Margueritte: um filme doce sobre a velhice

Margueritte – com dois “t”s, porque seu pai gaguejou no cartório – é uma senhorinha magricela devoradora de livros e corajosa o suficiente para puxar conversa com um grandalhão no banco do parque. Fora das telas, ela é Gisèle Casadesus: atriz francesa com mais de 70 anos de carreira no teatro, cinema e televisão e membro honorário da Comédie Française (uma das instituições teatrais mais tradicionais do mundo). Em 2010, aos 96 anos, deu vida à protagonista de “Minhas Tardes com Margueritte” e, de lá para cá, já trabalhou em outros três longas, dois curtas e um especial para televisão.

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Apesar da lucidez, a realidade das duas mulheres tem pouco em comum. Margueritte não pode mais trabalhar: foi afastada pela família para um lar de idosos (caríssimo e muito bom, mas solitário como todos) e está prestes a perder a visão e, com ela, seus livros. Além dela, outra senhora também vive momentos difíceis no filme de Jean Becker: a mãe de Germain (o grandalhão de quem falamos antes), cujo nome não sabemos, que está ficando caduca.

“Minhas Tardes com Margueritte” não é um drama, nem um filme tapa-na-cara sobre a velhice como “Amour”, de Michael Haneke ou “Poesia”, de Chang-dong Lee. É um romance feel-good, que mostra o crescimento de um homem pouco educado por meio da figura materna (materializada em Margueritte) e da literatura. Germain talvez não seja tão bruto quanto deveria, mas talvez a intenção não fosse essa, e sim mostrar alguém simples, feirante, que sempre foi menosprezado, mas nunca reagiu com rancor. Falta-lhe, apenas, a cultura da delicada senhora, para que seja uma pessoa feliz.

Apesar de exageradamente otimista, “Margueritte” é um filme poético. Sua mensagem não é a crítica social, mas o elogio à leitura e à língua francesa (Albert Camus é um dos autores lembrados). Prova disso é o título original “La Tète em Friche”, que significa algo como “a cabeça desperdiçada”, referência à grande capacidade de imaginação de Germain, que jamais leu um livro. A obra é baseada no livro homônimo de Marie-Sabine Roger e traz, na cena final, um trecho de poesia que fecha com graça os curtinhos 82 minutos de filme.