Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão

Pedro não gosta de lugares públicos. Apesar disso, todas as quintas-feiras ele liga sua webcam e dança nu, banhando-se em tinta neon e tocando seu corpo colorido para uma plateia fiel e pagante. O vencedor do Festival do Rio e do Teddy Awards (troféu voltado para filmes queer no Festival de Berlim), “Tinta Bruta”, finalmente chega aos cinemas brasileiros no dia 6 de dezembro trazendo essa história melancólica e quase trágica para brilhar na tela. Isso, se o público estiver pronto para ela. Continuar lendo “Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão”

Robin Hood – A Origem: mais um remake sem nada a acrescentar

Mais um ano, mais um remake ambicioso com o subtítulo “a origem” chega aos cinemas. Desta vez, é o justiceiro Robin Hood que ganha sua enésima rodada nas telas, agora com o rostinho bonito de Taron Egerton, uma coleção de roupas inexplicavelmente modernas e o festival de pirotecnia e efeitos visuais que se espera de qualquer superprodução de respeito. Continuar lendo “Robin Hood – A Origem: mais um remake sem nada a acrescentar”

Em Chamas: suspense coreano seduz com trama ambígua e cheia de entrelinhas

Há muito pouco fogo no sul-coreano “Em Chamas”. Muito pouco diante das câmeras, quero dizer, porque, por trás delas, pode haver quantas labaredas você quiser imaginar. E é disso que se trata o suspense psicológico de Lee Chang-Dong, longa que representa seu país no Oscar 2019 depois de ter sido indicado à Palma de Ouro e vencido o prêmio da crítica em Cannes: imaginação. Continuar lendo “Em Chamas: suspense coreano seduz com trama ambígua e cheia de entrelinhas”

Animais Fantásticos 2 chega aos cinemas cheio de liberdades

Quando uma série adaptada se desprende de seu material original, coisas inesperadas, necessárias e um pouco incômodas costumam acontecer. Tem sido assim com os episódios mais recentes de Game of Thrones e, cada vez mais, tem sido assim com a franquia Harry Potter. “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, segundo prequel da saga bruxa que chega aos cinemas neste mês já sem nenhum livro concreto no qual se basear, é prova disso. Continuar lendo “Animais Fantásticos 2 chega aos cinemas cheio de liberdades”

Bohemian Rhapsody: biografia do Queen joga seguro, mas emociona

Quando as primeiras notas de Another One Bites the Dust vibram no baixo de John Deacon e ressoam pelas caixas de som na sala de cinema, os fãs se arrepiam e uma acalorada discussão chega ao fim. Na tela, Freddie, Roger e May vinham discordando sobre incluir ou não um pouco de Disco no álbum seguinte, mas aquele riff perfeito trouxe suas atenções de volta ao que importava: a música. Sem gêneros, sem promessas, sem padrões, simplesmente a música do Queen. Continuar lendo “Bohemian Rhapsody: biografia do Queen joga seguro, mas emociona”

Domingo no sofá: “Eu não sou um homem fácil”

Era domingo à noite e eu vinha pensando em Morgan Freeman, #metoo e Times Up. Pensava em como um homem foi incentivado a vida toda a tratar mulheres como objetos e, de repente, querem descartá-lo como um rolo de papel. Tentei escrever sobre isso, mas não consegui. Então liguei a Netflix e resolvi assistir à comédia francesa “Eu Não Sou um Homem Fácil”, que um amigo indicou.

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Power Rangers (Dean Israelite, 2017)

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Quem precisa de um novo Power Rangers? Tenho certeza de que esta pergunta passou pela cabeça de muita gente em algum momento entre o anúncio do novo longa-metragem, a divulgação dos primeiros trailers e a publicação desta crítica, às vésperas da estreia no Brasil. É claro que os fãs estão adorando a novidade e, como uma boa criança que cresceu nos anos 90, me incluo fortemente nesse grupo. Mas, ainda assim: quem precisa de um novo Power Rangers?

A resposta está nos novos fãs. Quem precisa destes Power Rangers não é o fã hardcore que assistiu a todas as vinte e cinco temporadas e sabe o nome de todos os Rangers que já passaram pela televisão. É, sim, o público adolescente que nunca brincou de morfar ou de controlar um Megazord, mas que vai se identificar com as questões pessoais dos protagonistas e talvez se enxergue na descoberta sexual de Trini, na decepção de Kimberly consigo mesma ou na dificuldade de Billy para se relacionar.

Para quem não reconhece os nomes, eles são os mesmos da primeira temporada da série, que foi ao ar em 1993. Os personagens, bem como parte de suas personalidades, foram aproveitados para este reboot, mas suas histórias são novas. Dacre Montgomery, por exemplo, interpreta Jason, o Ranger Vermelho e líder involuntário do grupo. Ele é um jovem jogador de futebol americano que tinha tudo para ser um herói nacional, mas seu jeito encrenqueiro o transformou em vilão e, agora, ele anda por aí com uma tornozeleira eletrônica.

Sim, uma tornozeleira eletrônica. Para um filme inspirado numa série infantil, os protagonistas não poderiam ser mais fora do padrão – não apenas por serem excluídos socialmente, mas por quererem isso. Por se comportarem mal, de verdade e de propósito. Jason, Kimberly (Naomi Scott) e Billy (RJ Cyler), cada um com o seu crime, se conhecem na sala de detenção. Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.), ainda mais afastados da realidade estudantil, os encontram numa mina de ouro onde costumam se isolar do mundo. É lá que eles são levados até as moedas do poder e até a nave, onde conhecem Alpha 5 (Bill Hader), Zordon (Bryan Cranston) e o seu destino.

“Power Rangers” é uma lição para quem ainda pensa que investir num reboot é tarefa simples – que basta repetir todos os ingredientes do passado para se ter o público na mão. Não é bem assim… Aqui, vemos um esforço constante para equilibrar elementos do passado e do presente numa obra que não pareça datada, nem descolada demais da sua origem, nem adulta nem infantil em excesso. E, mesmo com todo esse cuidado, alguns deslizes inevitavelmente vêm à tona.

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Se o filme acerta na dose de humor, no enquadramento nostálgico das batalhas ou na modernização da vilã Rita Repulsa (Elizabeth Banks), ele deixa a desejar no design dos Zords (é difícil diferenciar um do outro) e decepciona, especialmente, na trilha sonora – que pedia mais da guitarra enérgica dos anos 90 e menos do sintetizador psicodélico de “Stranger Things”, que virou o novo queridinho das produções teen (ele está até na série “Punho de Ferro”, uma das obras com menos personalidade que chegaram à TV neste ano).

Mas é na construção dos personagens que o filme realmente se sustenta – e finca raízes suficientemente profundas para garantir pelo menos uma sequência, prometida numa singela e certeira cena pós-créditos. E é nessa construção dos personagens, mais interessados em criarem relações verdadeiras com seus novos parceiros do que em morfar ou salvar o mundo, que “Power Rangers” se justifica enquanto reboot, trazendo algo a mais. Algo que o público  – novo ou antigo – com certeza vai aprovar.

 

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

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T2 Trainspotting (Danny Boyle, 2017)

Não sei vocês, mas ainda me lembro da sensação de ver “Trainspotting” pela primeira vez. Foi quase traumático. Não conseguia desgrudar os olhos da tela e, ao mesmo tempo, mal conseguia olhar: era tudo muito cru, muito explícito, muito repulsivo, e até hoje a cena do bebê me arrepia. O que Danny Boyle nos mostrava, sob uma narrativa consciente e uma edição sedutora, eram cinco amigos destruindo suas vidas e seus relacionamentos em busca de mais uma picada, ou mais uma briga. E eles não tinham objetivos. Eles não tinham moral. Eles simplesmente não se importavam.

Trainspotting” foi um choque para a época, mas é difícil imaginar um filme como esse sendo lançado hoje em dia. Ele pode ser exibido nos cinemas, como um clássico “cult”, mas uma obra original falando de drogas (ou qualquer outro tabu) com a mesma cara-de-pau? Jamais seria distribuída. Não nesta década.

Se você duvida, então vá conferir a sequência “T2 Trainspotting”, que estreia nos cinemas no dia 23 de março. Muito vagamente baseada no livro seguinte de Irvine Welsh, “Porno”, “T2” conta o que aconteceu aos quatro sobreviventes 20 anos depois: um teve um filho, mas se afastou pelas drogas; outro herdou um pub e continuou sonhando com um “grande negócio”; outro ficou preso todo esse tempo e o último, ironicamente, se tornou a própria definição do homem comum que “escolheu a vida” e que o quarteto tanto abominava – o homem correto com um emprego estável e uma saúde impecável, ou quase.

O motivo pelo qual continuamos comprando ingressos para sequências como esta é que é sempre bom rever personagens tão fortes quanto Renton, Sick Boy, Spud e Begbie (além de participações pontuais de Diane e Gail, a namorada de Spud e a menor que se envolve com Renton, agora advogada). Queremos saber como eles envelheceram, o que aprenderam e, acima de tudo, queremos saber se vão se reconciliar após a traição que encerrou o primeiro longa.

O filme nos dá todas essas respostas, mas evita fazer novas perguntas. Quando “rejeitar a vida” já não faz mais sentido, o que resta para esses quatro rebeldes? Quando “recomeçar” se torna um conceito possível, como encontrar seu lugar num mundo que você simplesmente se recusou a conhecer? Isso tudo vem à mente do espectador, especialmente àquele que tem o primeiro filme fresco na memória, mas não vem à tela. Não com a acidez com que deveria.

“T2” acerta ao trazer de volta todo o elenco original e, assim, promover novos encontros épicos entre eles, mas erra ao olhar para eles com uma lente tão unidimensional. Begbie (Robert Carlyle) agora é o vilão, Renton (Ewan McGregor) é o mocinho, Spud (Ewen Bremner) foi reduzido a inocente cômico e Sick Boy (Jonny Lee Miller), ao melhor amigo. Para quem não se lembra, eles não eram nada disso e o roteiro se equilibrava muito bem entre cada um para não eleger heróis. Mas este é o século XXI e é preciso ter heróis.

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Como uma sequência para fãs, é verdade que o filme tem tudo: direção de Danny Boyle, roteiro de John Hodge, cenas praticamente recriadas do original e o velho estilo punk-escocês irresistível. Mas, entre “Trainspotting” e “T2”, Boyle parece ter perdido a ousadia. Ao invés de inovar mais uma vez na forma, ele recorre a antigos recursos que deram certo no primeiro filme (como as imagens congeladas e a trilha musical perfurante), mas o faz sem critério. O resultado são frames paralisados em momentos errados, silêncios mal colocados e uma trilha que mais parece uma homenagem ao passado do que uma provocação. Aliás, talvez a intenção seja justamente essa: uma grande homenagem ao passado, um banho de nostalgia, um “passeio turístico pela sua juventude”, como diz um dos personagens na melhor cena do filme.

Um passeio pela juventude, sem a irresponsabilidade inerente a ela. Uma viagem aos anos 90, a bordo do asséptico trem dos anos 2010. Cada um, o retrato do seu tempo.

 

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

Beleza Oculta (David Frankel, 2016)

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A premissa de “Beleza Oculta” me conquistou desde o primeiro trailer: um homem em luto escreve para três entidades – o Amor, o Tempo e a Morte – e recebe a visita delas, em carne e osso. Para quem olhasse com cuidado, o próprio teaser já sugeria que essas encarnações talvez não fossem tão sobrenaturais assim, mas apenas atores contratados como uma forma de terapia, mas admito que essa ideia me agradava ainda mais. O que importa, afinal, é a abstração. Certo?

Fui, então, conferir o filme depois de ler e ouvir algumas críticas mais negativas do que eu esperava. “É uma bagunça”, dizia um; “é um novelão”, analisava outro. Respirei fundo e encarei a tela de coração aberto. E não é que gostei do que vi?

Entenda: “Beleza Oculta” realmente não é nenhuma obra-prima, nenhum manifesto revolucionário ou proeza técnica, mas sabe o que ele é? Um filme gostoso de assistir. Daqueles que você vai querer ver num domingo à tarde sozinho em casa, dando algumas risadas, tomando um chocolate quente e se sentindo um pouco melhor quando rolarem os créditos finais. E esse tipo de filme é tão necessário quanto o drama ucraniano da Mostra, o terror cult do Noitão ou o épico do sábado à noite. Ele, simplesmente, faz bem.

E não é um bem às custas dos outros, que fique claro. Não é aquele filme que mostra o herói se dando bem enquanto os coadjuvantes são descartados, nem aquele que ignora diferenças de classe, gênero e cor. Ele ignora, no máximo, a maldade – e não há nada de mau nisso.

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O filme tem um elenco assombroso (do tipo que você até desconfia): Will Smith é o protagonista que perdeu uma filha de seis anos; Edward Norton, Kate Winslet e Michael Peña são seus sócios na agência de publicidade; Helen Mirren, Keira Knightley e Jacob Latimore são as “abstrações”; enquanto Naomie Harris vive a organizadora de um grupo de apoio a pais em luto.

Um filme com essa proposta poderia facilmente cair num exercício falso e esotérico de autoajuda, mas alguns detalhes o mantêm no eixo. O primeiro, é claro, é o elenco: uma Morte interpretada por Helen Mirren jamais seria unidimensional, e se há um papel que Will Smith consegue cumprir é o do homem de bom coração que sofre, cai e se reconstrói. É fácil acreditar nesse grupo e a empatia é o primeiro passo para embarcar numa história com um toque de fantasia.

O segundo elemento é o roteiro, assinado por Allan Loeb (“Quebrando a Banca”). Os diálogos, ao invés de recorrerem a frases vazias de caminhão, reúnem conselhos realmente úteis para quem está passando por uma tragédia, e ajudam a conferir mais significado a palavras de conforto muitas vezes desgastadas. Além disso, é interessante ver como as intenções dos sócios podem ser ao mesmo tempo reprováveis e compreensíveis, o que traz ainda mais uma camada de identificação ao filme.

“Beleza Oculta” é dirigido por David Frankel (“O Diabo Veste Prada”) e já está em cartaz nos cinemas.

 

Jackie (Pablo Larraín, 2016)


É interessante como nossas certezas são muitas vezes construídas sobre as narrativas dos outros. Quase não percebemos, mas estamos o tempo todo formando opiniões com base no que lemos ou ouvimos, sem poder distinguir entre o que é realidade e o que são ficções, construídas minuciosamente por quem teve a sorte de poder contar sua versão da história.

Foi essa ideia que me fisgou enquanto assistia a “Jackie” – um filme de Pablo Larraín que eu jurava ser apenas uma biografia romantizada da famosa primeira-dama do governo Kennedy. Obviamente, não era. “Jackie”, aliás, nem narra propriamente a história de Jacqueline Kennedy (Natalie Portman), mas, sim, a história de seu marido tal qual narrada por ela. Mais especificamente, é a história da morte de seu marido tal qual narrada por ela.

Perdoem o excesso de “histórias”, mas o filme é justamente sobre isso: sobre a construção de narrativas em torno da vida real. Duas narrativas, para ser mais exata. A primeira é a que Jackie entrega a um jornalista (Billy Crudup), dias após o enterro de John F. Kennedy, sobre seus sentimentos diante do choque de ter seu marido assassinado ao seu lado e do confronto com os homens que queriam continuar seu jogo o mais rápido possível dentro da Casa Branca. A segunda é a que ela entrega ao público, tecendo um mito em torno do presidente por meio de um gigantesco espetáculo fúnebre, um programa patético de TV e uma anedota envolvendo um disco da peça Camelot.

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O interessante do longa de Larraín (“No”, “O Clube”) não é o que Jackie conta, mas sim o que Portman revela entre um sotaque inocente, um maço de cigarros e a expressão de quem sabe exatamente o que está fazendo. Em certo momento, ela informa ao entrevistador que ele só publicará o que ela autorizar, e chega a pegar seu caderno nas mãos para rabiscar as anotações – mas nem por isso deixa de lhe contar toda a verdade. Ela o manipula com o sorriso confiante de quem já fez isso diversas vezes durante o curto mandato de seu sobrenome.

Quem lê isso pode pensar que o filme faz um desserviço à personagem, retratando-a como uma vilã, mas não é tão simples. Pela primeira vez, Jacqueline Kennedy se revela uma personagem completa, complexa e com um papel relevante na história americana, mesmo que desempenhado nos bastidores. Se o presidente tomou as decisões oficiais que moldaram o país, ela moldou sua imagem para que essas decisões fossem interpretadas da forma mais conveniente. A Casa Branca foi reformada não por capricho, mas para passar uma mensagem. O caixão foi carregado pelas ruas com todas as pompas sob o risco de novos atentados não por vaidade, mas para criar uma lenda. Para contar uma história que não seria esquecida tão facilmente… Ou, pelo menos, é essa a história que Larraín escolheu contar.

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“Jackie” estreia no Brasil no dia 2 de fevereiro.