Animais Fantásticos e Onde Habitam

2016 está sendo, mesmo, um ano sombrio para blockbusters. Os fãs que me perdoem, mas “Batman vs Superman” foi um fiasco, “Guerra Civil” foi apenas OK, “Esquadrão Suicida” foi um desastre completo e “Doutor Estranho” não impressionou ninguém. Agora, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” – o tão esperado spin-off da franquia Harry Potter, escrito pela própria J.K. Rowling e estrelando o vencedor do Oscar Eddie Redmayne – chega para despejar a última pedra de gelo nas cabeças dos fãs, já resfriados depois de tantas decepções.


Não me levem a mal, sou fã de Harry Potter desde os meus 12 anos. Fui ao cinema com a melhor das intenções e, inclusive, me diverti muito. Curti cada minuto do novo filme de David Yates, ri com suas criaturas fofas e apreciei suas imagens belíssimas, mas sabe o que aconteceu no final? Não aconteceu…

Não saí nem um pouco emocionada. Não saí com a sensação de conhecer cada um daqueles personagens como se fossem meus melhores amigos, nem com a vontade de assistir de novo ou de pegar um graveto e sair girando por aí como se fosse uma varinha! Não que eu fosse fazer isso, é claro… Mas vocês entenderam.

O fato é que “Animais Fantásticos e Onde Habitam” parece não ter aprendido a lição mais importante de “Harry Potter”: o segredo não era a magia, mas sim os personagens. Não era o extraordinário, mas o cotidiano. Na série original, Rowling dedicou capítulos inteiros a descrever a vida monótona de Harry na casa dos tios antes de apresentar a maravilhosa escola de magia e bruxaria onde ele viveria suas maiores aventuras.

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Mesmo ali, em Hogwarts, ela se permitia distrair da ameaça de Voldemort para mostrar a rotina de estudos das crianças, as aulas de herbologia, as partidas de Quadribol, as férias na casa dos Weasley… Enfim, era o lado humano dos bruxos que nos encantava, o modo como a vida com magia se parecia tanto com nossas singelas vidas trouxas, com apenas alguns feitiços a mais.

É claro que um filme não pode ser comparado a uma série de livros, mas mesmo os filmes da franquia “Harry Potter” conseguiram construir os personagens de forma que pudéssemos “conviver” com eles, e não apenas admirá-los em condições extremas. Em “Animais Fantásticos”, acontece o oposto disso: desde o início, somos apresentados a situações incríveis envolvendo animais mágicos, protestos acalorados contra bruxaria e feitiços sendo usados indiscriminadamente na frente de trouxas (ou “nomaj”, como são chamados nos EUA). Em questão de minutos, já vimos uma criatura destruir um prédio inteiro, um bruxo reconstruir esse prédio e uma bruxa apagar a memória de todos os que testemunharam o fato.

Não que isso não seja empolgante. É claro que é! Os efeitos visuais do filme tornam a magia maravilhosa de se ver e os tais animais fantásticos são uma diversão à parte. O patinho-ornitorrinco é um amor. E as referências são quase um golpe baixo: tenho certeza de que você vai deixar escapar um sorrisinho quando ouvir palavras como “Alohomora” ou “Petrificus Totalus”, e seu coração vai bater mais forte quando o nome “Dumbledore” vier à tona. Mas talvez você não se sinta transportado para dentro daquele mundo, entre aquelas paredes, ao lado daquelas pessoas, como nas outras vezes… Talvez você se sinta como um observador distante, admirado mas não tocado, e logo se esqueça daqueles personagens.

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Aviso, também, que o filme tem um tom cômico forte – que pode provocar risadas ou torções de nariz, dependendo de suas expectativas. As situações são engraçadas, em geral, mas absurdas (mesmo num contexto de fantasia) e a atuação de Eddie Redmayne não ajuda muito a equilibrar essa conta. Ele não entrega nada que o público já não tenha visto em outros papéis e seu Scamander, apesar de simpático, acaba ficando sem personalidade. O mesmo acontece com sua parceira Tina Goldstein (Katherine Waterson), uma funcionária rebaixada do Ministério Bruxo que quer prendê-lo a todo custo. Ela parece uma mulher confiante e poderosa nos primeiros minutos, mas essa imagem logo se dissipa e ela empalidece em meio aos seus colegas. Quem se destaca é a dupla de coadjuvantes formada por Dan Fogler e Alison Sudol, que interpretam um inocente nomaj e a irmã leitora-de-mentes de Tina. Eles, sim, serão seus personagens favoritos.

“Animais Fantásticos e Onde Habitam” é inspirado num livro didático usado pelos estudantes em Hogwarts que foi publicado por Rowling como um guia ilustrado, e depois transformado em longa-metragem junto com a Warner. O filme será o primeiro de cinco longas, que percorrerão 19 anos e provavelmente contarão a história do mago das trevas Grindewald, apresentado nos livros como um antigo amigo e rival de Dumbledore e interpretado neste filme brevemente por Johnny Depp.

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Se o filme vale seu ingresso? Vale sim, especialmente se você é fã de Harry Potter e quer saber o que aconteceu em outros tempos e lugares. Vale, também, se você tem crianças em casa e procura um pouco de fantasia. Não espere, porém, por uma segunda dose daquela febre incurável que foi a saga original: como todos os grandes lançamentos do ano, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” é apenas mais um exemplo de como o cinema de grande escala está precisando, desesperadamente, de novidades. 2017 tem um grande desafio pela frente.

Crítica: Caça-Fantasmas (2016)

Depois de meses de espera, chegou a hora de falar de “Caça-Fantasmas”. Não o de 1984, mas o reboot que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 14 de julho, com quatro mulheres no lugar dos nerds mais queridos do cinema e um bonitão no lugar da secretária.

Filmes como este são mais do que entretenimento: são manifestos. Eles vêm com uma bagagem pesada e enchem o público de expectativas (e preconceitos) antes mesmo de estrearem. Eu mesma tinha meus receios: não seria a troca de gêneros apenas mais uma forma de afirmar o abismo entre os sexos? Ou, pior, não seria um jeito de aproveitar a discussão feminista para ganhar uns milhões a mais?

É claro que não. Para começar, quem assina a direção é Paul Feig (“A Espiã Que Sabia de Menos”, “As Bem-Armadas”, “Missão Madrinha de Casamento”) e o roteiro é dele, ao lado de Katie Dippold (“Parks and Recreation”). Ambos têm experiência com comédias lideradas por mulheres e enxergaram em “Caça-Fantasmas” uma oportunidade para mostrar a um público de massa que elas podem, sim, ser tão engraçadas quanto os homens.

E como podem! As quatro protagonistas do reboot – Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon e Leslie Jones – formam um grupo infinitamente carismático, cada uma com sua personalidade e suas especialidades, e vão fazer você rir como há muito tempo não fazia. Aliás, eu ri alto e passei vergonha no cinema.

Além de cômicas, todas as personagens são bem construídas e evoluem ao longo do filme: Abby (McCarthy) e Erin (Wiig) reatam uma amizade que estava suspensa; Holtz (McKinnon), talvez a grande revelação do filme, se apega às novas companheiras como uma família; e Patty (Jones), ao contrário do que os trailers podiam sugerir, não é apenas a “personagem negra com habilidades sociais”: ela tem um conhecimento de História que se revela essencial e, junto com as Caça-Fantasmas, encontra a valorização que procurava.

Vocês podem achar isso um pouco injusto, mas um dos grandes trunfos do filme é o personagem Kevin, vivido por Chris Hemsworth. Sim, um homem. E isso não é problema nenhum, porque homens e mulheres podem ser engraçados juntos – e esse personagem é uma das melhores críticas à Hollywood machista que você vai ver na vida.

Por quê? Bem, Kevin é um secretário burro como uma porta, mas acaba sendo contratado só porque é bonito (e porque tem um bom coração). Ele é a paródia perfeita das personagens gostosas, mas inúteis, que só são inseridas no roteiro para serem admiradas ou servirem aos interesses dos protagonistas masculinos. Aqui, porém, ele tem uma vida própria e acaba evoluindo tanto quanto suas colegas, tornando-se um personagem interessante e querido. Mais um ponto para Feig e Dippold.

O que torna a mensagem do filme mais impactante e transformadora é o fato de que o gênero das personagens não faz nenhuma diferença na história, nem determina o sucesso ou o fracasso das Caça-Fantasmas. Na verdade, as únicas pessoas que mencionam o fato de elas serem mulheres são os “haters” da internet, em comentários lidos por elas numa alusão às críticas reais recebidas pelo filme, e o vilão fanboy, que fala num breve momento que elas “lutam como garotas”. Não que a misoginia seja sua principal característica – isso não é necessário. Ele é apenas mais um lunático que quer dominar o mundo e elas, as heroínas nerds que querem salvá-lo. Exatamente como no original.

O que é diferente dos primeiros filmes são os combates com os fantasmas. Aqui, eles são muito mais numerosos e há uma sequência de ação bastante divertida antes do confronto final com o vilão (destaque para os chicotes de Holtz e as luvas de Abby). O grand finale, porém, acaba sendo um pouco decepcionante comparado ao que vinha sendo mostrado até ali, mesmo que seja uma referência clara ao longa de 84, com seus clichês propositalmente cafonas. Felizmente, a batalha é curta e não há tempo para o melodrama: logo, estamos de volta às piadas terríveis de Kevin e chegamos aos créditos finais. Mas não levante ainda… Há um presentinho aguardando os fãs das antigas no final.