Mato Sem Cachorro: uma comédia romântica à brasileira

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A nova comédia brasileira Mato Sem Cachorro parece coisa de veterano. Com Bruno Gagliasso, Leandra Leal e o cãozinho Duffy nos papéis principais, o filme de estreia de Pedro Amorim – de apenas 35 anos – tem roteiro esperto, fotografia limpa e ótimas sacadas, mas sofre de um mal: excesso de improviso.

O problema não é surpresa quando dois comediantes de stand-up estão escalados no elenco, sendo um deles o coadjuvante principal. Rafinha Bastos vive o veterinário desbocado e Danilo Gentili é o pervertido Leléo, primo de Deco (Gagliasso) que vive com ele. Ou seja, os dois interpretam suas próprias personas da TV, com nomes alternativos.

A liberdade que o diretor deu à equipe transparece nos diálogos, povoados por palavrões e piadas sujas em doses cavalares. A estratégia, que já pegou nos Estados Unidos com comédias como Ligeiramente Grávidos, de Judd Apatow, teria funcionado bem se o tema do longa não fosse, afinal, uma leve e simpática história de amor. O casal protagonista, aliás, se sai muito bem na tarefa.

Leal vive Zoé, uma mulher agitada que trabalha numa rádio e sonha em emplacar um programa sobre novas bandas. Já Gagliasso é Deco, um jovem desocupado que passa suas tardes criando vídeos com mash-ups (mistura de gêneros musicais) para a internet. Os dois se conhecem graças a Guto, cachorro da raça English Sheppard que sofre de uma doença rara que o faz desmaiar nas situações mais inesperadas.

Mais interessante do que o relacionamento conturbado da dupla é a coleção de referências com que Amorim tempera o longa: de Sidney Magal a Elke Maravilha, de  John Lennon a Joan Jett & The Blackhearts. O resultado disso tudo é uma mistura curiosa do americano com o nacional, do pop com o brega, que acerta em cheio no lado musical.

O mash-up também se vê na forma do filme, que tem “cara” de romance americano anos-noventa, mas tem sotaque carioca. Tem atores brazucas e cachorro estrangeiro, tudo junto e misturado, como uma autêntica comédia romântica à brasileira.

A mistura, porém, é também o maior inimigo de Mato Sem Cachorro: o filme seria a pedida certa para um domingo de sol se tivesse definido melhor seu estilo – esta é uma comédia adolescente descolada ou uma história romântica “fofinha”? O público, afinal, sabe bem o que quer e pode acabar torcendo o nariz.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.