Thelma e Louise e Hunter

Quase trinta anos separam os filmes Thelma & Louise, clássico de 1991 escrito por Callie Khouri (que ganhou o Oscar pelo roteiro) e dirigido por Ridley Scott; e Swallow, novidade cult de Carlo Mirabella-Davis lançada entre 2019 e 2020, em cartaz no Mubi. De um lado, um roadmovie com sua dose de humor, uma dose de ação e outra dose generosa de Geena Davis e Susan Sarandon. Do outro, um drama um tanto aflitivo conduzido pela ainda desconhecida, mas interessantíssima Haley Bennett. Em ambos, mulheres aprisionadas. Em ambos, mulheres que machucam a si mesmas. 

Continuar lendo “Thelma e Louise e Hunter”

Você tem onze minutinhos?

Então deixa o Instagram de lado rapidinho e vem comigo neste link conhecer um dos dois curtas-metragens brasileiros que se qualificaram para o Oscar 2021 (ambos dirigidos por mulheres, porque o mundo agora é nosso, né?), e podem figurar na pré-lista de indicados que será divulgada no dia 9 de fevereiro (a premiação será em abril). O outro, de oito minutos, você pode assistir aqui depois e chorar um pouquinho. 

Continuar lendo “Você tem onze minutinhos?”

Retrato de uma jovem em chamas

Soube que havia algo diferente com Retrato de uma jovem em chamas quando, numa das primeiras cenas, a diretora Céline Sciamma escolheu balançar a câmera sem piedade simulando a ondulação do mar, e a tontura foi tanta que tive que tirar os olhos da tela. Então, uma caixa apareceu boiando e a protagonista – a pintora Marianne, interpretada por Noémie Merlant – se jogou à água, de vestido e tudo. Um vestido volumoso e pesado, já que estamos no final do século XVIII, e nenhum dos homens a bordo se ofereceu para ajudar.

Continuar lendo “Retrato de uma jovem em chamas”

O tiozão mais feliz da balada

E de repente me vi: pés descalços, óculos de plástico verde-limão segurando os cabelos como tiara, tirinhas luminosas nos pulsos em múltiplas cores, boá de plumas cor-de-rosa enrolado no pescoço, saia arrastando no chão sem piedade, braços indo e vindo em movimentos tolos e ritmados. Um sorriso que virava risada, um passinho para cá e outro para lá, uma careta para a foto. Tinha me transformado no tiozão da balada. E o tiozão era o cara mais feliz da balada. Continuar lendo “O tiozão mais feliz da balada”

Menininha

Todo mundo tem uma história vergonhosa da infância. A minha (uma delas) é essa: quando tinha meus 4 ou 5 anos, eu costumava me agarrar ao corrimão na casa da minha avó e chorar descompensadamente, bradando aos sete ventos que eu queria ir à escola de saia, não de calça. Fazia uns 10 graus. Continuar lendo “Menininha”

Artistas malditos

Não sei se vocês já leram alguma aventura de Sherlock Holmes, mas tenho uma coleção completa aqui e, de tempos em tempos, pego uma das histórias para folhear antes de dormir. São divertidíssimas, recomendo! Mas tem uma pegadinha… Elas podem ser bem preconceituosas.

Continuar lendo “Artistas malditos”

Feminismos animados

Nos últimos dias, uma enxurrada de trailers inundou a internet, mas dois em particular me chamaram a atenção: “Wifi Ralph” e “Uma Aventura Lego 2”. Ambos sequência, ambos animados, ambos inspirados em brinquedos nostálgicos. E ambos tentando fazer um mea culpa gigantesco em tempos de #TimesUp.

Continuar lendo “Feminismos animados”

Domingo no sofá: “Eu não sou um homem fácil”

Era domingo à noite e eu vinha pensando em Morgan Freeman, #metoo e Times Up. Pensava em como um homem foi incentivado a vida toda a tratar mulheres como objetos e, de repente, querem descartá-lo como um rolo de papel. Tentei escrever sobre isso, mas não consegui. Então liguei a Netflix e resolvi assistir à comédia francesa “Eu Não Sou um Homem Fácil”, que um amigo indicou.

Continuar lendo “Domingo no sofá: “Eu não sou um homem fácil””

Mulheres do Século 20 (Mike Mills, 2016)

mulheres f

Na correria urgente do dia-a-dia, pode ser fácil perder de vista o quanto do nosso presente é herança de um passado que julgamos distante e retrógrado. Mas basta um exercício de memória: pense no movimento feminista que vem ganhando força nos últimos anos com a ajuda das redes sociais. Ele nada mais é do que o desdobramento tardio de uma mobilização que teve seu auge quatro décadas atrás, quando o anticoncepcional chegou às prateleiras e o punk invadiu as vitrolas. E é para esse tempo em ebulição que viajamos, guiados pelo diretor e roteirista Mike Mills, às suas lembranças de juventude no semiautobiográfico “Mulheres do Século 20”.

Sim, o ponto de vista é masculino e isso, nem de longe, é um problema. O que testemunhamos, aqui, não é o feminismo panfletário que sugere o título, mas sim seu impacto real sobre um jovem em formação. Um jovem cuja relação com a mãe acabou por definir seu caráter como homem e como artista.

O filme conta a história de Dorothea (Annette Bening), uma mulher que foi mãe aos 40 anos e, divorciada, começa a sentir um abismo se abrir entre ela e seu filho Jamie, de 15 (Lucas Jade Zumann). Mergulhada numa contracultura que ela não entende, somada a uma insegurança que começa a se instalar pela primeira vez em quem sempre estivera à frente do seu tempo, Dorothea decide pedir ajuda. Ela recorre a Abbie (Greta Gerwig), uma fotógrafa a quem aluga um quarto, e a Julie (Elle Fanning), uma adolescente um pouco mais velha do que Jamie, para que elas deem ao menino a formação de que ele precisa.

mulheres a

A relação com as duas – que já existia naturalmente, mas ganha novas liberdades – tem um impacto imediato na vida de Jamie, que passa a repensar todas as suas posturas como homem (e como ser humano), mas essa experiência não diminui a distância em relação à mãe.

É nessa frustração delicada entre a teoria e a prática dos relacionamentos que se esconde a sabedoria de “Mulheres do Século 20”. Ao subir dos créditos, Mills confessa que “tentou explicar quem era Dorothea, mas não conseguiu”. É claro que não. Porque pessoas não cabem em livros e o melhor que podemos fazer é o que fez o pequeno Jamie ou o adulto Mike, olhando para trás para as pessoas que fizeram parte de sua vida: tentar enxergá-las com olhos coloridos e caleidoscópicos, sabendo que eles jamais serão o suficiente.

 

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.IFrame