Crítica: Matt Damon volta a ficar sozinho no espaço em “Perdido em Marte”

Matt Damon sozinho num planeta hostil, aguardando desesperadamente um resgate. Não, não é “Interestelar”, mas chega perto. O novo filme de Damon, dirigido por Ridley Scott e adaptado do romance de Andy Weir, é “Perdido em Marte” (ou “O Marciano, no muito mais inspirado título original).

marte

Damon interpreta um biólogo astronauta chamado Mark Watney, membro de uma equipe que estuda o solo em Marte, formada por Johanssen (Kate Mara), Beck (Sebastian Stan), Martinez (Michael Peña), Vogel (Aksel Hennie) e a comandante Lewis (Jessica Chastain). Durante uma tempestade de areia, o grupo é obrigado a evacuar às pressas, mas Mark é atingido por uma antena e fica desacordado. Sem tempo nem visibilidade para procurá-lo e recebendo sinais de que o traje do parceiro fora perfurado, Lewis autoriza a retirada, deixando-o para trás.

Por uma enorme coincidência, porém, Mark consegue sobreviver e, ao acordar, descobre que está sozinho, com suprimento suficiente para poucos meses e um tempo estimado até o resgate de quatro anos. Isso, se ele conseguir se comunicar com a Nasa.

A ironia da situação é explorada com um humor inteligente na primeira parte do filme. Mark, afinal, é uma espécie de herói: o primeiro a pisar em quase qualquer região de Marte, o primeiro a sobreviver por tanto tempo num planeta distante e o primeiro a fazer isso sozinho. Mas essa glória pode significar sua morte, e ele sabe muito bem disso.

Ainda nessa primeira parte, Scott faz uma ode à ciência. “Let’s science the shit out of this”, propõe Mark, o que significa que ele terá que usar seus conhecimentos científicos para sobreviver. Primeiro, ele desenvolve uma plantação de batatas do zero, adaptando uma estufa num dos ambientes da estação – e isso inclui “fazer água” a partir de processos químicos. Depois, adapta o trator para alcançar distâncias muito maiores e descobre uma forma (muito bem sacada) de se comunicar com a Terra.

Para o espectador leigo, as primeiras perguntas começam a aparecer por aí: Mark precisa viajar porque o local de pouso para a próxima missão fica a mais de 3 mil km dali – isso faria sentido se ele não conseguisse contatar a Nasa (a outra nave viria de qualquer forma), mas, caso contrário, o resgate não iria até a base dele? Por quê?

Questões como essa surgem às dúzias, especialmente na segunda parte, quando a Nasa começa a avaliar suas opções e enviar instruções para o “marciano”. Em nossas humildes poltronas, sentimos que sabemos muito pouco para compreender todas as decisões tomadas pelos personagens – lembrando que a ciência, para uma ficção científica, é muito mais uma questão de convencimento do que de explicação propriamente dita.

“Perdido em Marte” aproveita o embalo de sucessos espaciais como “Gravidade” e “Interestelar”, mas erra em dois pontos que seus antecessores acertaram: apresenta uma ciência pouco clara para o espectador (talvez um problema da adaptação) e não explora suficientemente o lado humano da situação.

O segundo ponto é, provavelmente, o mais importante. Damon segura bem o papel do astronauta solitário, mas suas expressões não transmitem o grau de desespero, medo, raiva, fome ou até loucura que poderiam/deveriam aparecer em algum momento num homem isolado por mais de um ano num planeta deserto. Além disso, quase nenhuma menção é feita sobre quem estaria esperando por ele na Terra.

O filme tem um elenco coadjuvante de dar inveja – além dos astronautas, Chiwetel Ejiofor, Kristen Wiig, Mackenzie Davis, Donald Glover, Jeff Daniels e Sean Bean (dono da melhor piada interna em todo o filme) garantem um núcleo terrestre tão forte quanto o espacial. Infelizmente, todo esse talento é pouco aproveitado: falta emoção, falta conflito. Nem parece que o resgate de um único homem pode envolver riscos, milhões de dólares e dilemas morais, políticos e até espirituais. Por mais que alguns diálogos tentem dar conta dessa complexidade, tudo é fácil demais. Todos são corretos demais.

O filme chega aos cinemas no dia 1º de outubro, com cópias em 3D (o que não é tão necessário, mas também não incomoda), e é uma opção interessante para fãs de sci-fi. Para quem procura uma experiência mais intensa, porém, para sair com olhos marejados ou ir para o bar discutir teorias com os amigos, este talvez não seja o filme ideal. Vá para se divertir.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: Matt Damon volta a ficar sozinho no espaço em “Perdido em Marte”

Matt Damon sozinho num planeta hostil, aguardando desesperadamente um resgate. Não, não é “Interestelar”, mas chega perto. O novo filme de Damon, dirigido por Ridley Scott e adaptado do romance de Andy Weir, é “Perdido em Marte” (ou “O Marciano, no muito mais inspirado título original).

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Damon interpreta um biólogo astronauta chamado Mark Watney, membro de uma equipe que estuda o solo em Marte, formada por Johanssen (Kate Mara), Beck (Sebastian Stan), Martinez (Michael Peña), Vogel (Aksel Hennie) e a comandante Lewis (Jessica Chastain). Durante uma tempestade de areia, o grupo é obrigado a evacuar às pressas, mas Mark é atingido por uma antena e fica desacordado. Sem tempo nem visibilidade para procurá-lo e recebendo sinais de que o traje do parceiro fora perfurado, Lewis autoriza a retirada, deixando-o para trás.

Por uma enorme coincidência, porém, Mark consegue sobreviver e, ao acordar, descobre que está sozinho, com suprimento suficiente para poucos meses e um tempo estimado até o resgate de quatro anos. Isso, se ele conseguir se comunicar com a Nasa.

A ironia da situação é explorada com um humor inteligente na primeira parte do filme. Mark, afinal, é uma espécie de herói: o primeiro a pisar em quase qualquer região de Marte, o primeiro a sobreviver por tanto tempo num planeta distante e o primeiro a fazer isso sozinho. Mas essa glória pode significar sua morte, e ele sabe muito bem disso.

Ainda nessa primeira parte, Scott faz uma ode à ciência. “Let’s science the shit out of this”, propõe Mark, o que significa que ele terá que usar seus conhecimentos científicos para sobreviver. Primeiro, ele desenvolve uma plantação de batatas do zero, adaptando uma estufa num dos ambientes da estação – e isso inclui “fazer água” a partir de processos químicos. Depois, adapta o trator para alcançar distâncias muito maiores e descobre uma forma (muito bem sacada) de se comunicar com a Terra.

Para o espectador leigo, as primeiras perguntas começam a aparecer por aí: Mark precisa viajar porque o local de pouso para a próxima missão fica a mais de 3 mil km dali – isso faria sentido se ele não conseguisse contatar a Nasa (a outra nave viria de qualquer forma), mas, caso contrário, o resgate não iria até a base dele? Por quê?

Questões como essa surgem às dúzias, especialmente na segunda parte, quando a Nasa começa a avaliar suas opções e enviar instruções para o “marciano”. Em nossas humildes poltronas, sentimos que sabemos muito pouco para compreender todas as decisões tomadas pelos personagens – lembrando que a ciência, para uma ficção científica, é muito mais uma questão de convencimento do que de explicação propriamente dita.

“Perdido em Marte” aproveita o embalo de sucessos espaciais como “Gravidade” e “Interestelar”, mas erra em dois pontos que seus antecessores acertaram: apresenta uma ciência pouco clara para o espectador (talvez um problema da adaptação) e não explora suficientemente o lado humano da situação.

O segundo ponto é, provavelmente, o mais importante. Damon segura bem o papel do astronauta solitário, mas suas expressões não transmitem o grau de desespero, medo, raiva, fome ou até loucura que poderiam/deveriam aparecer em algum momento num homem isolado por mais de um ano num planeta deserto. Além disso, quase nenhuma menção é feita sobre quem estaria esperando por ele na Terra.

O filme tem um elenco coadjuvante de dar inveja – além dos astronautas, Chiwetel Ejiofor, Kristen Wiig, Mackenzie Davis, Donald Glover, Jeff Daniels e Sean Bean (dono da melhor piada interna em todo o filme) garantem um núcleo terrestre tão forte quanto o espacial. Infelizmente, todo esse talento é pouco aproveitado: falta emoção, falta conflito. Nem parece que o resgate de um único homem pode envolver riscos, milhões de dólares e dilemas morais, políticos e até espirituais. Por mais que alguns diálogos tentem dar conta dessa complexidade, tudo é fácil demais. Todos são corretos demais.

O filme chega aos cinemas no dia 1º de outubro, com cópias em 3D (o que não é tão necessário, mas também não incomoda), e é uma opção interessante para fãs de sci-fi. Para quem procura uma experiência mais intensa, porém, para sair com olhos marejados ou ir para o bar discutir teorias com os amigos, este talvez não seja o filme ideal. Vá para se divertir.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Expresso do Amanhã” estreia no Brasil com dois anos de atraso, mas a espera vale cada segundo

Às vezes, os melhores filmes enfrentam barreiras inexplicáveis antes de chegarem aos cinemas e muito de seu potencial transformador se perde no caminho. “Expresso do Amanhã”, ficção científica de Bong Joon-Ho (“O Hospedeiro”) baseada na HQ francesa “La Transperceneige”, é um desses casos – uma obra forte e rara que, provavelmente, muito poucas pessoas terão a chance de conhecer.

expresso

O filme foi filmado em 2013, num gigantesco trem construído num estúdio em Praga com atores de diversas nacionalidades. As expectativas eram altas, devido ao histórico de Joon-Ho, e a boa recepção na Coreia do Sul e na França confirmou o potencial comercial do longa. Mesmo assim, a distribuidora americana Weinstein não quis apostar suas fichas e, depois de ameaçar cortar 20 minutos do material, decidiu disponibilizar o corte original simultaneamente em VOD e nos cinemas, com apenas oito salas na primeira semana e 356 nas seguintes (contra mais de 4.000 para “Transformers: Era da Extinção”, que estreou no mesmo dia). A divulgação foi igualmente catastrófica.

Agora, pouco mais de um ano depois da estreia nos EUA e dois anos após o lançamento na Coreia do Sul, “Expresso do Amanhã” finalmente chega ao Brasil, enfraquecido pelo atraso e pela forma quase invisível como passou pelo maior mercado mundial. Mas, afinal, agora que chegou, o filme realmente merece a sua atenção?

A resposta é sim – e, digamos, com louvor. “Expresso” se passa num futuro pós-apocalíptico e, como todas as grandes distopias, diz muito sobre o mundo de hoje. O ponto de partida é o aquecimento global: para freá-lo, algumas organizações lançam na atmosfera uma substância capaz de resfriar o planeta. A situação, porém, foge do controle e a Terra fica congelada, extinguindo todo o tipo de vida.

Quem se salva são apenas algumas centenas de pessoas a bordo de um trem, resistente ao frio e ao calor e autossustentável. Seus passageiros são divididos em vagões e proibidos de circular: cada um deve se manter no seu lugar para garantir o “equilíbrio” daquele ecossistema.

A organização do trem simula uma divisão de classes, com a traseira superpopulosa fornecendo mão-de-obra à dianteira, que monopoliza comida, água e espaço vital. Vêm à mente outros trabalhos semelhantes, como o recente “Jogos Vorazes” (cada distrito funciona como um vagão) ou o clássico “Metrópolis” (com sua cidade alta em contraposição à baixa), mas “Expresso” tem sua própria voz. E é uma voz brutal.

Os personagens principais são intrigantes e, em geral, têm mais a mostrar do que aquela face plana de “herói” ou “vilão”. Ok, o vilão é um pouco estereotipado, mas o herói e seus coadjuvantes são verdadeiros caleidoscópios – especialmente Curtis, vivido por Chris Evans, e Yona, vivida por Ko Asung.

Curtis é o futuro líder da “cauda” (a parte traseira e miserável do trem), que se prepara para assumir o bastão do velho Gilliam (John Hurt) e planeja a revolução. Seu objetivo é atravessar todos os vagões até a ponta, onde o engenheiro Wilford (Ed Harris) reina soberano, e matá-lo. Para isso, porém, ele sabe que precisará da força bruta de seus companheiros e de frieza para derramar muito (muito!) sangue.

O filme tinha tudo para ser apenas mais uma distopia maniqueísta, mas vários elementos entram em cena para garantir que esta história seja diferente e deixe uma marca no espectador. O conflito moral do protagonista é um deles: Curtis é humano e, mais de uma vez, suas decisões não são nobres – mas são coerentes para um líder revolucionário.

Também surpreendem as atitudes dos outros personagens, cada um com sua própria visão de mundo – Yona e Nam (Song Kang Ho) têm uma sensibilidade particular, buscando um futuro de paz e prazer enquanto ajudam os rebeldes, quase alheios à guerrilha; já Edgar (Jamie Bell) parece idealizar Curtis como um salvador, da mesma forma que Mason (Tilda Swinton, quase irreconhecível) glorifica Wilford. É interessante notar que a personagem de Swinton não é vilânica por si só, mas apenas cumpre um papel que lhe foi atribuído e se sente confortável com isso. Octavia Spencer completa o time no papel de uma mãe em busca do filho perdido.

Visualmente, “Expresso do Amanhã” é um banquete: cada vagão tem sua personalidade e sua luminosidade, mas há um padrão de saturação que percorre todo o trem, remetendo aos quadrinhos. O figurino é pesado e invernal, com eventuais toques de cor que intensificam o contraste entre as classes. A maquiagem é suja e expressiva.

O filme transmite uma claustrofobia que vai além dos ambientes estreitos: há uma tensão constante que não permite aos personagens respirarem, seja porque estão sendo oprimidos, seja porque estão lutando em direção a um destino que não pode ser muito melhor do que aquilo. A inutilidade da violência fica óbvia quando as luzes se apagam e o sangue escorre – e olhar pela janela, para o branco infinito, é o único suspiro de alívio que se faz possível.

Nota: a HQ que inspirou o longa ganhou recentemente uma tradução pela editora Aleph e está disponível nas livrarias como “O Perfuraneve”.

Texto publicado no Guia da Semana em 13/08/2015.

Crítica: “Quarteto Fantástico” renova a origem dos personagens, mas decepciona na reta final

Numa época em que até Homem-Formiga e Aquaman estão ganhando sua chance em megaproduções, é natural que os poucos heróis que ainda não tenham conseguido se firmar dentro de uma franquia voltem às telas de cara nova, recontando suas origens na esperança de se tornarem os novos Vingadores.

quarteto

Isso já aconteceu com Homem-Aranha, Batman e até X-Men, que vem explorando duas linhas do tempo para introduzir um elenco mais jovem. Agora, é a vez do Quarteto Fantástico tentar a sorte no filme que estreia nesta quinta (6 de agosto) com Miles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan e Jamie Bell.

O elenco não poderia estar mais em alta: Teller brilhou no Oscar 2015 com “Whiplash”; Jordan conquistou críticos em 2013 com “Fruitvale Station”; Mara está na premiada série “House of Cards” e Bell saltou de “Billy Elliot” (2000) para “Ninfomaníaca” (2013), mostrando que não era apenas uma criança-prodígio.

Tanto cuidado com os heróis não compensa, porém, a escalação de Toby Kebbell para o papel do Dr. Destino. Apesar de se destacar em “Planeta dos Macacos – O Confronto” como o chimpanzé Koba, aqui ele não convence como a criatura enciumada e amargurada que, de uma hora para a outra, decide destruir o mundo.

Um clichê como este – o vilão 100% mau, contra os heróis que precisam trabalhar juntos para salvarem a Terra – já deveria estar superado a esta altura, mas ainda é o motor de 10 em cada 10 filmes de super-heróis. O mais decepcionante é que “Quarteto Fantástico” poderia ter sido diferente.

A primeira hora do filme é, afinal, bastante autêntica: conhecemos a infância de Reed (Teller) e Ben (Bell), descobrimos como uma experiência com teletransporte leva a uma dimensão paralela, ouvimos falar de física quântica, buracos negros e outras teorias da moda. Enfim, acompanhamos o trabalho de um grupo de cientistas, mergulhamos no seu sonho e vibramos com eles quando finalmente conseguem realizá-lo.

E é então que tudo desmorona. A ficção científica dá lugar ao filme de super-herói, com todos os seus clichês: os amigos que precisam se reconciliar, o governo que explora heróis como armas de guerra, o vilão que pode matar com um único olhar, mas cuja luta final se revela muito mais fácil do que deveria. E, é claro, a mocinha em perigo (que, para piorar, é excluída da ação mais interessante do filme sem nenhum motivo aparente).

O novo “Quarteto Fantástico”, cujo custo é estimado em US$ 120 milhões, não tem apenas a missão de iniciar uma possível franquia, mas também precisa provar que é superior ao filme de 2005 – o que, em muitos aspectos, não é.

Menos ambicioso, aquele Quarteto se apoiava mais no humor e nos conflitos amorosos de seus personagens do que na ciência em si, construindo uma aventura que, apesar de simplista, se sustentava do início ao fim. Já este, empenhado em criar uma nova história e agradar aos fãs mais intelectuais, acaba se perdendo na ação, escorregando para um encerramento ruim que prejudica todo o produto.

No fim, é provável que o Sr. Fantástico, a Mulher Invisível, o Tocha Humana e o Coisa voltem à obscuridade mais uma vez, e tenham que esperar mais dez anos por uma nova chance.

Texto publicado no Guia da Semana em 03/08/2015.

Crítica: “O Exterminador do Futuro – Gênesis” retorna às origens para reinventar a própria história

Linhas do tempo são um brinquedo perigoso, especialmente para uma franquia que vive de reciclar a própria história. Nesta quinta (2 de julho), as máquinas tentarão vencer a guerra contra os humanos mais uma vez em “O Exterminador do Futuro: Gênesis”, e agora a estratégia envolverá não uma, mas três intervenções em pontos diferentes no passado. Será que desta vez a história será alterada?

exterminador

Arnold Schwarzenegger, é claro, está de volta ao papel do Exterminador modelo T-800 e, mais uma vez, ele é o personagem mais interessante do filme. Brincando com o próprio histórico com a franquia, ele aparece em três diferentes versões: jovem, maduro e de cabelos brancos. Apesar de, teoricamente, não ter sentimentos, ele é quem mais consegue criar uma empatia com o público.

O filme começa no futuro, mostrando o momento em que o soldado Kyle Reese (Jai Courtney) é enviado ao passado por John Connor (Jason Clarke), líder da resistência humana, para proteger sua mãe Sarah Connor (Emilia Clarke). Numa jogada capaz de arrepiar qualquer fã, a cena da chegada de Kyle e do Exterminador ao ano de 1984 é recriada nos mínimos detalhes, dando uma sensação de continuidade que não se viu em nenhuma das outras sequências.

O passado, porém, está diferente daquele que conhecíamos: Kyle não encontra nenhuma garçonete ingênua, mas sim uma guerreira treinada para destruir Exterminadores e que sabe muito bem quem ele é. A missão, agora, não será mais salvá-la, mas sim evitar que a Skynet tome o poder. (Nota: Sarah repete uma frase que Kyle dissera para ela no filme de 84, invertendo os papéis).

O longa tem muitos pontos positivos e um dos principais é a forma como ele joga com (pelo menos) duas linhas temporais distintas. Além de levar em conta todo o primeiro filme e alguns elementos dos outros três, “Gênesis” acrescenta novas ações e trabalha com suas consequências no futuro e no passado.

Há um problema, porém: essas realidades paralelas inevitavelmente entrarão em conflito, como de fato acontece com o personagem de Courtney. Ao invés de explorar esse paradoxo, contudo, o roteiro prefere ignorá-lo e escorrega para um encerramento tradicional, desperdiçando uma grande oportunidade de surpreender.

Outro ponto questionável é a escolha de Jason Clarke para o papel de John Connor. O personagem é um herói icônico na história do cinema, mas, sob a apatia de Clarke, é rebaixado a um comandante prepotente e, mais tarde, a uma marionete sem personalidade.

Felizmente, há muito humor em “Gênesis”, não apenas pela atuação carismática de Schwarzenegger, mas também pela participação de J.K. Simmons – curta, mas valiosa. Emilia Clarke também colabora com alguns momentos cômicos, entre uma cena de ação e outra.

“O Exterminador do Futuro: Gênesis” estreia de olho na nostalgia dos fãs e funciona melhor que as últimas sequências da série. Para quem gosta de viagens no tempo e ação, o longa é um prato cheio, mas quem estiver esperando uma abordagem mais humana e dramática poderá sair desapontado. Por outro lado, se seu objetivo é rever Schwarzenegger em um de seus papéis mais importantes, pode comprar seu ingresso sem culpa. Ele ainda faz a diferença.

Texto publicado no Guia da Semana em 29/06/2015.

Crítica: Disney leva o parque de diversões aos cinemas com “Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível”

Estreia neste feriado de Corpus Christi a nova superprodução da Disney, “Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível”. Inspirado por um parque temático futurista dentro do Magic Kingdom, em Orlando, o filme cumpre a promessa de transformar a experiência cinematográfica numa grande brincadeira, com engenhocas malucas, dimensões paralelas e personagens históricos reinventados como grandes conspiradores. Infelizmente, o roteiro não acompanha tantos malabarismos e acaba deixando mais dúvidas do que certezas.

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George Clooney e Britt Robertson dividem a tela nos minutos iniciais para narrar suas aventuras. O formato é interessante: cada um começa a contar uma parte da história, ao seu modo, enquanto o outro interrompe com comentários e reclamações.  Ficamos sabendo que ele, Frank Walker, é um pessimista incurável, enquanto ela, Casey Newton, é o extremo oposto.

Está dada a dica para a mensagem central do filme: se não acreditarmos que as coisas podem ser melhores, elas nunca serão. No caso, quem está precisando de uma dose de otimismo é a Terra, que, segundo os cálculos de Walker, um cientista brilhante, tem seus dias contados para a extinção.

O filme se passa num futuro próximo, quando o Cabo Canaveral está sendo demolido e engenheiros da NASA estão perdendo seus empregos. Casey é filha de um desses engenheiros e sempre sonhou em ir ao espaço, por isso passa as noites sabotando a demolição perto de casa. É lá que uma androide chamada Athena (Raffey Cassidy) a encontra e discretamente a “recruta” com um botton especial.

O objeto mostra uma cidade futurista e acaba atraindo Casey à casa de Walker – segundo Athena, o único que poderia levá-las àquele lugar. No processo, outros androides canastrões aparecem para tentar eliminar os três, desencadeando todo o sistema de armadilhas da casa do cientista (e rendendo uma sequência genial dentro de uma loja Geek).

Entre a narração das infâncias dos protagonistas e a chegada a Tomorrowland, o longa segue impecável, como uma verdadeira aventura infanto-juvenil regada a imaginação e ciência, com destaque para a personagem robótica de Cassidy. Quando o trio finalmente chega ao objetivo, porém, a mistura desanda e a revelação do tão esperado mundo fantástico é um enorme anti-clímax.

O problema não é a aparência de Tomorrowland, mas sim a falta de informações que nos são dadas sobre ela. Como encontraram aquele lugar? Como foi a vida dos primeiros moradores? Qual foi a crise que levou a esse ponto atual, no qual Walker e Athena foram expulsos e Casey se faz tão necessária? A pergunta maior vem logo em seguida: como, exatamente (e não apenas em discursos vagos), esse lugar vem influenciando a vida na Terra?

Sem pelo menos algumas dessas respostas, “Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível” perde a oportunidade de ser uma grande propaganda do parque original da Disney, ou um grande filme com uma bela lição, para se tornar uma aventura incompleta. Ao invés de sair querendo embarcar numa montanha russa, o público sairá se perguntando se aquilo tudo realmente fazia sentido.

Texto publicado no Guia da Semana em 02/06/2015.

“O Planeta dos Macacos” volta às livrarias em edição recheada de extras

Faz 52 anos que “O Planeta dos Macacos” invadiu as livrarias para se tornar um dos maiores clássicos da ficção científica de todos os tempos. Hoje, é difícil encontrar quem não conheça a história do astronauta que aterrissa num planeta onde macacos são civilizados e homens são escravos, mas é ainda mais difícil encontrar quem tenha lido o original de Pierre Boulle. Continuar lendo ““O Planeta dos Macacos” volta às livrarias em edição recheada de extras”

Crítica: Blake Lively vive uma idosa num corpo de menina em “A Incrível História de Adaline”

A fantasia é um terreno complicado da ficção. Ao mesmo tempo em que um autor pode brincar com todas as (im)possibilidades do mundo e distorcer quaisquer leis da física que deseje, ele precisa fazê-lo de forma convincente para seu público e sua história. No caso de “A Incrível História de Adaline”, um delicado romance mágico sobre uma mulher que não envelhece, o mesmo toque fantástico que dá origem à aventura, quando mal dosado, é o que acaba por quebrar seu encanto.

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Blake Lively (da série Gossip Girl) comanda o longa com firmeza na pele de Adaline Bowman, ou Jenny, ou Amanda. Presa nos 29 desde um acidente de carro nos anos 20, ela desenvolve o hábito de trocar de identidade e endereço a cada década, para fugir de autoridades que possam querer estudá-la ou prendê-la, duvidando de seus documentos.

Desde o início, vários elementos curiosos são associados ao nascimento de Adaline, fazendo dela alguém “especial”. Ela foi, por exemplo, a primeira criança nascida no século, às 00h01 do dia 1º de janeiro de 1901 (data que entra em contradição mais à frente por um descuido do roteiro).

Só isso já bastaria para justificar a situação excepcional da personagem, mas, por alguma razão, os roteiristas vão além e criam diversas condições extremamente específicas para explicar a anomalia de forma mais “científica. Acontece uma neve fora de época, um raio e até um cometa. Com tantas coincidências desnecessárias, a magia se perde e o espectador deixa de acreditar na história antes mesmo de ela começar.

Se aceitarmos a questão fantástica, porém, a trama que se desenvolve no presente é um romance bastante simpático com o jovem Ellis (Michiel Huisman) – muito culto, pois é preciso ter bagagem para surpreender uma centenária. Mescla-se a ele um drama interessante sobre uma mulher cujos únicos amigos são um cão, uma cega e uma filha que se apresenta aos outros como sua avó (Ellen Burstyn).

Não há nada tão surpreendente no enredo, nem mesmo o fato de que o pai de Ellis (Harrison Ford) é um antigo namorado de Adaline. O público sabe que, em algum momento, alguém iria reconhecer a protagonista e forçá-la a se revelar, mas isso não chega a prejudicar a experiência. Afinal, quantas comédias românticas de sucesso não tiveram desfechos totalmente previsíveis?

Para quem acompanhava a série de TV “Forever” (recém-cancelada na Warner), “A Incrível História de Adaline” pode soar incomodamente familiar, tocando nas mesmas teclas do “filho” idoso e da erudição absoluta (associada a uma memória excepcional para datas e rostos). A verdade, contudo, é que nenhuma das duas obras conseguiu acertar o ponto exato do que significaria, para um ser humano, não ter que se preocupar com a morte ou com a velhice.

O longa, por essas razões, não funciona tão bem como ficção científica nem como discussão filosófica, mas nem por isso deixa de ter sua graça. Pelo contrário, Lively e o diretor Lee Toland Krieger garantem um filme romântico e divertido, gostoso para assistir a dois ou sozinho, numa tarde chuvosa.

Texto publicado no Guia da Semana em 14/05/2015.

“Chappie” explora robô inteligente para instigar debate entre força e intelecto

Estreia no dia 16 de abril mais um filme com o selo “Neil Blomkamp”: pode esperar aquele visual futurista sucateado, os noticiários fictícios, o herói deslocado, muita ação e alguma discussão sobre desigualdade social e opressão militar. O diretor sul-africano, que surgiu no radar independente com “Distrito 9” (2009) e abraçou Hollywood com “Elysium” (2013), lança agora o que parece ser a combinação perfeita dos dois mundos: “Chappie”.

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O título é o nome do protagonista: um robô originalmente criado para integrar a polícia de Johanesburgo, mas que ganha de seu inventor Deon Wilson (Dev Patel), secretamente, um software de inteligência artificial. Como resultado, ele “renasce” despreparado como uma criança, com capacidade de aprender e criar de acordo com suas experiências.

Por circunstâncias inusitadas, Chappie vai morar com um trio de criminosos, com quem aprende a usar armas, assaltar e até a falar como um bad boy. Paralelamente, ele também é educado por Deon, que tenta convencê-lo de que a arte e o intelecto são mais valiosos do que a força. No meio desses dois mundos, o androide não consegue distinguir certo de errado e, intencionalmente ou não, essa confusão aflora perto do final, quando ele usa a violência ao mesmo tempo em que a condena.

O filme ainda toca num tema que tem sido muito discutido na ficção científica, que é a separação entre corpo e consciência. A forma como Blomkamp aborda isso, contudo, tem mais a ver com a simbologia do “patinho feio” (e a busca pelo pertencimento) do que com a obsessão pela imortalidade, que vinha no centro da discussão.

Além de Patel, o longa traz Hugh Jackman como um ex-soldado que também desenha robôs, rival de Deon, e Sigourney Weaver como a presidente da fábrica (aquela velha personagem ambiciosa e manipulável). Nenhum dos dois se destaca tanto quanto o jovem britânico de origem indiana, que, sozinho, garante um nível de humanidade e empatia que compensa os exageros do filme. A rapper Yolandi Visser, que vive a “mãe” de Chappie, também destoa como uma figura inocente e autêntica, cuja aparência parece jogar uma piscadela aos androides de “Blade Runner”.

Blomkamp é um diretor de contrastes: ao mesmo tempo autoral e comercial, tão influenciado pela contracultura dos guetos sul-africanos quanto pelo cinema mainstream norte-americano. Portanto, se “Chappie” dialoga com questões complexas de filosofia e política, ele também abraça a ação, o melodrama e uma dose proposital de canastrice (herança dos anos 80).

Interessante e divertido, o filme se aproxima de “Distrito 9” (com quem compartilha a mesma dupla de roteiro) na ousadia com que mistura temas e cria metáforas, mas também tem muito do caráter “pop” de “Elysium”, com seus efeitos especiais caprichados e rostos famosos. O equilíbrio parece ter feito bem ao diretor e, para o público, vai garantir algumas boas conversas de bar.

Texto publicado no Guia da Semana em 7/04/2015.

“Insurgente” sofre com a falta de densidade de seus protagonistas

Tris, Four e todas as facções que o público conheceu em “Divergente” estão de volta aos cinemas na primeira sequência, “Insurgente”. O filme deveria marcar o meio da saga, mas, como já virou regra entre séries milionárias adolescentes, o último episódio será dividido em dois, retardando o clímax e criando aquela longa e sonolenta jornada de preliminares.

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O filme inicial apresentou a estrutura política de uma Chicago destruída, segmentada “para o bem de todos” de acordo com as aptidões de cada cidadão – deixando quem não se encaixasse às margens da sociedade. A heroína Tris, interpretada por Shailene Woodley, descobriu que se encaixava até demais, contendo características de todas as facções e sendo considerada “divergente”.

Em “Insurgente”, Tris e seu namorado Four (Theo James) aparecem vivendo às escondidas, tentando reunir os outros integrantes da Audácia para atacar a Erudição, facção comandada por Jeanine (Kate Winslet) que dizimara, ainda no primeiro longa, o grupo do qual faziam parte os pais de Tris. Paralelamente, Jeanine procura um divergente capaz de abrir uma caixa que, ela acredita, trará legitimação a todas as suas maldades. A essa altura, você já deve ter adivinhado o final.

Se a disputa de poder soa natural em qualquer história, a postura dos protagonistas destoa radicalmente do que se esperaria de heróis adolescentes – modelos de comportamento, em geral. Do primeiro para o segundo filme, Tris ficou mais violenta e arrogante, matando sem pensar duas vezes e mostrando desdém por qualquer pessoa mais velha, que tente lhe ensinar alguma coisa. Já Four, belo e vazio, perdeu sua identidade de líder e passou a se preocupar exclusivamente com as vontades da amada.

Quem manteve a coerência, ironicamente, foram os personagens de índole menos nobre: Peter (Miles Teller), Caleb (Andel Elgort) e a própria Jeanine. O primeiro continua jogando conforme a conveniência; o segundo se mantém fiel ao seu senso de moral, mesmo que isso contrarie todos os outros sensos; e a terceira permanece ingênua, cavando a própria ruína a cada decisão.

Novas personagens aparecem para dar algum frescor à trama: Octavia Spencer vive a líder da Amizade, Johanna, e Naomi Watts interpreta a líder dos sem-facção, Evelyn, que promete ter um papel bem mais relevante no terceiro filme e pode vir a salvar a trilogia.

As duas ajudam a dar um pouco de humanidade ao longa, que ameaça se afundar em cenas de ação sem sentido. É compreensível que o público queira ver lutas e perseguições, mas essas chegam sem aviso, como se o diretor quisesse compensar a falta de bons diálogos colocando seus atores para correr.

Se “Divergente” já levantara dúvidas sobre o potencial dos livros de Veronica Roth nos cinemas, “Insurgente” deixa claro que seus personagens não têm a densidade necessária para sustentar uma franquia tão bem sucedida quanto aquelas que a inspiraram. Será que os próximos filmes surpreenderão?

“Insurgente” chega aos cinemas nesta quinta, 19 de março.

Texto publicado no Guia da Semana em 17/03/2015.