Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão

Pedro não gosta de lugares públicos. Apesar disso, todas as quintas-feiras ele liga sua webcam e dança nu, banhando-se em tinta neon e tocando seu corpo colorido para uma plateia fiel e pagante. O vencedor do Festival do Rio e do Teddy Awards (troféu voltado para filmes queer no Festival de Berlim), “Tinta Bruta”, finalmente chega aos cinemas brasileiros no dia 6 de dezembro trazendo essa história melancólica e quase trágica para brilhar na tela. Isso, se o público estiver pronto para ela. Continuar lendo “Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão”

Crítica: Alicia Vikander e Eddie Redmayne entregam performances inesquecíveis em “A Garota Dinamarquesa”

Eddie Redmayne mal teve tempo de curtir seu primeiro Oscar, que ganhou pelo papel do físico Stephen Hawking em 2015, e já mergulhou num projeto igualmente desafiador. Em “A Garota Dinamarquesa”, o ator britânico vive o primeiro transgênero a realizar a cirurgia de redesignação de sexo, na Europa dos anos 20.

Apesar de ter tudo para ser mais um filme convencional sobre superação e luta contra preconceitos, o longa de Tom Hooper (“Os Miseráveis”) segue por um caminho bastante original: seu foco não é a sociedade, mas sim a vida íntima de Einar/Lili (Redmayne) e sua esposa Gerda (Alicia Vikander).

Hooper constrói duas histórias paralelas de emancipação: de um lado, Lili desabrocha de dentro para fora de Einar, afastando-o do trabalho de pintor que o definia perante os outros homens; enquanto, do outro, Gerda se encontra como artista e se liberta, mesmo que contra sua vontade, da dependência emocional do marido. O equilíbrio entre os dois, mantido com muito esforço, é o que move este filme.

Vikander foi uma das atrizes mais requisitadas de 2015 (ela está também em “Ex Machina”, “O Agente da U.N.C.L.E. e “Pegando Fogo”) e sua presença, de fato, faz a diferença em “A Garota Dinamarquesa”. Gerda é forte o suficiente para não perder o próprio rumo durante a transformação do marido e sensível o suficiente para compreendê-lo, levantando ao público questões importantes sobre o sentido do casamento e os limites entre amor, amizade e desejo.

“A Garota Dinamarquesa” foi indicado a quatro Oscars – além de Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante (indicação injusta, considerando que o filme segue o ponto de vista de Gerda), também Design de Produção e Figurino. Esta última indicação faz todo o sentido, já que os tecidos têm um papel essencial na narrativa: das meias aos lenços, são eles que despertam em Lili o desejo pelo feminino. Vesti-los começa como uma brincadeira, evolui para um ato erótico e, em pouco tempo, torna-se uma necessidade.

Com atuações belíssimas e uma cenografia que parece saída de um dos quadros de Einar, o filme envolve e surpreende, chegando muito perto de ser uma obra perfeita. Quinze minutos, entretanto, podem mudar tudo quando se trata de cinema. Após fechado o arco de Gerda, Hooper insiste em acompanhar Lili num epílogo sombrio e prolongado, que simplesmente não se encaixa no restante. Ao ganhar uma última virada, o poder transformador do filme se esvai, como num trágico toque de mágica, para o buraco negro dos dramas previsíveis. Foi por muito pouco.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Carol” traz às telas um romance natalino com “algo a mais”

Um dos primeiros grandes filmes do ano chega aos cinemas no dia 14 de janeiro para engrossar a corrida pelo Oscar 2016. “Carol”, de Todd Haynes, tem tudo para agradar a quem procura um romance água-com-açúcar (com um “twist”), mas também carrega uma discussão densa e extremamente relevante para o momento atual.

“Carol” é um romance natalino e, como tal, mostra uma história de amor leve (ao menos, num primeiro olhar) e apaixonante, na Nova York dos anos 50. Cate Blanchett não decepciona e, mais uma vez, está impecável no papel de uma mulher madura e incontrolável. Já Rooney Mara não chega a surpreender, mas encaixa bem no papel silencioso e observador em que a colocaram. O figurino e a trilha sonora, banhados a cinquentismos, são uma experiência à parte e se responsabilizam pelo sucesso do filme tanto quanto o roteiro ou a direção.

Blanchett é Carol, uma mulher rica que está passando por um processo de divórcio e tem uma filha pequena. Já Mara é Therese, uma jovem vendedora que vive numa espécie de inércia – insegura, ela segue seus amigos e pretendentes, sem saber realmente o que quer. Na primeira vez em que elas se encontram, Carol está procurando um presente de Natal para a filha e, por sugestão de Therese, encomenda um trenzinho, ao invés da boneca da moda. Este é o primeiro ato de subversão que as duas compartilham.

O romance que se desenvolve é construído aos poucos, entre olhares sugestivos, diálogos ambíguos e, finalmente, uma viagem decisiva. Não é por acaso que a cumplicidade é a primeira relação que elas estabelecem, ambas fugitivas de uma sociedade machista e homofóbica da qual não se sentem parte.

A história acompanha principalmente a luta de Carol, que, sendo ainda oficialmente casada (o que, para seu marido, significa que ela “é responsabilidade dele”), não consegue se libertar para viver um novo relacionamento – e o fato de sua nova parceira ser uma mulher só piora as coisas.

Se a situação parece absurda nos dias de hoje, é porque muito já foi conquistado, mas é importante lembrar que, não mais que algumas décadas atrás, metade da população se considerava genuinamente superior à outra metade – inclusive, dona dela. No filme, por exemplo, há uma cena em que uma personagem acusa Harge (Kyle Chandler), marido de Carol, de isolar a esposa, afastando-a de seus interesses e obrigando-a a cultivar apenas as suas amizades, o seu emprego e a sua família. Qualquer semelhança com a realidade, infelizmente, não é coincidência. Mas a opressão aparece também nos pequenos gestos, como num diálogo em que Harge se refere a uma amiga do casal como “a esposa de fulano”, ao invés de dizer seu nome. Soa familiar?

O que faz a diferença neste drama é o fato de suas protagonistas não se deixarem abalar. Em nenhum momento, elas aceitam o rótulo de “indefesas” ou de “loucas”, mesmo que, às vezes, sejam obrigadas a ceder em algum ponto. O amor entre elas, aqui, é tanto uma afirmação de identidade e independência quanto uma relação romântica. Ainda assim, surpreendentemente, o filme consegue ser doce, como uma canção de Natal*.

*Em inglês, “carol” é a palavra usada para designar canções natalinas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.