Verão de 85: tem Ozon estreando nos cinemas

Acho que, depois de seis ou sete filmes, já posso dizer que sou fã do François Ozon. Não que eu AME todos os trabalhos do diretor francês, mas suas contradições me fascinam desde Dentro da Casa, de 2012 – meu favorito até hoje. Para mim, Ozon representa a intersecção entre a ousadia e a delicadeza, os temas polêmicos e a forma suave. Seus filmes sempre carregam uma tensão sexual que se equilibra entre a curiosidade e a obsessão, suas histórias sempre explorando relações de poder, identidades ambíguas e os mistérios da ficção – o quanto nos transformamos em personagens quando contamos nossas histórias. Seu novo trabalho, Verão de 85, não é diferente.

O filme, que se inspira no livro Dance on my grave, de Aidan Chambers, e teria sido lançado no Festival de Cannes de 2020 se esse não tivesse sido cancelado, conta a história de um adolescente certinho, Alexis (Félix Lefebvre), que conhece um garoto um pouco mais velho (David, interpretado por Benjamin Voisin) que é praticamente seu oposto – alto, corajoso, confiante – e, é claro, se apaixona intensamente. Porém, o filme começa com uma narração de Alex, detido e irreconhecivelmente soturno, falando sobre morte, cadáveres e… Bem, sobre como David se transformou em um.

E é assim, com a sugestão de uma tragédia e um crime ainda não explicado, que começa essa história ensolarada sobre o amor e a inocência juvenil. Verão de 85 não é um suspense nem um horror, como a abertura faz parecer, mas Ozon gosta de deixar seu espectador com a sensação de que ele tem uma carta extra na manga – algo que você não sabe, e que torna tudo um tanto mais misterioso. Como a mãe de David (Valeria Bruni Tedeschi), que flerta com Alex de um jeito que beira o impróprio, e às vezes repousa alguns segundos numa expressão de loucura, provável reflexo da perda recente do marido.

A relação entre Alex e David também não é simples. Talvez o amor homossexual, tema frequente no cinema de Ozon, seja ideal para exprimir a tensão latente que ele tanto gosta de explorar. Não que eles hesitem em assumir qualquer coisa um ao outro ou a si mesmos, mas seu romance ainda se esconde do mundo – e das mães – sob paredes finas e portas fechadas. 

Para complicar, David propõe a Alex um pacto eterno: o último a morrer dançará no túmulo do outro. É uma proposta poética que combina com a personalidade imprudente de um e com o gosto pelos rituais fúnebres do outro. Alex se encanta por múmias, pirâmides e culturas que valorizam o além-vida, mas tenta explicar que isso não faz dele um psicopata ou um suicida. Não é que ele queira morrer, mas, aos 16, a morte está distante o suficiente para não ser ameaçadora. Ou isso é o que ele pensava.

É uma pena que Verão de 85 crie tantas expectativas sobre o seu final, que não corresponde. Ainda assim, o conjunto funciona e tem beleza, como um Me chame pelo seu nome em que os dois lados são adolescentes extremos e perdidos. O longa estreia nos cinemas neste fim de semana (a partir de 3 de junho), e deve chegar nos próximos meses às plataformas digitais. Já o próximo filme de Ozon, Tout s’est bien passé, já está no forno e, vejam só, competirá em Cannes no mês que vem. Não sei nada sobre ele e já quero ver.

DENTRO DA CASA

Tem coisas que, mesmo depois de tantos anos de globalização, só o cinema francês consegue compreender e expressar com arte. Coisas como aqueles sentimentos reprimidos com os quais ainda não sabemos totalmente como lidar. Coisas como o vouyeurismo – esse desejo inexplicável de saber o que se passa na intimidade do outro e, mais até do que isso, de penetrar essa intimidade, de se fazer parte dela por um instante que seja. Não estamos falando de BBB ou reality shows que de reais não têm nada: em “Dentro da Casa”, filme que estreia nesta sexta-feira (29/03) nos cinemas, François Ozon vai fundo na invasão de privacidade e toca nossos medos mais primitivos.

Fabrice Luchini (o marido impagável de Catherine Deneuve em “Potiche: Esposa Troféu”, dirigido por Ozon) é Germain, um professor de francês que despreza os textos de seus alunos e não hesita em distribuir notas baixas ou expor os erros dos adolescentes em sala de aula. Tudo em nome da boa literatura, ou ao menos é o que diz. Ele é casado com Jeanne (Kristen Scott Thomas), dona de uma galeria de arte contemporânea, e ridiculariza esse conceito sem piedade – ideias não vendem, afinal. O que conta é a beleza da obra, é o efeito.

Germain encontrará essa beleza na narrativa de um aluno até então desconhecido por ele: Claude Garcia (Ernst Umhauer). 16 anos, bonito, tímido, extremamente habilidoso com as palavras e observador. Bastam dois episódios – cada um com pouco mais de uma página, entregues como lição de casa falsamente despretensiosa – para que Germain seja fisgado e decida ajudar o garoto a completar sua história, mergulhando ele também nas tentações vouyeurísticas do jovem escritor.

O conteúdo dos textos preocupa Jeanne: Claude narra suas visitas à família do colega Raphael, um menino de classe social mais alta cuja casa ele observara durante todo o ano anterior e por cuja mãe ele desenvolve uma paixão platônica. Umhauer lembra os meninos-fetiche do cinema francês (Antoine Doinel, Louis Garrel)  e arranca arrepios ao extrair diferentes camadas do seu personagem: um jovem sedutor à primeira vista, que aos poucos se revela frio e matemático, mas também inseguro e carente, depois cruel e vingativo. Nunca sabemos o que esperar de Claude (exceto na previsível sequência na casa de Jeanne, perto do final), nem se simpatizamos ou não com ele.

Talvez o que sentimos seja medo… Ou uma pontinha de vontade de olhar para os lados e ver se não há ninguém na porta, espiando entre as frestas. Ou, quem sabe lá no fundo, uma vontade ainda maior de abrir a janela e olhar de novo para aquelas cortinas entreabertas do apartamento ao lado, onde alguém se prepara para sair. Aonde estará indo? O que estará pensando? Quem será? Podemos inventar sua vida inteira, imaginá-la ou melhorá-la em palavras… Fazer literatura da vida cotidiana. Fazer cinema com palavras.