Crítica: “A Colina Escarlate” explora fantasmas e mistérios com pegada mexicana

Se Guillermo Del Toro tem uma característica que o diferencia da maioria dos diretores da sua geração (com exceção, talvez, de Neil Blomkamp e Joon-ho Bong), é a de incorporar em qualquer que seja seu projeto um pouco de sua terra-natal. Suas referências europeias, estadunidenses e até japonesas são evidentes em cada trabalho, mas o México, com suas cores quentes, sua relação peculiar com os mortos e suas paixões exageradas, está sempre ali.

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A Colina Escarlate”, que estreia nesta quinta (15 de outubro) nos cinemas, talvez seja um dos filmes mais “mexicanos” de Del Toro, sem deixar de ser, também, um dos mais influenciados pela literatura estrangeira. Mary Shelley, a autora inglesa de “Frankenstein”, é uma de suas referências mais óbvias (citada inclusive pela protagonista logo no início), mas também podemos pensar no americano Edgar Allan Poe, no irlandês Bram Stoker e na também britânica Emily Brontë.

O filme conta a história de Edith (Mia Wasikowska), uma jovem escritora americana no final do século XIX que se apaixona por um inglês (Tom Hiddleston) chamado Thomas Sharpe, cujo título e as intenções são vistos com desconfiança pelo pai dela.

Depois de uma série de acontecimentos, Edith vai morar com Thomas e sua irmã, Lady Lucille (Jessica Chastain) num casarão que está, literalmente, afundando na argila vermelha que domina aquelas terras. É da argila, que Thomas tenta extrair e vender, que vem o nome “Colina Escarlate” – e é por causa dela que a casa, aos olhos de Edith, parece “sangrar”.

Quem também sangra são os personagens, praticamente todos. Ao explorar a brutalidade do ódio humano, Del Toro mais uma vez mostra como as criaturas de carne e osso podem ser mais assustadoras que as sobrenaturais (como fizera brilhantemente em “O Labirinto do Fauno”).

O filme é povoado por fantasmas – e que fantasmas! – mas nem por isso, curiosamente, se define como uma obra de horror. Talvez pelo fato de a cultura mexicana encarar a morte com muito mais naturalidade, o sobrenatural, aqui, não é apenas um instrumento de medo, mas tem sua função narrativa bem definida. Seja como for, o longa se mostra muito mais um romance, mas também é uma grande tragédia. Rotulá-lo seria reduzi-lo, e tudo o que Del Toro não é é pequeno.

Há problemas, sim, alguns bem graves. O enredo é previsível demais e o público, muito antes da protagonista, já compreende o mistério que ronda a família Sharpe. Isso não o impede de manter os olhos pregados na tela, seja para admirar a beleza da fotografia de Dan Laustsen, seja porque a atmosfera da casa e dos personagens aguça a curiosidade.

Outro ponto fraco no longa é o papel de Edith como escritora: no início, ela se coloca como uma feminista de personalidade forte, determinada a enviar seu manuscrito a um importante editor. Depois de chegada à casa, porém, ela parece se esquecer do próprio trabalho, o que é uma pena, já que sua experiência ali lhe daria ainda mais material para escrever.

“A Colina Escarlate” esconde, ainda, uma última camada de sentido que dá um significado muito mais amplo para a obra. O romance e suas consequências trágicas funcionam como a história de origem de uma casa mal assombrada, aquela que se tornará conhecida por todos como “a colina escarlate” e que será evitada por qualquer visitante pelos próximos séculos. Pensando por esse ângulo, o título ganha um peso bem diferente.

O filme não irá agradar a todo o público – fãs de Del Toro ou não – mas recomendo senti-lo mais do que racionalizá-lo. Afinal, é assim que o cineasta mexicano faz seus filmes, e é por isso que eles não são sempre perfeitos. Em compensação, são sempre sinceros. Coisa rara hoje em dia.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Jessica Chastain e James McAvoy protagonizam o drama “Dois Lados do Amor”

Estreia no dia 12 de março o drama “Dois Lados do Amor”, ou melhor, “O desaparecimento de Eleanor Rigby”, se quisermos manter o charme do título original. O filme de Ned Benson – estreante em longas-metragens e surpreendentemente habilidoso tanto na direção quanto no roteiro – tem provocado curiosidade desde o Festival de Cannes em 2014, quando concorreu ao prêmio “Un Certain Regard”.

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O filme foi lançado em três versões diferentes: “Ele”, “Ela” e “Eles”, sendo que a última intercala os dois pontos de vista e será a única lançada no Brasil. Isso não significa que o público vá perder algum detalhe da trama, mas, sem a divisão prevista pelo diretor, parte do sentido da obra se perde completamente.

“Ele” é Conor (James McAvoy), “ela” é Eleanor Rigby (Jessica Chastain) – exatamente como na música dos Beatles, que narra a tragédia de uma mulher solitária, de sonhos partidos. Pois é assim que se sente Eleanor, partida ao meio e sem saída, querendo ser invisível como sua xará. Conor também sofre, mas suas reações são diferentes e isso a entristece ainda mais.

Levamos algum tempo para compreender o que aconteceu àqueles dois, mas entendemos que não foi o sentimento que sumiu. Foram as circunstâncias que os obrigaram a tomar caminhos diferentes (mesmo que nenhum deles saiba muito bem para onde está indo).

O filme discute temas delicados como a maternidade e as complicadas relações entre pais e filhos, mas o faz sem forçar julgamentos, estimulando a reflexão. Chastain e McAvoy são um espetáculo à parte, carregando cada lado da história com intensidade e carisma. Benson não desperdiça seu elenco, formado também por Viola Davis, Isabelle Huppert e William Hurt, e entrega a todos eles falas que ecoam até depois da sessão.

Sem a divisão original, que exploraria a trajetória de cada um dos amantes sem revelar imediatamente o pensamento do outro, o que resta é um filme um pouco mais convencional, mas ainda assim capaz de partir o coração do espectador de mil formas diferentes. Ao mesmo tempo, o  longa consegue equilibrar a tragédia com pequenas doses de doçura e esperança – tornando o percurso simplesmente irresistível. Leve um lencinho.

Texto publicado no Guia da Semana em 5/03/2015.

MAMA: JESSICA CHASTAIN VOLTA AOS CINEMAS EM TERROR SOBRENATURAL

Certos filmes têm o poder de influenciar toda uma geração de cineastas. Pense na menininha rastejante de “O Chamado”, com seus cabelos escorridos e o clássico efeito de câmera dando aquela sensação de “TV com interferência”… Lembre-se também da garota de “O Grito”, com joelhos e cotovelos curvados em ângulos aracnídeos, e aquela voz gutural… O que dizer, então, de “A Bruxa de Blair”, que elevou galhos secos e cabanas escuras à condição de cenário máximo do terror americano?

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Bem, mas o que seriam dos filmes de gênero sem seus clichês? A novidade da semana é o terror “Mama”, protagonizado pela quase-vencedora do Oscar Jessica Chastain (que concorreu por “A Hora Mais Escura”, de 2012), produzido pelo consagrado diretor Guillermo Del Toro (que não dirigiu, mas deu seu aval ao argentino novato Andrés Muschietti) e, é claro, carregado em todos os clichês citados no início do texto.

A história é baseada no curta-metragem homônimo lançado em 2008 por Muschietti: nele, duas crianças tentam escapar de uma figura deformada, de cabelos dançantes e postura zumbítica (se é que existe tal palavra), a quem chamam de “mãe”. Na versão para o cinema, as meninas são Lilly e Victoria – filhas de um homem que perdeu tudo durante a crise econômica americana e, em desespero, matou os dois sócios e a esposa. Por pouco, não tirou a própria vida e as das garotas. Digo por pouco, já que alguém (ou algo) intercedeu por elas… Quando isso aconteceu, Lilly tinha um ano e Victoria, três.

O tio das meninas, Lucas (Nikolaj Coster-Waldau, o Jaime Lannister de Game of Thrones e futuro Sykes no sci-fi “Oblivion”), dedica os anos seguintes a procurá-las e a procurar o irmão (também vivido por ele) que não sabe estar morto. Durante cinco anos, portanto, elas vivem numa cabana abandonada num ponto ignorado do mapa, feito animais, na companhia apenas da criatura a quem chamam de “Mama”.

Para completar o quadro, Lucas vive com Annabel (Jessica Chastain, enfim), uma guitarrista imatura (por que rockeiros são sempre associados a adolescentóides egocêntricos?) com absolutamente nenhum instinto materno. A personagem poderia ser um fracasso, não fosse pelo bom senso de Chastain, que imprime humanidade na futura madrasta das meninas, a ponto de sentirmos pena e torcermos pela sua evolução, que acontece no momento certo, na medida certa.

Apesar de previsíveis, os sustos são bem dosados e é possível se interessar realmente pela trama entre uma aparição de “Mama” e outra. Há, sim, os momentos de exagero: escrever “mamamamama” no monitor da sala de hospital foi desnecessário, fazer a criatura “possuir” e, depois, transportar milagrosamente o corpo da tia de uma casa para a outra também. Mas são pequenos detalhes que podem agradar a uma parcela do público e até passar despercebidos pela outra. O final é surpreendente e ajuda a segurar a aura de terror que vinha se criando até ali: Muschietti não entrega tão gratuitamente o velho desfecho feliz – parece fazer concessões, mas mantém o controle até onde pode. Bom começo para alguém que conseguiu chamar a atenção do diretor de “Labirinto do Fauno” com um vídeo na internet.

“Mama” estreia nesta sexta, dia 5 de abril, nos cinemas.