Power Rangers (Dean Israelite, 2017)

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Quem precisa de um novo Power Rangers? Tenho certeza de que esta pergunta passou pela cabeça de muita gente em algum momento entre o anúncio do novo longa-metragem, a divulgação dos primeiros trailers e a publicação desta crítica, às vésperas da estreia no Brasil. É claro que os fãs estão adorando a novidade e, como uma boa criança que cresceu nos anos 90, me incluo fortemente nesse grupo. Mas, ainda assim: quem precisa de um novo Power Rangers?

A resposta está nos novos fãs. Quem precisa destes Power Rangers não é o fã hardcore que assistiu a todas as vinte e cinco temporadas e sabe o nome de todos os Rangers que já passaram pela televisão. É, sim, o público adolescente que nunca brincou de morfar ou de controlar um Megazord, mas que vai se identificar com as questões pessoais dos protagonistas e talvez se enxergue na descoberta sexual de Trini, na decepção de Kimberly consigo mesma ou na dificuldade de Billy para se relacionar.

Para quem não reconhece os nomes, eles são os mesmos da primeira temporada da série, que foi ao ar em 1993. Os personagens, bem como parte de suas personalidades, foram aproveitados para este reboot, mas suas histórias são novas. Dacre Montgomery, por exemplo, interpreta Jason, o Ranger Vermelho e líder involuntário do grupo. Ele é um jovem jogador de futebol americano que tinha tudo para ser um herói nacional, mas seu jeito encrenqueiro o transformou em vilão e, agora, ele anda por aí com uma tornozeleira eletrônica.

Sim, uma tornozeleira eletrônica. Para um filme inspirado numa série infantil, os protagonistas não poderiam ser mais fora do padrão – não apenas por serem excluídos socialmente, mas por quererem isso. Por se comportarem mal, de verdade e de propósito. Jason, Kimberly (Naomi Scott) e Billy (RJ Cyler), cada um com o seu crime, se conhecem na sala de detenção. Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.), ainda mais afastados da realidade estudantil, os encontram numa mina de ouro onde costumam se isolar do mundo. É lá que eles são levados até as moedas do poder e até a nave, onde conhecem Alpha 5 (Bill Hader), Zordon (Bryan Cranston) e o seu destino.

“Power Rangers” é uma lição para quem ainda pensa que investir num reboot é tarefa simples – que basta repetir todos os ingredientes do passado para se ter o público na mão. Não é bem assim… Aqui, vemos um esforço constante para equilibrar elementos do passado e do presente numa obra que não pareça datada, nem descolada demais da sua origem, nem adulta nem infantil em excesso. E, mesmo com todo esse cuidado, alguns deslizes inevitavelmente vêm à tona.

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Se o filme acerta na dose de humor, no enquadramento nostálgico das batalhas ou na modernização da vilã Rita Repulsa (Elizabeth Banks), ele deixa a desejar no design dos Zords (é difícil diferenciar um do outro) e decepciona, especialmente, na trilha sonora – que pedia mais da guitarra enérgica dos anos 90 e menos do sintetizador psicodélico de “Stranger Things”, que virou o novo queridinho das produções teen (ele está até na série “Punho de Ferro”, uma das obras com menos personalidade que chegaram à TV neste ano).

Mas é na construção dos personagens que o filme realmente se sustenta – e finca raízes suficientemente profundas para garantir pelo menos uma sequência, prometida numa singela e certeira cena pós-créditos. E é nessa construção dos personagens, mais interessados em criarem relações verdadeiras com seus novos parceiros do que em morfar ou salvar o mundo, que “Power Rangers” se justifica enquanto reboot, trazendo algo a mais. Algo que o público  – novo ou antigo – com certeza vai aprovar.

 

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

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T2 Trainspotting (Danny Boyle, 2017)

Não sei vocês, mas ainda me lembro da sensação de ver “Trainspotting” pela primeira vez. Foi quase traumático. Não conseguia desgrudar os olhos da tela e, ao mesmo tempo, mal conseguia olhar: era tudo muito cru, muito explícito, muito repulsivo, e até hoje a cena do bebê me arrepia. O que Danny Boyle nos mostrava, sob uma narrativa consciente e uma edição sedutora, eram cinco amigos destruindo suas vidas e seus relacionamentos em busca de mais uma picada, ou mais uma briga. E eles não tinham objetivos. Eles não tinham moral. Eles simplesmente não se importavam.

Trainspotting” foi um choque para a época, mas é difícil imaginar um filme como esse sendo lançado hoje em dia. Ele pode ser exibido nos cinemas, como um clássico “cult”, mas uma obra original falando de drogas (ou qualquer outro tabu) com a mesma cara-de-pau? Jamais seria distribuída. Não nesta década.

Se você duvida, então vá conferir a sequência “T2 Trainspotting”, que estreia nos cinemas no dia 23 de março. Muito vagamente baseada no livro seguinte de Irvine Welsh, “Porno”, “T2” conta o que aconteceu aos quatro sobreviventes 20 anos depois: um teve um filho, mas se afastou pelas drogas; outro herdou um pub e continuou sonhando com um “grande negócio”; outro ficou preso todo esse tempo e o último, ironicamente, se tornou a própria definição do homem comum que “escolheu a vida” e que o quarteto tanto abominava – o homem correto com um emprego estável e uma saúde impecável, ou quase.

O motivo pelo qual continuamos comprando ingressos para sequências como esta é que é sempre bom rever personagens tão fortes quanto Renton, Sick Boy, Spud e Begbie (além de participações pontuais de Diane e Gail, a namorada de Spud e a menor que se envolve com Renton, agora advogada). Queremos saber como eles envelheceram, o que aprenderam e, acima de tudo, queremos saber se vão se reconciliar após a traição que encerrou o primeiro longa.

O filme nos dá todas essas respostas, mas evita fazer novas perguntas. Quando “rejeitar a vida” já não faz mais sentido, o que resta para esses quatro rebeldes? Quando “recomeçar” se torna um conceito possível, como encontrar seu lugar num mundo que você simplesmente se recusou a conhecer? Isso tudo vem à mente do espectador, especialmente àquele que tem o primeiro filme fresco na memória, mas não vem à tela. Não com a acidez com que deveria.

“T2” acerta ao trazer de volta todo o elenco original e, assim, promover novos encontros épicos entre eles, mas erra ao olhar para eles com uma lente tão unidimensional. Begbie (Robert Carlyle) agora é o vilão, Renton (Ewan McGregor) é o mocinho, Spud (Ewen Bremner) foi reduzido a inocente cômico e Sick Boy (Jonny Lee Miller), ao melhor amigo. Para quem não se lembra, eles não eram nada disso e o roteiro se equilibrava muito bem entre cada um para não eleger heróis. Mas este é o século XXI e é preciso ter heróis.

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Como uma sequência para fãs, é verdade que o filme tem tudo: direção de Danny Boyle, roteiro de John Hodge, cenas praticamente recriadas do original e o velho estilo punk-escocês irresistível. Mas, entre “Trainspotting” e “T2”, Boyle parece ter perdido a ousadia. Ao invés de inovar mais uma vez na forma, ele recorre a antigos recursos que deram certo no primeiro filme (como as imagens congeladas e a trilha musical perfurante), mas o faz sem critério. O resultado são frames paralisados em momentos errados, silêncios mal colocados e uma trilha que mais parece uma homenagem ao passado do que uma provocação. Aliás, talvez a intenção seja justamente essa: uma grande homenagem ao passado, um banho de nostalgia, um “passeio turístico pela sua juventude”, como diz um dos personagens na melhor cena do filme.

Um passeio pela juventude, sem a irresponsabilidade inerente a ela. Uma viagem aos anos 90, a bordo do asséptico trem dos anos 2010. Cada um, o retrato do seu tempo.

 

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

Beleza Oculta (David Frankel, 2016)

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A premissa de “Beleza Oculta” me conquistou desde o primeiro trailer: um homem em luto escreve para três entidades – o Amor, o Tempo e a Morte – e recebe a visita delas, em carne e osso. Para quem olhasse com cuidado, o próprio teaser já sugeria que essas encarnações talvez não fossem tão sobrenaturais assim, mas apenas atores contratados como uma forma de terapia, mas admito que essa ideia me agradava ainda mais. O que importa, afinal, é a abstração. Certo?

Fui, então, conferir o filme depois de ler e ouvir algumas críticas mais negativas do que eu esperava. “É uma bagunça”, dizia um; “é um novelão”, analisava outro. Respirei fundo e encarei a tela de coração aberto. E não é que gostei do que vi?

Entenda: “Beleza Oculta” realmente não é nenhuma obra-prima, nenhum manifesto revolucionário ou proeza técnica, mas sabe o que ele é? Um filme gostoso de assistir. Daqueles que você vai querer ver num domingo à tarde sozinho em casa, dando algumas risadas, tomando um chocolate quente e se sentindo um pouco melhor quando rolarem os créditos finais. E esse tipo de filme é tão necessário quanto o drama ucraniano da Mostra, o terror cult do Noitão ou o épico do sábado à noite. Ele, simplesmente, faz bem.

E não é um bem às custas dos outros, que fique claro. Não é aquele filme que mostra o herói se dando bem enquanto os coadjuvantes são descartados, nem aquele que ignora diferenças de classe, gênero e cor. Ele ignora, no máximo, a maldade – e não há nada de mau nisso.

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O filme tem um elenco assombroso (do tipo que você até desconfia): Will Smith é o protagonista que perdeu uma filha de seis anos; Edward Norton, Kate Winslet e Michael Peña são seus sócios na agência de publicidade; Helen Mirren, Keira Knightley e Jacob Latimore são as “abstrações”; enquanto Naomie Harris vive a organizadora de um grupo de apoio a pais em luto.

Um filme com essa proposta poderia facilmente cair num exercício falso e esotérico de autoajuda, mas alguns detalhes o mantêm no eixo. O primeiro, é claro, é o elenco: uma Morte interpretada por Helen Mirren jamais seria unidimensional, e se há um papel que Will Smith consegue cumprir é o do homem de bom coração que sofre, cai e se reconstrói. É fácil acreditar nesse grupo e a empatia é o primeiro passo para embarcar numa história com um toque de fantasia.

O segundo elemento é o roteiro, assinado por Allan Loeb (“Quebrando a Banca”). Os diálogos, ao invés de recorrerem a frases vazias de caminhão, reúnem conselhos realmente úteis para quem está passando por uma tragédia, e ajudam a conferir mais significado a palavras de conforto muitas vezes desgastadas. Além disso, é interessante ver como as intenções dos sócios podem ser ao mesmo tempo reprováveis e compreensíveis, o que traz ainda mais uma camada de identificação ao filme.

“Beleza Oculta” é dirigido por David Frankel (“O Diabo Veste Prada”) e já está em cartaz nos cinemas.

 

Jackie (Pablo Larraín, 2016)


É interessante como nossas certezas são muitas vezes construídas sobre as narrativas dos outros. Quase não percebemos, mas estamos o tempo todo formando opiniões com base no que lemos ou ouvimos, sem poder distinguir entre o que é realidade e o que são ficções, construídas minuciosamente por quem teve a sorte de poder contar sua versão da história.

Foi essa ideia que me fisgou enquanto assistia a “Jackie” – um filme de Pablo Larraín que eu jurava ser apenas uma biografia romantizada da famosa primeira-dama do governo Kennedy. Obviamente, não era. “Jackie”, aliás, nem narra propriamente a história de Jacqueline Kennedy (Natalie Portman), mas, sim, a história de seu marido tal qual narrada por ela. Mais especificamente, é a história da morte de seu marido tal qual narrada por ela.

Perdoem o excesso de “histórias”, mas o filme é justamente sobre isso: sobre a construção de narrativas em torno da vida real. Duas narrativas, para ser mais exata. A primeira é a que Jackie entrega a um jornalista (Billy Crudup), dias após o enterro de John F. Kennedy, sobre seus sentimentos diante do choque de ter seu marido assassinado ao seu lado e do confronto com os homens que queriam continuar seu jogo o mais rápido possível dentro da Casa Branca. A segunda é a que ela entrega ao público, tecendo um mito em torno do presidente por meio de um gigantesco espetáculo fúnebre, um programa patético de TV e uma anedota envolvendo um disco da peça Camelot.

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O interessante do longa de Larraín (“No”, “O Clube”) não é o que Jackie conta, mas sim o que Portman revela entre um sotaque inocente, um maço de cigarros e a expressão de quem sabe exatamente o que está fazendo. Em certo momento, ela informa ao entrevistador que ele só publicará o que ela autorizar, e chega a pegar seu caderno nas mãos para rabiscar as anotações – mas nem por isso deixa de lhe contar toda a verdade. Ela o manipula com o sorriso confiante de quem já fez isso diversas vezes durante o curto mandato de seu sobrenome.

Quem lê isso pode pensar que o filme faz um desserviço à personagem, retratando-a como uma vilã, mas não é tão simples. Pela primeira vez, Jacqueline Kennedy se revela uma personagem completa, complexa e com um papel relevante na história americana, mesmo que desempenhado nos bastidores. Se o presidente tomou as decisões oficiais que moldaram o país, ela moldou sua imagem para que essas decisões fossem interpretadas da forma mais conveniente. A Casa Branca foi reformada não por capricho, mas para passar uma mensagem. O caixão foi carregado pelas ruas com todas as pompas sob o risco de novos atentados não por vaidade, mas para criar uma lenda. Para contar uma história que não seria esquecida tão facilmente… Ou, pelo menos, é essa a história que Larraín escolheu contar.

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“Jackie” estreia no Brasil no dia 2 de fevereiro.

Persona (Ingmar Bergman, 1966)

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Não sei vocês, mas eu ainda não tinha assistido ao clássico “Persona”, de Ingmar Bergman, até a última quarta-feira. Na verdade, minha experiência com o diretor sueco se limitava a “O Sétimo Selo”, o que, considerando agora, faz “Persona” parecer moleza. O fato é que aproveitei a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e sua homenagem aos 50 anos do filme para mergulhar nos olhos enigmáticos de Liv Ullmann e na transparência de Bibi Andersson e posso dizer que poucas vezes saí tão tocada de uma sala de cinema.

Talvez seja pessoal. Ou talvez tenha sido o perfeccionismo da fotografia de Sven Nykvist que me hipnotizou: acho que nunca vi uma iluminação tão perfeita aplicada a enquadramentos tão significativos… É como se todos os frames tivessem uma razão muito bem definida para existir, e cada um deles tivesse pelo menos duas ou três mensagens para expressar, antes mesmo de considerarmos os diálogos.

Aliás, que diálogos! Este é um daqueles raros filmes que conseguem dar o mesmo peso à imagem e ao texto, valorizando a interpretação das atrizes acima de tudo. Ullmann interpreta uma atriz, inclusive. Uma atriz chamada Elizabet Vogler que emudece durante um ensaio da peça “Electra” e, a partir de então, não profere mais uma única palavra.

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Andersson entra, então, como sua enfermeira num hospital psiquiátrico, Alma. Tagarela e um pouco ingênua, ela cria uma intimidade com a paciente e passa a usá-la como confidente, tirando proveito do fato de que sua interlocutora não poderá expressar seus julgamentos.

Esse jogo de poder entre as duas tem uma força que vai crescendo junto com o filme. É fácil interpretar sua relação como se uma se transformasse na outra, ou como se as duas fossem partes de uma mesma identidade – a atriz e sua persona, a enfermeira e sua boneca. Mas há algo a mais ali… À medida que a história evolui, o “dueto” vai ganhando diferentes significados, simbolizando conflitos diversos e não necessariamente aplicáveis a uma única personagem, mas a toda a humanidade: vemos duelarem verdade e ficção, silêncio e voz, fé e desesperança, fama e anonimato, guerra e paz.

Pessoalmente, o contraste mais claro para mim é entre consciência e comportamento. É entre o que as personagens realmente sentem e o que seria socialmente aceitável, o que elas inclusive esperam de si mesmas. O resultado dessa conta só pode ser a corrosão pela culpa, para uma, e a “desistência” da vida em sociedade para a outra. O silêncio de Elizabet é como um suicídio perante o mundo, mas é a única sobrevivência possível dentro de si mesma: para não mentir, ela se cala. Para não mais representar o papel de mulher ideal (ou seja, de “mãe” – já que, mesmo sendo famosa e bem-sucedida ela não é vista como “completa” por seus colegas), ela escolhe não representar mais nenhum.

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Talvez Elizabet projete em Alma uma versão mais aceitável de si mesma, para lidar com a própria consciência. Ou talvez seja Alma que enxergue em Elizabet seus medos mais profundos, o lado mais feio de sua natureza. Seja como for, não faz sentido dar uma resposta simples a um Bergman.

É preciso ver e sentir à sua própria maneira.

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Nota: no Brasil, o filme teve o título traduzido para “Quando Duas Mulheres Pecam”. Felizmente, com o tempo essa versão foi caindo em desuso e, hoje, “Persona” é o nome mais usado.

Animais Noturnos

Demorei semanas para escrever sobre “Animais Noturnos”. Sabia que o filme – o segundo de Tom Ford, estilista e agora diretor – tinha provocado certos sentimentos, tinha enchido os olhos e apunhalado o coração com suas histórias trágicas e atuações intensas. Mas não conseguia definir qual era, realmente, a mensagem, até algumas noites atrás, quando acordei no meio do sono com a resposta: “Animais Noturnos” é um filme sobre representações. Seu objeto não é o amor, nem a vingança: é a arte.

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O longa, inspirado no romance “Tony e Susan”, de Austin Wright, conta a história de Susan (Amy Adams), uma mulher bem-sucedida e elegante, dona de uma galeria de arte e um casamento falido. Um dia, ela recebe de seu ex-marido (um caso quase secreto, da juventude) um manuscrito de seu novo livro, dedicado a ela. O título é “Animais Noturnos”, apelido que ele lhe dera por conta de sua insônia, e o conteúdo é uma violenta e emocionante tragédia sobre uma família que, após ser perseguida numa estrada deserta, é separada e dilacerada.

O filme, então, acompanha essa ficção dentro da ficção, enquanto Susan devora a obra de Edward (Jake Gyllenhaal), resgata memórias de seu passado juntos e questiona o rumo que levou sua vida. Na prática – no presente vivido por Susan – muito pouco acontece. Ela lê, é tocada por aquilo, passa por uma transformação interna, mas sua rotina continua a mesma. Por dentro, seus sentimentos são um furacão, mas, por fora, sua expressão é limitada a um gesto ou uma mensagem.

Nesse contraste radical, a arte parece servir para conferir um significado brutal às ações simples e até banais com as quais o casal se comunica na vida real. Talvez uma ligação não respondida ou um olhar angustiado possam ter, para uma pessoa apaixonada, efeitos tão devastadores quanto os crimes hediondos descritos no papel. E talvez uma boa vingança não precise, necessariamente, ser feita com sangue.

“Animais Noturnos”, além de forte no conteúdo, também ganha pontos pelo casting: ao lado de Adams e Gyllenhaal, estão nomes como Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson e Isla Fisher (que, não por acaso, se parece muito com Adams). A fotografia também é destaque, empregando tons quentes de faroeste nas cenas do livro e cores mais vibrantes e primárias na realidade de Susan (um universo de moda que até faz lembrar “Demônio de Neon”, com direito a uma participação curta de Jena Malone).

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A sequência de abertura ainda é um mistério – um ensaio com mulheres obesas e nuas interpretando fantasias sexuais, no meio das quais surge Susan, magra e impecavelmente vestida. Seria essa mais uma crítica à ditadura da beleza exterior? Seria apenas uma piscadela de Ford para o esquelético mundo da moda? Seriam aquelas mulheres reais e Susan, uma farsa?

Talvez a arte não se contente com uma única explicação.

Sobre “O Lar das Crianças Peculiares” ou Seja bem-vindo de volta, Tim Burton

Tim Burton está de volta. E, com isso, eu quero dizer realmente de volta – de volta a si, ao seu estilo, aos seus temas e aos seus universos bizarros e incompreendidos. Ironicamente, foi preciso mergulhar no trabalho de outro artista para que isso acontecesse: seu novo filme, “O Lar das Crianças Peculiares”, que estreia no dia 29 de setembro, é a adaptação do livro “O Orfanato da Sra. Peregrine Para Crianças Peculiares”, romance de Ransom Riggs lançado em 2011 e inspirado num conjunto de fotos antigas e excêntricas.


“O Lar das Crianças Peculiares” conta a história de Jake (Asa Butterfield), um menino desajustado e sem amigos que cresceu ouvindo as histórias de seu avô sobre um orfanato isolado onde viviam crianças com poderes mágicos. Com o tempo, e sob o julgamento constante dos colegas e do pai, o menino deixou de acreditar nas histórias e aceitou o fato de que seu mentor estava apenas velho e demente.

Se você sentiu nesse primeiro momento um eco de “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”, provavelmente não é por acaso: o filme está cheio de auto-referências, incluindo duas sequências maravilhosas filmadas em stop-motion. Na primeira, um duelo entre bonecos grotescos que ganham vida graças à peculiaridade de uma das crianças, revemos a criação de Edward em “Edward Mãos de Tesoura”. Na segunda, uma batalha entre esqueletos e monstros sob uma trilha musical pop, vêm à mente tanto o videoclipe “Bones”, que Burton dirigiu para a banda The Killers, quanto o clássico “Jasão e os Argonautas”, animado pelo mestre do stop-motion Ray Harryhausen em 1963. Há, ainda, uma cena em que uma criança projeta um filme a partir de seus sonhos (habilidade que, creio, não existe no livro), numa homenagem belíssima ao cinema fantástico como um todo.

De volta ao filme, depois de alguns eventos misteriosos, Jake viaja com o pai para a ilha onde ficava o orfanato da Senhora Peregrine (Eva Green) – em ruínas, depois de ter sido bombardeado na Segunda Guerra Mundial. O pai, diga-se de passagem, é uma figura irresponsável e sem nenhum tato para se relacionar com o filho e, logo, Jake consegue se desvencilhar dele para descobrir que o orfanato ainda vive – em outro tempo, mas vive.

O filme brinca com viagens no tempo e “loops” temporais para trazer novidade a uma história já bem gasta – a mesma dos quadrinhos “X-Men”, onde mutantes rejeitados pela sociedade são acolhidos na escola de Xavier*; ou da série “Harry Potter”, onde bruxos vivem disfarçados entre pessoas comuns, mas estudam e trabalham em ambientes secretos.

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O trunfo do filme, porém, não está nesse contexto comum, nem no fato de que, como em tantos outros contos, o espectador é incentivado a questionar a natureza fantástica daqueles eventos (seriam as crianças “peculiares” apenas refugiados judeus durante a guerra?). Seu encanto, pelo contrário, está no que ele traz de mais particular – naquele ponto delicado onde termina Riggs e começa Burton.

Seria injusto diminuir a importância do livro ou do autor, mas, como na versão impressa, “O Lar das Crianças Peculiares” também encontra sua voz mais expressiva nas imagens do que no texto. E as imagens de Burton dizem muito sobre o seu momento como diretor.

Nesta aventura, é como se Burton deixasse sua imaginação correr solta e, inspirado pelo universo criado por Riggs, quisesse explorar todas as possibilidades que cada personagem peculiar lhe oferecia, sem se prender à lógica ou a tendências de mercado. O resultado é uma experiência fascinante e surpreendentemente singular.

Tecnicamente, Burton deixa para trás todos os excessos que marcaram sua obra e encontra um equilíbrio que só pode ser descrito como “maturidade”. Desta vez, ele explora o CGI como instrumento e não como fim (como fizera em “Alice no País das Maravilhas”), ao mesmo tempo em que se permite reverenciar o cinema de outro tempo com técnicas artesanais, cenários reais e uma narrativa inocente centrada em personagens juvenis, como nos melhores anos de Spielberg.

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Em termos de conteúdo, Burton parece ter enxergado na obra de Riggs a oportunidade para explorar alguns de seus temas mais caros: a sensação de não-pertencimento ao mundo (que leva seus personagens, frequentemente, a habitarem dois universos distintos), a valorização daquilo que é diferente e visto como “monstruoso” (repudiado por esse mesmo “mundo real”), relações conflituosas com a figura paterna e uma combinação muito particular de elementos sombrios e infantis.

Para quem gosta da tradição do cineasta de repetir colaboradores, temos de volta Eva Green (que trabalhou com Burton em “Sombras da Noite”) e arrisco dizer que esta não será a última vez que veremos Asa Butterfield. O ator de 19 anos tem o perfil ideal do “herói burtoniano”, atualizado para uma fase mais sóbria do diretor: ele é esguio, de olhos expressivos e aparência frágil, com um quê de introspectivo e um potencial enorme para se transformar, física e emocionalmente, no decorrer de um único filme.

Por fim, Burton parece ter se identificado tanto com o próprio filme que decidiu fazer uma pequena participação especial (uma piscadela – repare na cena do parque de diversões), como se dissesse aos fãs que este filme, com seu jeito old school, seu ar vitoriano e seus personagens exóticos, fosse mesmo um retorno ao que seus fãs tanto amavam em sua obra. E como é bom tê-lo de volta.

 

*Curiosidade: a roteirista de “O Lar das Crianças Peculiares”, Jane Goldman, trabalhou nos roteiros de “X-Men: Primeira Classe” e “X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido”.

FC! Review – Nerve – Um Jogo Sem Regras

Olá, meus queridos! Esta semana o Review atrasou um pouquinho, mas, antes tarde do que nunca, aqui estamos, prontos para falar sobre um filme interessantíssimo que entrou em cartaz agora no dia 25 de agosto.

Nerve – Um Jogo Sem Regras” é um filme de ação com uma pegada adolescente que discute a cultura da internet a partir de um jogo de celular. Primeiramente, um pouco de contexto: o filme é dirigido por Henry Joost e Ariel Schulman, que já tinham trabalhado um tema semelhante no documentário “Catfish”, de 2010, que mais tarde virou uma série da MTV. Esse filme mostrava um relacionamento virtual que, depois de meses, descobria ter sido baseado em várias mentiras, e acabava refletindo sobre os perfis falsos que as pessoas criam na internet.

“Nerve” é baseado num livro homônimo de Jeanne Ryan e conta a história de Vee, interpretada no filme por Emma Roberts, que decide participar de um jogo só para provar a si mesma e à melhor amiga que não é uma covarde.

O jogo é um aplicativo de celular que funciona como um “verdade ou desafio”, mas só com o desafio. Você pode escolher entre ser um “Jogador” e cumprir os desafios em troca de dinheiro, ou um “Observador” – que é quem paga para propor os desafios e assistir, já que tudo é filmado pelo celular do próprio jogador e de outros observadores que estiverem por perto. Ou seja… Vigilância é definitivamente um tema. O jogo só dura 24 horas em cada cidade e, se você falhar ou quiser parar, perde tudo.

Mas quem está por trás de tudo isso? Quem é o supervilão que está olhando tudo e tem um interesse oculto explorando a diversão dos pobres adolescentes? Ninguém. Quer dizer, existe um grupo fundador, mas, uma vez lançado o jogo, quem manda são os usuários. E, nesse ponto, o filme me fez lembrar de um livro do Dave Eggers chamado “O Círculo”, que vai inclusive virar filme com a Emma Watson, que também falava da internet como um instrumento para formar uma consciência coletiva opressora.

E eu acredito que esse seja o grande tema que se pode discutir com o filme: a coletividade como o vilão. Ao invés do antagonista autoritário, do presidente Snow que a gente viu nos Jogos Vorazes, aqui quem decide o destino dos jogadores é o público, é a pessoa comum que mergulha numa psicologia de massa e faz coisas que individualmente não faria. Por estar num jogo, a coisa é ainda pior porque ela perde a noção de consequência dos seus atos.

Essa lógica não é muito diferente da que a gente vê na internet hoje, com mobilizações extremas surgindo diariamente, seja sobre um filme de super-herói ou sobre política, movidas por essa pulsão de coletividade.

Voltando um pouco ao filme, a gente também pode pensar no jogo como uma metáfora para as redes sociais em geral. Afinal, já existe essa exposição do indivíduo como celebridade, independente de quem seja e do que faça; já existe a interferência do público sobre a realidade do outro – pense no caso da youtuber que acharam que tinha sido sequestrada; e já existe a obsessão por likes e seguidores, porque hoje em dia isso é sinônimo de dinheiro para uma minoria.

Dito isso…. O filme tem, sim, muitos problemas, apesar de estimular a reflexão e ser uma ação bem divertida com atores carismáticos. O primeiro problema é o desenvolvimento de personagens. A Vee, por exemplo, é apresentada como fotógrafa, mas isso não é explorado em nenhum momento – mesmo sendo uma coisa que poderia contar para ela ter um ângulo melhor de um desafio, por exemplo. Ela também tem uma relação conturbada com a mãe, que é superprotetora, porque já perdeu um filho… Mas isso também não evolui e a mãe, interpretada por Juliette Lewis, fica sobrando.

Outro problema, pra mim o que mais incomodou, é a continuidade e a atenção aos detalhes. Logo de cara, a gente vê a protagonista mexendo no computador com a setinha do mouse. Segundos depois, ela clica na tela, que de repente virou touch. Isso acontece o filme inteiro. Outra falha são os botões do jogo, que ora aparecem em inglês, ora em português. E, para completar, as datas são uma confusão – nem tente entender quantos anos a Vee tem e em que ano eles estão, porque os números não batem. Não dá para saber se a história se passa num futuro próximo ou hoje, o que poderia ser um dado importante.

Num balanço, acho que “Nerve” merece uma atenção especial porque faz uma coisa que não víamos desde “Matrix”…. Que é inserir uma reflexão filosófica sobre o mundo atual usando um blockbuster, com ação, romance e um apelo adolescente capaz de expandir a mensagem e gerar perguntas. Infelizmente, o filme provavelmente não vai ter um alcance tão grande assim, mas, a quem alcançar, espero que coloque pelo menos uma pulga atrás da orelha: será que eu tenho o controle sobre a minha vida virtual ou são os meus seguidores que estão determinando meus passos?

Deixo vocês com esse pensamento.

Por hoje é só, mais vídeos como este, você encontra no canal Fala, Cinéfilo! . Tchau tchau!

Girls’ Night Out

Às vezes me esqueço de como é ir ao cinema sem estar trabalhando. Sem ter que prestar atenção a cada elemento do filme ou refletir sobre suas mensagens e apenas reagir a ele – apenas rir, despreocupada, de todos os seus absurdos e das pequenas identificações que ele provoca, sabendo que a pessoa ao lado não vai se incomodar com isso. Continuar lendo “Girls’ Night Out”

FC! Review – Esquadrão Suicida


Chegou a hora de falar algumas verdades sobre um dos filmes mais aguardados do ano. “Esquadrão Suicida”, aposta da DC para subverter o gênero de super-heróis com um grupo de vilões enlouquecidos, estreia nesta quinta-feira, 4 de agosto, e já está dividindo opiniões. Afinal, será que esta estreia faz justiça ao hype? Confira nossa análise no FC! Review de hoje!

Confira mais vídeos sobre cinema no canal Fala, Cinéfilo!