Rádio Jota #04 – Tanques, mudanças climáticas e mulheres livres

Olá, queridos ouvintes! Estou de volta com mais um Rádio Jota, o programa de variedades culturais do Caderno Jota. Eu sou Juliana Varella, e hoje trago meu novo companheiro de mesa, o microfone Marty Mic Fly! Deem as boas vindas ao Marty. Agradeço ao Douglas Oliveira por ter sugerido esse nome maravilhoso, e vamos às notícias!

Estou gravando este programa numa sexta-feira 13, e não há nada mais horripilante no momento do que a pessoa que ocupa a presidência do país. Pois, na última semana, esse tal senhor apelou, literalmente, para tanques de guerra, numa tentativa desesperada – e fracassada – de demonstrar poder. No mesmo dia da votação da PEC do voto impresso na câmara dos deputados, algumas dezenas de veículos do exército desfilaram em frente ao planalto, coisa que não acontecia desde 1984 assim, fora de datas comemorativas. 

O desfile foi ordenado pelo próprio presidente para entregar a ele um convite para uma cerimônia militar que acontece todos os anos. É o auge do auto-convite, né? E vocês aí achando que café é que é cringe… Mas sigamos. O fato de esse showzinho acontecer no dia da votação certamente não é coincidência: Bolsonaro vem tentando emplacar o voto impresso desde que foi eleito (pelo voto eletrônico), o que só pode ser explicado como 1. Mais uma estratégia para desviar a atenção do que realmente importa, ou 2. Um jeito de tornar mais fácil a manipulação do voto no futuro, ou de levantar a dúvida sobre o principal instrumento da democracia hoje. Pois, mesmo perdendo na câmara, como aconteceu, ele já conseguiu colocar aquele pontinho de interrogação na cabeça de muitos brasileiros.  

Agora, se essa barulheira toda era pra botar medo em alguém… Acho que passou bem longe disso. Um dos tanques que desfilou soltava uma fumaça preta como um carro velho, bem capenga, e o evento virou chacota instantânea na internet. Mas duvido que ele tenha se incomodado com isso: o lema da presidência desde o início tem sido “falem mal, mas falem de mim”, e, mais uma vez, o Brasil está falando dele.  

Enquanto isso, chega hoje a notícia de que o projeto de lançamento no Brasil do filme Marighella, pronto desde 2019 e já exibido em festivais no mundo todo, foi oficialmente cancelado pela Ancine, sob alegação de “desistência” da produtora – no caso a O2. O curioso é que a produtora, segundo a reportagem de Jotabê Medeiros, negou a informação e, portanto, qualquer que tenha sido o motivo para o bloqueio, não foi desistência. Surpresa seria se um governo totalmente militarista apoiasse um filme sobre um líder que se opôs à ditadura militar. O filme estava previsto pra estrear em novembro nos cinemas. 

Continuando no clima de terror, nesta semana a ONU divulgou mais um dos seus relatórios sobre o clima, desta vez estabelecendo um “sinal vermelho” bem claro para a humanidade. Primeiramente, o relatório confirmou que o aquecimento global é culpa nossa – nenhuma novidade aqui – e que um crescimento de um grau e meio em relação à era pré-industrial já é praticamente inevitável, mas pode chegar a dois graus antes de 2050. E isso não significa só um calor insuportável: alguns países insulares correm o risco de desaparecer, ou perder grandes porções, com a elevação do nível do mar. Isso sem contar no aumento de coisas como ciclones, enchentes, secas e outros desastres naturais.

Para evitar o apocalipse, o ideal seria zerar a emissão de gases do efeito estufa, como o dióxido de carbono, mas os efeitos ainda demorariam 30 anos pra serem sentidos. Algo me diz que parar de queimar e desmatar florestas também ajudaria bastante.

Voltando pra cultura, porque dei uma desviada aí, vocês lembram da história da Britney Spears, presa numa tutela do pai por 13 anos? Pois é: pra quem não me viu falando disso num dos meus vídeos no Instagram, a Britney foi colocada sob tutela legal do pai quando teve aquele pequeno surto em 2008. Isso colocou todo o seu dinheiro e todos os seus direitos sob o controle do pai, que, desde então, transformou a filha numa máquina de fazer shows em Las Vegas, lucrando rios de dólares, mas negando a ela até mesmo a possibilidade de escolher o próprio advogado. 

Em julho, com a história se tornando pública e amplamente divulgada, ela ganhou o direito de escolher o advogado e, em questão de semanas, seu pai decidiu abandonar voluntariamente a tutela, alegando que não havia base legal nenhuma para retirá-lo à força, mas que ele “quer o bem da filha”. Aham. Milagres da mídia, né? Fica aqui meu boa sorte pra Britney, que vai ter um longo caminho aprendendo a ser dona da própria carreira. E, se for pra ser doidinha, que seja uma doidinha livre!

E, pra fechar com uma dica, hoje eu recomendo pra vocês uma leitura que terminei esses dias: “Afiadas”, de Michelle Dean. O livro tem como subtítulo “as mulheres que fizeram da opinião uma arte”, e é sobre isso que ele fala: são minibiografias de nomes como Norah Ephron, Susan Sontag, Hannah Arendt e Pauline Kael, mulheres que trabalharam como jornalistas, acadêmicas ou roteiristas, ou um pouco de tudo, e que ficaram famosas por terem “opiniões fortes”. 

Bom, a ideia de que qualquer mulher que tenha uma voz pública vai ser considerada “afiada”, de um jeito pejorativo, é abraçada pela autora, que tenta mostrar, no seu livro, como essas autoras eram diferentes entre si. Umas apoiam o movimento feminista quando ele estoura nos anos 60, outras rejeitam; umas escrevem sobre cinema, outras sobre teatro ou literatura; e umas inclusive não se dão bem com as outras. 

Ler essas histórias e me fez querer ler pelo menos um texto de cada uma dessas mulheres, pra ver na prática essa personalidade toda que o livro mostra em cada capítulo. Porém, achei que a autora dá atenção demais às intrigas pessoais fora das redações, de um jeito que acaba reforçando o estereótipo de que mulheres que escrevem são mulheres “difíceis”, que arranjam briga com todo mundo e que estão sempre criticando tudo. É verdade? Provavelmente é. Mas me interessa mais a obra do que a vida delas.  Dito isso, vale muito a leitura, especialmente se você, como eu, é uma mulher tentando se encontrar na crítica e no jornalismo. É bom saber quem foram as divas que abriram caminho pra você.

É isso por hoje! Obrigada a quem me acompanhou até aqui, lembrando que quem quiser enviar uma mensagem ou sugestão, é só me procurar no instagram no @julianavarella ou enviar um email para cadernojota@gmail.com. Até a próxima! 

Rapidinhas: Pixar, Shyamalan, Cannes, livros e mais

Fala, pessoal, estou de volta com um pouco de atraso pra trazer as notícias mais valiosas da semana no mundo da cultura. Hoje temos uma dica de curta para ver rapidinho e dar aquela desidratada logo de manhã; alguns trailers para ficar ansioso pelos próximos meses; uma passada vapt-vupt pelo line-up carregadíssimo do Festival de Cannes deste ano e duas dicas literárias pra fechar em grande estilo. Vamos lá?

Links prometidos:

Cannes 2021 (Line-up completo): https://bit.ly/2Se10FO

Podcast sobre ‘Pieces of a Woman’: https://spoti.fi/3v0LtXt

Livraria Gato Sem Rabo: https://www.instagram.com/gato.sem.rabo/

Livraria Combo: https://combocc.com

Notícias da Ju

Bom dia, leitores! A partir de hoje, o Notícias da Ju sairá às segundas-feiras. Neste episódio, falamos de livros, inteligências artificiais, uma promoção imperdível e uma união de forças inesperada no mercado brasileiro. Espero que gostem! 

Notícias da Ju: livros, bilionários e um Caravaggio

No Notícias da Ju de hoje (09/04/21), livros são taxados no Brasil enquanto as riquezas dos bilionários cresce durante a pandemia. No mundo da arte, um quadro vê seu valor oscilar radicalmente, dependendo de quem for seu verdadeiro autor. Faz pensar, não?

Vem comigo!

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Minhas noites com Gigi

“…num instante, como um anjo guardião impedindo o caminho com o esvoaçar de um traje preto em lugar de asas brancas, um cavalheiro desaprovador, prateado e gentil, lamentou em voz baixa, à medida que me dispensava com um gesto, que só se admitiam damas na biblioteca se acompanhadas por um estudante da universidade ou munidas de uma carta de apresentação.”

Um teto todo seu, Virginia Woolf (p. 17)

Gigi = Virginia Woolf. Li um único livro dela e já somos melhores amigas, agora vocês que me aguentem.

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Dica de livro: “Adultos”, de Emma Jane Unsworth

“– Você precisa confiar em si mesma.

– Não sei em quem confiar, porque não sei quem sou. Tenho trinta e cinco anos, estou na metade do caminho, e ainda estou esperando a minha vida começar.”

Adultos, Emma Jane Unsworth

Eu ia colocar um título engraçadinho – “Adultos (e outras palavras vagas)” ou algo assim. Mas cheguei à conclusão de que talvez vocês quisessem saber que isso aqui é uma dica de livro, não uma reflexão amargurada sobre certa fase da vida. Há muito o que dizer sobre ser adulto, é claro… Mas não me sinto especialmente amargurada hoje. Sinto que é um bom dia para recomendar um livro.

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10 Coisas (meio aleatórias) que eu amei em 2020

“2020 foi um ano esquisito” deve ser o eufemismo da década. Este ano foi meio bizarro para todos, especialmente para aqueles que, como eu, se trancaram em casa pela maior parte dos últimos dez meses colecionando pesadelos sobre máscaras esquecidas, visitas descuidadas e aglomerações. Mas a verdade, se querem saber, é que ficar em casa talvez nem tenha sido o mais estranho por aqui. 

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Meus favoritos de 2018

Chamem-me de piegas, mas sou daquelas pessoas que aproveitam o período entre dezembro e janeiro para fazer o “balanço” do ano que passou e anotar os projetos, metas e tendências para o ano que vem. Retrospectivas são comigo mesmo e talvez esta seja a única época em que eu realmente vejo sentido em fazer listas. Então, antes de olhar para 2019 com olhos curiosos, quero compartilhar com vocês um pouco do que eu vi, li e descobri em 2018. Vamos?

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