Thelma e Louise e Hunter

Quase trinta anos separam os filmes Thelma & Louise, clássico de 1991 escrito por Callie Khouri (que ganhou o Oscar pelo roteiro) e dirigido por Ridley Scott; e Swallow, novidade cult de Carlo Mirabella-Davis lançada entre 2019 e 2020, em cartaz no Mubi. De um lado, um roadmovie com sua dose de humor, uma dose de ação e outra dose generosa de Geena Davis e Susan Sarandon. Do outro, um drama um tanto aflitivo conduzido pela ainda desconhecida, mas interessantíssima Haley Bennett. Em ambos, mulheres aprisionadas. Em ambos, mulheres que machucam a si mesmas. 

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Malcolm & Marie

Depois de um atraso na forma de internet caída, enfim assisti ao filme-dê-erre da vez: Malcolm & Marie. Estava tão curiosa quanto receosa: tinha lido coisas boas e ruins, tinha visto o trailer e vinha cultivando uma vaga sensação de que aquela era uma obra cheia de ego. Um pastiche feito de imagens que mais pareciam do que eram, inflado por dois dos atores mais cultuados do momento. Bonito. Pretensioso. Falso. Já tinha um veredito antes de começar. 

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Retrato de uma jovem em chamas

Soube que havia algo diferente com Retrato de uma jovem em chamas quando, numa das primeiras cenas, a diretora Céline Sciamma escolheu balançar a câmera sem piedade simulando a ondulação do mar, e a tontura foi tanta que tive que tirar os olhos da tela. Então, uma caixa apareceu boiando e a protagonista – a pintora Marianne, interpretada por Noémie Merlant – se jogou à água, de vestido e tudo. Um vestido volumoso e pesado, já que estamos no final do século XVIII, e nenhum dos homens a bordo se ofereceu para ajudar.

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Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão

Pedro não gosta de lugares públicos. Apesar disso, todas as quintas-feiras ele liga sua webcam e dança nu, banhando-se em tinta neon e tocando seu corpo colorido para uma plateia fiel e pagante. O vencedor do Festival do Rio e do Teddy Awards (troféu voltado para filmes queer no Festival de Berlim), “Tinta Bruta”, finalmente chega aos cinemas brasileiros no dia 6 de dezembro trazendo essa história melancólica e quase trágica para brilhar na tela. Isso, se o público estiver pronto para ela. Continuar lendo “Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão”

Robin Hood – A Origem: mais um remake sem nada a acrescentar

Mais um ano, mais um remake ambicioso com o subtítulo “a origem” chega aos cinemas. Desta vez, é o justiceiro Robin Hood que ganha sua enésima rodada nas telas, agora com o rostinho bonito de Taron Egerton, uma coleção de roupas inexplicavelmente modernas e o festival de pirotecnia e efeitos visuais que se espera de qualquer superprodução de respeito. Continuar lendo “Robin Hood – A Origem: mais um remake sem nada a acrescentar”

Em Chamas: suspense coreano seduz com trama ambígua e cheia de entrelinhas

Há muito pouco fogo no sul-coreano “Em Chamas”. Muito pouco diante das câmeras, quero dizer, porque, por trás delas, pode haver quantas labaredas você quiser imaginar. E é disso que se trata o suspense psicológico de Lee Chang-Dong, longa que representa seu país no Oscar 2019 depois de ter sido indicado à Palma de Ouro e vencido o prêmio da crítica em Cannes: imaginação. Continuar lendo “Em Chamas: suspense coreano seduz com trama ambígua e cheia de entrelinhas”

Animais Fantásticos 2 chega aos cinemas cheio de liberdades

Quando uma série adaptada se desprende de seu material original, coisas inesperadas, necessárias e um pouco incômodas costumam acontecer. Tem sido assim com os episódios mais recentes de Game of Thrones e, cada vez mais, tem sido assim com a franquia Harry Potter. “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, segundo prequel da saga bruxa que chega aos cinemas neste mês já sem nenhum livro concreto no qual se basear, é prova disso. Continuar lendo “Animais Fantásticos 2 chega aos cinemas cheio de liberdades”

Bohemian Rhapsody: biografia do Queen joga seguro, mas emociona

Quando as primeiras notas de Another One Bites the Dust vibram no baixo de John Deacon e ressoam pelas caixas de som na sala de cinema, os fãs se arrepiam e uma acalorada discussão chega ao fim. Na tela, Freddie, Roger e May vinham discordando sobre incluir ou não um pouco de Disco no álbum seguinte, mas aquele riff perfeito trouxe suas atenções de volta ao que importava: a música. Sem gêneros, sem promessas, sem padrões, simplesmente a música do Queen. Continuar lendo “Bohemian Rhapsody: biografia do Queen joga seguro, mas emociona”

Domingo no sofá: “Eu não sou um homem fácil”

Era domingo à noite e eu vinha pensando em Morgan Freeman, #metoo e Times Up. Pensava em como um homem foi incentivado a vida toda a tratar mulheres como objetos e, de repente, querem descartá-lo como um rolo de papel. Tentei escrever sobre isso, mas não consegui. Então liguei a Netflix e resolvi assistir à comédia francesa “Eu Não Sou um Homem Fácil”, que um amigo indicou.

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Power Rangers (Dean Israelite, 2017)

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Quem precisa de um novo Power Rangers? Tenho certeza de que esta pergunta passou pela cabeça de muita gente em algum momento entre o anúncio do novo longa-metragem, a divulgação dos primeiros trailers e a publicação desta crítica, às vésperas da estreia no Brasil. É claro que os fãs estão adorando a novidade e, como uma boa criança que cresceu nos anos 90, me incluo fortemente nesse grupo. Mas, ainda assim: quem precisa de um novo Power Rangers?

A resposta está nos novos fãs. Quem precisa destes Power Rangers não é o fã hardcore que assistiu a todas as vinte e cinco temporadas e sabe o nome de todos os Rangers que já passaram pela televisão. É, sim, o público adolescente que nunca brincou de morfar ou de controlar um Megazord, mas que vai se identificar com as questões pessoais dos protagonistas e talvez se enxergue na descoberta sexual de Trini, na decepção de Kimberly consigo mesma ou na dificuldade de Billy para se relacionar.

Para quem não reconhece os nomes, eles são os mesmos da primeira temporada da série, que foi ao ar em 1993. Os personagens, bem como parte de suas personalidades, foram aproveitados para este reboot, mas suas histórias são novas. Dacre Montgomery, por exemplo, interpreta Jason, o Ranger Vermelho e líder involuntário do grupo. Ele é um jovem jogador de futebol americano que tinha tudo para ser um herói nacional, mas seu jeito encrenqueiro o transformou em vilão e, agora, ele anda por aí com uma tornozeleira eletrônica.

Sim, uma tornozeleira eletrônica. Para um filme inspirado numa série infantil, os protagonistas não poderiam ser mais fora do padrão – não apenas por serem excluídos socialmente, mas por quererem isso. Por se comportarem mal, de verdade e de propósito. Jason, Kimberly (Naomi Scott) e Billy (RJ Cyler), cada um com o seu crime, se conhecem na sala de detenção. Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.), ainda mais afastados da realidade estudantil, os encontram numa mina de ouro onde costumam se isolar do mundo. É lá que eles são levados até as moedas do poder e até a nave, onde conhecem Alpha 5 (Bill Hader), Zordon (Bryan Cranston) e o seu destino.

“Power Rangers” é uma lição para quem ainda pensa que investir num reboot é tarefa simples – que basta repetir todos os ingredientes do passado para se ter o público na mão. Não é bem assim… Aqui, vemos um esforço constante para equilibrar elementos do passado e do presente numa obra que não pareça datada, nem descolada demais da sua origem, nem adulta nem infantil em excesso. E, mesmo com todo esse cuidado, alguns deslizes inevitavelmente vêm à tona.

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Se o filme acerta na dose de humor, no enquadramento nostálgico das batalhas ou na modernização da vilã Rita Repulsa (Elizabeth Banks), ele deixa a desejar no design dos Zords (é difícil diferenciar um do outro) e decepciona, especialmente, na trilha sonora – que pedia mais da guitarra enérgica dos anos 90 e menos do sintetizador psicodélico de “Stranger Things”, que virou o novo queridinho das produções teen (ele está até na série “Punho de Ferro”, uma das obras com menos personalidade que chegaram à TV neste ano).

Mas é na construção dos personagens que o filme realmente se sustenta – e finca raízes suficientemente profundas para garantir pelo menos uma sequência, prometida numa singela e certeira cena pós-créditos. E é nessa construção dos personagens, mais interessados em criarem relações verdadeiras com seus novos parceiros do que em morfar ou salvar o mundo, que “Power Rangers” se justifica enquanto reboot, trazendo algo a mais. Algo que o público  – novo ou antigo – com certeza vai aprovar.

 

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

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