Robin Hood – A Origem: mais um remake sem nada a acrescentar

Mais um ano, mais um remake ambicioso com o subtítulo “a origem” chega aos cinemas. Desta vez, é o justiceiro Robin Hood que ganha sua enésima rodada nas telas, agora com o rostinho bonito de Taron Egerton, uma coleção de roupas inexplicavelmente modernas e o festival de pirotecnia e efeitos visuais que se espera de qualquer superprodução de respeito. Continuar lendo “Robin Hood – A Origem: mais um remake sem nada a acrescentar”

DJANGO LIVRE: TARANTINO ACERTA EM BANHO DE SANGUE COLONIAL

A História está na moda. Especialmente um certo período da história, quando senhores de engenho tratavam sua legião de escravos à base de açoite e cães famintos. Está na moda sem dúvida: de 2012 para cá, pelo menos quatro filmes (dois americanos e dois brasileiros) já se ocuparam do tema, cada um à sua maneira. Na briga pelo Oscar, a trajetória do ex-presidente Lincoln contra a escravatura e a consequente Guerra de Secessão, nas mãos de Spielberg, contrastou com a narrativa ficcional tarantiniana de um escravo liberto com ares de caubói, dois anos antes da mesma guerra. Por aqui, tivemos O Som ao Redor, de Kléber Mendonça, passando sutilmente pelo passado escravista do Recife e, mais recentemente, Uma História de Amor e Fúria trouxe a revolta dos Balaios de volta à evidência.

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Pode parecer coincidência, mas o fato de tantos filmes se ocuparem de um tema não tão amado pelo público, ao mesmo tempo, é algo que traz em si uma reflexão. No caso de “Django Livre”, o tão chamado “western spaghetti” de Quentin Tarantino, a violência é o que salta aos olhos. Não aquela dos jatos de sangue e das paredes tingidas de vermelho escuro, que apenas servem para dar mais teatralidade ao todo, mas a das ameaças do poderoso Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), das brigas de mandangos atiçados até a morte como galos (vem à mente o estádio do Coliseu e os ringues de MMA) ou dos cartazes de “Procurado: vivo ou morto” que os caçadores de recompensas levam no bolso.

“Os fazendeiros trocam pessoas vivas por dinheiro. Eu troco corpos por dinheiro. É mercado de carne do mesmo jeito”, explica com naturalidade o caçador de recompensas Dr. King Schultz (Christoph Waltz, em atuação premiada no Oscar) a um (até então) incrédulo Django Freeman (Jamie Foxx), escravo liberto por Schultz para ajudar na caça a três feitores. A comparação é sagaz: crescemos acostumados aos filmes de bangue-bangue e aos cartazes de cabeças com preços, mas nunca nos habituamos de fato à escravidão. Parece absurdo demais comercializar pessoas… Bem, a ideia fica ainda mais intragável quando lembramos que a escravidão é uma realidade, em diversos níveis, até hoje.

Longe de ser um filme puramente divertido, com violência gratuita, Django opera naquele limite irônico entre a piada e a denúncia de uma realidade indigesta. Entre cenas caricatas com tiros e explosões, há torturas bastante chocantes com máscaras e nudez. O jovem negro andando a cavalo é recebido como ofensa por brancos e provocação por outros negros; sua submissão é justificada “biologicamente” por marcas no crânio. Por que ele fala tão bem? Como ousa responder assim? Que loucura dar a ele uma arma! A verdade é que, com ou sem escravidão, o preconceito e a expectativa de um “lugar social” para os negros é ferida recente em todo o mundo ocidental. Obama, apesar de tudo, foi uma surpresa, não foi? E a possibilidade de um papa negro, que ousadia?

Foxx está perfeito no papel do anti-herói com pensamento rápido e gatilho certeiro, que faz de tudo para resgatar a amada Brunhilde – referência inusitada a um mito nórdico, que dará o tom épico à caçada de Django e Schultz. Waltz, nem é preciso dizer, está hilário (é difícil imaginá-lo num papel tão oposto ao do coronel Hans Landa, de Bastardos Inglórios, mesmo que igualmente alemão) e DiCaprio entrega um vilão arrepiante.

O ponto fraco de “Django” (para os menos pacientes) é a duração: são mais de duas horas e meia, com um falso final e uma sequência desnecessária com a participação do diretor. O verdadeiro desfecho, que deveria ser apoteótico, perde força com tantos percalços. Curioso pensar que o júri do Oscar elegeu o roteiro como o melhor do ano (e não elegeu “Bastardos” quando teve a chance…). Ainda assim, como sempre, Tarantino trabalha num padrão de qualidade acima da média e faz de “Django” um dos grandes filmes do seu tempo.