Poderia me perdoar? – Melissa McCarthy se vinga do mercado literário em papel bruto e genial >MostraSP

Há muito pouco glamour na vida de um escritor. Até os mais otimistas dos clichês costumam envolver solidão, insegurança e alguma dose de álcool, mas “Poderia me perdoar?” leva a decadência da profissão a outro nível. Ainda assim, é difícil não se apaixonar pela escritora, alcoólatra e criminosa que conduz essa história. Continuar lendo “Poderia me perdoar? – Melissa McCarthy se vinga do mercado literário em papel bruto e genial >MostraSP”

“Custódia”: drama francês discute violência na separação

Mais um sucesso da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado está chegando aos cinemas para sua rodada no circuito comercial. “Custódia”, drama francês sobre um casal que briga pela guarda do filho mais novo, foi um dos grandes títulos que, ao lado de “Sem Amor” e “O Vale das Sombras”, fez daquela a Mostra das crianças perdidas. Continuar lendo ““Custódia”: drama francês discute violência na separação”

Beleza Oculta (David Frankel, 2016)

beleza-d

A premissa de “Beleza Oculta” me conquistou desde o primeiro trailer: um homem em luto escreve para três entidades – o Amor, o Tempo e a Morte – e recebe a visita delas, em carne e osso. Para quem olhasse com cuidado, o próprio teaser já sugeria que essas encarnações talvez não fossem tão sobrenaturais assim, mas apenas atores contratados como uma forma de terapia, mas admito que essa ideia me agradava ainda mais. O que importa, afinal, é a abstração. Certo?

Fui, então, conferir o filme depois de ler e ouvir algumas críticas mais negativas do que eu esperava. “É uma bagunça”, dizia um; “é um novelão”, analisava outro. Respirei fundo e encarei a tela de coração aberto. E não é que gostei do que vi?

Entenda: “Beleza Oculta” realmente não é nenhuma obra-prima, nenhum manifesto revolucionário ou proeza técnica, mas sabe o que ele é? Um filme gostoso de assistir. Daqueles que você vai querer ver num domingo à tarde sozinho em casa, dando algumas risadas, tomando um chocolate quente e se sentindo um pouco melhor quando rolarem os créditos finais. E esse tipo de filme é tão necessário quanto o drama ucraniano da Mostra, o terror cult do Noitão ou o épico do sábado à noite. Ele, simplesmente, faz bem.

E não é um bem às custas dos outros, que fique claro. Não é aquele filme que mostra o herói se dando bem enquanto os coadjuvantes são descartados, nem aquele que ignora diferenças de classe, gênero e cor. Ele ignora, no máximo, a maldade – e não há nada de mau nisso.

beleza-b

O filme tem um elenco assombroso (do tipo que você até desconfia): Will Smith é o protagonista que perdeu uma filha de seis anos; Edward Norton, Kate Winslet e Michael Peña são seus sócios na agência de publicidade; Helen Mirren, Keira Knightley e Jacob Latimore são as “abstrações”; enquanto Naomie Harris vive a organizadora de um grupo de apoio a pais em luto.

Um filme com essa proposta poderia facilmente cair num exercício falso e esotérico de autoajuda, mas alguns detalhes o mantêm no eixo. O primeiro, é claro, é o elenco: uma Morte interpretada por Helen Mirren jamais seria unidimensional, e se há um papel que Will Smith consegue cumprir é o do homem de bom coração que sofre, cai e se reconstrói. É fácil acreditar nesse grupo e a empatia é o primeiro passo para embarcar numa história com um toque de fantasia.

O segundo elemento é o roteiro, assinado por Allan Loeb (“Quebrando a Banca”). Os diálogos, ao invés de recorrerem a frases vazias de caminhão, reúnem conselhos realmente úteis para quem está passando por uma tragédia, e ajudam a conferir mais significado a palavras de conforto muitas vezes desgastadas. Além disso, é interessante ver como as intenções dos sócios podem ser ao mesmo tempo reprováveis e compreensíveis, o que traz ainda mais uma camada de identificação ao filme.

“Beleza Oculta” é dirigido por David Frankel (“O Diabo Veste Prada”) e já está em cartaz nos cinemas.

 

Crítica: “Mais Forte que Bombas” explora o abismo entre pai e filhos após a perda da mãe

Uma família é estilhaçada quando a mãe (Isabelle Huppert), uma fotógrafa de guerra, morre num acidente de carro. Anos depois, uma reportagem ameaça trazer à tona  informações sobre as quais o viúvo (Gabriel Byrne) e os filhos (Jesse Eisenberg e Devin Druid) jamais conseguiram conversar. Teria a tragédia, de fato, sido um acidente?

Mais Forte Que Bombas”, filme de Joachim Trier (“Oslo, 31 de Agosto”) com roteiro de Eskil Vogt (“Blind”), é ao mesmo tempo um filme sobre uma profissão de risco e suas implicações na vida familiar, temática explorada a fundo em “Mil Vezes Boa Noite” (2013), de Erik Poppe; e um estudo das relações impossíveis, como foi “Homens, Mulheres e Filhos” (2014), de Jason Reitman.

Partindo de um trauma comum, o filme se expande para explorar temas como depressão, infidelidade, adolescência e paternidade, adotando três pontos de vista distintos.  O pai, Gene, sofre para conseguir se comunicar com o filho adolescente, Conrad (Druid), enquanto tem um caso com uma professora dele. Conrad, por sua vez, lida com um romance platônico com uma colega de classe que nem sabe seu nome. Já Jonah (Eisenberg), que acabou de se tornar pai, usa a visita aos dois como desculpa para fugir da esposa e de suas novas responsabilidades.

Em meio a esse furacão familiar, a verdade pode ajudar a recuperar o diálogo ou romper de vez as relações, mas não antes de levar cada um ao seu limite. “Mais Forte Que Bombas” estreia nos cinemas no dia 7 de abril.

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “O Quarto de Jack” explora o conflito entre a claustrofobia do mundo conhecido e o horror do mundo lá fora

Quem diria que, apenas um ano depois de dirigir a comédia super-indie e ultra-experimental “Frank”, Lenny Abrahamson lançaria um drama maduro, indicado a quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme. “O Quarto de Jack”, adaptação do livro “Quarto”, de Emma Donoghue, estreia no Brasil no dia 18 de fevereiro e merece sua consideração.

Jack (Jacob Tremblay) é um menino de cinco anos que vive com a mãe (Brie Larson) num quarto sem janelas, iluminado apenas por uma claraboia. Ele não tem muito com quem conversar, então trata todos os objetos como coisas vivas. “Bom dia, Pia”, ele diz. “Bom dia, Cama”.

A porta é reforçada, como um cofre, e aberta apenas com uma senha que os dois desconhecem. Por ela, de vez em quando passa um homem para trazer mantimentos. “Você não sabe como está o mundo lá fora”, ele comenta. Como saberiam?

A menos que tenha lido alguma coisa sobre o filme antes, o público não sabe por que os dois estão presos, mas as peças começam a se juntar quando Jack espia o homem de dentro do armário. Entendemos que a mãe não quer que o menino veja o que acontece à noite, e entendemos rapidamente o que acontece.

Apesar da situação, Ma (como a mãe é chamada pelo menino) tenta criar uma vida normal para Jack dentro daquele canto limitado: aquele é o Mundo e lá fora é o Espaço. Todas as coisas de Quarto formam o Mundo, e todo o resto não é real. Isso, até ela perceber que precisa que o filho entenda a verdade para ter uma chance de sair dali.

“O Quarto de Jack” é um filme extremamente tocante, que adota o ponto de vista da criança para mostrar suas descobertas – num processo que não termina ao sair de Quarto. O que torna o longa ainda mais interessante é a forma como Abrahamson não deixa o espectador relaxar. O tempo todo, esperamos por uma nova tragédia e, como Jack, não conseguimos confiar em nenhum dos novos personagens, que chegam envoltos num suspense proposital.

Aos poucos, as coisas vão ganhando sentido e se encaixando em seus novos lugares. O que começara como um filme sobre a conquista da liberdade se revela um estudo sobre as relações que a criança cria com seu entorno, independente de quão pequeno ou amplo ele seja. Então, quando Jack está pronto para encarar a realidade, o público também está e Quarto pode, finalmente, deixar de ser o Mundo.

 

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Creed – Nascido Para Lutar” faz justiça à franquia “Rocky”

O que define um bom filme? Entre tantas características valiosas para o cinema, talvez a mais importante (e rara) delas seja a capacidade de envolver o espectador, de verdade, a ponto de fazê-lo vibrar e sofrer com o protagonista como se esquecesse de que tudo aquilo que vê não passa de fantasia. Pensando nisso, não resta dúvida: “Creed – Nascido Para Lutar” é excelente.

O sétimo episódio da franquia “Rocky” é o primeiro que não leva o nome do garanhão italiano no título, porque já não conta mais a sua história. “Creed”, que estreia nesta quinta (14), faz a ponte entre a série clássica, iniciada em 1976, e uma nova saga, com um novo protagonista e novos desafios. Sylvester Stallone ainda está lá, reprisando seu papel como Rocky Balboa, mas desta vez não é ele quem vai lutar: é Adonis, filho de seu primeiro grande oponente e melhor amigo, Apollo Creed.

Adonis é interpretado com corpo (trincado) e alma (inquieta) pela estrela em ascensão Michael B. Jordan, ator que já trabalhara com o diretor Ryan Coogler em “Fruitvale Station”, outra pérola do cinema recente. Seu personagem nunca conheceu o pai famoso, mas nasceu com o gosto pela briga e decide procurar ajuda para enfrentar os ringues profissionalmente. É claro que a ajuda virá de um lugar muito familiar: o restaurante Adrian.

Se “Rocky” havia mostrado ao mundo e a Hollywood que homens podiam chorar e que filmes de luta podiam ser mais do que isso, “Creed” não fica nem um passo atrás e trabalha todos os pontos de roteiro, trilha e câmera para que seus espectadores também fiquem com os olhos marejados. Destaque para a lente giratória que acompanha as sequências de luta, para o hip hop que invade o pop setentista na cena da corrida e para a relação paternal que se constrói entre Adonis e Rocky. “Se eu luto, você luta” é uma das declarações de amor mais bonitas que você verá neste ano.

“Creed – Nascido Para Lutar” é um filme para fãs, mas quem não assistiu aos outros seis episódios também conseguirá acompanhar a história sem dificuldades. O único risco é que o espectador novato sairá do cinema louco para conhecer a franquia completa. Por sorte, os cinco primeiros filmes estão em cartaz na Netflix.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “À Beira-Mar” não é um filme romântico, mas é um filme sincero sobre amor

À Beira-Mar” não é um filme fácil. O terceiro longa-metragem dirigido por Angelina Jolie (e o segundo escrito por ela) é seu projeto mais pessoal até agora, mas também o mais maduro. Na tela, ela e o marido, Brad Pitt, se insultam, se machucam e se compreendem apesar de tudo, sob um cenário que oscila entre a paz silenciosa e a sensualidade latente.

beira

O filme se passa nos anos 70 e tem como protagonistas Roland (Pitt) e Vanessa (Jolie), um casal junto há 14 anos que decide passar uma temporada num hotel isolado numa praia francesa. Ele busca inspiração para seu novo livro, mas não consegue completar uma linha, falha que a companheira não hesita em apontar.

Os dois formam um quadro estranho: nunca estão juntos e, quando estão, tudo o que fazem é hostilizar um ao outro. Ela, aliás, não é uma personagem fácil de gostar: logo na primeira cena, insiste em andar sobre a areia de salto alto e reclama do cheiro dos peixes. Mas o filme, inteligente e paciente, nos obriga a observar por mais tempo do que seria confortável e, finalmente, a compreender essa personagem como Roland.

Num certo momento, o marido descreve os dois como o casal perfeito de Nova York: “eu era um escritor e ela, tinha um corpo incrível”. A depreciação de Vanessa não é acidental e ajuda a compor o contexto psicológico da personagem, necessário para entender suas reações. Estes são os anos 70 e ela cresceu acreditando no casamento como um dos objetivos finais na vida de uma mulher. Por isso, quando questionada sobre sua profissão, define-se como “esposa” e resigna-se a passar dias inteiros ociosa dentro do quarto do hotel.

Se, no início, enxergamos os dois como um casal cansado um do outro, aos poucos percebemos que há uma ferida mais profunda afastando os dois. O comportamento dela, que repele ao mesmo tempo a ele e a si mesma, se aproxima mais de uma depressão do que da simples arrogância que ela se esforça em aparentar.

A montagem, que em alguns momentos sobrepõe diálogos a imagens fugidias, ajuda a expressar visualmente a relação entre os dois: as palavras de Roland parecem não atingir Vanessa, cada vez mais imersa no ódio a si mesma. A trilha sonora, composta por Gabriel Yared (que já trabalhara com a diretora em “Na Terra de Amor e Ódio”), também participa da narrativa, inserindo um tom melancólico e quase conformado ao drama – o que combina com a tranquilidade do mar e com a proposta geral do filme. “É preciso nadar de acordo com as ondas”, lembra Roland.

Além de Jolie e Pitt, o longa também traz Niels Arestrup como o dono do restaurante e Mélanie Laurent e Melvil Poupaud como os recém-casados que ocupam o quarto vizinho aos protagonistas – um casal jovem, feliz, amigável e incansável na cama, que traz à tona todas as feridas do casal veterano.

“À Beira-Mar” não é um filme romântico, mas é um filme sobre amor. Um filme lento, fique avisado, mas ainda assim intenso, sobre a realidade bruta da vida a dois. A estreia está marcada para o dia 3 de dezembro nos cinemas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Anomalisa”, de Charlie Kaufman, faz uma crítica afiada ao egocentrismo dos relacionamentos

Você pode nunca ter ouvido falar em Charlie Kaufman, mas provavelmente conhece “O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, “Quero Ser John Malkovich” ou “Sinédoque, NY”. Os dois primeiros, dirigidos por Michel Gondry e Spike Jonze, tiveram seus roteiros escritos por Kaufman. O terceiro, foi escrito e dirigido por ele. Se isso tudo não for motivo suficiente para conferir seu novo longa, “Anomalisa”, considere que o filme é um stop-motion que levou o Grande Prêmio do Júri em Veneza.

anomalisa

“Anomalisa” é uma obra estranha, ficcional e ao mesmo tempo realista demais. O fato de ser uma animação ajuda a criar uma distância, um afastamento da realidade, mas os “bonecos” que representam os personagens não são criaturas fofinhas: são muito parecidos com humanos, mas de uma textura diferente e com vincos no rosto que sugerem uma máscara. Não muito diferente das que nós, humanos, usamos de vez em quando.

O protagonista é Michael Stone (David Thewlis), um guru do telemarketing que viaja a Cincinnati para divulgar seu novo livro, um manual que promete melhorar as vendas em 90% ao ensinar o profissional a tratar seu cliente como um indivíduo, especial e único. Ironicamente, o próprio Stone não acredita em nada disso.

O primeiro estranhamento acontece quando, dentro de um avião, ele abre a carta raivosa de uma ex-namorada, mas é a voz de um homem que se ouve. Mais tarde, no quarto do hotel, ele faz uma ligação para a esposa e o filho pequeno: novamente, vozes masculinas e adultas. Pior: a mesma voz. Compreendemos então que Stone enxerga todas as pessoas à sua volta como seres idênticos, com o mesmo rosto e a mesma voz (diferentes, apenas, dos seus).

Essa forma literal de mostrar como rotulamos e generalizamos o mundo já havia sido testada em “Quero Ser John Malkovich”, de um jeito mais cômico e ainda mais bizarro. “Anomalisa”, porém, acrescenta uma dose de didatismo e escancara, sem rodeios, o egocentrismo e a ingenuidade contidos nessa ideia.

Influenciado, certamente, por romances hollywoodianos e contos de fadas, Stone procura sua felicidade no “amor verdadeiro” e se decepciona ao descobrir que esse amor não se constrói com milagres. Seguindo a cartilha em que foi ensinado a acreditar, ele se apropria da mulher e sequestra-a de sua realidade para encaixá-la em seu próprio mundo e, fazendo isso, deixa de enxergá-la.

É de enorme sensibilidade que Kaufman tenha escolhido a canção “Girls Just Wanna Have Fun”, de Cyndi Lauper, como a favorita de Lisa – uma garota insegura que Stone conhece no hotel, e que acaba dando o nome ao filme. Apesar de alegre, a música fala de expectativas sobre o papel da mulher, que aprisionam tanto a elas quanto aos homens.

“Anomalisa” poderia ser um curta, pois se demora demais em cenas banais, como a abertura de uma porta ou a preparação de um drink. Mas há um propósito nisso: criar um ambiente mais real, mais cotidiano, com o qual qual

quer um poderá se identificar e, eventualmente, se envergonhar ou se emocionar. O reconhecimento e a estranheza são igualmente amplificados. O filme, infelizmente, só estreia no Brasil no dia 28 de janeiro. Vale a pena esperar.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: Inquietante, “Sicario” traça um retrato complexo das relações entre tráfico, polícia e lei

Estreia neste mês um dos filmes mais comentados do circuito internacional de festivais, e um dos fortes candidatos às principais categorias do Oscar 2016. Não é por menos: “Sicário: Terra de Ninguém”, de Denis Villeneuve (“O Homem Duplicado”, “Os Suspeitos”), é um soco no estômago, capaz de deixar o espectador sem ar, mas, ao mesmo tempo, oferecer um roteiro (de Taylor Sheridan) tão bom que, mesmo com tanta violência, nada é gratuito.

sicario

A palavra “Sicario” vem de um tipo de adaga da Roma antiga, comumente usada em homicídios e suicídios. Com o tempo, o termo se tornou sinônimo de “assassino profissional”, depois de ficar associado a um grupo de hebreus que usavam métodos terroristas para combater a dominação romana. “Sicario”, enfim, é o assassino contratado para fazer o trabalho sujo e, até hoje, a humanidade ainda cultiva os seus.

O longa prende a atenção desde a primeira sequência, quando a agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt) invade uma casa com sua tropa e metralha um homem em legítima defesa. Segundos depois, a equipe descobre mais de trinta corpos escondidos dentro das paredes do local, e uma bomba explode. Toda essa adrenalina faz com que Macer aceite uma proposta para fazer parte de uma operação fora de sua área, que pretende capturar os chefes do tráfico e acabar com chacinas como aquelas.

De comandante, Macer passa a ser tratada como subordinada por uma dupla formada por Matt (Josh Brolin) e Alejandro (Benício Del Toro), que parecem estar sempre escondendo alguma informação da agente. Apesar de suspeitar da missão desde o início, ela não consegue deixar de seguir em frente, na esperança de fazer uma verdadeira diferença sobre aqueles crimes. Ao seu lado, ela traz seu parceiro de FBI, Reggie (Daniel Kaluuya), tão preocupado quanto ela com a legalidade dos atos dos seus novos companheiros.

A personagem de Blunt é muito bem construída: habilidosa, inteligente, agressiva quando preciso, mas também sensível diante da violência que vê. É uma agente que deixou tudo de lado para lutar pelo que acredita, mas está percebendo que sua luta é quase irrelevante diante da realidade que agora presencia, na fronteira entre os EUA e o México. Sua crise moral é devastadora.

Isso tudo, porém, não é suficiente para defender Villeneuve no que diz respeito à diversidade no filme: Macer é a única mulher em toda a ação, assim como seu parceiro Reg é o único negro – e os dois são verdadeiros alienígenas nesse universo de brutamontes latinos, que se acham os únicos dignos de empunharem armas. Incomoda muito, por exemplo, quando um dos personagens vocifera para Macer “nunca apontar uma arma para ele”, coisa que não diz a mais ninguém. É como se sua masculinidade fosse ameaçada, não sua vida.

“Sicario” constrói a tensão em pequenos paralelos, como o latido de um cão que antecede um tiroteio, ou a história de um pai de família cuja ligação com a trama principal não é revelada até os momentos finais. O público está sempre se preparando para o pior, e os créditos finais sobem sem oferecer nenhum alívio. Esta não é uma história de vitória: é uma história de guerra e de dominação, num contexto em que o homicídio se tornou o último recurso desesperado de uma lei que se percebe inútil.

“Sicario: Terra de Ninguém” estreia no dia 22 de outubro nos cinemas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: Diretor e atriz travam um duelo de poder em “A Pele de Vênus”

Jogos de poder e repressões sexuais em ambientes minimalistas não são novidade para Roman Polanski. Conhecido por obras como “Repulsa ao Sexo”, “O Bebê de Rosemary” e, mais recentemente, “Deus da Carnificina”, o cineasta se lança agora ao metalinguístico “A Pele de Vênus”, adaptação da peça homônima de David Ives que, por sua vez, é uma interpretação do romance de Leopold Von Sacher-Masoch – cujo nome, como se pode notar, inspirou o termo “masoquismo”.

venus

O longa segue à risca a visão de Ives, mas traz nas entrelinhas a essência do diretor polaco. No palco (diante das câmeras), estão sua esposa e colaboradora fiel, Emmanuelle Seigner, e Mathieu Amauric, de aparência e postura não muito distantes das suas próprias. Amauric interpreta um diretor de teatro que procura uma atriz para viver sua “Vanda”, a aristocrática dominatrix do século XVIII que também se revela a reencarnação de Vênus/Afrodite. Já Seigner é a candidata improvável que surge no meio da tempestade e, enquanto tenta convencê-lo de que é a pessoa certa para o papel, inverte a situação e se coloca no comando.

O filme inteiro se passa dentro de um velho teatro e é embalado pelo diálogo entre os dois. Usando apenas palavras, diretor e atriz se revezam no poder e tentam moldar um ao outro, de forma cada vez mais literal. O interessante é que, no meio da leitura do texto, Vanda (a atriz leva o mesmo nome da personagem) quebra a ilusão para fazer comentários como “isso é tão sexista que me faz querer gritar”.

A linha entre atores e personagens (ambos personagens, na realidade) vai se desfazendo aos poucos, até que não sabemos mais o que é roteiro, improviso ou opinião pessoal. A tensão cresce, acompanhada pela chuva e por figurinos que Vanda não para de materializar de dentro de sua enorme mala, preparando o terreno para um final triunfante.

Esse final, porém, talvez seja o ponto fraco da adaptação. Fora do teatro, certas alegorias parecem não funcionar tão bem e o que poderia ser expressivo no palco se torna mau gosto na tela. Sob uma trilha cômica, a sequência que encerra o duelo parece fora de lugar.

Além disso, Polanski se contradiz ao repudiar, de início, uma frase do livro de Masoch (“Deus o puniu e o entregou às mãos de uma mulher”), para depois resgatá-la como uma tese comprovada. Essa ideia maniqueísta rompe com toda a estrutura do filme, que trabalha com a provocação de que o submisso estaria manipulando o dominador tanto quanto o contrário.

“A Pele de Vênus” estreia no dia 24 de setembro nos cinemas e é mais um capítulo polêmico na filmografia do cineasta, que promete dividir opiniões. Vale a pena conferir.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.