Westworld, 2ª temporada: considerações

Tive dificuldade para dormir ontem à noite. Por mais que tentasse, não conseguia desviar os pensamentos do final da segunda temporada de “Westworld”, que foi ao ar neste domingo na HBO após uma sequência de episódios propositalmente confusos e enlouquecedores. É só uma série, eu sei, mas havia muito o que pensar – inclusive sobre o mundo do lado de fora da ficção.

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Blade Runner 2049 (Denis Villeneuve, 2017)

Em tempos de remakes, sequências, reboots, refrescos, re-tudos, tenho tentado conter minha ansiedade por originais e observar cada filme como uma obra em si. Afinal, nada se cria, não é mesmo? A questão é o que se faz com a inspiração. Continuar lendo “Blade Runner 2049 (Denis Villeneuve, 2017)”

Vida (Daniel Espinosa, 2017)

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Um grupo de astronautas a bordo de uma estação espacial recebe uma amostra do solo de Marte e descobre a existência de um organismo que pode ser a primeira prova de vida fora da Terra. Com o tempo, a criatura cresce, se liberta e se revela inteligente, forte e assassina.

Desde que li a sinopse de “Vida” pela primeira vez, achei bastante óbvio que se tratava de um plágio, ou de uma cópia genérica do clássico “Alien: O Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott. Mesmo assim, as críticas positivas me convenceram de que, talvez, mesmo com o formato idêntico, alguma coisa no filme de Daniel Espinosa seria original. Que ele traria alguma discussão mais atual sobre o conceito de “vida” – afinal, estava no título… Mas não.

Na sala escura do cinema, enfim, fui conferir o blockbuster. Jake Gyllenhaal, Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson… Nomes imponentes desfilavam pela tela no que se desenrolava como um enorme déja-vu: não apenas o tema remetia a “Alien”, mas a ambientação, o ritmo e toda a paleta de cores vinham de outro lugar. Vinham descaradamente de “Gravidade”, de Alfonso Cuarón.

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É claro que estamos falando de dois filmes sobre o espaço e, inevitavelmente, sobre as mesmas estações que orbitam a Terra. Mas, antes de “Gravidade”, esse nível de realismo nunca havia sido feito, tampouco desejado. E não seria justo dizer que “Vida” tem a mesma preocupação em simular a realidade, mas, ao pegar emprestados elementos do colega, o filme tenta trazer a fantasia do “monstro assassino” para uma esfera mais próxima e, portanto, teoricamente, mais assustadora.

Mas há um motivo pelo qual isso não funciona. Há uma tensão ali? Certamente. Há um prazer mórbido em assistir a um alienígena com tentáculos aniquilando uma tripulação inteira? Talvez. Mas “Alien” não foi um fenômeno por causa disso. Nem foram todos os filmes de horror que, de fato, permaneceram na memória do público – eles jamais tiveram a o horror como seu elemento principal.

O que prende o público para além das duas horas são as histórias dos personagens, suas relações humanas e seus conflitos internos. O medo é apenas consequência, e é potencializado se o espectador se importa com o que está vendo. Se não há uma construção cuidadosa desse contexto, não há medo. E, aqui, não há medo. Apenas curiosidade e repulsa.

Vida” estreia nos cinemas no dia 20 de abril.

A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell (Rupert Sanders, 2017)

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Ação, tecnologia, reverência ao passado e uma enorme controvérsia marcam a chegada de “A Vigilante do Amanhã – Ghost in The Shell” aos cinemas nesta quinta-feira. O filme, que traz Scarlett Johansson na linha de frente, é um remake do anime “Ghost in The Shell”, de 1995, traduzido no Brasil na época como “O Fantasma do Futuro”. Para quem não se lembra, ele foi um marco para o cinema japonês e de ficção científica e ajudou a popularizar a animação oriental adulta em países como o nosso.

Como no original, “A Vigilante do Amanhã” conta a história de uma agente especializada em crimes cibernéticos que tem a maior parte do corpo artificial, com exceção do cérebro – que contém a consciência que eles chamam de “alma” ou “fantasma” e é a única ligação que ela tem com um passado humano. Enquanto investiga um hacker que está invadindo as mentes de cientistas ligados a um misterioso projeto “2501”, a Major (como é chamada) começa a questionar sua natureza e a buscar sua identidade em memórias perdidas.

Whitewashing

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O remake não economiza nas referências e deve levar à loucura um bom número de fãs e leigos, mas seu lançamento vem sendo manchado pela acusação de “whitewashing” – a substituição de personagens japoneses por americanos numa trama que, ao que tudo indica, se passa no Japão.

De fato, a escalação de atores brancos ocidentais como Juliette Binoche e Michael Pitt não ajuda muito no fator “diversidade”, mas a escolha de Johansson para o papel principal é, simplesmente, estratégica. Para um filme que custou mais de US$ 100 milhões, ter um rosto já conhecido e amado pelo público do gênero (no mundo todo) é praticamente um pré-requisito.

Remake vs Original

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Elenco à parte, o filme deve enfrentar também uma resistência ideológica por parte dos fãs. Será que “A Vigilante do Amanhã” é tão complexo quanto “Ghost in The Shell”? Será que o remake faz “justiça” ao seu precursor?

A verdade é que remakes sempre são um jogo perigoso, especialmente quando cruzam o oceano. De um lado, pessoas que nunca conheceram a obra original e olham com certa desconfiança para o lançamento; do outro, uma horda de fãs prontos para apontarem todas as incongruências da nova versão com a de suas memórias, convencidos de que a função do remake é recriar exatamente a experiência e o espanto que tiveram na primeira vez. Mas eis a dura verdade: não se recria um espanto como o de “Ghost in The Shell”.

Aqui vai um exemplo simples: vocês se lembram de quando “Matrix” chegou aos cinemas pela primeira vez? As pessoas saíam da sessão com um semblante misto de choque e excitação, ansiosas para desenvolverem suas próprias teorias sobre realidade e virtualidade na mesa de bar. Nas semanas seguintes, virou moda questionar tudo o que se sabia sobre o mundo até então, abrindo novas possibilidades de rebeldia para os adolescentes e de dores de cabeça para os adultos. É claro que a paranoia não durou muito (em parte graças ao lançamento do segundo filme), mas, por um tempo, “Matrix” foi revolucionário.

Pois “Ghost in the Shell” (refiro-me principalmente ao longa de 1995, não ao mangá ou à série de TV) teve um efeito semelhante em seu seletivo público na época do lançamento: ele fez as pessoas questionarem seu mundo. Aquela podia não ser a primeira vez que se falava em inteligências artificiais, aprimoramento cibernético ou “mergulho” na consciência alheia, mas era a primeira vez que isso era feito com o peso certo de existencialismo, filosofia, entretenimento e arte.

Não tente enxergar tudo isso como um espectador de hoje: o filme tem os dois pés fincados nos anos 90, se considerarmos os recursos visuais ou o roteiro excessivamente explicativo, e é por isso que uma atualização lhe cai muito bem. Mas uma coisa é revisitar todo um universo ficcional de personagens e cenários; outra é recriar o impacto de uma obra que refletiu sobre a fluidez da rede quando a internet ainda nem era um fato. Isso simplesmente não vai acontecer de novo. (A não ser que você seja Spike Jonze e seu filme se chame “Ela” – mas isso também já foi feito.)

Ver ou não ver?

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E é por isso que minha primeira recomendação para quem está louco para conferir o novo filme de Scarlett Johansson é: apenas vá. A segunda, é: assista numa tela bem grande.

O polêmico remake americano é, afinal, uma obra espetacular. Este, provavelmente, será o filme mais deslumbrante que você terá visto desde “Avatar” ou “Blade Runner” (em quem, aliás, se inspira) e, para os fãs, ele será também uma das adaptações mais fiéis que vocês poderiam esperar – mesmo que faça um mash-up um pouco questionável entre elementos do longa e da série “Ghost in the Shell: Stand Alone Complex”.

O que “A Vigilante do Amanhã” não será é filosoficamente arrebatador. Suas questões são muito simples para o público de hoje e o roteiro hollywoodiano, como previsto, prioriza a ação e algumas pitadas de romance no lugar dos longos monólogos reflexivos da obra original.

Ainda assim, talvez esta versão sirva de porta de entrada para um mundo vasto de ficções mais cerebrais ou, simplesmente, apresente ao público algo mais interessante do que um herói e um vilão lutando pelo futuro da humanidade. E quanto ao whitewashing? Esse, ainda não tem jeito. Apenas respire fundo e acredite que isso, muito em breve, também irá passar.

A Vigilante do Amanhã – Ghost in The Shell” é dirigido por Rupert Sanders (“Branca de Neve e o Caçador”), com roteiro de Jamie Moss (“Os Reis da Rua”) e William Wheeler (“Rainha de Katwe”). O filme estreia no dia 30 de março nos cinemas.

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Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Demônio de Neon + Westworld: dois conceitos de humanidade no cinema e na TV

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Desde que assisti ao primeiro trailer de “Demônio de Neon”, eu soube que escreveria sobre ele. Um manifesto belo e grotesco sobre a própria beleza. Um tesouro conceitual e incompreendido – já sabia disso antes de ver o filme completo e confirmei minhas impressões na sala de cinema, maravilhada com as imagens de Nicolas Winding Refn. Aliás, me enganei quanto ao “grotesco”: existe a sugestão do “gore”, mas o tal demônio não abre mão da qualidade estética nem por um segundo. Não há um fio de cabelo fora do lugar, mesmo que, por dentro, seus personagens estejam se corroendo e apodrecendo como troncos ocos.

Mas o fato é que não consegui escrever sobre “Demônio de Neon” porque fui atropelada por “Westworld”.

Eu mesma sabia muito pouco sobre a nova série da HBO, mas tive a chance de assistir ao primeiro episódio numa sessão de imprensa. “Westworld” estreia no dia 2 de outubro e é livremente inspirada no filme homônimo de 1973, com roteiro de Jonathan Nolan (que escreveu “Interestelar” junto com o irmão mais famoso) e de sua esposa, Lisa Joy.

O primeiro episódio apresenta um Velho Oeste bastante convincente onde vive um grupo de personagens típicos: a doce e otimista garota apaixonada (Evan Rachel Wood), seu pacato pai fazendeiro (Louis Herthum), o aventureiro que retorna para cumprir uma promessa (James Marsden), a cafetã (Thandie Newton) e o assassino (Rodrigo Santoro). O espectador é pego de surpresa quando alguns desses personagens são brutalmente assassinados, mas, ao revê-los sãos e salvos na manhã seguinte, começa a compreender: aquele, na verdade, é um parque de diversões onde clientes ricos podem se vestir a caráter e viver algumas horas no Velho Oeste (ainda não sabemos se a série mostrará outros cenários).

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Lá, eles interagem com robôs humanoides tão avançados que é quase impossível diferenciá-los dos visitantes, exceto por seus discursos repetidos e por um ou outro tique mecânico. Para dar mais realismo à experiência, os robôs não sabem que não são humanos. E é aí que voltamos ao Neon.

O filme de Refn e a série de Nolan trabalham conceitos opostos de humanidade, mesmo tendo, ambos, perspectivas pessimistas sobre ela. Em “Demônio de Neon”, o valor de uma pessoa está na aparência, enquanto, em “Westworld” o que define um humano é o seu comportamento.

O longa conta a história de uma modelo novata (Elle Fanning) que chega a Los Angeles e encara a inveja destrutiva de suas concorrentes, enquanto despe-se de sua alma e seu intelecto para dar à agência o que ela quer – e o que aprendeu a querer, também – sua beleza exterior e vazia.

[ALERTA DE SPOILER]

Numa cena, a personagem de Jena Malone, uma maquiadora que completa a renda maquiando corpos para o velório, compensa a frustração de ter sido rejeitada por uma pretendente viva realizando sua fantasia com um cadáver. A imagem pode ser chocante, mas não é gratuita: se o que ela desejava era a beleza de uma modelo, a estética despida de significado, então não haveria diferença entre um corpo preenchido com vida e outro vazio.

Em outro momento, uma série de fotos é levada a uma agência de modelos. São fotos belas e impactantes que contam uma história intrigante: uma mulher está morta num sofá. O que teria acontecido com ela? Como ela teria chegado ali? Quem era ela? As fotos, porém, são rejeitadas como sendo “amadoras”. O motivo não é dito, mas podemos pensar que o fato de levantarem perguntas e estimularem o olhar para além da imagem não atende aos objetivos da empresa.

[FIM DO SPOILER]

A humanidade, portanto, é definida aqui pelo corpo: a modelo deve expressar beleza sem consciência e a imagem deve ser dissociada de sua significação. O oposto acontece em “Westworld” – ou, pelo menos, em parte dela.

Na série, os humanos que embarcam na fantasia do parque assumem atitudes desumanas: matam, estupram e traem simplesmente porque não serão punidos e porque sabem que seus “hóspedes” são personagens ficcionais. Então, numa cena, um roteirista do parque faz a seguinte reflexão: “Talvez devêssemos parar de atualizar os robôs. Até que ponto, afinal, as pessoas se sentiriam confortáveis para trair ou matar se eles se parecessem cada vez mais com humanos?”

A humanidade, portanto, é definida pelo comportamento: quanto mais complexos se tornarem os robôs, mais as pessoas os enxergarão como iguais. Além disso, ter a capacidade de pensar, aprender, ter memórias e sentimentos faz com que os robôs também se considerem humanos.

Há um paradoxo, entretanto: ao mesmo tempo em que os robôs passam a “sensação” de humanidade por seu comportamento, eles ainda são julgados, racionalmente, pela estrutura física. Os usuários do parque sabem que os habitantes do Velho Oeste não são humanos porque são feitos de componentes mecânicos e não de células naturais – e isso cria uma distância intransponível que tem sido explorada pela ficção científica desde os primórdios.

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Como a série vai desenvolver essa questão, ainda não sabemos, mas ficaremos pregados na TV todos os domingos para descobrir. E, quanto ao Neon, aviso que é um filme tão polêmico que dificilmente ficará muitas semanas em cartaz. Sugiro que corram logo aos cinemas (a partir do dia 29) e voltem com suas próprias respostas para algumas destas perguntas: afinal, será que o filme segue o próprio conceito e é só bonito, mas sem conteúdo? Ou será que ele nos mostra que realmente só consideramos humanos aqueles que nos agradam aos olhos?

Perguntas difíceis, respostas desagradáveis.

FC! Review – Nerve – Um Jogo Sem Regras

Olá, meus queridos! Esta semana o Review atrasou um pouquinho, mas, antes tarde do que nunca, aqui estamos, prontos para falar sobre um filme interessantíssimo que entrou em cartaz agora no dia 25 de agosto.

Nerve – Um Jogo Sem Regras” é um filme de ação com uma pegada adolescente que discute a cultura da internet a partir de um jogo de celular. Primeiramente, um pouco de contexto: o filme é dirigido por Henry Joost e Ariel Schulman, que já tinham trabalhado um tema semelhante no documentário “Catfish”, de 2010, que mais tarde virou uma série da MTV. Esse filme mostrava um relacionamento virtual que, depois de meses, descobria ter sido baseado em várias mentiras, e acabava refletindo sobre os perfis falsos que as pessoas criam na internet.

“Nerve” é baseado num livro homônimo de Jeanne Ryan e conta a história de Vee, interpretada no filme por Emma Roberts, que decide participar de um jogo só para provar a si mesma e à melhor amiga que não é uma covarde.

O jogo é um aplicativo de celular que funciona como um “verdade ou desafio”, mas só com o desafio. Você pode escolher entre ser um “Jogador” e cumprir os desafios em troca de dinheiro, ou um “Observador” – que é quem paga para propor os desafios e assistir, já que tudo é filmado pelo celular do próprio jogador e de outros observadores que estiverem por perto. Ou seja… Vigilância é definitivamente um tema. O jogo só dura 24 horas em cada cidade e, se você falhar ou quiser parar, perde tudo.

Mas quem está por trás de tudo isso? Quem é o supervilão que está olhando tudo e tem um interesse oculto explorando a diversão dos pobres adolescentes? Ninguém. Quer dizer, existe um grupo fundador, mas, uma vez lançado o jogo, quem manda são os usuários. E, nesse ponto, o filme me fez lembrar de um livro do Dave Eggers chamado “O Círculo”, que vai inclusive virar filme com a Emma Watson, que também falava da internet como um instrumento para formar uma consciência coletiva opressora.

E eu acredito que esse seja o grande tema que se pode discutir com o filme: a coletividade como o vilão. Ao invés do antagonista autoritário, do presidente Snow que a gente viu nos Jogos Vorazes, aqui quem decide o destino dos jogadores é o público, é a pessoa comum que mergulha numa psicologia de massa e faz coisas que individualmente não faria. Por estar num jogo, a coisa é ainda pior porque ela perde a noção de consequência dos seus atos.

Essa lógica não é muito diferente da que a gente vê na internet hoje, com mobilizações extremas surgindo diariamente, seja sobre um filme de super-herói ou sobre política, movidas por essa pulsão de coletividade.

Voltando um pouco ao filme, a gente também pode pensar no jogo como uma metáfora para as redes sociais em geral. Afinal, já existe essa exposição do indivíduo como celebridade, independente de quem seja e do que faça; já existe a interferência do público sobre a realidade do outro – pense no caso da youtuber que acharam que tinha sido sequestrada; e já existe a obsessão por likes e seguidores, porque hoje em dia isso é sinônimo de dinheiro para uma minoria.

Dito isso…. O filme tem, sim, muitos problemas, apesar de estimular a reflexão e ser uma ação bem divertida com atores carismáticos. O primeiro problema é o desenvolvimento de personagens. A Vee, por exemplo, é apresentada como fotógrafa, mas isso não é explorado em nenhum momento – mesmo sendo uma coisa que poderia contar para ela ter um ângulo melhor de um desafio, por exemplo. Ela também tem uma relação conturbada com a mãe, que é superprotetora, porque já perdeu um filho… Mas isso também não evolui e a mãe, interpretada por Juliette Lewis, fica sobrando.

Outro problema, pra mim o que mais incomodou, é a continuidade e a atenção aos detalhes. Logo de cara, a gente vê a protagonista mexendo no computador com a setinha do mouse. Segundos depois, ela clica na tela, que de repente virou touch. Isso acontece o filme inteiro. Outra falha são os botões do jogo, que ora aparecem em inglês, ora em português. E, para completar, as datas são uma confusão – nem tente entender quantos anos a Vee tem e em que ano eles estão, porque os números não batem. Não dá para saber se a história se passa num futuro próximo ou hoje, o que poderia ser um dado importante.

Num balanço, acho que “Nerve” merece uma atenção especial porque faz uma coisa que não víamos desde “Matrix”…. Que é inserir uma reflexão filosófica sobre o mundo atual usando um blockbuster, com ação, romance e um apelo adolescente capaz de expandir a mensagem e gerar perguntas. Infelizmente, o filme provavelmente não vai ter um alcance tão grande assim, mas, a quem alcançar, espero que coloque pelo menos uma pulga atrás da orelha: será que eu tenho o controle sobre a minha vida virtual ou são os meus seguidores que estão determinando meus passos?

Deixo vocês com esse pensamento.

Por hoje é só, mais vídeos como este, você encontra no canal Fala, Cinéfilo! . Tchau tchau!

Crítica: “Rua Cloverfield, 10” combina o realismo do suspense psicológico com um toque de sci-fi

Preciso confessar: nunca tinha visto “Cloverfield – Monstro”. Não porque eu tenha algum problema particular com filmes de monstros (pelo contrário, é o meu tipo de filme), mas, simplesmente, nunca sentei no sofá e tomei uma atitude a respeito. Isto é, até assistir a “Rua Cloverfield, 10” e perceber o que eu estava perdendo.

A sequência do cultuado found-footage da produtora de J.J. Abrams, que chega aos cinemas no dia 7 de abril, não é bem uma sequência, nem é um found-footage (para alívio de muitos de nós), mas é bom o suficiente para fazer qualquer um ir correndo atrás do original. Aliás, é ridiculamente bom.

O filme acompanha a aspirante a estilista Michelle (Mary Elizabeth Winstead) que, por alguma razão, acaba de abandonar o noivo. Na estrada, ela sofre um acidente e acorda dentro de um bunker, onde vivem Howard (John Goodman, numa atuação arrepiante) e Emmett (John Gallagher Jr.).

Michelle logo descobre que não tem permissão para sair, porque Howard acredita que o ar, do lado de fora, está contaminado. Se isso é verdade ou não, ela não pode dizer, já que eles não têm nenhum tipo de comunicação com o mundo exterior. Para piorar, a previsão é que os três permaneçam trancados por um ou dois anos.

Para quem, como eu, esperou até agora para dar uma olhada no primeiro filme, minha dica é: espere um pouco mais. “Rua Cloverfield, 10” funciona muito bem sozinho e, arrisco dizer, até melhor. A relação com o primeiro filme tem a ver, apenas, com o que acontece do lado de fora do bunker – e, mesmo assim, é uma relação distante.

O que o longa de estreia de Dan Trachtenberg faz é misturar a ficção científica do universo de “Cloverfield – Monstro” com um suspense psicológico de fincar as unhas na poltrona. A maior parte do filme, afinal, se ocupa não com monstros e possíveis ataques químicos, mas com as relações de desconfiança entre os três protagonistas.

Winstead e Goodman são o coração do filme, carregando em seus olhares um milhão de significados. De um lado, Michelle tem a consciência de que pode estar sendo vítima de um sequestro e que seu abdutor pode ser qualquer coisa entre um louco paranoico, um estuprador ou um assassino (ou todas as anteriores) – mas também tem que lidar com a possibilidade de que o mundo exterior tenha se tornado inabitável e que seu sequestrador, na verdade, seja seu salvador. Do outro, Howard passou a vida toda se preparando para o apocalipse e, quando ele finalmente chega, não recebe de seus “hóspedes” a gratidão esperada. Como transformar aquele ambiente no lar perfeito que ele sonhou?

“Rua Cloverfield, 10” é uma opção obrigatória para fãs de suspense e ficção científica. Para quem tem um pé atrás por ser sequência, não há razão para se preocupar: além de diferente do anterior na forma, o filme também é bastante independente no tema, existindo sozinho ou como parte de algo maior. Estreia nesta quinta-feira.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Resumão#12 – Especial CCXP 2015 (Parte 1)

Nesta semana, o Resumão vai à Comic Con Experience – maior evento de cultura pop/nerd da América Latina. De quinta a domingo, traremos vídeos diários para mostrar tudo o que rolou na feira e garantir que você não perca um detalhe! Hoje, os destaques vão para o Artists’ Alley, a presença de Frank Miller, as atrações da Aleph (incluindo a linda da Evangeline Lilly) e as novidades da Sony. Acompanhe e conte para nós o que você está achando do evento!

 

Crítica: “Jogos Vorazes: A Esperança – O Final” traz um encerramento aquém do potencial da franquia

O quarto e último episódio da franquia “Jogos Vorazes” estreia no próximo dia 18 (uma quarta-feira), encerrando a saga de Katniss Everdeen e uma das franquias mais bem sucedidas nos cinemas nos últimos anos. Mas será que o final – dividido em dois como tantos outros de sua geração – consegue corresponder às altas expectativas criadas ao longo destes quatro anos?

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A primeira impressão de “Jogos Vorazes: A Esperança – O Final” é de que este é um encerramento satisfatório, que entrega tudo o que os fãs esperavam. Mas aí é que está o problema: é apenas satisfatório. O desfecho, que deveria ser apoteótico por se tratar de uma guerra cheia de sacrifícios e traições, e que poderia apontar para uma reflexão mais profunda sobre o significado dos Jogos Vorazes e da espetacularização da guerra, se revela previsível, morno e sem emoção. Quanto à protagonista, seu destino é ainda mais melancólico.

O filme retoma a história exatamente de onde “A Esperança – Parte 1” parou: Katniss (Jennifer Lawrence) está com o pescoço machucado após ser estrangulada pelo ex-noivo Peeta (Josh Hutcherson), que passara uma temporada sob tortura na Capital. Em torno dela, os comandantes do Distrito 13, Alma Coin (Julianne Moore) e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman), planejam invadir a Capital assim que conseguirem tomar o controle do Distrito 2.

Como nos outros filmes, Katniss se divide entre o ódio contra o Presidente Snow (Donald Sutherland) e sua aversão à violência, praticada pelos próprios companheiros como parte da guerra, pela qual ela se sente culpada. Esse conflito é uma das características mais interessantes da protagonista e poderia guiar um final transformador, mas o que se vê é o oposto disso. Enquanto ela tenta encontrar soluções alternativas para acabar com a guerra (por meio de um assassinato, diga-se de passagem), o restante dos soldados faz sua parte – e a guerra termina como qualquer outra: com um enorme massacre.

A heroína construída com tanto esmero pelos últimos três filmes desliza para um papel de impotência tão grande que ela – assim como o público – é excluída dos momentos mais importantes da ação. Tanto a tomada da residência de Snow (clímax máximo da tetralogia) quanto a morte dele (e o consequente desfecho da guerra) ficam de fora das telas, narrados apenas em comentários tardios ou em imagens distantes e apressadas. Todo aquele discurso pacifista, toda aquela rixa pessoal entre os dois, tudo parece ter sido em vão.

Além disso, qualquer pessoa que assistiu ao terceiro filme da saga sabe que existe um segundo inimigo para Katniss além de Snow, e espera que esse novo embate seja colocado em foco. Pois aviso que isso não acontece: esse personagem é tão mal explorado e tem tão pouco tempo de tela neste episódio que, quando se define seu destino, ele parece precipitado.

Felizmente, há bons momentos no filme. Depois de uma longa sequência de caminhada (editada com close-ups que sugerem ameaças que nunca se concretizam), Katniss, Peeta, Finnick (Sam Claflin) e uma pequena equipe de rebeldes se deparam com uma série de desafios no subsolo da Capital. Esta acaba sendo a segunda melhor cena de ação de toda a franquia, depois da sequência com a neblina tóxica e os babuínos em “Em Chamas”. É uma pena que esse ritmo não se mantenha até o final – piegas demais para fazer jus aos personagens.

“Jogos Vorazes: A Esperança – O Final” não é um filme ruim, mas sim decepcionante. Apesar de prender a atenção e amarrar bem a história, o longa recorre a soluções simplistas e mostra que o que havia de inovador na premissa (a ideia da mídia como instrumento de guerra; a ideia das mortes controladas como instrumento de paz) se perdeu. Que venha a próxima franquia juvenil para ocupar o seu lugar.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Resumão #09 – Especial Jogos Vorazes

Aviso: este vídeo contém SPOILERS.

Esta semana estreamos nosso primeiro programa especial, fazendo uma retrospectiva da franquia Jogos Vorazes num debate sem papas na língua com a participação de Ângelo Costa, do site Além da Tela. Quatro filmes depois, a adaptação dos livros de Suzanne Collins chega ao fim com a estreia de “Jogos Vorazes: A Esperança – O Final”, no dia 18 de novembro. Será que é um final digno para a série? Confira o Especial e discuta com a gente nos comentários!

Críticas de “Jogos Vorazes: A Esperança – O Final”:
Ângelo Costa – Além da Tela: http://goo.gl/Y9kiZN
Juliana Varella – Guia da Semana: http://bit.ly/1WUWmCi

Encontre-nos no Twitter:
Juliana Varella –@jujurella
Ângelo Costa – @angelost