“Todo Dia”: adolescente é condenado a viver as vidas dos outros em curioso romance fantástico

Ideias criativas podem ser terrivelmente difíceis de realizar, mas, pelo menos, sempre vão soar mais interessantes do que qualquer clichê bem feito. É esse o caso do longa “Todo Dia”, que troca o padrão “menino-conhece-menina” por algo como “menino-que-também-pode-ser-menina-mas-na-verdade-não-é-nem-gente-conhece-menina”. Continuar lendo ““Todo Dia”: adolescente é condenado a viver as vidas dos outros em curioso romance fantástico”

A Bela e A Fera (Bill Condon, 2017)

Tudo o que eu queria hoje era estar contando a vocês o quanto “A Bela e A Fera” me emocionou. Queria estar, neste momento, revivendo o arrepio que não senti, enxugando as lágrimas que não vieram, exaltando delicadezas e ousadias que jamais aconteceram. Ao invés disso, estou aqui para lhes dizer que o filme mais esperado do ano, o conto-de-fadas mais amado do momento, a realização dos sonhos dos fãs de Emma Watson, é apenas mais um belo, grandioso e satisfatório remake da Disney.

Não me interpretem mal – é um lindo filme. Algumas cenas, como o número musical de abertura, são um espetáculo para rever em câmera lenta. Mas, para uma produção 26 anos mais moderna e sete vezes mais cara do que a animação que a inspirou (o clássico de 1991, não tanto o conto do século XVIII), “A Bela e A Fera” está longe de conseguir competir com aquela.

É claro, são naturezas diferentes: uma animação romântica; uma aventura fantástica em CGI. Mas a sensação é a de que a Disney está, mais uma vez, segurando o freio em obras que deveriam estar decolando. Sim, os números musicais são ótimos – mas se parecem demais com produções da Broadway. Sim, os objetos falantes estão bem feitos e devem ter custado horrores – mas seus movimentos, cujo exagero funciona bem numa animação, aqui parecem ligeiramente falsos (ou assustadores) ao lado de Bela. (Um problema compensado, é preciso dizer, pelas atuações brilhantes do elenco de dublagem, que inclui Ian McKellen, Ewan McGregor e Emma Thompson.) A questão é que, ao invés de arriscar novas linguagens para resolver esses problemas, a Disney prefere jogar seguro e, consequentemente, não impressiona.

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Ok, mas e as inovações no conteúdo? Sim, Bela agora é uma inventora – mas o único momento em que isso é sugerido é quando ela adapta um barril e um cavalo para usá-los como lava-roupas, ainda no vilarejo. No castelo, essa criatividade desaparece e nunca mais ouvimos falar dela. Além disso, agora temos um personagem quase abertamente gay (na verdade, são dois), mas o fato de isso ser revolucionário é simplesmente deprimente.

Talvez o que falte aqui seja a sutileza. Se o roteiro tinha a intenção de se mostrar feminista, por exemplo, não era preciso incluir diálogos inteiros explicando como Bela seria rejeitada caso não tivesse pai ou marido; ou como seus conterrâneos têm “mente pequena” por viverem numa “cidade pequena”… Tudo isso já estava claro, sem que precisássemos soletrar. O mesmo vale para as novas canções, que introduzem trechos da história que ainda não haviam sido contados – como o passado da Fera e a infância de Bela. Estes poderiam ser interessantíssimos, mas, óbvios demais, acabam não acrescentando muito aos personagens ou à história.

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Quem merece destaque (e arrisco dizer, é a melhor surpresa do filme) é Dan Stevens no papel de Fera. Pessoalmente, sempre achei que as versões em live action deste conto pecavam na representação do monstro, mas, aqui, finalmente vi o personagem ganhar vida, mesmo sob todos aqueles pelos virtuais. A Fera de Stevens (“Downton Abbey” e “Legion”) é sarcástica, tem o mesmo lado infantil que a da animação, expressa seus sentimentos com mais frequência e até protagoniza um número musical sozinho (certo, talvez este não seja seu melhor momento).

O mais importante, porém, é que ele lê tanto quanto (ou até mais que) Bela. Os dois, desta vez, não apenas se apaixonam por viverem no mesmo espaço, mas trocam experiências, leem juntos e viajam juntos para outros mundos e lugares. Bela finalmente encontrou seu par.

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Quem também se encaixa perfeitamente em seus papéis são Luke Evans e Josh Gad, que, respectivamente, interpretam Gaston e seu capacho LeFou. As cenas dos dois são provavelmente as mais naturais e divertidas de todo o filme – mas é uma pena que Gaston tenha um desfecho tão insosso.

A Bela e A Fera” integra todo um projeto da Walt Disney de transformar seus clássicos animados em filmes com atores, alguns dos quais vão ganhar sequências e spin-offs. A proposta tem dado certo, desde que “Malévola” arrecadou 750 milhões de dólares em 2014, “Cinderela” chegou a meio bilhão em 2015 e “Mogli – O Menino Lobo” arranhou a marca de 1 bilhão em 2016. Dos quatro, este talvez seja o mais bem acabado e não há dúvida de que superará todos os outros nas bilheterias. Resta saber se os próximos terão um pouco mais de coragem para realmente emocionarem, como nos velhos tempos.

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

Animais Fantásticos e Onde Habitam

2016 está sendo, mesmo, um ano sombrio para blockbusters. Os fãs que me perdoem, mas “Batman vs Superman” foi um fiasco, “Guerra Civil” foi apenas OK, “Esquadrão Suicida” foi um desastre completo e “Doutor Estranho” não impressionou ninguém. Agora, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” – o tão esperado spin-off da franquia Harry Potter, escrito pela própria J.K. Rowling e estrelando o vencedor do Oscar Eddie Redmayne – chega para despejar a última pedra de gelo nas cabeças dos fãs, já resfriados depois de tantas decepções.


Não me levem a mal, sou fã de Harry Potter desde os meus 12 anos. Fui ao cinema com a melhor das intenções e, inclusive, me diverti muito. Curti cada minuto do novo filme de David Yates, ri com suas criaturas fofas e apreciei suas imagens belíssimas, mas sabe o que aconteceu no final? Não aconteceu…

Não saí nem um pouco emocionada. Não saí com a sensação de conhecer cada um daqueles personagens como se fossem meus melhores amigos, nem com a vontade de assistir de novo ou de pegar um graveto e sair girando por aí como se fosse uma varinha! Não que eu fosse fazer isso, é claro… Mas vocês entenderam.

O fato é que “Animais Fantásticos e Onde Habitam” parece não ter aprendido a lição mais importante de “Harry Potter”: o segredo não era a magia, mas sim os personagens. Não era o extraordinário, mas o cotidiano. Na série original, Rowling dedicou capítulos inteiros a descrever a vida monótona de Harry na casa dos tios antes de apresentar a maravilhosa escola de magia e bruxaria onde ele viveria suas maiores aventuras.

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Mesmo ali, em Hogwarts, ela se permitia distrair da ameaça de Voldemort para mostrar a rotina de estudos das crianças, as aulas de herbologia, as partidas de Quadribol, as férias na casa dos Weasley… Enfim, era o lado humano dos bruxos que nos encantava, o modo como a vida com magia se parecia tanto com nossas singelas vidas trouxas, com apenas alguns feitiços a mais.

É claro que um filme não pode ser comparado a uma série de livros, mas mesmo os filmes da franquia “Harry Potter” conseguiram construir os personagens de forma que pudéssemos “conviver” com eles, e não apenas admirá-los em condições extremas. Em “Animais Fantásticos”, acontece o oposto disso: desde o início, somos apresentados a situações incríveis envolvendo animais mágicos, protestos acalorados contra bruxaria e feitiços sendo usados indiscriminadamente na frente de trouxas (ou “nomaj”, como são chamados nos EUA). Em questão de minutos, já vimos uma criatura destruir um prédio inteiro, um bruxo reconstruir esse prédio e uma bruxa apagar a memória de todos os que testemunharam o fato.

Não que isso não seja empolgante. É claro que é! Os efeitos visuais do filme tornam a magia maravilhosa de se ver e os tais animais fantásticos são uma diversão à parte. O patinho-ornitorrinco é um amor. E as referências são quase um golpe baixo: tenho certeza de que você vai deixar escapar um sorrisinho quando ouvir palavras como “Alohomora” ou “Petrificus Totalus”, e seu coração vai bater mais forte quando o nome “Dumbledore” vier à tona. Mas talvez você não se sinta transportado para dentro daquele mundo, entre aquelas paredes, ao lado daquelas pessoas, como nas outras vezes… Talvez você se sinta como um observador distante, admirado mas não tocado, e logo se esqueça daqueles personagens.

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Aviso, também, que o filme tem um tom cômico forte – que pode provocar risadas ou torções de nariz, dependendo de suas expectativas. As situações são engraçadas, em geral, mas absurdas (mesmo num contexto de fantasia) e a atuação de Eddie Redmayne não ajuda muito a equilibrar essa conta. Ele não entrega nada que o público já não tenha visto em outros papéis e seu Scamander, apesar de simpático, acaba ficando sem personalidade. O mesmo acontece com sua parceira Tina Goldstein (Katherine Waterson), uma funcionária rebaixada do Ministério Bruxo que quer prendê-lo a todo custo. Ela parece uma mulher confiante e poderosa nos primeiros minutos, mas essa imagem logo se dissipa e ela empalidece em meio aos seus colegas. Quem se destaca é a dupla de coadjuvantes formada por Dan Fogler e Alison Sudol, que interpretam um inocente nomaj e a irmã leitora-de-mentes de Tina. Eles, sim, serão seus personagens favoritos.

“Animais Fantásticos e Onde Habitam” é inspirado num livro didático usado pelos estudantes em Hogwarts que foi publicado por Rowling como um guia ilustrado, e depois transformado em longa-metragem junto com a Warner. O filme será o primeiro de cinco longas, que percorrerão 19 anos e provavelmente contarão a história do mago das trevas Grindewald, apresentado nos livros como um antigo amigo e rival de Dumbledore e interpretado neste filme brevemente por Johnny Depp.

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Se o filme vale seu ingresso? Vale sim, especialmente se você é fã de Harry Potter e quer saber o que aconteceu em outros tempos e lugares. Vale, também, se você tem crianças em casa e procura um pouco de fantasia. Não espere, porém, por uma segunda dose daquela febre incurável que foi a saga original: como todos os grandes lançamentos do ano, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” é apenas mais um exemplo de como o cinema de grande escala está precisando, desesperadamente, de novidades. 2017 tem um grande desafio pela frente.

Sobre “O Lar das Crianças Peculiares” ou Seja bem-vindo de volta, Tim Burton

Tim Burton está de volta. E, com isso, eu quero dizer realmente de volta – de volta a si, ao seu estilo, aos seus temas e aos seus universos bizarros e incompreendidos. Ironicamente, foi preciso mergulhar no trabalho de outro artista para que isso acontecesse: seu novo filme, “O Lar das Crianças Peculiares”, que estreia no dia 29 de setembro, é a adaptação do livro “O Orfanato da Sra. Peregrine Para Crianças Peculiares”, romance de Ransom Riggs lançado em 2011 e inspirado num conjunto de fotos antigas e excêntricas.


“O Lar das Crianças Peculiares” conta a história de Jake (Asa Butterfield), um menino desajustado e sem amigos que cresceu ouvindo as histórias de seu avô sobre um orfanato isolado onde viviam crianças com poderes mágicos. Com o tempo, e sob o julgamento constante dos colegas e do pai, o menino deixou de acreditar nas histórias e aceitou o fato de que seu mentor estava apenas velho e demente.

Se você sentiu nesse primeiro momento um eco de “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”, provavelmente não é por acaso: o filme está cheio de auto-referências, incluindo duas sequências maravilhosas filmadas em stop-motion. Na primeira, um duelo entre bonecos grotescos que ganham vida graças à peculiaridade de uma das crianças, revemos a criação de Edward em “Edward Mãos de Tesoura”. Na segunda, uma batalha entre esqueletos e monstros sob uma trilha musical pop, vêm à mente tanto o videoclipe “Bones”, que Burton dirigiu para a banda The Killers, quanto o clássico “Jasão e os Argonautas”, animado pelo mestre do stop-motion Ray Harryhausen em 1963. Há, ainda, uma cena em que uma criança projeta um filme a partir de seus sonhos (habilidade que, creio, não existe no livro), numa homenagem belíssima ao cinema fantástico como um todo.

De volta ao filme, depois de alguns eventos misteriosos, Jake viaja com o pai para a ilha onde ficava o orfanato da Senhora Peregrine (Eva Green) – em ruínas, depois de ter sido bombardeado na Segunda Guerra Mundial. O pai, diga-se de passagem, é uma figura irresponsável e sem nenhum tato para se relacionar com o filho e, logo, Jake consegue se desvencilhar dele para descobrir que o orfanato ainda vive – em outro tempo, mas vive.

O filme brinca com viagens no tempo e “loops” temporais para trazer novidade a uma história já bem gasta – a mesma dos quadrinhos “X-Men”, onde mutantes rejeitados pela sociedade são acolhidos na escola de Xavier*; ou da série “Harry Potter”, onde bruxos vivem disfarçados entre pessoas comuns, mas estudam e trabalham em ambientes secretos.

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O trunfo do filme, porém, não está nesse contexto comum, nem no fato de que, como em tantos outros contos, o espectador é incentivado a questionar a natureza fantástica daqueles eventos (seriam as crianças “peculiares” apenas refugiados judeus durante a guerra?). Seu encanto, pelo contrário, está no que ele traz de mais particular – naquele ponto delicado onde termina Riggs e começa Burton.

Seria injusto diminuir a importância do livro ou do autor, mas, como na versão impressa, “O Lar das Crianças Peculiares” também encontra sua voz mais expressiva nas imagens do que no texto. E as imagens de Burton dizem muito sobre o seu momento como diretor.

Nesta aventura, é como se Burton deixasse sua imaginação correr solta e, inspirado pelo universo criado por Riggs, quisesse explorar todas as possibilidades que cada personagem peculiar lhe oferecia, sem se prender à lógica ou a tendências de mercado. O resultado é uma experiência fascinante e surpreendentemente singular.

Tecnicamente, Burton deixa para trás todos os excessos que marcaram sua obra e encontra um equilíbrio que só pode ser descrito como “maturidade”. Desta vez, ele explora o CGI como instrumento e não como fim (como fizera em “Alice no País das Maravilhas”), ao mesmo tempo em que se permite reverenciar o cinema de outro tempo com técnicas artesanais, cenários reais e uma narrativa inocente centrada em personagens juvenis, como nos melhores anos de Spielberg.

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Em termos de conteúdo, Burton parece ter enxergado na obra de Riggs a oportunidade para explorar alguns de seus temas mais caros: a sensação de não-pertencimento ao mundo (que leva seus personagens, frequentemente, a habitarem dois universos distintos), a valorização daquilo que é diferente e visto como “monstruoso” (repudiado por esse mesmo “mundo real”), relações conflituosas com a figura paterna e uma combinação muito particular de elementos sombrios e infantis.

Para quem gosta da tradição do cineasta de repetir colaboradores, temos de volta Eva Green (que trabalhou com Burton em “Sombras da Noite”) e arrisco dizer que esta não será a última vez que veremos Asa Butterfield. O ator de 19 anos tem o perfil ideal do “herói burtoniano”, atualizado para uma fase mais sóbria do diretor: ele é esguio, de olhos expressivos e aparência frágil, com um quê de introspectivo e um potencial enorme para se transformar, física e emocionalmente, no decorrer de um único filme.

Por fim, Burton parece ter se identificado tanto com o próprio filme que decidiu fazer uma pequena participação especial (uma piscadela – repare na cena do parque de diversões), como se dissesse aos fãs que este filme, com seu jeito old school, seu ar vitoriano e seus personagens exóticos, fosse mesmo um retorno ao que seus fãs tanto amavam em sua obra. E como é bom tê-lo de volta.

 

*Curiosidade: a roteirista de “O Lar das Crianças Peculiares”, Jane Goldman, trabalhou nos roteiros de “X-Men: Primeira Classe” e “X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido”.

Resumão#14 – Especial Star Wars: Ep. VII – O Despertar da Força

Aviso: este vídeo CONTÉM SPOILERS e é recomendado para quem JÁ ASSISTIU AO FILME.

O último Resumão de 2015 está mais do que especial! Recebemos o Doktor Bruce, do portal Freakpop, para destrinchar o maior lançamento do ano, “Star Wars: Ep. VII – O Despertar da Força”. Falamos sobre os novos personagens, as referências clássicas e analisamos as grandes surpresas do filme, como fãs e como críticos. Será que este é mesmo o melhor episódio da franquia até agora?

Se você já assistiu ao filme e não consegue pensar em outra coisa, deixe seu comentário e participe da discussão! Queremos saber sua opinião!

 

Confira nossas críticas do filme:

Juliana Varella (Guia da Semana): http://goo.gl/JHUq4Q

Doktor Bruce (Freakpop): http://goo.gl/d4Lz0n

Crítica: Blake Lively vive uma idosa num corpo de menina em “A Incrível História de Adaline”

A fantasia é um terreno complicado da ficção. Ao mesmo tempo em que um autor pode brincar com todas as (im)possibilidades do mundo e distorcer quaisquer leis da física que deseje, ele precisa fazê-lo de forma convincente para seu público e sua história. No caso de “A Incrível História de Adaline”, um delicado romance mágico sobre uma mulher que não envelhece, o mesmo toque fantástico que dá origem à aventura, quando mal dosado, é o que acaba por quebrar seu encanto.

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Blake Lively (da série Gossip Girl) comanda o longa com firmeza na pele de Adaline Bowman, ou Jenny, ou Amanda. Presa nos 29 desde um acidente de carro nos anos 20, ela desenvolve o hábito de trocar de identidade e endereço a cada década, para fugir de autoridades que possam querer estudá-la ou prendê-la, duvidando de seus documentos.

Desde o início, vários elementos curiosos são associados ao nascimento de Adaline, fazendo dela alguém “especial”. Ela foi, por exemplo, a primeira criança nascida no século, às 00h01 do dia 1º de janeiro de 1901 (data que entra em contradição mais à frente por um descuido do roteiro).

Só isso já bastaria para justificar a situação excepcional da personagem, mas, por alguma razão, os roteiristas vão além e criam diversas condições extremamente específicas para explicar a anomalia de forma mais “científica. Acontece uma neve fora de época, um raio e até um cometa. Com tantas coincidências desnecessárias, a magia se perde e o espectador deixa de acreditar na história antes mesmo de ela começar.

Se aceitarmos a questão fantástica, porém, a trama que se desenvolve no presente é um romance bastante simpático com o jovem Ellis (Michiel Huisman) – muito culto, pois é preciso ter bagagem para surpreender uma centenária. Mescla-se a ele um drama interessante sobre uma mulher cujos únicos amigos são um cão, uma cega e uma filha que se apresenta aos outros como sua avó (Ellen Burstyn).

Não há nada tão surpreendente no enredo, nem mesmo o fato de que o pai de Ellis (Harrison Ford) é um antigo namorado de Adaline. O público sabe que, em algum momento, alguém iria reconhecer a protagonista e forçá-la a se revelar, mas isso não chega a prejudicar a experiência. Afinal, quantas comédias românticas de sucesso não tiveram desfechos totalmente previsíveis?

Para quem acompanhava a série de TV “Forever” (recém-cancelada na Warner), “A Incrível História de Adaline” pode soar incomodamente familiar, tocando nas mesmas teclas do “filho” idoso e da erudição absoluta (associada a uma memória excepcional para datas e rostos). A verdade, contudo, é que nenhuma das duas obras conseguiu acertar o ponto exato do que significaria, para um ser humano, não ter que se preocupar com a morte ou com a velhice.

O longa, por essas razões, não funciona tão bem como ficção científica nem como discussão filosófica, mas nem por isso deixa de ter sua graça. Pelo contrário, Lively e o diretor Lee Toland Krieger garantem um filme romântico e divertido, gostoso para assistir a dois ou sozinho, numa tarde chuvosa.

Texto publicado no Guia da Semana em 14/05/2015.

OZ: MÁGICO E PODEROSO

“Decepção” talvez não seja a palavra certa para descrever minha sessão de sexta-feira à noite com “Oz: Mágico e Poderoso”. Boa parte dos problemas, afinal, já eram esperados.

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Depois de um Wrap requentado (com alface e tudo) numa franquia do restaurante Seletti (não é a primeira vez que me irrito com eles), entrei, ainda esperançosa, na sala 1 do Espaço Unibanco Pompeia, só para passar os primeiros minutos diante de uma tela quadrada com áudio de sala-de-estar.

A tela reduzida era proposital: a primeira parte do filme se passa num antigo circo itinerante, com filmagem em preto e branco. Depois daí, pegamos carona num tornado para chegar (sem um arranhão) ao maravilhoso mundo de Oz. Nós e o pouquíssimo carismático Oscar Diggs, vivido por um James Franco cheio de sorrisinhos e pouco à vontade.

Descobrimos logo que os truques de Oscar (o tal do Mágico e Poderoso Oz) são bastante limitados: um paninho vermelho, uma caixinha de música para conquistar garotas, uma pomba no chapéu… Nada à altura do que as três bruxas daquele lugar esperavam encontrar, o feiticeiro que as salvaria umas das outras.

A missão de Oz no filme de Sam Raimi (responsável pelas também-não-tão-incríveis aventuras do Homem Aranha entre 2002 e 2007) é justamente lidar com mulheres traídas e ciumentas – mesmo desafio com o qual ele lidava na sua vida comum. Mila Kunis é Theodora, a primeira a aparecer – exageradamente sensual, exageradamente ingênua e nem um pouco convincente sob quilos de maquiagem verde. Rachel Weisz é a segunda, como Evanora – que não é boa nem má o suficiente para prender nossa atenção. Por último, Michelle Williams é a melhor das três, no papel de Glinda – loira, angelical, mas não tão insossa quanto esperaríamos que fosse.

Na guerra entre as bruxas, Oz é o coadjuvante que recorre aos conhecimentos científicos para forjar sua mágica. Mais uma vez, homenageia-se o cinema em suas origens, como entretenimento barato em feiras e circos. O ilusionista e o cineasta se equiparam na criação da fantasia. Ou deveriam, já que Raimi dificilmente nos ilude com seus efeitos de câmera, fazendo bruxas voadoras parecerem apenas atrizes estáticas aproximadas por zoom e manipuladas em computador.

A falta de peso no balão e as constantes falhas de perspectiva (reparem na cena em que Evanora se aproxima de uma árvore em busca da varinha de Glinda, ou no momento em que Oz encontra a boneca de porcelana) deixam a desejar. Já o roteiro se apoia em clichês de filmes infantis, mesmo que eles nada signifiquem para aquela história em particular (anões fazem acrobacias sem nenhum motivo aparente e até uma maçã envenenada entra na mistura). Com tudo isso, Oz se revela um filme raso, adequado apenas para plateias ainda não letradas em computação gráfica e bons roteiros – ou seja, crianças de, no máximo, oito anos de idade.

PEIXE GRANDE E SUAS HISTÓRIAS MARAVILHOSAS

Fui injusta com “Peixe Grande” e preciso me redimir: quando falei aqui sobre “Aventuras de Pi” (Ang Lee, 2012), não mencionei o quanto seu sucesso se devia à mesma premissa do filme de Tim Burton. Na verdade, esse foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça quanto assisti à cena final de “Pi” – Lee não precisava ter mastigado toda a fantasia para o espectador, expondo a versão “real” da história assim tão facilmente. “Peixe Grande” já fez isso em 2003, nós entendemos a metáfora. Mas, acho que na época não quis polemizar.

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Pois bem. “Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas” já foi alvo de muitas críticas e é considerado por muitos o filme menos “burtoniano” do diretor, um melodrama que se justificaria apenas pela morte do seu próprio pai no ano 2000 (no filme, um jovem se vê diante de um pai doente e reabre algumas feridas para finalmente aceitá-lo antes de se despedir). Protesto e o coloco no topo da minha lista de favoritos, como um dos primeiros filmes a reinterpretar clássicos escapistas infantis (como “Peter Pan”, “Alice” ou “Onde Vivem os Monstros”) na perspectiva de adultos – ideia que reaparecerá em “Em Busca da Terra do Nunca (Marc Foster, 2004) e no já citado “Aventuras de Pi”.

Vivido por Ewan McGregor na juventude e Albert Finney na velhice, Edward Bloom é um contador de histórias por excelência. Seus relatos percorrem os cenários mais improváveis e envolvem os personagens mais incríveis (como um gigante, duas gêmeas siamesas e um lobisomem), mas têm sempre um pé na realidade – o que nos deixa a imaginar a cada ocasião o que, de fato, teria acontecido.

Essa mistura de ambientes mágicos é um prato cheio para Burton, que tem no desenho sua melhor ferramenta. Extremamente visual, é nos cenários cuidadosamente construídos (segundo ele, as flores amarelas foram plantadas uma a uma), nas perspectivas falsas aprendidas em maquetes de Stop Motion e na caracterização bizarra dos personagens que ele se destaca.

Outra prova de que “Peixe Grande” tem toda a pinta de Burton é o perfil psicológico de Bloom. Ele não é um desajustado como “Edward Mãos de Tesoura”, mas usa a criatividade para fugir de um mundo que não lhe é suficiente. É assim com Alice, Wonka, até mesmo Batman. É assim com Burton. A trilha sonora, como em outros 14 filmes do diretor, ficou a cargo de Danny Elfman, ex-Oingo Boingo e hoje um dos compositores mais requisitados do cinema (ele está em cartaz com “Oz: O Mágico Poderoso”, “Hitchcock” e “O Lado Bom da Vida”).

Uma fábula sobre pais e filhos (sempre tão opostos e mal resolvidos), sobre o amor romântico, sobre a ficção e o próprio papel do cinema, sobre artistas e sua função na sociedade. “Peixe Grande” traz um pouco de tudo e muito da velha fantasia que, como diz Will, o filho de Bloom, “ouvimos tantas vezes que até esquecemos por que a adoramos em primeiro lugar”.