Elize Matsunaga: fascinação pelo grotesco

Nunca entendi direito a febre dos true crimes. Não sou fã de histórias reais e, dentre elas, as que exploram crimes hediondos são as que menos me interessam. Programas pinga-sangue no fim de tarde? Tô fora. Filme do Tarantino sobre o assassinato de Sharon Tate? Pre-gui-ça. Documentários sobre serial killers carismáticos? Crimes mal resolvidos? Traumas para a vida toda? A busca frenética por saber quem matou quem e como, com detalhes? Gente, vocês estão bem…?

É, ninguém está. Apesar disso, resolvi assistir á nova série documental “da Netflix” (produzido por terceiros, pago e aprovado pela Netflix, como todos os seus “originais”), Elize Matsunaga: Era uma vez um crime. Tive dois motivos: um – os tais “terceiros” eram a produtora Boutique Filmes, onde o Gabriel trabalha (o nome dele está nos créditos!), e ele me garantiu que a série era interessante; dois – a direção é da Eliza Capai, de quem eu conhecia o documentário Espero tua (re)volta, sobre os movimentos estudantis que ocuparam escolas públicas em São Paulo uns anos atrás, e com quem eu tinha tido uma conversa muito boa na época, entre uma garfada e outra num restaurante vegetariano. 

A série e o longa de Capai não têm muita semelhança entre si, exceto pelo fato de que ela, novamente, assume uma posição de ouvinte e deixa que outros contem a história. Não há narração pessoal, como nos trabalhos de Petra Costa, por exemplo. Aqui, quem descreve os eventos, comenta e conecta são os repórteres que cobriram o caso quando ele estourou, em 2012; além dos advogados de defesa e acusação; amigos e familiares dos dois lados; e a própria Elize – que pela primeira vez teve direito a uma saída temporária da prisão e concedeu uma longa entrevista à equipe, contando passo-a-passo sua versão da história.

Uma tragédia de elite?

São raras as vezes que um assassino confesso se dispõe a falar desse jeito para o grande público, mais raro ainda uma assassina. Daí o apelo da série. Num momento em que se discute feminicídio, violência doméstica, direitos da mulher e a importância da sua voz, a história de Elize chega como uma exceção particularmente complexa e provocadora. Afinal, entender o que motivou o crime não anula o fato de que ele ocorreu – e incluiu os horrores de um corpo esquartejado. 

Porém, conhecer certos detalhes ajuda a perceber esse caso como algo muito maior do que o desentendimento entre duas pessoas ou a violência unilateral de uma: o que está pintado ali, em cores berrantes, é a tragédia de uma elite branca brasileira tão descolada da realidade que sua própria capacidade de empatizar ou se horrorizar com o outro (humano ou não) já se esvaiu há tempos, no momento em que saiu para caçar um animal pelo mero prazer de caçar, ou começou a colecionar armas de fogo e espalhá-las pela casa simplesmente porque gostava. 

Penso nessa série, na fascinação pelos crimes reais e na narrativa que se constrói sobre Elize e Marcos pela ideia do grotesco. O feio que se emoldura como belo, o baixo que se mistura ao alto, a contradição entre o ideal e o imperfeito que modela nossas vidas e dá origem aos melhores dramas. A vida de Elize é cheia de contrastes: a pobreza e a riqueza; a experiência como garota de programa e o sonho de ter uma família tradicional; a aparência delicada e o crime horripilante. A voz calma e o conteúdo terrível do que diz. 

Mas também é grotesca a vida privada dessas pessoas tão perfeitamente civilizadas: eles tinham uma cobra; um quarto que mais parecia um arsenal terrorista; expunham a cabeça de um veado na sala de estar… A cada informação, o conjunto se torna mais estranho, errado, fascinante. E o público aplaude como num freak show.

Grandes simplificações

A impressão é de que a realidade passou a quilômetros daquele apartamento. E seria difícil imaginar um desfecho menos extremo para uma crise conjugal, quando os dois lados tinham tão fácil acesso a pistolas, rifles e uma submetralhadora “como a de Al Capone”.

Mas aponto para essas esquisitices não para amenizar a culpa de quem, de fato, apertou o gatilho, mas para espalhar essa culpa em infinitos pedacinhos (com o perdão do trocadilho). Pois o que a série faz, com sucesso, é mostrar que o contexto é sempre muito mais complicado do que a imagem que se grava num minuto, e que a ideia que temos de Bem e de Mal são, no fundo, grandes simplificações. 

A obra replica o formato do julgamento e dá voz a todos os lados, reconstruindo a história muito além do momento do crime. Contudo, ela não parece fazer isso para que o público julgue quem está certo ou errado, mas para mostrar que o comportamento humano é esse conjunto caótico de experiências e emoções, que às vezes levam a eventos absurdos.

Nesse caso, não há sequer grandes divergências entre versões. Como não há dúvida sobre quem cometeu o crime, a questão passa a ser algo mais abstrato (e essencialmente irrespondível), como o que ela sentiu ao cometê-lo. É como outro filme que assisti esta semana – um drama holandês chamado “Caráter”, de 1997, que também começa com um assassinato e parte para construir sua história. É curioso como produções tão distintas podem dialogar tanto entre si!

Garantia de arrepios

No fim, cada um vai sentir sua parcela de arrepios com “Era uma vez um crime” – seja pela frieza com que Elize conta sua história, seja pela melodia macabra que acompanha algumas cenas… Ou seja por imaginar o tamanho da pretensão de um homem que veste o manto de salvador enquanto “tira” a mulher de uma vida financeiramente independente para emoldurá-la em casa como um troféu, enquanto avalia outras mulheres feito corridas de Uber num fórum online.

Ou, talvez, como foi o meu caso, os arrepios venham mesmo dos comentários dos vivos e não-encarcerados. Absolutamente cegos às próprias contradições.

Crítica: provocativo e atual, “Malala” apresenta uma heroína contemporânea de carne-e-osso

Algumas histórias nem parecem pertencer ao século XXI, mas conhecê-las é tão chocante quanto essencial. Do mesmo diretor de “Uma Verdade Inconveniente” (Davis Guggenheim), o documentário “Malala” chega aos cinemas no dia 19 de novembro, revelando a trajetória de Malala Yousafzai: uma garota paquistanesa que usou sua voz para lutar pelo direito de meninas irem à escola, numa comunidade oprimida pelo Talibã.

O filme não segue uma narrativa linear, nem tem o formato clássico (e por vezes enfadonho) de um documentário. Guggenheim explora animações para ilustrar e dar novos sentidos a diversas partes da história, traça paralelos inesperados e contextualiza a situação de forma que Malala se torna apenas uma peça de um quebra-cabeças muito maior.

Logo no início, ficamos sabendo que Malala levou um tiro na cabeça e que, hoje, vive na Inglaterra porque não pode voltar ao seu país. Ela sabe que, se voltar, será assassinada pelo Talibã. Mas o motivo exato para esse ataque só é revelado no final, após uma retrospectiva completa que começa pela escolha do seu nome.

Dar tanta atenção ao nome da personagem (o título original é “He Named Me Malala”, ou “Ele Me Chamou de Malala”) foi um toque muito delicado e inteligente. “Malala”, afinal, foi inspirado no nome de uma jovem afegã que, segundo se conta, liderou o exército local numa batalha contra os ingleses e morreu no processo. A Malala dos dias de hoje não morreu, mas passou muito perto disso.

O processo de dominação do Talibã no vale do Swat é contado sob o ponto de vista dos moradores: primeiro, surgiu um líder que falava sobre a religião e se dirigia diretamente às mulheres. Sua influência cresceu com base na confiança, antes de evoluir para a violência e os assassinatos. Quando o povo percebeu, já era tarde demais e as ruas já não eram mais um lugar seguro.

A postura contestadora da protagonista não é isolada em sua família e, por isso, a história do seu pai (Ziauddin Yousafzai) é tão importante quanto a dela. Professor e dono de uma pequena escola, foi ele que permitiu e incentivou a filha a estudar desde pequena – coisa que, no Paquistão, não é tão comum entre as mulheres. Também foi ele que a empoderou desde o nascimento, inserindo seu nome na árvore genealógica da família onde, normalmente, apenas os nomes dos homens são escritos.

Como se não bastasse, também foi ele o primeiro a erguer a voz contra o Talibã e sugerir à filha que escrevesse um diário para a BBC, denunciando a situação. Daí para atitudes mais arriscadas e, futuramente, para a criação de uma fundação internacional, foi um pulo.

Além de contar a história de Malala, o filme permite que se reflita sobre outros lugares e pessoas, como os refugiados sírios ou as mulheres africanas – e, se olharmos para mais perto de nós, dá para pensar no recente fechamento de escolas estaduais pelo governo de São Paulo. Direta ou indiretamente, vemos aqui mais um caso de afastamento entre as crianças e os estudos, causa pela qual a vencedora do Nobel vem lutando diariamente desde que foi proibida de frequentar a escola em sua cidade-natal.

Em tempos em que as vozes femininas estão mais altas do que nunca (mesmo que ainda se tentem abafá-las aqui e ali), “Malala” é um filme obrigatório. Atual e, ao mesmo tempo, atemporal, o documentário alerta para a toxicidade dos discursos que nos cercam e lembra que eles precisam ser rebatidos – mesmo que isso leve tempo e possa ter um preço muito caro.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Dior e Eu” registra o recomeço de uma das marcas mais tradicionais da alta costura francesa

Quando o belga Raf Simons foi anunciado como o sucessor de John Galliano para a grife francesa Dior, o clima na casa foi de apreensão: afinal, conseguiria um estilista com experiência em moda masculina e inclinação para o minimalismo manter a identidade de uma marca famosa pela feminilidade?

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Frédéric Tcheng, diretor francês que já investigara a carreira de outro estilista em “Valentino: The Last Emperor” e biografara a editora de moda Diana Vreeland em “The Eye Has to Travel”, decidiu mergulhar nessa história e registrar a estreia de Simons na Dior, com os bastidores de seu primeiro desfile pela marca e sua primeira coleção de alta costura em toda a vida. O resultado é o belíssimo “Dior e Eu“.

O longa é uma viagem envolvente para quem gosta de moda, mas pode ser entediante para quem espera uma abordagem mais humana, como nos filmes “Coco Antes de Chanel” e “Yves Saint Laurent”, por exemplo. O foco, aqui, são as roupas na passarela e o processo criativo que as antecede.

Tcheng não deixa o lado humano, porém, completamente de lado. Pegando emprestadas frases de um livro autobiográfico de Christian Dior (intitulado, justamente, “Christian Dior e Eu”), o diretor faz uma colagem de reflexões do fundador da casa, nos anos 40, com as experiências vividas pelo novo estilista em meados de 2012, criando um diálogo e uma identificação surpreendente entre os dois.

Outro paralelo interessante é feito entre Simons e uma jovem modelo, que também se prepara para fazer na passarela da Dior sua grande estreia. O conflito entre a geração estabelecida e os novos personagens é expresso em comentários sutis, como “esta sala está bem moderna, não acha?” ou “podem chamá-lo de ‘Raf’, mas a mim continuem chamando de ‘Senhor’”. Fica claro que o desejo de renovação convive com um apego igualmente forte às tradições e com um medo generalizado de mudança. Rompê-lo é o verdadeiro desafio do estilista.

Diferente de outros documentários, que às vezes permitem um desleixo formal em nome do realismo, “Dior e Eu” trabalha com uma câmera firme, trazendo imagens limpas e bem enquadradas como num reality show, impressão que fica ainda mais forte quando se nota o roteiro bem planejado e amarrado. Tudo é cuidadoso e intencional, sem fios soltos – o que significa, também, que muito material deve ter sido deixado na ilha de edição e que nem todos os depoimentos, é claro, são tão autênticos assim.

Realidade ou ficção, o fato é que o filme se sai muito bem na proposta de transportar o espectador para dentro de um ateliê de alta costura, revelando os diferentes profissionais envolvidos na criação, o estudo da história da marca aliado às inspirações contemporâneas, a rotina das costureiras e todo o processo de construção de uma coleção, do conceito à passarela. Até mesmo o conflito entre arte e mercado é explorado numa sequência curta, mas reveladora.

“Dior e Eu” estreia no Brasil no dia 27 de agosto e engrossa a lista de filmes obrigatóriospara quem estuda ou se interessa por moda – mas o melhor é que nem é preciso ser especialista para aproveitar o espetáculo.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

“Últimas Conversas” fecha a carreira de Coutinho com uma reflexão sobre gerações

Assistir a um Eduardo Coutinho é sempre uma experiência reveladora sobre o que é fazer cinema. No caso de “Últimas Conversas”, último filme dirigido por ele antes de sua morte (montado por Jordana Berg e finalizado por João Moreira Salles), a tradicional transparência deixa de ser apenas ferramenta para se tornar, também, objeto – como um documentário que se debruça sobre si e sobre seu criador.

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“Últimas Conversas” trabalha com duas narrativas paralelas: a dos jovens cariocas que, entrevistados por Coutinho, falam sobre seus anseios, angústias e sonhos; e a do próprio diretor, que, diante desses adolescentes, expõe sem filtros as frustrações e surpresas que brotam do diálogo entre gerações.

Desde a cena inicial, ouvimos o documentarista lamentar a escolha dessa faixa etária como objeto de estudo: para ele, falta-lhe a curiosidade essencial para extrair desses garotos suas melhores histórias. Diante de tantos celulares, descrença e arrogância, ele admite às câmeras, melancólico: “Devia ter gravado com crianças”.

Mesmo assim, um após o outro, os estudantes mostram ao entrevistador que podem ser tão interessantes quanto seus equivalentes mais velhos. Suas histórias são tão diversas e, em certos pontos, tão semelhantes (todos, por exemplo, escrevem poesia ou diários), que bastam alguns personagens para termos o panorama de uma geração marcada pelo bullying, pelo excesso de confiança (ou, no outro extremo, insegurança) e por uma carência afetiva grande em relação aos pais.

“Últimas Conversas” é o filme de abertura do Festival É Tudo Verdade e deve estrear nos cinemas no próximo mês.

Texto publicado no Guia da Semana em 08/04/2015.

“O Sal da Terra”: biografia mostra Sebastião Salgado como um grande contador de histórias

Muita gente nem sabia, mas, entre os indicados ao Oscar 2015, havia um representante brasileiro – ou, pelo menos, metade brasileiro. “O Sal da Terra”, documentário sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, foi dirigido pelo filho dele, Juliano Salgado, e por Wim Wenders, e chega aos cinemas neste mês trazendo uma verdadeira aula de fotografia, antropologia e, principalmente, História.

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O filme ganha pontos ao se mostrar interessante tanto para quem ama fotografia quanto para quem não é tão íntimo desse universo. Na verdade, as imagens (estonteantes) clicadas por Salgado servem mais como ilustração para uma narrativa de aventuras do que como objeto propriamente dito.

“O Sal da Terra” segue dois caminhos paralelos: um é a trajetória do artista, de economista a fotógrafo e de observador da miséria a agente de mudança; o outro é a trajetória do filho, da criança que nunca via o pai ao companheiro de viagens que o documenta (referindo-se a ele, respeitosamente, como “Sebastião”).

Apesar do tom às vezes excessivamente didático das narrações, é difícil não se deixar levar por essa jornada ao redor do mundo. Partimos de Serra Pelada e passamos por Indonésia, Etiópia, Kuwait, Ruanda e Alasca, até surpreendentemente desembarcarmos na beleza de Galápagos – onde uma tartaruga de centenas de anos nos encara, acima de todas as diferenças. “Aquela tartaruga pode ter conhecido Darwin”, aponta o fotógrafo, amarrando as pontas de sua obra.

De fato, é a História que conecta tudo: uma história de guerras e violência, mas também uma história de pessoas, extremamente parecidas apesar da distância geográfica. Cada quadro é descrito pelo artista não por suas características estéticas, mas pelas histórias que conta. “As duas crianças com olhos vivos sobreviveram; a de olhar mais apagado acabou morrendo”, lembra-se, diante de uma foto tirada para o projeto “África”.

O fotógrafo recorda tantos detalhes porque, a cada viagem, instalava-se junto a uma comunidade durante meses, vivenciando suas maneiras e suas tragédias antes de captá-las em preto-e-branco. O resultado, como nota Wenders, é que Sebastião Salgado deixa de ser apenas um fotógrafo, para se revelar um grande contador de histórias, a quem gostaríamos de ficar ouvindo ao pé da lareira, horas a fio.

“O Sal da Terra” integra o festival EcoFalante de Cinema Ambiental antes de estrear em circuito comercial no dia 26 de março.

Texto publicado no Guia da Semana em 18/03/2015.