Crítica: Matt Damon volta a ficar sozinho no espaço em “Perdido em Marte”

Matt Damon sozinho num planeta hostil, aguardando desesperadamente um resgate. Não, não é “Interestelar”, mas chega perto. O novo filme de Damon, dirigido por Ridley Scott e adaptado do romance de Andy Weir, é “Perdido em Marte” (ou “O Marciano, no muito mais inspirado título original).

marte

Damon interpreta um biólogo astronauta chamado Mark Watney, membro de uma equipe que estuda o solo em Marte, formada por Johanssen (Kate Mara), Beck (Sebastian Stan), Martinez (Michael Peña), Vogel (Aksel Hennie) e a comandante Lewis (Jessica Chastain). Durante uma tempestade de areia, o grupo é obrigado a evacuar às pressas, mas Mark é atingido por uma antena e fica desacordado. Sem tempo nem visibilidade para procurá-lo e recebendo sinais de que o traje do parceiro fora perfurado, Lewis autoriza a retirada, deixando-o para trás.

Por uma enorme coincidência, porém, Mark consegue sobreviver e, ao acordar, descobre que está sozinho, com suprimento suficiente para poucos meses e um tempo estimado até o resgate de quatro anos. Isso, se ele conseguir se comunicar com a Nasa.

A ironia da situação é explorada com um humor inteligente na primeira parte do filme. Mark, afinal, é uma espécie de herói: o primeiro a pisar em quase qualquer região de Marte, o primeiro a sobreviver por tanto tempo num planeta distante e o primeiro a fazer isso sozinho. Mas essa glória pode significar sua morte, e ele sabe muito bem disso.

Ainda nessa primeira parte, Scott faz uma ode à ciência. “Let’s science the shit out of this”, propõe Mark, o que significa que ele terá que usar seus conhecimentos científicos para sobreviver. Primeiro, ele desenvolve uma plantação de batatas do zero, adaptando uma estufa num dos ambientes da estação – e isso inclui “fazer água” a partir de processos químicos. Depois, adapta o trator para alcançar distâncias muito maiores e descobre uma forma (muito bem sacada) de se comunicar com a Terra.

Para o espectador leigo, as primeiras perguntas começam a aparecer por aí: Mark precisa viajar porque o local de pouso para a próxima missão fica a mais de 3 mil km dali – isso faria sentido se ele não conseguisse contatar a Nasa (a outra nave viria de qualquer forma), mas, caso contrário, o resgate não iria até a base dele? Por quê?

Questões como essa surgem às dúzias, especialmente na segunda parte, quando a Nasa começa a avaliar suas opções e enviar instruções para o “marciano”. Em nossas humildes poltronas, sentimos que sabemos muito pouco para compreender todas as decisões tomadas pelos personagens – lembrando que a ciência, para uma ficção científica, é muito mais uma questão de convencimento do que de explicação propriamente dita.

“Perdido em Marte” aproveita o embalo de sucessos espaciais como “Gravidade” e “Interestelar”, mas erra em dois pontos que seus antecessores acertaram: apresenta uma ciência pouco clara para o espectador (talvez um problema da adaptação) e não explora suficientemente o lado humano da situação.

O segundo ponto é, provavelmente, o mais importante. Damon segura bem o papel do astronauta solitário, mas suas expressões não transmitem o grau de desespero, medo, raiva, fome ou até loucura que poderiam/deveriam aparecer em algum momento num homem isolado por mais de um ano num planeta deserto. Além disso, quase nenhuma menção é feita sobre quem estaria esperando por ele na Terra.

O filme tem um elenco coadjuvante de dar inveja – além dos astronautas, Chiwetel Ejiofor, Kristen Wiig, Mackenzie Davis, Donald Glover, Jeff Daniels e Sean Bean (dono da melhor piada interna em todo o filme) garantem um núcleo terrestre tão forte quanto o espacial. Infelizmente, todo esse talento é pouco aproveitado: falta emoção, falta conflito. Nem parece que o resgate de um único homem pode envolver riscos, milhões de dólares e dilemas morais, políticos e até espirituais. Por mais que alguns diálogos tentem dar conta dessa complexidade, tudo é fácil demais. Todos são corretos demais.

O filme chega aos cinemas no dia 1º de outubro, com cópias em 3D (o que não é tão necessário, mas também não incomoda), e é uma opção interessante para fãs de sci-fi. Para quem procura uma experiência mais intensa, porém, para sair com olhos marejados ou ir para o bar discutir teorias com os amigos, este talvez não seja o filme ideal. Vá para se divertir.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: Matt Damon volta a ficar sozinho no espaço em “Perdido em Marte”

Matt Damon sozinho num planeta hostil, aguardando desesperadamente um resgate. Não, não é “Interestelar”, mas chega perto. O novo filme de Damon, dirigido por Ridley Scott e adaptado do romance de Andy Weir, é “Perdido em Marte” (ou “O Marciano, no muito mais inspirado título original).

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Damon interpreta um biólogo astronauta chamado Mark Watney, membro de uma equipe que estuda o solo em Marte, formada por Johanssen (Kate Mara), Beck (Sebastian Stan), Martinez (Michael Peña), Vogel (Aksel Hennie) e a comandante Lewis (Jessica Chastain). Durante uma tempestade de areia, o grupo é obrigado a evacuar às pressas, mas Mark é atingido por uma antena e fica desacordado. Sem tempo nem visibilidade para procurá-lo e recebendo sinais de que o traje do parceiro fora perfurado, Lewis autoriza a retirada, deixando-o para trás.

Por uma enorme coincidência, porém, Mark consegue sobreviver e, ao acordar, descobre que está sozinho, com suprimento suficiente para poucos meses e um tempo estimado até o resgate de quatro anos. Isso, se ele conseguir se comunicar com a Nasa.

A ironia da situação é explorada com um humor inteligente na primeira parte do filme. Mark, afinal, é uma espécie de herói: o primeiro a pisar em quase qualquer região de Marte, o primeiro a sobreviver por tanto tempo num planeta distante e o primeiro a fazer isso sozinho. Mas essa glória pode significar sua morte, e ele sabe muito bem disso.

Ainda nessa primeira parte, Scott faz uma ode à ciência. “Let’s science the shit out of this”, propõe Mark, o que significa que ele terá que usar seus conhecimentos científicos para sobreviver. Primeiro, ele desenvolve uma plantação de batatas do zero, adaptando uma estufa num dos ambientes da estação – e isso inclui “fazer água” a partir de processos químicos. Depois, adapta o trator para alcançar distâncias muito maiores e descobre uma forma (muito bem sacada) de se comunicar com a Terra.

Para o espectador leigo, as primeiras perguntas começam a aparecer por aí: Mark precisa viajar porque o local de pouso para a próxima missão fica a mais de 3 mil km dali – isso faria sentido se ele não conseguisse contatar a Nasa (a outra nave viria de qualquer forma), mas, caso contrário, o resgate não iria até a base dele? Por quê?

Questões como essa surgem às dúzias, especialmente na segunda parte, quando a Nasa começa a avaliar suas opções e enviar instruções para o “marciano”. Em nossas humildes poltronas, sentimos que sabemos muito pouco para compreender todas as decisões tomadas pelos personagens – lembrando que a ciência, para uma ficção científica, é muito mais uma questão de convencimento do que de explicação propriamente dita.

“Perdido em Marte” aproveita o embalo de sucessos espaciais como “Gravidade” e “Interestelar”, mas erra em dois pontos que seus antecessores acertaram: apresenta uma ciência pouco clara para o espectador (talvez um problema da adaptação) e não explora suficientemente o lado humano da situação.

O segundo ponto é, provavelmente, o mais importante. Damon segura bem o papel do astronauta solitário, mas suas expressões não transmitem o grau de desespero, medo, raiva, fome ou até loucura que poderiam/deveriam aparecer em algum momento num homem isolado por mais de um ano num planeta deserto. Além disso, quase nenhuma menção é feita sobre quem estaria esperando por ele na Terra.

O filme tem um elenco coadjuvante de dar inveja – além dos astronautas, Chiwetel Ejiofor, Kristen Wiig, Mackenzie Davis, Donald Glover, Jeff Daniels e Sean Bean (dono da melhor piada interna em todo o filme) garantem um núcleo terrestre tão forte quanto o espacial. Infelizmente, todo esse talento é pouco aproveitado: falta emoção, falta conflito. Nem parece que o resgate de um único homem pode envolver riscos, milhões de dólares e dilemas morais, políticos e até espirituais. Por mais que alguns diálogos tentem dar conta dessa complexidade, tudo é fácil demais. Todos são corretos demais.

O filme chega aos cinemas no dia 1º de outubro, com cópias em 3D (o que não é tão necessário, mas também não incomoda), e é uma opção interessante para fãs de sci-fi. Para quem procura uma experiência mais intensa, porém, para sair com olhos marejados ou ir para o bar discutir teorias com os amigos, este talvez não seja o filme ideal. Vá para se divertir.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Elysium é diversão de massa com um toque de política

elysium

Depois do sucesso de Distrito 9 em 2009, o diretor Neil Blomkamp volta a temperar a ficção científica com questões sociais em Elysium, uma aventura muito mais hollywoodiana e menos provocativa, mas ainda assim interessante. Wagner Moura, que nunca trabalhara num filme de língua inglesa, estreia em grande estilo.

Enquanto Distrito 9 faz uma sátira inteligente do Apartheid (Blomkamp é sul-africano) com recursos limitados, Elysium usa verbas milionárias para discutir superficialmente a desigualdade social e jogar uma faísca sobre a polêmica da universalização do sistema de saúde.

O universo do filme é dividido em dois: de um lado a Terra, um gigantesco terceiro mundo (Los Angeles se transformou numa favela verticalizada, com “puxadinhos” saindo das varandas); e do outro Elysium, uma estação espacial em forma de estrela com condições ideais que apenas os milionários podem chamar de “casa”. O espectador conhece pouco de Elysium e mesmo da Terra, exceto que ela é fiscalizada por robôs sem qualquer senso de humor (o que rende uma ótima sequência inicial).

O elenco multinacional reflete bem a divisão de classes-nacionalidades: sul-africanos, mexicanos e até brasileiros interpretam os moradores da Terra, enquanto americanos ou europeus povoam Elysium. Matt Damon vive o protagonista heroico que simboliza a união dos dois mundos, tendo origem latina (chama-se Max Da Costa) e aparência caucasiana.

Apesar de “cutucar a ferida”, Blomkamp não mergulha fundo nas questões sociais e prefere dedicar a maior parte do tempo a criar efeitos especiais perfeccionistas e colocar os personagens para correr. Damon passa o filme todo fugindo, seja da morte, seja de drones militares ou do sub-vilão Krueger (Sharlto Copley), cuja motivação nunca chegamos a compreender.

Como Krueger, todos os personagens de Elysium são apresentados superficialmente: Max é um criminoso movido pelo instinto de sobrevivência; Frey (Alice Braga), uma enfermeira interesseira que vê em Max a chance de salvar sua filha; Delacourt (Jodie Foster), uma secretária de defesa inescrupulosa e um tanto ingênua; e Spider (Wagner Moura), uma espécie de traficante que se descobre revolucionário.

A força do longa não está nos personagens, mas sim na poderosa metáfora do “1% de milionários contra o povo”, colocando a saúde como símbolo das desigualdades – em Elysium, todos os moradores têm uma cápsula médica particular, enquanto na Terra os hospitais estão lotados.

Wagner Moura, nome que deve atrair muitos brasileiros à estreia, não desaponta: seu Spider é raivoso e ágil – parece estar sempre recalculando seus planos mentalmente como um verdadeiro hacker do submundo. Sua voz enrouquecida e grave contrasta com a fragilidade do seu corpo e dá um quê de mistério à figura. Suas intenções não são as melhores, mas seus olhos brilham com a expectativa de uma revolução e, surpreendentemente, Blomkamp garante a ele um tempo bem longo de tela.

No fim, Elysium não chega para ser o “novo Distrito 9”, mas fica claro que a intenção do diretor não era essa. Agora em Hollywood, o sul-africano tem a chance de se esbaldar nas tecnologias de gravação e mirar um público infinitamente maior. E por que ele não faria isso?

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.