegue descobrir, por esse prelúdio, tudo o que acontecerá em seguida: Arlo tentará consertar a situação, provocará um desastre e acabará se afastando da fazenda, depois reencontrará o menino (a quem chamará de Spot), se tornará amigo dele e passará o resto do filme procurando o caminho de casa.

Se a trajetória do protagonista parece tão previsível, alguns elementos são ainda mais familiares, descaradamente copiados do clássico infantil “O Rei Leão”. Há cenas inteiras reaproveitadas, além de personagens e situações muito semelhantes. Como se não bastasse, o ritmo não funciona: a jornada é lenta, as cenas dramáticas são exageradamente longas e os momentos de humor são curtos demais.

Tudo isso contribui para que “O Bom Dinossauro” seja, como vem se anunciando, o primeiro grande desastre comercial e de crítica do estúdio, mas a verdade é que os problemas começaram muito antes de ele chegar às telas. Marcado inicialmente para 2013, o projeto passou por uma troca de direção (de Bob Peterson, de “Up! Altas Aventuras”, para Peter Sohn, que só dirigira até então o curta “Parcialmente Nublado”), porque, segundo o presidente da Pixar Edwin Catmull, “Às vezes os diretores se envolvem tanto com suas ideias que é preciso uma pessoa de fora para terminá-las”. Mas isso não foi tudo.

Com a mudança, todo o roteiro foi reescrito e alguns personagens foram alterados, afetando também o elenco e exigindo novas gravações. O que vemos nos cinemas é a última versão de um texto produzido a dez mãos, retrabalhado diversas vezes porque ninguém acreditava que a história estava dando certo. Bem, talvez fosse o caso de desapegar e começar tudo do zero.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Resumão#12 – Especial CCXP (Parte 3)

Nesta semana, o Resumão vai à Comic Con Experience – maior evento de cultura pop/nerd da América Latina. De quinta a domingo, traremos vídeos diários para mostrar tudo o que rolou na feira e garantir que você não perca um detalhe!

No sábado, o destaque ficou por conta da programação da Disney, que apresentou as animações “O Bom Dinossauro” e “Zootopia” e trouxe grandes nomes para falar sobre “Capitão América: Guerra Civil” e “Star Wars: O Despertar da Força”.

Crítica: Disney leva o parque de diversões aos cinemas com “Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível”

Estreia neste feriado de Corpus Christi a nova superprodução da Disney, “Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível”. Inspirado por um parque temático futurista dentro do Magic Kingdom, em Orlando, o filme cumpre a promessa de transformar a experiência cinematográfica numa grande brincadeira, com engenhocas malucas, dimensões paralelas e personagens históricos reinventados como grandes conspiradores. Infelizmente, o roteiro não acompanha tantos malabarismos e acaba deixando mais dúvidas do que certezas.

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George Clooney e Britt Robertson dividem a tela nos minutos iniciais para narrar suas aventuras. O formato é interessante: cada um começa a contar uma parte da história, ao seu modo, enquanto o outro interrompe com comentários e reclamações.  Ficamos sabendo que ele, Frank Walker, é um pessimista incurável, enquanto ela, Casey Newton, é o extremo oposto.

Está dada a dica para a mensagem central do filme: se não acreditarmos que as coisas podem ser melhores, elas nunca serão. No caso, quem está precisando de uma dose de otimismo é a Terra, que, segundo os cálculos de Walker, um cientista brilhante, tem seus dias contados para a extinção.

O filme se passa num futuro próximo, quando o Cabo Canaveral está sendo demolido e engenheiros da NASA estão perdendo seus empregos. Casey é filha de um desses engenheiros e sempre sonhou em ir ao espaço, por isso passa as noites sabotando a demolição perto de casa. É lá que uma androide chamada Athena (Raffey Cassidy) a encontra e discretamente a “recruta” com um botton especial.

O objeto mostra uma cidade futurista e acaba atraindo Casey à casa de Walker – segundo Athena, o único que poderia levá-las àquele lugar. No processo, outros androides canastrões aparecem para tentar eliminar os três, desencadeando todo o sistema de armadilhas da casa do cientista (e rendendo uma sequência genial dentro de uma loja Geek).

Entre a narração das infâncias dos protagonistas e a chegada a Tomorrowland, o longa segue impecável, como uma verdadeira aventura infanto-juvenil regada a imaginação e ciência, com destaque para a personagem robótica de Cassidy. Quando o trio finalmente chega ao objetivo, porém, a mistura desanda e a revelação do tão esperado mundo fantástico é um enorme anti-clímax.

O problema não é a aparência de Tomorrowland, mas sim a falta de informações que nos são dadas sobre ela. Como encontraram aquele lugar? Como foi a vida dos primeiros moradores? Qual foi a crise que levou a esse ponto atual, no qual Walker e Athena foram expulsos e Casey se faz tão necessária? A pergunta maior vem logo em seguida: como, exatamente (e não apenas em discursos vagos), esse lugar vem influenciando a vida na Terra?

Sem pelo menos algumas dessas respostas, “Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível” perde a oportunidade de ser uma grande propaganda do parque original da Disney, ou um grande filme com uma bela lição, para se tornar uma aventura incompleta. Ao invés de sair querendo embarcar numa montanha russa, o público sairá se perguntando se aquilo tudo realmente fazia sentido.

Texto publicado no Guia da Semana em 02/06/2015.

Apesar do visual bem feito, “Cinderela” não justifica o remake

Quando um estúdio anuncia um remake, a primeira questão que vem à mente é “por que essa história precisa ser contada novamente?”. Às vezes, a primeira versão não explorou todas as possibilidades do material original e ainda há espaço para novos pontos de vista. Pode ser, ainda, que o filme anterior tenha deixado a desejar na execução, desperdiçando uma boa ideia. Pensando nisso, o que justifica o novo “Cinderela”, que a Walt Disney traz aos cinemas no próximo dia 26?

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A resposta é, provavelmente, nada. Com exceção do fato de ser encenado com atores, o filme que estreia em 2015 não propõe nenhuma novidade em relação ao clássico de 1950. Pelo menos, nenhuma novidade positiva: o longa de Kenneth Branagh abre mão do humor e da ludicidade que sustentavam a animação (pense nos ratinhos cantores) para investir numa quantidade quase insuportável de água e açúcar.

O visual, como era de se esperar, é irretocável. O fotógrafo Haris Zambarloukos, a figurinista Sandy Powell e o designer de produção Dante Ferretti cumprem a missão de transformar a tela branca num reino maravilhoso, gloriosamente iluminado e digno dos sonhos de qualquer Cinderela. Há que se questionar o famoso vestido azul do baile, ornamentado com borboletinhas e tule, mas, em geral, as centenas de metros de tecido se justificam e fazem a diferença.

Lily James interpreta Ella, uma jovem que perde o pai e é feita de empregada pela madrasta (Cate Blanchett, arrepiante), até encontrar um príncipe (Richard Madden) que se encanta com sua bondade. Com a ajuda da fada madrinha (Helena Bonham Carter, carismática como sempre), ela consegue ir ao baile real e dançar com ele, mas sai às pressas, deixando para trás apenas um sapatinho de cristal.

Exatamente como no filme de 1950. O remake não busca influência no conto escrito por Charles Perrault (que inclui alguns detalhes bastante sórdidos), mas apenas refaz a adaptação animada, talvez na tentativa de atrair um novo público. Que público seria esse, porém, é uma questão difícil de responder, já que o longa não dá espaço suficiente para que as crianças se divirtam com os ratinhos e com o gato Lúcifer, nem endossa discursos que ganharam força nas últimas décadas, como a igualdade entre gêneros e etnias (um coadjuvante não conta) ou o combate à magreza excessiva (o que é aquela cintura, gente?).

Além de antiquado, “Cinderela” também soa vazio, elegendo a frase “seja corajoso e gentil” como uma espécie de mantra que se contradiz pela própria protagonista. Cinderela não tem coragem para enfrentar a madrasta e, se em algum momento consegue o que quer, é graças à fada madrinha ou aos animais, não à sua coragem e gentileza. Repetida à exaustão, a lição de moral perde a força e o sentido – coisas que parecem faltar ao filme como um todo.

Para quem for conferir a novidade nos cinemas, a boa notícia é que o longa vem acompanhado de um curta-metragem com a turma de Frozen chamado “Febre Congelante”. Nele, Elsa tem um resfriado que coloca em risco todos os preparativos para a festa de aniversário de Anna. O curta tem um longo número musical e traz de volta os simpáticos Olaf, Sven e Kristoff. Pelo menos, um prêmio de consolação (dos mais fraquinhos).

Texto publicado no Guia da Semana em 12/03/2015.