Notícias da Ju

Bom dia, leitores! A partir de hoje, o Notícias da Ju sairá às segundas-feiras. Neste episódio, falamos de livros, inteligências artificiais, uma promoção imperdível e uma união de forças inesperada no mercado brasileiro. Espero que gostem! 

O que faz um filme ruim?

Antes de ontem, quis assistir a alguma coisa boba. Um filme que não prometesse muito, nem decepcionasse, para ver comendo pipoca de cérebro semi-desligado. Parece fácil, mas vocês ficariam surpresos com o quão raro é encontrar um desses por aqui – na maioria das vezes, me irrito com os primeiros dez minutos e vou ver outra coisa, que pode ser ótima, mas nem de longe era o petisco relaxante que eu procurava. O eleito, dessa vez, foi um filminho de ficção científica da Netflix que já tínhamos considerado mais do que algumas vezes só porque o protagonista era o Michael Peña e, pelo menos como coadjuvante em Homem Formiga, ele tinha sido simpático. Queríamos alguém simpático para aquela sexta-feira à noite.

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Depois do fim do mundo

Sempre achei este período entre o Natal e os primeiros dias de janeiro um momento especial. Tenho a tradição de arrumar meus armários, minhas gavetas, meus cadernos, consolidar todas as listas de filmes, séries, livros e o que quer que seja que resolvi anotar naquele ano e virar uma página nova, abrir um caderno novo ou pregar uma nova folha na parede (ou todas as anteriores) e escrever os quatro números que me acompanharão todos os dias do ano que está por vir. Gosto de começos. Gosto de ciclos fechados, metas e planos. Raramente os cumpro, mas isso pouco importa. O prazer está em fazê-los.

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Estudando sci-fi

Bom dia, pessoal. Como vocês estão? Sério, como vocês estão? 

Tenho achado que um tempo fora-do-tempo assim pede um minuto para a gente se perceber… Sei que alguns estão ainda percebendo a si mesmos – empoeirados em meio a tanta urbanidade, desacostumados com o espaço para respirar. Pois respirem, olhem o sol na parede, façam o quanto precisarem de nada, se a avalanche da vida em casa deixar. Depois venham conversar. Continuar lendo “Estudando sci-fi”

O fim de tudo, o recomeço, ou nada disso.

Décadas de distopias não nos prepararam para isto. Zumbis, alienígenas, vírus implacáveis, macacos inteligentes, máquinas inteligentes, terremotos, tsunamis… Todos os cenários partiam da premissa de que a humanidade era, de certa forma, um organismo único, estático e previsível, que reagiria ao horror como qualquer outro animal: com pânico, violência, instinto de sobrevivência, agitação. Talvez até com solidariedade, perto do fim. Mas isolamento com Netflix, paciência, negação, medo de perder o emprego ou de acabar o papel? Isso, você não viu nos cinemas.

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Westworld, 2ª temporada: considerações

Tive dificuldade para dormir ontem à noite. Por mais que tentasse, não conseguia desviar os pensamentos do final da segunda temporada de “Westworld”, que foi ao ar neste domingo na HBO após uma sequência de episódios propositalmente confusos e enlouquecedores. É só uma série, eu sei, mas havia muito o que pensar – inclusive sobre o mundo do lado de fora da ficção.

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Blade Runner 2049 (Denis Villeneuve, 2017)

Em tempos de remakes, sequências, reboots, refrescos, re-tudos, tenho tentado conter minha ansiedade por originais e observar cada filme como uma obra em si. Afinal, nada se cria, não é mesmo? A questão é o que se faz com a inspiração. Continuar lendo “Blade Runner 2049 (Denis Villeneuve, 2017)”

Vida (Daniel Espinosa, 2017)

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Um grupo de astronautas a bordo de uma estação espacial recebe uma amostra do solo de Marte e descobre a existência de um organismo que pode ser a primeira prova de vida fora da Terra. Com o tempo, a criatura cresce, se liberta e se revela inteligente, forte e assassina.

Desde que li a sinopse de “Vida” pela primeira vez, achei bastante óbvio que se tratava de um plágio, ou de uma cópia genérica do clássico “Alien: O Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott. Mesmo assim, as críticas positivas me convenceram de que, talvez, mesmo com o formato idêntico, alguma coisa no filme de Daniel Espinosa seria original. Que ele traria alguma discussão mais atual sobre o conceito de “vida” – afinal, estava no título… Mas não.

Na sala escura do cinema, enfim, fui conferir o blockbuster. Jake Gyllenhaal, Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson… Nomes imponentes desfilavam pela tela no que se desenrolava como um enorme déja-vu: não apenas o tema remetia a “Alien”, mas a ambientação, o ritmo e toda a paleta de cores vinham de outro lugar. Vinham descaradamente de “Gravidade”, de Alfonso Cuarón.

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É claro que estamos falando de dois filmes sobre o espaço e, inevitavelmente, sobre as mesmas estações que orbitam a Terra. Mas, antes de “Gravidade”, esse nível de realismo nunca havia sido feito, tampouco desejado. E não seria justo dizer que “Vida” tem a mesma preocupação em simular a realidade, mas, ao pegar emprestados elementos do colega, o filme tenta trazer a fantasia do “monstro assassino” para uma esfera mais próxima e, portanto, teoricamente, mais assustadora.

Mas há um motivo pelo qual isso não funciona. Há uma tensão ali? Certamente. Há um prazer mórbido em assistir a um alienígena com tentáculos aniquilando uma tripulação inteira? Talvez. Mas “Alien” não foi um fenômeno por causa disso. Nem foram todos os filmes de horror que, de fato, permaneceram na memória do público – eles jamais tiveram a o horror como seu elemento principal.

O que prende o público para além das duas horas são as histórias dos personagens, suas relações humanas e seus conflitos internos. O medo é apenas consequência, e é potencializado se o espectador se importa com o que está vendo. Se não há uma construção cuidadosa desse contexto, não há medo. E, aqui, não há medo. Apenas curiosidade e repulsa.

Vida” estreia nos cinemas no dia 20 de abril.

A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell (Rupert Sanders, 2017)

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Ação, tecnologia, reverência ao passado e uma enorme controvérsia marcam a chegada de “A Vigilante do Amanhã – Ghost in The Shell” aos cinemas nesta quinta-feira. O filme, que traz Scarlett Johansson na linha de frente, é um remake do anime “Ghost in The Shell”, de 1995, traduzido no Brasil na época como “O Fantasma do Futuro”. Para quem não se lembra, ele foi um marco para o cinema japonês e de ficção científica e ajudou a popularizar a animação oriental adulta em países como o nosso.

Como no original, “A Vigilante do Amanhã” conta a história de uma agente especializada em crimes cibernéticos que tem a maior parte do corpo artificial, com exceção do cérebro – que contém a consciência que eles chamam de “alma” ou “fantasma” e é a única ligação que ela tem com um passado humano. Enquanto investiga um hacker que está invadindo as mentes de cientistas ligados a um misterioso projeto “2501”, a Major (como é chamada) começa a questionar sua natureza e a buscar sua identidade em memórias perdidas.

Whitewashing

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O remake não economiza nas referências e deve levar à loucura um bom número de fãs e leigos, mas seu lançamento vem sendo manchado pela acusação de “whitewashing” – a substituição de personagens japoneses por americanos numa trama que, ao que tudo indica, se passa no Japão.

De fato, a escalação de atores brancos ocidentais como Juliette Binoche e Michael Pitt não ajuda muito no fator “diversidade”, mas a escolha de Johansson para o papel principal é, simplesmente, estratégica. Para um filme que custou mais de US$ 100 milhões, ter um rosto já conhecido e amado pelo público do gênero (no mundo todo) é praticamente um pré-requisito.

Remake vs Original

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Elenco à parte, o filme deve enfrentar também uma resistência ideológica por parte dos fãs. Será que “A Vigilante do Amanhã” é tão complexo quanto “Ghost in The Shell”? Será que o remake faz “justiça” ao seu precursor?

A verdade é que remakes sempre são um jogo perigoso, especialmente quando cruzam o oceano. De um lado, pessoas que nunca conheceram a obra original e olham com certa desconfiança para o lançamento; do outro, uma horda de fãs prontos para apontarem todas as incongruências da nova versão com a de suas memórias, convencidos de que a função do remake é recriar exatamente a experiência e o espanto que tiveram na primeira vez. Mas eis a dura verdade: não se recria um espanto como o de “Ghost in The Shell”.

Aqui vai um exemplo simples: vocês se lembram de quando “Matrix” chegou aos cinemas pela primeira vez? As pessoas saíam da sessão com um semblante misto de choque e excitação, ansiosas para desenvolverem suas próprias teorias sobre realidade e virtualidade na mesa de bar. Nas semanas seguintes, virou moda questionar tudo o que se sabia sobre o mundo até então, abrindo novas possibilidades de rebeldia para os adolescentes e de dores de cabeça para os adultos. É claro que a paranoia não durou muito (em parte graças ao lançamento do segundo filme), mas, por um tempo, “Matrix” foi revolucionário.

Pois “Ghost in the Shell” (refiro-me principalmente ao longa de 1995, não ao mangá ou à série de TV) teve um efeito semelhante em seu seletivo público na época do lançamento: ele fez as pessoas questionarem seu mundo. Aquela podia não ser a primeira vez que se falava em inteligências artificiais, aprimoramento cibernético ou “mergulho” na consciência alheia, mas era a primeira vez que isso era feito com o peso certo de existencialismo, filosofia, entretenimento e arte.

Não tente enxergar tudo isso como um espectador de hoje: o filme tem os dois pés fincados nos anos 90, se considerarmos os recursos visuais ou o roteiro excessivamente explicativo, e é por isso que uma atualização lhe cai muito bem. Mas uma coisa é revisitar todo um universo ficcional de personagens e cenários; outra é recriar o impacto de uma obra que refletiu sobre a fluidez da rede quando a internet ainda nem era um fato. Isso simplesmente não vai acontecer de novo. (A não ser que você seja Spike Jonze e seu filme se chame “Ela” – mas isso também já foi feito.)

Ver ou não ver?

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E é por isso que minha primeira recomendação para quem está louco para conferir o novo filme de Scarlett Johansson é: apenas vá. A segunda, é: assista numa tela bem grande.

O polêmico remake americano é, afinal, uma obra espetacular. Este, provavelmente, será o filme mais deslumbrante que você terá visto desde “Avatar” ou “Blade Runner” (em quem, aliás, se inspira) e, para os fãs, ele será também uma das adaptações mais fiéis que vocês poderiam esperar – mesmo que faça um mash-up um pouco questionável entre elementos do longa e da série “Ghost in the Shell: Stand Alone Complex”.

O que “A Vigilante do Amanhã” não será é filosoficamente arrebatador. Suas questões são muito simples para o público de hoje e o roteiro hollywoodiano, como previsto, prioriza a ação e algumas pitadas de romance no lugar dos longos monólogos reflexivos da obra original.

Ainda assim, talvez esta versão sirva de porta de entrada para um mundo vasto de ficções mais cerebrais ou, simplesmente, apresente ao público algo mais interessante do que um herói e um vilão lutando pelo futuro da humanidade. E quanto ao whitewashing? Esse, ainda não tem jeito. Apenas respire fundo e acredite que isso, muito em breve, também irá passar.

A Vigilante do Amanhã – Ghost in The Shell” é dirigido por Rupert Sanders (“Branca de Neve e o Caçador”), com roteiro de Jamie Moss (“Os Reis da Rua”) e William Wheeler (“Rainha de Katwe”). O filme estreia no dia 30 de março nos cinemas.

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Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Demônio de Neon + Westworld: dois conceitos de humanidade no cinema e na TV

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Desde que assisti ao primeiro trailer de “Demônio de Neon”, eu soube que escreveria sobre ele. Um manifesto belo e grotesco sobre a própria beleza. Um tesouro conceitual e incompreendido – já sabia disso antes de ver o filme completo e confirmei minhas impressões na sala de cinema, maravilhada com as imagens de Nicolas Winding Refn. Aliás, me enganei quanto ao “grotesco”: existe a sugestão do “gore”, mas o tal demônio não abre mão da qualidade estética nem por um segundo. Não há um fio de cabelo fora do lugar, mesmo que, por dentro, seus personagens estejam se corroendo e apodrecendo como troncos ocos.

Mas o fato é que não consegui escrever sobre “Demônio de Neon” porque fui atropelada por “Westworld”.

Eu mesma sabia muito pouco sobre a nova série da HBO, mas tive a chance de assistir ao primeiro episódio numa sessão de imprensa. “Westworld” estreia no dia 2 de outubro e é livremente inspirada no filme homônimo de 1973, com roteiro de Jonathan Nolan (que escreveu “Interestelar” junto com o irmão mais famoso) e de sua esposa, Lisa Joy.

O primeiro episódio apresenta um Velho Oeste bastante convincente onde vive um grupo de personagens típicos: a doce e otimista garota apaixonada (Evan Rachel Wood), seu pacato pai fazendeiro (Louis Herthum), o aventureiro que retorna para cumprir uma promessa (James Marsden), a cafetã (Thandie Newton) e o assassino (Rodrigo Santoro). O espectador é pego de surpresa quando alguns desses personagens são brutalmente assassinados, mas, ao revê-los sãos e salvos na manhã seguinte, começa a compreender: aquele, na verdade, é um parque de diversões onde clientes ricos podem se vestir a caráter e viver algumas horas no Velho Oeste (ainda não sabemos se a série mostrará outros cenários).

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Lá, eles interagem com robôs humanoides tão avançados que é quase impossível diferenciá-los dos visitantes, exceto por seus discursos repetidos e por um ou outro tique mecânico. Para dar mais realismo à experiência, os robôs não sabem que não são humanos. E é aí que voltamos ao Neon.

O filme de Refn e a série de Nolan trabalham conceitos opostos de humanidade, mesmo tendo, ambos, perspectivas pessimistas sobre ela. Em “Demônio de Neon”, o valor de uma pessoa está na aparência, enquanto, em “Westworld” o que define um humano é o seu comportamento.

O longa conta a história de uma modelo novata (Elle Fanning) que chega a Los Angeles e encara a inveja destrutiva de suas concorrentes, enquanto despe-se de sua alma e seu intelecto para dar à agência o que ela quer – e o que aprendeu a querer, também – sua beleza exterior e vazia.

[ALERTA DE SPOILER]

Numa cena, a personagem de Jena Malone, uma maquiadora que completa a renda maquiando corpos para o velório, compensa a frustração de ter sido rejeitada por uma pretendente viva realizando sua fantasia com um cadáver. A imagem pode ser chocante, mas não é gratuita: se o que ela desejava era a beleza de uma modelo, a estética despida de significado, então não haveria diferença entre um corpo preenchido com vida e outro vazio.

Em outro momento, uma série de fotos é levada a uma agência de modelos. São fotos belas e impactantes que contam uma história intrigante: uma mulher está morta num sofá. O que teria acontecido com ela? Como ela teria chegado ali? Quem era ela? As fotos, porém, são rejeitadas como sendo “amadoras”. O motivo não é dito, mas podemos pensar que o fato de levantarem perguntas e estimularem o olhar para além da imagem não atende aos objetivos da empresa.

[FIM DO SPOILER]

A humanidade, portanto, é definida aqui pelo corpo: a modelo deve expressar beleza sem consciência e a imagem deve ser dissociada de sua significação. O oposto acontece em “Westworld” – ou, pelo menos, em parte dela.

Na série, os humanos que embarcam na fantasia do parque assumem atitudes desumanas: matam, estupram e traem simplesmente porque não serão punidos e porque sabem que seus “hóspedes” são personagens ficcionais. Então, numa cena, um roteirista do parque faz a seguinte reflexão: “Talvez devêssemos parar de atualizar os robôs. Até que ponto, afinal, as pessoas se sentiriam confortáveis para trair ou matar se eles se parecessem cada vez mais com humanos?”

A humanidade, portanto, é definida pelo comportamento: quanto mais complexos se tornarem os robôs, mais as pessoas os enxergarão como iguais. Além disso, ter a capacidade de pensar, aprender, ter memórias e sentimentos faz com que os robôs também se considerem humanos.

Há um paradoxo, entretanto: ao mesmo tempo em que os robôs passam a “sensação” de humanidade por seu comportamento, eles ainda são julgados, racionalmente, pela estrutura física. Os usuários do parque sabem que os habitantes do Velho Oeste não são humanos porque são feitos de componentes mecânicos e não de células naturais – e isso cria uma distância intransponível que tem sido explorada pela ficção científica desde os primórdios.

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Como a série vai desenvolver essa questão, ainda não sabemos, mas ficaremos pregados na TV todos os domingos para descobrir. E, quanto ao Neon, aviso que é um filme tão polêmico que dificilmente ficará muitas semanas em cartaz. Sugiro que corram logo aos cinemas (a partir do dia 29) e voltem com suas próprias respostas para algumas destas perguntas: afinal, será que o filme segue o próprio conceito e é só bonito, mas sem conteúdo? Ou será que ele nos mostra que realmente só consideramos humanos aqueles que nos agradam aos olhos?

Perguntas difíceis, respostas desagradáveis.