Que jornalismo queremos?

Tenho me feito variações dessa pergunta todos os dias há algum tempo. O que é jornalismo para mim? O que eu espero dele? O que vocês esperam dele? Onde e como “consumimos” (odeio essa palavra) notícias hoje? Onde o jornalismo cultural se encaixa? Em que medida ele precisa ser um pouco publicidade, um pouco opinião, um pouco entretenimento, um pouco informação, e quando foi que essa balança passou a pender tanto para o primeiro lado? Onde estão os jornalistas culturais hoje? Eles ainda acreditam no que fazem? Alguém ainda acredita no que eles fazem?

Tantas perguntas, tão poucas respostas. Mas talvez abri-las, assim, para o diálogo, seja um jeito de encontrar caminhos.

Andei me incomodando bastante com o jornalismo em geral durante este ano atípico, a começar pelo da televisão. No jornal da manhã, vi imagens de trens lotados ilustrando o principal problema da pandemia: gente irresponsável se aglomerando feito formigas na plataforma e no interior do vagão das seis da tarde, ou das nove da manhã. Já peguei muito vagão assim. Mas não no último ano, porque minhas aulas foram online, porque tive um carro para o poucos deslocamentos que precisei fazer, e porque eu e o Gabriel pudemos trabalhar do escritório que temos em casa, montadinho com cadeiras boas, iluminação decente e dois notebooks. 

Mas, de dentro da redação, todo mundo olhou para aquelas imagens e ninguém perguntou nenhum porquê. Qual era a empresa que estava exigindo o trabalho presencial daquele funcionário que poderia estar fazendo home office, mas estava ali? Quais eram as profissões das pessoas que precisavam pegar aquele trem, naquela hora? O que as levava a preferir o transporte público lotado a ficar em casa em meio ao risco de se contaminar e não ter leito de UTI? Talvez algumas delas não acreditassem que a situação fosse tão grave assim. Talvez precisassem disso para se sentir vivas e úteis. Ou talvez faltasse auxílio financeiro para cobrir as despesas básicas enquanto não pudessem trabalhar. Talvez faltasse o bom senso do empregador para organizar rodízios e reduzir a circulação no horário de pico. Alguém tentou falar com o empregador? Talvez faltasse o bom senso das autoridades para exigir algo assim. Talvez faltasse computador e internet em casa; e talvez essa casa não fosse sequer uma opção segura. O fato é que nunca saberemos, não é? Porque ninguém perguntou. Perguntaram apenas se a companhia que gerenciava os trens tinha solução – é óbvio que não. Não foi ela que colocou aquelas pessoas ali.

De dentro da redação, todo mundo olhou para aquelas imagens e ninguém perguntou nenhum porquê.

Algo parecido se repetiu algumas semanas depois, no jornal da noite, no horário nobre. Tentando expressar indignação de forma discreta, os apresentadores colocaram na tela uma série de gráficos que resumiam uma pesquisa sobre a popularidade do presidente durante o ano de pandemia, e leram seus resultados: mais ou menos 30% considerava o governo bom ou ótimo até julho, entre agosto e dezembro esse número subiu uns 5%, depois caiu de novo. Voz firme, mas semblante feliz. Ele está perdendo. Mais alguns números, mais alguns gráficos, e é isso. Assim. Seco. 

Em algum momento, um pouco antes, alguém se dera ao trabalho de explicar que 5% significa “de cada 100 pessoas, 5”, e isso ficou na minha cabeça. Porque, vem cá: um público que não sabe que 5% significa 5 entre 100 vai mesmo ter uma leitura eficiente de uma coleção de gráficos, jogados ali sem nenhum esforço de interpretação? Me diz: que tipo de jornalismo vê uma linha subindo substancialmente e depois voltando ao normal e não se pergunta o que aconteceu de diferente naquele período? Foi efeito do auxílio emergencial? Provável. Aparentemente, para o jornal, isso não importa. Como o povo reage positivamente ao presidente não importa – mas deveria, não? Se o objetivo é mostrar o quão nocivo é esse governo, não seria interessante entender o que o povo espera dele e como ele está falhando em entregar isso?

E será que o espectador realmente se lembra de quais foram as ações e falas do presidente, ou dos governadores (que também estão nas tabelas) em relação à crise? Se uma tabela mostra uma aprovação maior dos últimos em comparação ao primeiro, não seria o caso de mostrar o que foi feito nas esferas estaduais, em comparação à federal, e de quem foi a responsabilidade por cada ato? Será que a realidade está refletida nas estatísticas ou alguma informação acabou contestada por fake news, ou omitida por outros meios de informação, para que tamanha aprovação continuasse existindo? 

Desculpem o mau humor, mas tinha a impressão de que o jornalismo servia para contextualizar e questionar, não para ler números numa tela. Vejo muito pouca utilidade num jornal que expõe o problema, mas não procura os motivos. Que impressiona com números altos e imagens horríveis, mas não explica o que está por trás desses números e dessas imagens. Que não interpreta. 

Mas voltemos à cultura, que é um mundo à parte. Lá, o esforço para contextualizar parece bem maior, e o problema é outro. É um problema de personalidade: somos jornalistas ou publicitários? Profissionais ou amadores? Blogueiros buscando fama ou repórteres tentando sobreviver? Influenciadores ou influenciados? Fãs ou críticos? Será que um dia ganharemos dinheiro com isso? Quando foi que começamos a replicar boatos sob a chancela do “diz site”? Pois é, já estava difícil muito antes da pandemia.

Tenho a sensação de que o jornalismo cultural foi ao mesmo tempo o mais beneficiado e o mais prejudicado pela cultura digital. De repente, todo mundo pode “consumir” cultura de onde estiver. De repente, todo mundo pode saber tudo sobre seus ídolos e os próximos lançamentos. De repente, todo mundo pode divulgar essas informações, e comentá-las. De repente, todo mundo é jornalista. De repente, ninguém mais é. 

Mas algo me diz que as pessoas ainda precisam de nós: precisam de quem se dedique a observar, organizar, questionar, relacionar, contextualizar, compreender. Só não encontram. Estamos perdidos. 

O que quero saber, então, é o seguinte: onde vocês procuram – e onde encontram – jornalismo hoje? Cultural, especialmente, mas não apenas. É na TV, num jornal, num portal, num canal de Youtube, no Instagram, no Twitter, no Facebook? Tik Tok? Whatsapp? Socorro. É nas pessoas ou nos veículos? Nos posts de uma distribuidora, do próprio cinema, da própria empresa de streaming (to pensando em cinema, mas vale para tudo)? É nos programas patrocinados ou encomendados por grandes redes? No bate-papo do cinéfilo amador? Não é em lugar nenhum? 

Onde estamos, afinal? E o que estamos fazendo para entregar ao leitor/espectador o que ele realmente precisa de nós?