Vidas pequenas

Levei três meses para ser arrebatada pelo efeito colateral mais óbvio da quarentena: o apequenamento da vida. É claro que já o conhecia bem num sentido concreto, considerando os cinquenta metros quadrados do meu apartamento, mas agora lido com um encolhimento mais abstrato… Sinto-me, de repente, fechada em perspectivas claustrofóbicas de espaço e tempo.

Não tenho dúvidas de que devo metade desse feeling poético à pandemia e metade a leituras recentes de Walter Benjamin e Marc Augé. Um me disse que perdemos a noção de eternidade quando nos afastamos dos nossos mortos, e também dos vivos com suas histórias de pescador. O outro, que transformamos o que tínhamos de História em ruas, placas e monumentos e nos reduzimos a espectadores fugazes, sempre de passagem a algum outro não-lugar. 

E isso tudo me deu uma vontade louca de viajar, bem agora. E visitar museus. Experimentar a História em cinco sentidos e saber com os poros que existem coisas maiores do que o cotidiano, que o meu quarteirão e que todas as abas do meu navegador. Coisas que estavam aqui antes de mim ou de você e que estarão aqui depois, exceto na ocasião de um terremoto. E com elas poderíamos reaprender coisas que a quarentena nos tem esquecido, e que não se entende direito por livros nem imagens, nem lives nem podcasts. Coisas que lembram o infinito.

O problema é que hoje não me sinto infinita, e aposto que você também não. Sinto-me trancada no Dia da Marmota com pouco a contemplar além do agora e do daqui a pouco, do aqui e do logo ali. O que era mesmo que estávamos construindo? Olho o mundo e vejo-o pequeno, de memória curta e vista embaçada, e não tenho certeza de quando a doença começou. 

Foi a pandemia ou a modernidade?

Crítica: com elenco forte, “As Sufragistas” retrata movimento feminista no início do século XX

Não poderia haver momento mais oportuno para o lançamento de “As Sufragistas”. Baseado na história real do movimento britânico pelo direito ao voto feminino no início do século XX, o longa mostra o quanto já foi conquistado no caminho pela igualdade entre os gêneros, mas também permite ver o quanto ainda não foi.

sufragistas

Para quem pretende comprar o ingresso para ver a “diva das divas” Meryl Streep, fica o aviso: ela tem uma participação mínima no filme. A verdadeira protagonista é Maud Watts, interpretada por Carey Mulligan e acompanhada, na maior parte do tempo, por Violet Miller (Anne-Marie Duff) e Edith Ellyn (Helena Bonham Carter).

O filme acompanha a evolução de Maud, da negação do movimento sufragista (nome dado ao grupo organizado de mulheres que lutavam pelo voto, ou “sufrágio”) à militância extrema. Lavadeira, esposa e mãe, ela começa a questionar o próprio papel na sociedade quando, por um incidente, é levada a depor a favor do voto diante de um júri formado por homens.

O marido de Maud, vivido por Ben Whishaw, tem uma presença essencial no filme, representando o machismo internalizado que se disfarça de preocupação com a mulher. É dele que partem algumas das atitudes mais devastadoras da trama. O filme de Sarah Gavron mostra o quanto a militância exige daquelas mulheres, que abrem mão de suas famílias pelo sonho de uma vida melhor para suas filhas ou as filhas dos outros, pois sabem que a mudança não virá em seu tempo.

Para quem assiste à história hoje, algumas passagens são tão absurdas que parecem até ficção – como o fato de as mulheres não serem donas do próprio dinheiro, ou de não poderem ter a guarda (nem mesmo compartilhada) do próprio filho – mas outras, infelizmente, soam bastante familiares. É o caso de frases como “você é minha esposa, deveria se comportar como tal”, “mulheres não têm consciência do que estão fazendo” ou “controle sua mulher, ela está passando dos limites”.

“As Sufragistas” segue um formato linear de romance histórico, apostando nos pequenos gestos opressores mais do que em grandes confrontos. Talvez por isso, o filme não consegue surpreender ou superar as expectativas, atendo-se a cumprir exatamente o que prometera: uma história real dramatizada com o auxílio de uma história pessoal comovente. Não falta técnica à produção, mas falta ousadia. E, como o próprio filme ensina, a ousadia é necessária para provocar mudanças.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.