Persona (Ingmar Bergman, 1966)

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Não sei vocês, mas eu ainda não tinha assistido ao clássico “Persona”, de Ingmar Bergman, até a última quarta-feira. Na verdade, minha experiência com o diretor sueco se limitava a “O Sétimo Selo”, o que, considerando agora, faz “Persona” parecer moleza. O fato é que aproveitei a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e sua homenagem aos 50 anos do filme para mergulhar nos olhos enigmáticos de Liv Ullmann e na transparência de Bibi Andersson e posso dizer que poucas vezes saí tão tocada de uma sala de cinema.

Talvez seja pessoal. Ou talvez tenha sido o perfeccionismo da fotografia de Sven Nykvist que me hipnotizou: acho que nunca vi uma iluminação tão perfeita aplicada a enquadramentos tão significativos… É como se todos os frames tivessem uma razão muito bem definida para existir, e cada um deles tivesse pelo menos duas ou três mensagens para expressar, antes mesmo de considerarmos os diálogos.

Aliás, que diálogos! Este é um daqueles raros filmes que conseguem dar o mesmo peso à imagem e ao texto, valorizando a interpretação das atrizes acima de tudo. Ullmann interpreta uma atriz, inclusive. Uma atriz chamada Elizabet Vogler que emudece durante um ensaio da peça “Electra” e, a partir de então, não profere mais uma única palavra.

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Andersson entra, então, como sua enfermeira num hospital psiquiátrico, Alma. Tagarela e um pouco ingênua, ela cria uma intimidade com a paciente e passa a usá-la como confidente, tirando proveito do fato de que sua interlocutora não poderá expressar seus julgamentos.

Esse jogo de poder entre as duas tem uma força que vai crescendo junto com o filme. É fácil interpretar sua relação como se uma se transformasse na outra, ou como se as duas fossem partes de uma mesma identidade – a atriz e sua persona, a enfermeira e sua boneca. Mas há algo a mais ali… À medida que a história evolui, o “dueto” vai ganhando diferentes significados, simbolizando conflitos diversos e não necessariamente aplicáveis a uma única personagem, mas a toda a humanidade: vemos duelarem verdade e ficção, silêncio e voz, fé e desesperança, fama e anonimato, guerra e paz.

Pessoalmente, o contraste mais claro para mim é entre consciência e comportamento. É entre o que as personagens realmente sentem e o que seria socialmente aceitável, o que elas inclusive esperam de si mesmas. O resultado dessa conta só pode ser a corrosão pela culpa, para uma, e a “desistência” da vida em sociedade para a outra. O silêncio de Elizabet é como um suicídio perante o mundo, mas é a única sobrevivência possível dentro de si mesma: para não mentir, ela se cala. Para não mais representar o papel de mulher ideal (ou seja, de “mãe” – já que, mesmo sendo famosa e bem-sucedida ela não é vista como “completa” por seus colegas), ela escolhe não representar mais nenhum.

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Talvez Elizabet projete em Alma uma versão mais aceitável de si mesma, para lidar com a própria consciência. Ou talvez seja Alma que enxergue em Elizabet seus medos mais profundos, o lado mais feio de sua natureza. Seja como for, não faz sentido dar uma resposta simples a um Bergman.

É preciso ver e sentir à sua própria maneira.

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Nota: no Brasil, o filme teve o título traduzido para “Quando Duas Mulheres Pecam”. Felizmente, com o tempo essa versão foi caindo em desuso e, hoje, “Persona” é o nome mais usado.

O SÉTIMO SELO – DESCOBRINDO BERGMAN

Assistir a uma partida de xadrez entre a Morte e um cavaleiro das Cruzadas foi um ítem há muito esquecido na minha lista de prioridades. Mas bastou uma visita à locadora, naquela sessão bem ao fundo onde se guardam os Grandes Diretores, para que “O Sétimo Selo” piscasse para mim e me implorasse para ser visto. Lembro-me de ter ouvido falar dele já nos últimos anos de colégio, durante uma Mostra Internacional de Cinema ou algo assim. Desde então, ele esteve lá, adormecido no final da lista, até hoje.

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Falar de Ingmar Bergman (o diretor sueco de mais de 60 filmes, que colocou um pouco de suas próprias angústias na tela e se tornou cultuado até hoje) é um desafio, mas há algo que se pode pegar com clareza, seja nos closes fechados nos olhos dos atores ou na luz fortemente contrastada de “O Sétimo Selo”. Bergman busca respostas.

Surpreende que a filmagem pareça tão mais tosca que em outros filmes da mesma época (ele foi feito em 1957, em plenos anos dourados de Hollywood). Mas este não é um produto de Hollywood, e fica clara aqui a diferença de estrutura e de intenções – compreender o homem e sua mente soa mais importante para o sueco do que entreter o público.

Max Von Sydow é Antonius Block, o cavaleiro que desafia a Morte (Bengt Ekerot, num figurino negro que deixa exposto apenas seu rosto redondo e branco, mais bizarro que assustador) numa partida de xadrez. Com isso, Block pretende ganhar tempo para, diz ele, fazer algo de bom. Na verdade, o que ele procura é entender o silêncio de Deus e a própria mortalidade.

Seu medo se reflete em todos a sua volta, que se desesperam diante da Peste que se espalha rapidamente e reagem de formas diversas à iminência da morte. Uns aceitam-na como o destino natural (como o pintor na capela). Outros apelam para o autoflagelo em busca de perdão. Já o ateu Jöns, escudeiro de Block, insiste não haver nada além do vazio após o fim. “Meu mundo é só meu e só acredito em mim mesmo”, brada ele, indiferente às ameaças que surgem de todos os lados.

Uma família de atores se une à “cruzada”, não atrás de respostas, mas sim de continuar vivendo em harmonia – eles são os mais ingênuos e, ao mesmo tempo, os mais sábios, nos provoca o diretor.

Pincelado com esquetes cômicas e uma ou outra cena de violência, “O Sétimo Selo” nos traz um apanhado de situações duvidosas, que põem em questão princípios básicos como o amor e a generosidade, discutindo assim não a morte ou Deus ou o Diabo, mas apenas a consciência do ser humano.

Se é bom? Bem… Só garanto que não é fácil.