Mulheres do Século 20 (Mike Mills, 2016)

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Na correria urgente do dia-a-dia, pode ser fácil perder de vista o quanto do nosso presente é herança de um passado que julgamos distante e retrógrado. Mas basta um exercício de memória: pense no movimento feminista que vem ganhando força nos últimos anos com a ajuda das redes sociais. Ele nada mais é do que o desdobramento tardio de uma mobilização que teve seu auge quatro décadas atrás, quando o anticoncepcional chegou às prateleiras e o punk invadiu as vitrolas. E é para esse tempo em ebulição que viajamos, guiados pelo diretor e roteirista Mike Mills, às suas lembranças de juventude no semiautobiográfico “Mulheres do Século 20”.

Sim, o ponto de vista é masculino e isso, nem de longe, é um problema. O que testemunhamos, aqui, não é o feminismo panfletário que sugere o título, mas sim seu impacto real sobre um jovem em formação. Um jovem cuja relação com a mãe acabou por definir seu caráter como homem e como artista.

O filme conta a história de Dorothea (Annette Bening), uma mulher que foi mãe aos 40 anos e, divorciada, começa a sentir um abismo se abrir entre ela e seu filho Jamie, de 15 (Lucas Jade Zumann). Mergulhada numa contracultura que ela não entende, somada a uma insegurança que começa a se instalar pela primeira vez em quem sempre estivera à frente do seu tempo, Dorothea decide pedir ajuda. Ela recorre a Abbie (Greta Gerwig), uma fotógrafa a quem aluga um quarto, e a Julie (Elle Fanning), uma adolescente um pouco mais velha do que Jamie, para que elas deem ao menino a formação de que ele precisa.

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A relação com as duas – que já existia naturalmente, mas ganha novas liberdades – tem um impacto imediato na vida de Jamie, que passa a repensar todas as suas posturas como homem (e como ser humano), mas essa experiência não diminui a distância em relação à mãe.

É nessa frustração delicada entre a teoria e a prática dos relacionamentos que se esconde a sabedoria de “Mulheres do Século 20”. Ao subir dos créditos, Mills confessa que “tentou explicar quem era Dorothea, mas não conseguiu”. É claro que não. Porque pessoas não cabem em livros e o melhor que podemos fazer é o que fez o pequeno Jamie ou o adulto Mike, olhando para trás para as pessoas que fizeram parte de sua vida: tentar enxergá-las com olhos coloridos e caleidoscópicos, sabendo que eles jamais serão o suficiente.

 

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.IFrame

Demônio de Neon + Westworld: dois conceitos de humanidade no cinema e na TV

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Desde que assisti ao primeiro trailer de “Demônio de Neon”, eu soube que escreveria sobre ele. Um manifesto belo e grotesco sobre a própria beleza. Um tesouro conceitual e incompreendido – já sabia disso antes de ver o filme completo e confirmei minhas impressões na sala de cinema, maravilhada com as imagens de Nicolas Winding Refn. Aliás, me enganei quanto ao “grotesco”: existe a sugestão do “gore”, mas o tal demônio não abre mão da qualidade estética nem por um segundo. Não há um fio de cabelo fora do lugar, mesmo que, por dentro, seus personagens estejam se corroendo e apodrecendo como troncos ocos.

Mas o fato é que não consegui escrever sobre “Demônio de Neon” porque fui atropelada por “Westworld”.

Eu mesma sabia muito pouco sobre a nova série da HBO, mas tive a chance de assistir ao primeiro episódio numa sessão de imprensa. “Westworld” estreia no dia 2 de outubro e é livremente inspirada no filme homônimo de 1973, com roteiro de Jonathan Nolan (que escreveu “Interestelar” junto com o irmão mais famoso) e de sua esposa, Lisa Joy.

O primeiro episódio apresenta um Velho Oeste bastante convincente onde vive um grupo de personagens típicos: a doce e otimista garota apaixonada (Evan Rachel Wood), seu pacato pai fazendeiro (Louis Herthum), o aventureiro que retorna para cumprir uma promessa (James Marsden), a cafetã (Thandie Newton) e o assassino (Rodrigo Santoro). O espectador é pego de surpresa quando alguns desses personagens são brutalmente assassinados, mas, ao revê-los sãos e salvos na manhã seguinte, começa a compreender: aquele, na verdade, é um parque de diversões onde clientes ricos podem se vestir a caráter e viver algumas horas no Velho Oeste (ainda não sabemos se a série mostrará outros cenários).

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Lá, eles interagem com robôs humanoides tão avançados que é quase impossível diferenciá-los dos visitantes, exceto por seus discursos repetidos e por um ou outro tique mecânico. Para dar mais realismo à experiência, os robôs não sabem que não são humanos. E é aí que voltamos ao Neon.

O filme de Refn e a série de Nolan trabalham conceitos opostos de humanidade, mesmo tendo, ambos, perspectivas pessimistas sobre ela. Em “Demônio de Neon”, o valor de uma pessoa está na aparência, enquanto, em “Westworld” o que define um humano é o seu comportamento.

O longa conta a história de uma modelo novata (Elle Fanning) que chega a Los Angeles e encara a inveja destrutiva de suas concorrentes, enquanto despe-se de sua alma e seu intelecto para dar à agência o que ela quer – e o que aprendeu a querer, também – sua beleza exterior e vazia.

[ALERTA DE SPOILER]

Numa cena, a personagem de Jena Malone, uma maquiadora que completa a renda maquiando corpos para o velório, compensa a frustração de ter sido rejeitada por uma pretendente viva realizando sua fantasia com um cadáver. A imagem pode ser chocante, mas não é gratuita: se o que ela desejava era a beleza de uma modelo, a estética despida de significado, então não haveria diferença entre um corpo preenchido com vida e outro vazio.

Em outro momento, uma série de fotos é levada a uma agência de modelos. São fotos belas e impactantes que contam uma história intrigante: uma mulher está morta num sofá. O que teria acontecido com ela? Como ela teria chegado ali? Quem era ela? As fotos, porém, são rejeitadas como sendo “amadoras”. O motivo não é dito, mas podemos pensar que o fato de levantarem perguntas e estimularem o olhar para além da imagem não atende aos objetivos da empresa.

[FIM DO SPOILER]

A humanidade, portanto, é definida aqui pelo corpo: a modelo deve expressar beleza sem consciência e a imagem deve ser dissociada de sua significação. O oposto acontece em “Westworld” – ou, pelo menos, em parte dela.

Na série, os humanos que embarcam na fantasia do parque assumem atitudes desumanas: matam, estupram e traem simplesmente porque não serão punidos e porque sabem que seus “hóspedes” são personagens ficcionais. Então, numa cena, um roteirista do parque faz a seguinte reflexão: “Talvez devêssemos parar de atualizar os robôs. Até que ponto, afinal, as pessoas se sentiriam confortáveis para trair ou matar se eles se parecessem cada vez mais com humanos?”

A humanidade, portanto, é definida pelo comportamento: quanto mais complexos se tornarem os robôs, mais as pessoas os enxergarão como iguais. Além disso, ter a capacidade de pensar, aprender, ter memórias e sentimentos faz com que os robôs também se considerem humanos.

Há um paradoxo, entretanto: ao mesmo tempo em que os robôs passam a “sensação” de humanidade por seu comportamento, eles ainda são julgados, racionalmente, pela estrutura física. Os usuários do parque sabem que os habitantes do Velho Oeste não são humanos porque são feitos de componentes mecânicos e não de células naturais – e isso cria uma distância intransponível que tem sido explorada pela ficção científica desde os primórdios.

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Como a série vai desenvolver essa questão, ainda não sabemos, mas ficaremos pregados na TV todos os domingos para descobrir. E, quanto ao Neon, aviso que é um filme tão polêmico que dificilmente ficará muitas semanas em cartaz. Sugiro que corram logo aos cinemas (a partir do dia 29) e voltem com suas próprias respostas para algumas destas perguntas: afinal, será que o filme segue o próprio conceito e é só bonito, mas sem conteúdo? Ou será que ele nos mostra que realmente só consideramos humanos aqueles que nos agradam aos olhos?

Perguntas difíceis, respostas desagradáveis.