Agradecimentos (sinceros)

Estava pensando no quanto odeio agradecimentos em trabalhos acadêmicos, porque sempre soam falsos e burocráticos… Então decidi escrever o que eu realmente gostaria de colocar naquela página, quando entregar minha dissertação daqui a mais ou menos um mês. Talvez eu coloque de verdade… Quem sabe?


Gra-ti-dão

Agradeço a Ursula K. Le Guin por ter me dado um motivo para fazer mestrado, e peço desculpas por não ter seguido com o nosso plano. Tive medo de te odiar até o fim da pesquisa, e por algum motivo não pude deixar de escrever sobre cinema. Você não estava no cinema.

Agradeço a Philip K. Dick por ter sido minha segunda opção e inspirado o trabalho que realmente entrego agora. Não, eu não te odiei no final das contas… Só por algumas semanas, lá no meio, quando li seus contos. Sério, você tem problemas com personagens femininas. 

Agradeço também a Ridley Scott e Denis Villeneuve por terem escolhido uma obra com um nome tão longo e peculiar para adaptar e expandir (quer dizer, Androides sonham com ovelhas elétricas? não é o melhor título que você já viu?), e por terem feito desse trabalho uma arte. Se aceitam uma sugestão, experimentem escolher uma ficção científica de autoria feminina para adaptar de vez em quando. Se tivessem feito isso, talvez eu não precisasse desistir da minha primeira opção.

Uma dissertação digital não tem o mesmo impacto que uma impressa, né? E acabei de ver que preciso arrumar essa data.

Acima de tudo, agradeço aos deuses da pirataria por terem disponibilizado tantos PDFs para download. Sem eles, não haveria pesquisa. Com certeza devo muito à biblioteca do Mackenzie (que saudades de escalar aquelas prateleiras empoeiradas!) e ao JSTOR por suas contribuições inestimáveis, mas a verdade é que, sem PDFs, não existe mestrado. Não quando a bolsa é de R$ 1.500.

Obrigada, também, ao amigo do Gabriel por ter emprestado aquele livro maravilhoso sobre A Arte de Blade Runner 2049. Você tem um lugar especial no meu coração e aquele livro também. Acho que artbooks vão virar minha nova obsessão… Ou não. Bem, talvez se eles não fossem tão caros (e agora serei uma mestre desempregada).

Por fim, agradeço ao meu Macbook Air 2013 por ter aguentado cada sprint de escrita, cada PDF suspeito, cada cena repetida mil vezes no Youtube ou na Netflix, cada lágrima ou café derramado, cada arquivo copiado pela vigésima vez para o Drive, o HD, a nuvem, o céu e o inferno, tudo ao mesmo tempo, com a memória no talo. Obrigada por me acompanhar durante mais essa jornada. Prometo não te fazer passar por um doutorado.

Essa promessa vale por uns dois anos, OK?

Enfim, obrigada.

Estudando sci-fi

Bom dia, pessoal. Como vocês estão? Sério, como vocês estão? 

Tenho achado que um tempo fora-do-tempo assim pede um minuto para a gente se perceber… Sei que alguns estão ainda percebendo a si mesmos – empoeirados em meio a tanta urbanidade, desacostumados com o espaço para respirar. Pois respirem, olhem o sol na parede, façam o quanto precisarem de nada, se a avalanche da vida em casa deixar. Depois venham conversar. Continuar lendo “Estudando sci-fi”

Versos livres

Tenho colocado poucas palavras no papel. Meus pontos finais andam cada vez mais raros e já não sei o que dizer para a tela em branco, o caderno de bolso ou a parede preta pintada de tinta-lousa. Passei os últimos meses procurando sem sucesso pelo texto que se desmanchava entre sonhos dormidos e acordados, mas talvez procurasse, sem saber, pelos pedaços que se perderam de mim. Continuar lendo “Versos livres”

Poderia me perdoar? – Melissa McCarthy se vinga do mercado literário em papel bruto e genial >MostraSP

Há muito pouco glamour na vida de um escritor. Até os mais otimistas dos clichês costumam envolver solidão, insegurança e alguma dose de álcool, mas “Poderia me perdoar?” leva a decadência da profissão a outro nível. Ainda assim, é difícil não se apaixonar pela escritora, alcoólatra e criminosa que conduz essa história. Continuar lendo “Poderia me perdoar? – Melissa McCarthy se vinga do mercado literário em papel bruto e genial >MostraSP”

Superpoderes

Estava pensando em superpoderes. Não nos dos super-heróis, fantásticos e inúteis (a não ser que você esteja metido numa batalha contra as forças do mal), mas nos de gente nada heroica, desses poderes discretos que fazem a diferença na vida pacata de quem não gosta nem de brigar. Por exemplo: tem gente que é boa com pessoas e consegue tudo, só na lábia. Tem gente que cozinha bem, e isso já é meio caminho andado para uma vida feliz. E memória fotográfica então? Baita poder!

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Daniel Radcliffe vive poeta beat em “Versos de um Crime”

versos

Mate suas coisas queridas, diz o professor. Mate seus impulsos infantis, suas manias, seus ídolos, e recomece. O professor Stevens (John Collum), à frente da turma de calouros na Universidade de Columbia, gostaria que o recomeço seguisse as tradições e a métrica clássica, mas não foi o que aconteceu a Lucien Carr, Allen Ginsberg, William Burroughs e Jack Kerouac naquele ano.

Versos de um Crime”, que estreia no dia 12 de junho, é uma mistura entre romance biográfico e thriller, que não se encaixa, entretanto, em nenhuma dessas categorias. O longa de estreia de John Krokidas narra com perfeição e detalhes uma fase-chave na história da literatura americana, nos anos 40, quando os principais nomes da geração beat se conheceram e deram os primeiros passos em direção à rebeldia que marcaria seus textos.

O filme fala de literatura como fala de amor, guerra e crime, e o faz com linguagem poética, como a de seus biografados. Desde a fotografia, escurecida e amarelada, até a escolha de cada corte e cada enquadramento (sempre fechado, particular, ora observando os poetas de cima, ora caminhando com eles), tudo é consciente, como uma discreta assonância num verso livre.

Daniel Radcliffe (bem longe do Harry Potter que o consagrou) entrega-se de corpo e alma a Ginsberg, nosso ponto de vista nesta história de amizade, inspiração e assassinato. Um homem morre já na cena inicial – mas, mais do que descobrir o culpado, precisamos entender por quê.

Comecemos, então, por Ginsberg. Educado e cuidadoso com a mãe, louca, o jovem (filho de outro poeta, Louis Ginsberg/David Cross) mal consegue relaxar para comemorar sua entrada na Universidade de Columbia. Lá, encontra uma instituição rígida e tradicional, quebrada apenas pelos surtos de um poeta exibicionista: Lucien Carr.

Interpretado visceralmente por Dane DeHaan, Carr é uma espécie de furacão que suga as energias de quem orbita à sua volta. Ele é sedutor e ambicioso, mas é um poeta apenas nas ideias, pois jamais escreve. Ele é a inspiração rebelde para escritores como Ginsberg, que só precisa de uma brecha no seu círculo de mesmices.

O círculo é a forma que rege o longa, cujo início coincide com o fim. Citado num discurso atribuído a Yeats, ele representa a repetição, a morte e o renascimento – mas diz-se que pode ser ampliado caso um evento quebre o padrão. Carr quebra o padrão de Ginsberg, que mergulha num delírio criativo e transformador (numa sequência deliciosamente provocativa, ao som de jazz); e Ginsberg quebra o de Carr, que é obrigado a amadurecer.

Juntam-se a eles David Kammerer (Michael C. Hall), Kerouac (Jack Huston) e Burroughs (Ben Foster), que logo criam um movimento chamado “Nova Visão”. Sua poética não é exposta nos versos, mas nas ações – como a invasão de uma biblioteca e a destruição de livros clássicos, só para que trechos dispersos sejam colados à parede, formando uma “nova” literatura.

Kammerer logo torna-se uma peça central: apaixonado por Carr, ele parece persegui-lo numa estranha relação de cumplicidade e medo. O personagem foi real e o caso ambíguo entre os dois nunca foi, de fato, desvendado. Na interpretação de Krokidas, as tensões são sexuais, tanto entre Carr e Kammerer quanto entre Carr e Ginsberg – que, sim, protagonizam um beijo bem quente, mesmo que rápido.

“Versos de um Crime” é um filme apaixonado por literatura, que prova em imagens e ações a força das ideias de uma geração de escritores. Para amantes de livros, será um cult. Para fãs de romances trágicos, será, no mínimo, marcante. Para todos os outros, é um filme que impressiona pelo visual, pela música e pelas atuações. Um must.

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Por amor às palavras

Faz tempo que não escrevo. Escrevo todos os dias, teço notícias, listas, análises, escrevo títulos, linhas finas, legendas, roteiros e sinopses, posts e anotações, críticas e comparações, mas há muito tempo que não escrevo nada. Um dia destes, entendi por quê. Continuar lendo “Por amor às palavras”

Crítica: “Orgulho e Preconceito e Zumbis” une a graça de Jane Austen com a agilidade de um filme de ação

Nunca pensei que diria isso, mas “Orgulho e Preconceito e Zumbis” é um filme adorável. Adaptação do livro homônimo de Seth Grahame-Smith, que, por sua vez, reimagina o clássico “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, o longa consegue equilibrar a fidelidade ao original (de Austen) com as implicações de um novo contexto – no caso, um que envolve uma epidemia incontrolável de zumbis.

Antes de assistir ao filme, trocadilhos à parte, recomendo deixar seus preconceitos de lado. Este é, sem dúvida, um filme com zumbis. Mas não é um filme de zumbis. A história, aqui, não gira em torno dos mortos-vivos, nem da busca pela cura, nem da luta pela sobrevivência, mas sim em torno da relação de amor e ódio entre Elizabeth Bennet (Lily James) e um dos personagens mais queridos da literatura britânica, Mr. Darcy (Sam Riley).

Representar Darcy foi um desafio para Riley (que também vivera o corvo em “Malévola”), afinal, o personagem já havia sido imortalizado nos cinemas em 1995 com a interpretação de Colin Firth – e até o ator admite ser fã dessa versão. Quem desconfiava do novo intérprete, porém, pode ficar tranquilo: seu Darcy é bem diferente, mas tão cativante quanto aquele, com um quê de bad-boy-com-bom-coração que deve agradar às novas gerações.

O longa traz algumas novidades bastante divertidas: com o avanço dos zumbis, tornou-se comum que as famílias enviassem seus filhos para treinarem artes marciais no Japão (para os ricos) ou na China (para os sábios). No caso de Elizabeth e suas irmãs, todas treinaram na China e são exímias espadachins. A estética oriental é, por isso, incorporada na narrativa, com inserções de mapas e desenhos em papel para melhor explicar a guerra.

“Orgulho e Preconceito e Zumbis” aproveita a popularidade do feminismo e explora ao máximo as possibilidades que a história oferece para construir suas protagonistas. Numa sociedade apoiada em casamentos arranjados, Elizabeth discute porque não quer um marido (ou quer um que não a obrigue a escolher entre ele e sua espada), enquanto suas irmãs se divertem procurando rostinhos bonitos e ricos nas festas, mas também têm consciência de que estão muito mais seguras com suas próprias armas do que com as deles.

Tudo isso é apresentado sem afetação, como se aquelas fossem realmente as personagens de Jane Austen, encarnadas num outro universo. Há uma cena exagerada, envolvendo a personagem de Lena Headey (Lady Catherine, cuja função, no filme, não fica clara) e uma frase de efeito. “Não sei se admiro mais sua habilidade como lutadora ou sua determinação como mulher”, ela diz. Desnecessário, mas breve o suficiente para não marcar.

Outros discursos clássicos de Austen são aproveitados na íntegra no filme, o que torna as relações entre os personagens muito mais envolventes. O uso da linguagem formal também ajuda a reforçar a ambientação, bem como o figurino, que busca mobilidade entre tecidos pesados e elegantes, especialmente para as meninas.

“As saias atrapalharam um pouco nas cenas de luta, mas o figurino ajudou a nos lembrar da postura, muito importante nas artes marciais”, explicou Bella Heathcote (que vive Jane, uma das irmãs de Elizabeth), em coletiva à imprensa brasileira. Lily concordou e completou, orgulhosa: “Não é comum que as mulheres tenham mais cenas de ação que os homens, por isso quisemos treinar forte e fazer justiça a isso”.

As duas tiveram três meses de treinamento, antes de terminarem a preparação junto com as outras atrizes. O resultado faz, sim, justiça. “Orgulho e Preconceito e Zumbis” estreia nos cinemas no dia 25 de fevereiro e merece uma chance.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Ficção não é só entretenimento

Estes dias estava discutindo com o meu noivo sobre a dificuldade de algumas (muitas) pessoas pensarem além do seu limitado universo umbigário. Dos pequenos assaltantes dos jornais diários até os terroristas organizados, passando por líderes nacionais e pessoas comuns como eu e você. Continuar lendo “Ficção não é só entretenimento”

Crítica: “Gemma Bovery” cria humor inteligente inspirado em romance francês

“Uma mulher banal que se entedia com uma vida banal não é banal”, protesta o protagonista de “Gemma Bovery”, buscando alguma faísca de excepcionalidade em sua monótona vida real. Estaria ele falando da personagem de Gustave Flaubert, Emma Bovary, ou de sua nova vizinha inglesa?

gemma

O novo filme de Anne Fontaine, diretora do memorável “Coco Antes de Chanel”, é uma comédia para quem ama literatura e, como o padeiro Martin (interpretado pelo sempre adorável Fabrice Luchini), também vive procurando semelhanças entre a realidade e seus mundos imaginários – mesmo que isso signifique, às vezes, dar um empurrãozinho na direção certa.

Martin é um parisiense que se mudou com a família para a Normandia (precisamente onde Flaubert escreveu “Bovary”) buscando tranquilidade, mas não encontrou nada parecido com isso. Como ele mesmo descreve, aquele é um lugar onde as pessoas tendem a se suicidar… Ou tomar Calca (uma bebida bem forte). Ou, quem sabe, se envolver nas vidas dos outros.

Quando os novos vizinhos, Gemma (Gemma Arterton) e Charlie (Jason Flemyng) Bovery, chegam para morar na casa ao lado, Martin imagina se a vida da garota não seria parecida com a da personagem da ficção. Logo, a sensualidade da moça e seus instáveis relacionamentos amorosos começam a confirmar sua teoria – despertando o receio de que seu final também seja o mesmo.

O filme instiga a curiosidade e levanta o tempo todo uma desconfiança: será que a vida de Gemma remete à de Emma porque Martin a vê assim, porque ele a influencia para ser assim, ou por alguma semelhança natural e misteriosa? Vale lembrar que Gemma também está lendo o romance enquanto sua história acontece e pode estar sendo impactada por ele.

Reforça essa dúvida o fato de que a história é narrada por um misto de dois pontos de vista igualmente tendenciosos: o de Martin, que faz o papel de narrador, e o de Gemma, cujo diário ele lê. É interessante notar que Luchini revisita aqui uma situação de voyeur semelhante à que vivera no drama “Dentro da Casa”, de François Ozon, mas, desta vez, é ele quem invade a intimidade do outro.

“Gemma Bovery” é mais uma homenagem do que uma adaptação e, ao mesmo tempo em que transporta o espectador para aquele universo literário de Flaubert, também se empenha em quebrar essa ilusão, criando uma ambiguidade que prende a atenção do início ao fim. Uma dica infalível para amantes de livros que procuram um humor inteligente para o fim de semana.

Texto publicado no Guia da Semana em 24/07/2015.